Uma "democracia" é um sistema de organização política através do qual é atribuído poder às maiorias de modo a que estas possam proteger as minorias.
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quarta-feira, setembro 12, 2012
segunda-feira, fevereiro 13, 2012
Em desacordo com o desacordo
Depois de ver várias pessoas ensandecidas por causa do novo Acordo Ortográfico e de assistir à eleição do improvável Vasco Graça Moura a herói da Resistência Portuguesa, achei que devia partilhar meia-dúzia de larachas explicativas do meu agnosticismo perante o assunto.
A ideia de que uma legislação sobre a ortografia possa ser favorável à divulgação da língua portuguesa parece-me de um provincianismo inaceitável (pior, só o franchise dos pastéis de nata). Um escritor fascinante pode eventualmente promover uma língua na Torre de Babel, mas mesmo para isso é preciso que um Eduardo Prado Coelho o ande a difundir pelas capelinhas internacionais que relevam nestes negócios da cultura (tudo isto é triste, tudo isto é jogo de influências). Sobretudo, uma língua impõe-se na cena do mundo se um dos países que a acolhem tiver, nessa cena, impacto político, económico e/ou histórico. Portugal é, de facto, um dos países mais decisivos da história (os Descobrimentos mudaram realmente a vida no planeta, talvez não para melhor), mas isso foi há já demasiado tempo para a total irrelevância do país em termos de protagonismo planetário. Agora, um acordo ortográfico não é um instrumento de facilitação da circulação de uma língua (talvez os leitorados de português nas universidades estrangeiras o sejam, mas os governos insistem em aboli-los).
Não tenho conhecimentos suficientes para poder militar por uma ortografia baseada na etimologia ou por uma ortografia cujo modelo é a fonética. Não conheço as últimas teses sobre o assunto, e presumo que todos os assanhados da polémica também não as conheçam. Mas estou à espera de que algum desses comentadores que sabem de tudo e mais alguma coisa me dêem dois ou três argumentos arrebatadores a favor ou contra cada uma das posições (seria um contributo da ordem da cidadania). Algo tipo o "imperativo categórico". Esses argumentos existem?
Acho curioso que, se a base da ortografia passa a ser a fonética, ao retirar-se a consoante muda daquelas palavras em que essa consoante tinha a função de abrir a vogal que as precedia, o que se está a colocar em risco é... a própria fonética. Pois a pronúncia correta da palavra deixa de ser clara. Esta ambiguidade da escrita que só pode ser suprida pelos hábitos dos falantes é típica das ortografias... etimológicas (como é, em grande parte, a da língua inglesa). Talvez se devesse colocar um acento grave nessas sílabas delicadas (por ex.: "espètador"), ou outra coisa qualquer, mas a supressão da consoante muda é simplesmente um ataque à fonética, e não a sua consagração.
O acordo não simplifica nem unifica, como promete. Já nem falo de grafias diferentes para os vários países da CPLP. Em Portugal, há palavras que se podem escrever de maneira diferente consoante os hábitos da pessoa que a utiliza (ex. "acupunctura" ou "acupuntura")... Maior confusão não era possível.
Acho curioso que, se a base da ortografia passa a ser a fonética, ao retirar-se a consoante muda daquelas palavras em que essa consoante tinha a função de abrir a vogal que as precedia, o que se está a colocar em risco é... a própria fonética. Pois a pronúncia correta da palavra deixa de ser clara. Esta ambiguidade da escrita que só pode ser suprida pelos hábitos dos falantes é típica das ortografias... etimológicas (como é, em grande parte, a da língua inglesa). Talvez se devesse colocar um acento grave nessas sílabas delicadas (por ex.: "espètador"), ou outra coisa qualquer, mas a supressão da consoante muda é simplesmente um ataque à fonética, e não a sua consagração.
O acordo não simplifica nem unifica, como promete. Já nem falo de grafias diferentes para os vários países da CPLP. Em Portugal, há palavras que se podem escrever de maneira diferente consoante os hábitos da pessoa que a utiliza (ex. "acupunctura" ou "acupuntura")... Maior confusão não era possível.
No entanto, também não reconheço grande maturidade nas críticas ao acordo. Esta enorme paixão que agora toda a gente diz ter pelo latim enquanto principal base etimológica da língua não tem a menor expressão estatística entre os falantes de português. Ninguém sabe latim, ninguém quer saber latim e até talvez haja quem tenha raiva de quem o saiba. Nenhuma criança lusa precisa da muleta da língua morta para aprender ortografia. Sintomaticamente, ninguém se indispõe por já não escrevermos "pharmácia" de acordo com a sua inspiração etimológica.
"Egito" contra "egípcios" - já temos coisas parecidas: "doce" contra "dulcíssimo"
"Ação" em português dificulta a aprendizagem de outras línguas, mais fiéis à etimologia (línguas que, por exemplo, dizem "Action") - já temos coisas parecidas: como hão-de as criancinhas aprender a escrever "plage", se a palavra francesa se distanciou tanto das nossas ensolaradas "praias"?
"Egito" contra "egípcios" - já temos coisas parecidas: "doce" contra "dulcíssimo"
"Ação" em português dificulta a aprendizagem de outras línguas, mais fiéis à etimologia (línguas que, por exemplo, dizem "Action") - já temos coisas parecidas: como hão-de as criancinhas aprender a escrever "plage", se a palavra francesa se distanciou tanto das nossas ensolaradas "praias"?
Como saberemos, a partir de agora, pronunciar "espetador" de cinema? - Mas então eu quero que a palavra "muito" se passe a escrever "muinto" para que eu tenha consciência perfeita da sua fonética. Note-se que, na língua russa (e os russos não brincam em serviço, cultural ou político), não há acentos que ajudem os falantes a distinguir a sílaba tónica das palavras: tudo isso é conquistado pelo uso quotidiano do idioma.
Há também um certo elitismo em toda esta discussão. Cita-se a "dansa" da Sophia, mas não se pergunta a opinião daqueles falantes do português que pertencem a meios económica e culturalmente oprimidos e que, francamente, escreverão sempre mal seja qual for a norma ortográfica. Mas a língua também lhes pertence, e eu gostaria de saber o que eles pensam sobre a minissaia.
Não colo a recusa do acordo a um conservadorismo ideológico (muita gente de esquerda resolveu acolher esta causa). Mas estou certo de que, para um Vasco Graça Moura, o "voltar para trás" é suficientemente atrativo para pode ser estendido a várias outras áreas da vida coletiva (do estado social à interrupção voluntária da gravidez). Soigne ta droite! Escolhe bem os teus heróis!
Estará o Vasco preocupado com o facto de as crianças portuguesas começarem agora a festejar o Halloween? Não me interpretem mal: eu acho que as crianças se devem divertir de todas as maneiras e feitios, mas não as vejo a adotarem costumes do Tibete ou do... Portugal antigo. Pior do que um ataque ortográfico da ex-colónia à ex-metrópole, é a lenta uniformização da cultura da Aldeia Global.
Acima de tudo, gostava que os detratores do acordo tomassem uma posição de fundo sobre toda a história da ortografia, pois, de outro modo, estão indiretamente a aceitar que o acordo ortográfico anterior a este é o mais perfeito. Alguém está a estudar o assunto a sério? Eu não sei se no tempo do Camões a ortografia não seria mais justa... Só com uma posição de fundo, bem argumentada, sobre a história e a ideologia desse domínio linguístico, e não com exemplos pseudo-absurdos que só revelam o seu apego afetivo àquilo que lhes foi ensinado na infância (e por que não nos rebelamos contra a maneira como nos ensinaram a escrever?), é que eu poderei respeitar estes irredutíveis lusos. É uma questão de justeza filosófica.
Quanto a mim, espero que me digam, de uma vez por todas, como hei-de ortografar. Se é mais assim, se mais assado. Eu depois continuarei a cuidar da arte de bem escrever em português.
(Imagem retirada daqui)
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domingo, novembro 27, 2011
Dicionário 18
Segundo o "Dicionário de expressões idiomáticas" da responsabilidade de António Nogueira Santos, o dito familiar "a pão e água" tem, como equivalente linguístico, uma outra fórmula bem mais branda, a saber: "a pão e laranjas".
Claro que a validade emocional desta segunda expressão terá adquirido o seu fundamento num contexto em que o citrino em causa seria uma banalidade de nutrição popular. Mesmo assim, há uma doçura potencial, uma corzinha apetitosa, uma vitamina c de copiosidade, que contrariam um pouco o sabor que a água, ainda que bem essencial, não tem.
Muitos santos se terão restringido ao pão e à água (deve ser verdade porque - isso está hoje cientificamente provado - o vinho só alimenta anjos). Mas o que importa é que cada um seja cuidadoso a sonhar o menu que há-de levar para a ilha deserta da crise. Já sabemos que um romano faria do "pão e circo" uma dieta de cidadania. E Maria Antonieta, talvez com mais fama do que proveito, teria a delicadeza de condenar o seu povo a "brioches e champanhe". Recuso-me a perguntar a Ferran Adrià qual seria a sua ementa. As possibilidades são, contudo, infinitas, até porque a boca não come só matéria mas também se alimenta de palavras.
Ainda não escolhi a essência da minha penúria: pão de alho e sangria? scones e chá de canela-maçã? uvas moscatel e vichyssoise?
sábado, agosto 06, 2011
Dicionário 17
1. Assim como há quem nade em jóias ou automóveis de que não tem a menor necessidade, também a língua oferece brilhos e velocidades inúteis, injustificados, excêntricos, que podem fazer, de qualquer falante, um milionário.
Por exemplo, astro, conforme esteja no nascimento de uma palavra (prefixo que exprime a ideia de "astro") ou no seu decesso (sufixo que indica um sentido pejorativo). Se um físico não der uma para a caixa (de Pandora da ciência), é um fisicastro. Pelo contrário, François Villon e William Blake foram astropoetas. Faites vos jeux: blogastro, gelado de astromenta, ao astro e ao cabo. No limite, astrastro, até pela cacofonia que encerra, pode ser o mais justo sinónimo de "Homem".
2. "Uma talagarça é uma garça que deixou de voar porque lhe puseram uma tala." (Pseudo-Ovídio)
Por exemplo, astro, conforme esteja no nascimento de uma palavra (prefixo que exprime a ideia de "astro") ou no seu decesso (sufixo que indica um sentido pejorativo). Se um físico não der uma para a caixa (de Pandora da ciência), é um fisicastro. Pelo contrário, François Villon e William Blake foram astropoetas. Faites vos jeux: blogastro, gelado de astromenta, ao astro e ao cabo. No limite, astrastro, até pela cacofonia que encerra, pode ser o mais justo sinónimo de "Homem".
2. "Uma talagarça é uma garça que deixou de voar porque lhe puseram uma tala." (Pseudo-Ovídio)
quarta-feira, junho 29, 2011
O irritante volta a atacar
Na contracapa da edição em DVD do clássico japonês "Os amantes crucificados", afirma-se que a acção do filme decorre no século XVIII. Logo a seguir, na transcrição duma crítica do "Le monde" (os produtos culturais vêm agora infestados com putativos selos de qualidade), diz-se que a protagonista está muito expressiva no seu quimono do século XVII. A não ser que se queira fazer um comentário ao anacronismo do estilo da sra. Osan, convém não fazer revisionismo histórico em tão curto espaço gráfico.Ainda por cima, na ficha técnica, aparecem os nomes de Yoshikata Yoda e Matsutaro Kawaguchi como autores do cenário do filme ("cenário" é, de resto, um termo com conotação demasiado teatral para definir o exercício de "direcção artística" ou "desenho de produção"). Ora, como estes senhores são os autores da adaptação do texto dramático de Chikamatsu no qual o filme se baseia, torna-se óbvio que alguém traduziu a palavra francesa "scénario" pela palavra lusa que se lhe assemelhava mais. Acontece que, neste caso, estamos em presença de um falso amigo linguístico. Quem faz este erro, não gosta de cinema, não gosta de correcção verbal, não gosta de comércio.
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domingo, junho 26, 2011
renatosseabrices
Nada é mais irritante do que, quando se fala de "casamento homossexual", alguém se dar ao trabalho de corrigir a expressão para "casamento entre pessoas do mesmo sexo".É claro que esta última formulação é mais interessante do ponto de vista da língua ("casamento homossexual" é um truque de retórica algo forçado). Mas, sendo eu pessoa de curtas vistas, só consigo conceber três situações minimamente saudáveis: um homossexual que se casa com alguém do mesmo sexo, um heterossexual que se casa com alguém do sexo oposto, ou um bissexual que se casa com alguém do sexo que lhe apetecer (isto, independentemente de tirar ou não uns troços por fora...).
O homossexual que se casa com alguém do sexo oposto ou o heterossexual que se casa com alguém do mesmo sexo são de tal modo asnos que não merecem o civil sacramento do matrimónio.
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domingo, junho 12, 2011
Na contracapa...
... da edição em DVD do filme "Love streams", de John Cassavetes, aparece o seguinte texto elucidativo, que nos elucida sobretudo sobre o seu péssimo português:
"Reconhecido melodrama de John Cassavetes que descreve os dias vividos na vida do escritor Robert Harmon e da sua irmã Sarah.
A vida decadente de Robert está consumida pelo álcool, tabaco e das curtas relações com mulheres que consegue seduzir, e que para ele são só para diversão de uma noite.
A sua irmã divorcia-se do marido por causa do seu comportamento excêntrico e insano.
Debbie (?), assustada pelo comportamento da sua mãe, prefere ficar com o seu pai, uma decisão onde Sarah fica muito triste e que vem a reforçar o seu mau estado de saúde mental."
(negritos e ponto de interrogação meus)
Quando se permite que um produto saia para o mercado com esta falta de brio no tratamento da sua superfície, não podemos esperar nada de bom da economia que alimenta esse mercado.
"Reconhecido melodrama de John Cassavetes que descreve os dias vividos na vida do escritor Robert Harmon e da sua irmã Sarah.
A vida decadente de Robert está consumida pelo álcool, tabaco e das curtas relações com mulheres que consegue seduzir, e que para ele são só para diversão de uma noite.
A sua irmã divorcia-se do marido por causa do seu comportamento excêntrico e insano.
Debbie (?), assustada pelo comportamento da sua mãe, prefere ficar com o seu pai, uma decisão onde Sarah fica muito triste e que vem a reforçar o seu mau estado de saúde mental."
(negritos e ponto de interrogação meus)
Quando se permite que um produto saia para o mercado com esta falta de brio no tratamento da sua superfície, não podemos esperar nada de bom da economia que alimenta esse mercado.
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quarta-feira, janeiro 20, 2010
Acordo ortográfico
"O beiju (a massa do polvilho da mandioca) é o pão da Amazónia."
João Meirelles Filho
João Meirelles Filho
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domingo, janeiro 03, 2010
Argumento privado
Penso que já aqui disse que não tenho propriamente uma opinião sobre a querela levantada pela iminente entrada em vigor do novo acordo ortográfico para a língua portuguesa. Não se pode ter opinião sobre tudo...
A dimensão etimológica da ortografia não é uma manifestação de verdades arquetípicas, mas o resultado de uma opção histórica concreta, contingente e questionável (os Renascentistas curtiam o latim). Não me custa, por isso, abandonar esse rigor. A questão dos possíveis erros de pronúncia que a nova ortografia pode causar é, claro, uma falsa questão: basta que aprendamos um novo conjunto de relações normativas entre essas duas dimensões da língua; afinal, quase tudo o que se refere à linguagem é convencional. Para além disso, estou isento de ilusões de colonialismo: a continuidade das civilizações indígenas da América do Sul poderia ter engendrado um Brasil bem mais glorioso do que este que, por gentileza, dá futuro ao português.
Por outro lado, não me parece que um conjunto de leis sobre ortografia constituam um passe de mágica capaz de dar força internacional à língua de Camões. Sem modéstia nem vaidade, acho que se eu produzir um excelente texto literário, tenho mais chances de gerar curiosidade pelo meu idioma do que qualquer acordo palopiano (não disse pavloviano, atenção). Quem diz literatura, diz ciência, pensamento, política. E quanto ao mito contemporâneo (tão capitalista quão socialista) da facilitação, respondo que só é fácil a dificuldade que cada um por si mesmo conquista. Ou seja, em vez de servir de bandeja, prefiro ensinar a cozinhar.
Espero que Vasco Graça Moura (que será o mais eminente dos intelectuais, não é isso que está em causa) nunca venha dizer publicamente que a legalização do casamento entre as pessoas do mesmo sexo não é um assunto prioritário... Pois eu gostava de saber qual a prioridade de todo este chinfrim em torno de mais letra, menos letra. E eu até sou daqueles que podem afirmar que o seu exílio é a língua portuguesa.
Tenho, contudo, um argumento muito meu contra este acordo superstar. Parece-me que se vai limpar, da ortografia da minha língua, o pouco que ainda lhe restava de uma certa beleza selvagem. É um luxo meter uma uma letra numa palavra para ninguém a pronunciar! Um luxo luxuriante. A escrita vai ficar mais parecida com um alicate do que com um sexo. Mas quem se interessa por isto? Só sei que, no meu próximo projecto de poesia (apropriadamente intitulado "uma selva"), tentarei inventar uma ortografia que o leitor possa namorar.
A dimensão etimológica da ortografia não é uma manifestação de verdades arquetípicas, mas o resultado de uma opção histórica concreta, contingente e questionável (os Renascentistas curtiam o latim). Não me custa, por isso, abandonar esse rigor. A questão dos possíveis erros de pronúncia que a nova ortografia pode causar é, claro, uma falsa questão: basta que aprendamos um novo conjunto de relações normativas entre essas duas dimensões da língua; afinal, quase tudo o que se refere à linguagem é convencional. Para além disso, estou isento de ilusões de colonialismo: a continuidade das civilizações indígenas da América do Sul poderia ter engendrado um Brasil bem mais glorioso do que este que, por gentileza, dá futuro ao português.
Por outro lado, não me parece que um conjunto de leis sobre ortografia constituam um passe de mágica capaz de dar força internacional à língua de Camões. Sem modéstia nem vaidade, acho que se eu produzir um excelente texto literário, tenho mais chances de gerar curiosidade pelo meu idioma do que qualquer acordo palopiano (não disse pavloviano, atenção). Quem diz literatura, diz ciência, pensamento, política. E quanto ao mito contemporâneo (tão capitalista quão socialista) da facilitação, respondo que só é fácil a dificuldade que cada um por si mesmo conquista. Ou seja, em vez de servir de bandeja, prefiro ensinar a cozinhar.
Espero que Vasco Graça Moura (que será o mais eminente dos intelectuais, não é isso que está em causa) nunca venha dizer publicamente que a legalização do casamento entre as pessoas do mesmo sexo não é um assunto prioritário... Pois eu gostava de saber qual a prioridade de todo este chinfrim em torno de mais letra, menos letra. E eu até sou daqueles que podem afirmar que o seu exílio é a língua portuguesa.
Tenho, contudo, um argumento muito meu contra este acordo superstar. Parece-me que se vai limpar, da ortografia da minha língua, o pouco que ainda lhe restava de uma certa beleza selvagem. É um luxo meter uma uma letra numa palavra para ninguém a pronunciar! Um luxo luxuriante. A escrita vai ficar mais parecida com um alicate do que com um sexo. Mas quem se interessa por isto? Só sei que, no meu próximo projecto de poesia (apropriadamente intitulado "uma selva"), tentarei inventar uma ortografia que o leitor possa namorar.
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domingo, novembro 15, 2009
Sovereigns' gallery
Say CHEESE, and maybe the photo will give you the milk of human kindness.
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sexta-feira, novembro 13, 2009
My kind of job
Into love sex will grow, as the blow turns to snow.
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quarta-feira, março 11, 2009
Desajeitos
Num noticiário transmitido de manhã pela Antena 2, a jornalista partilhou esta frase com o seu ouvinte:
"São cada vez mais novos e bebem cada vez mais, os jovens portugueses."
"São cada vez mais novos e bebem cada vez mais, os jovens portugueses."
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quarta-feira, fevereiro 25, 2009
Uma questão de gramática
Há uns tempos atrás, durante o visionamento em família de um concurso televisivo (talvez o "Quem quer ser milionário"...), perguntava-se ao concorrente qual era o plural da palavra "couve-flor". Houve apostas, cá em casa. Eu tinha, há muito pouco tempo, investigado uma gramática por causa de um texto qualquer que estava a escrever, e fiz o brilharete de ter sido o único a acertar que o dito plural era "couves-flores". Isto porque, explicou o Jorge -Gabriel-de-serviço, os dois termos da palavra hifenizada são nomes, o que obriga a que o plural se aplique a ambos (o mesmo já não acontece, por exemplo, em "guarda-chuva").Mais tarde, apareceu a confirmação num daqueles inenarráveis programas de pedagogia da língua (eu acho-os muito interessantes, vejo-os por vezes, mas ainda não apanhei um que conseguisse apresentar um tom de comunicação que não fosse pura e simplesmente irritante). Todos os meus conhecidos estavam estupefactos (se é que alguém pode ficar estupefacto com tal assunto). Nunca, no seu quotidiano, eles se atreveriam a ir a um mercado pedir um quilo de couves-flores. Nem eles, nem eu, que me safei apenas por causa de uma leitura oportuna.
Para mim, este plural é mesmo muito estranho. Pela simples razão de que estes dois termos mantêm entre si uma relação de metaforização, sendo "couve" o elemento comparado, e "flor" o elemento comparante (terminologia deselegante e simplista, esta). Ou seja, uma couve-flor é uma couve que parece uma flor (ele há poéticas para tudo, e gente que talvez nunca tenha visto um jardim...). Ora quando lançamos mão do plural do simpático (e até saboroso) vegetal, não queremos dizer que comprámos um conjunto de couves e um conjunto de flores, mas sim que trouxemos para casa um conjunto de couves e que cada uma dessas couves se parece com uma flor. A flor é o conceito geral que dá sentido metafórico à formulação, não um objecto repetido o mesmo número de vezes das couves.
É claro que a Edite Estrela e o Diogo Infante nos virão dizer que a regra não é essa (mas quem inventa, ou melhor, quem fixa, e com que direitos, as regras da gramática?). Mas eu, enquanto escritor de poemas, sinto-me desconfortável com a ausência de rigor lírico de tal lei. Mas eu não interesso para nada. O falante comum nunca, mas nunca, perceberá por que tem de dizer "couves-flores", "sacos-camas", e etc.
(Imagem retirada daqui)
quarta-feira, outubro 08, 2008
Dicionário 16
Em "A sibila", Agustina descreve por vezes o movimento daquilo que ela chama teorias de pombas. A expressão pareceu-me tão improvável dentro da poética da autora, que resolvi ir ao dicionário verificar se a palavra teoria comportaria outro sentido para além do mais comum.
E assim acontece. Enquanto herança do grego antigo, "teoria" refere uma embaixada sagrada enviada por um Estado para o representar em jogos desportivos, consultar um oráculo, levar oferendas (algo que hoje chamaríamos procissão). Já na sua genealogia latina, "teoria" significa: conhecimento especulativo, princípios fundamentais de uma arte ou ciência, tese, etc.
Tudo ficou então claro para mim. A evolução histórica (do Homem, não da palavra concreta, que se manteve ambígua) fez com que, na teoria, se mantivesse o aspecto peripatético (enquanto metáfora), mas se perdesse todo o sagrado que impede o verdadeiro caminhar do conhecimento.
E assim acontece. Enquanto herança do grego antigo, "teoria" refere uma embaixada sagrada enviada por um Estado para o representar em jogos desportivos, consultar um oráculo, levar oferendas (algo que hoje chamaríamos procissão). Já na sua genealogia latina, "teoria" significa: conhecimento especulativo, princípios fundamentais de uma arte ou ciência, tese, etc.
Tudo ficou então claro para mim. A evolução histórica (do Homem, não da palavra concreta, que se manteve ambígua) fez com que, na teoria, se mantivesse o aspecto peripatético (enquanto metáfora), mas se perdesse todo o sagrado que impede o verdadeiro caminhar do conhecimento.
sábado, setembro 06, 2008
Escrever em inglês
No meu livro (não publicado) "nu abrir em nó", escrevi um conjunto de Canções como se fossem medievais que, por uma questão de actualidade, em vez de divagarem entre o português e o galego, foram compostas num compromisso entre a nossa língua e a língua inglesa. São textos que exigem a compreensão das duas falas e que funcionam como combate (e fascínio...) contra a hegemonia anglófona.No entanto, recentemente escrevi mesmo um poema (uma "lullaby") em inglês. E a experiência foi deliciosa (palavra escolhida a dedo). Para quem é estranho a uma língua, o potencial criativo que ela oferece funciona como pura possibilidade de jogo. O francês, por exemplo, é demasiado próximo do português. Mas a língua de Shakespeare tem recursos (as portmanteau words, os phrasal verbs, a própria possibilidade de inventar verbos a torto e a direito, a liberdade no uso das preposições) que, dada a sua distância do meu verbo original, abre pelo menos a ilusão de um caminho outro para a minha escrita.
(Imagem retirada daqui)
sábado, maio 17, 2008
Partilha 33
(Como neste post, eis mais um take out de "um pouco mais ou menos de serenidade")
dizer-se
que quando perde a dor
se diz em perca
faz seu caminho de dom
como um peixe dentro de lágrima
sábado, novembro 17, 2007
Todos os acentos são ridículos
Dizem os especialistas que não podemos opinar sobre o que não sabemos. A minha opinião é: discordo.
O que os especialistas têm é de nos apresentar as razões científicas, técnicas, filosóficas, etc., que os levam a defender esta ou aquela ideia ou prática, e em seguida dar espaço aos não-especialistas para aceitarem ou não a proposta. Será que não podemos votar nas eleições legislativas porque não percebemos nada de economia, direito ou política internacional? Isso afigura-se absurdo.
Num programa recente da RTPN sobre a iminência (bem pouco iminente) da assinatura do Acordo Ortográfico pelos diversos países onde se fala português, chegou a levantar-se a hipótese de, em nome da maior facilidade de aprendizagem e aplicação da língua, podermos um dia chegar a suprimir os acentos ortográficos.
Só queria dar a minha achega. Estou neste momento a aprender russo. Ora, o enigmático povo de Dostoievsky tem a nefasta mania de não acentuar palavra nenhuma. Supõe-se que o falante saiba qual a sílaba tónica de cada palavra, apesar de ela não estar graficamente assinalada. Pior a emenda que o soneto: quando tento ler um texto em russo, nunca sei como pronunciar as palavras (a não ser que tenha decorado anteriormente a sua correcta sonoridade).
Aliás, durante as lições preparatórias, todas as palavras são acentuadas para... facilitar a aprendizagem aos corajosos aprendizes de tão distante e distinto idioma. O meu professor insinuou mesmo que talvez se estivesse a tentar inverter a prática da não acentuação no seu país natal.
Preferia, pois, que me dissessem que é preciso simplificar as regras de colocação dos acentos, e não que defendessem (ainda que um pouco oniricamente) a sua pura e simples abolição.
O que os especialistas têm é de nos apresentar as razões científicas, técnicas, filosóficas, etc., que os levam a defender esta ou aquela ideia ou prática, e em seguida dar espaço aos não-especialistas para aceitarem ou não a proposta. Será que não podemos votar nas eleições legislativas porque não percebemos nada de economia, direito ou política internacional? Isso afigura-se absurdo.
Num programa recente da RTPN sobre a iminência (bem pouco iminente) da assinatura do Acordo Ortográfico pelos diversos países onde se fala português, chegou a levantar-se a hipótese de, em nome da maior facilidade de aprendizagem e aplicação da língua, podermos um dia chegar a suprimir os acentos ortográficos.
Só queria dar a minha achega. Estou neste momento a aprender russo. Ora, o enigmático povo de Dostoievsky tem a nefasta mania de não acentuar palavra nenhuma. Supõe-se que o falante saiba qual a sílaba tónica de cada palavra, apesar de ela não estar graficamente assinalada. Pior a emenda que o soneto: quando tento ler um texto em russo, nunca sei como pronunciar as palavras (a não ser que tenha decorado anteriormente a sua correcta sonoridade).
Aliás, durante as lições preparatórias, todas as palavras são acentuadas para... facilitar a aprendizagem aos corajosos aprendizes de tão distante e distinto idioma. O meu professor insinuou mesmo que talvez se estivesse a tentar inverter a prática da não acentuação no seu país natal.
Preferia, pois, que me dissessem que é preciso simplificar as regras de colocação dos acentos, e não que defendessem (ainda que um pouco oniricamente) a sua pura e simples abolição.
sexta-feira, novembro 02, 2007
Dicionário 15
"Não há respeito por ninguém;
por exemplo o diamante
não tem a utilidade de uma jóia:
é só um diamante (para um asceta)
só um dia amante (para um suicida).
Com uma jóia, sim, compra-se o mundo."
por exemplo o diamante
não tem a utilidade de uma jóia:
é só um diamante (para um asceta)
só um dia amante (para um suicida).
Com uma jóia, sim, compra-se o mundo."
O poema de Luiza Neto Jorge de onde foi extraído este fragmento chama-se "Os frutos frios por fora". Mas nele a poeta declara que esses frutos "são por dentro aquecidos a electricidade".
Como as palavras, aliás. Dentro de si, o diamante só guarda a sua própria perfeição (que apenas pode interessar ao asceta) e o dia amante (aquele dia a partir do qual a felicidade se torna descendente, ou então aquele outro em que o suicida parte desta vida descontente).
Já a jóia, mais do que jóia é o escrínio onde se guarda a possibilidade de diamante, mas também a palavra italiana para alegria, ou a generosidade exemplar de alguns seres. A jóia é ainda o feminino de joio (que é o que as feministas separam do seu próprio trigo). E num sentido mais prosaico, a quota para poder ser sócio de uma associação qualquer (como a Vida S.A.).
Depois disto, alguém tem dúvidas quanto a cotações?
Como as palavras, aliás. Dentro de si, o diamante só guarda a sua própria perfeição (que apenas pode interessar ao asceta) e o dia amante (aquele dia a partir do qual a felicidade se torna descendente, ou então aquele outro em que o suicida parte desta vida descontente).
Já a jóia, mais do que jóia é o escrínio onde se guarda a possibilidade de diamante, mas também a palavra italiana para alegria, ou a generosidade exemplar de alguns seres. A jóia é ainda o feminino de joio (que é o que as feministas separam do seu próprio trigo). E num sentido mais prosaico, a quota para poder ser sócio de uma associação qualquer (como a Vida S.A.).
Depois disto, alguém tem dúvidas quanto a cotações?
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segunda-feira, setembro 17, 2007
Dicionário 14
Quando se levanta uma onda de críticas, o criticado deve preparar-se para surfar.
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domingo, setembro 02, 2007
Babel
"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
(...)"
Na sua defesa da ruralidade (como modo de vida que permite um uso mais apropriado dos sentidos), o heterónimo de Pessoa enuncia, portanto, um critério celeste. A nossa riqueza depende da quantidade de céu que os nossos olhos conseguem abarcar.
Mas logo no poema seguinte, ao falar da criança Jesus, ele diz:
Mas logo no poema seguinte, ao falar da criança Jesus, ele diz:
"(...) Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
(...)"
Pessoa fora educado sob a intensidade da língua inglesa. Por isso, talvez não seja um delírio pensar que a génese deste heterónimo esteve parcialmente dependente da diferença bem precisa que em inglês se estabelece entre sky e heaven.
Em português, o céu é demasiado ambíguo (só através da definição se consegue demarcar as suas duas possibilidades). Ora, na opinião de Ricardo Reis, Caeiro pretende reconstruir o paganismo a partir da sua latência degenerada no cristianismo. Precisa de libertar o céu do céu. Assim sendo, e ao contrário do que pensava o heterónimo das Odes, a aparição da figura de Cristo (ou de Santa Bárbara) na obra não-religiosa de Caeiro não é um erro, mas uma imposição da língua portuguesa.
Em português, o céu é demasiado ambíguo (só através da definição se consegue demarcar as suas duas possibilidades). Ora, na opinião de Ricardo Reis, Caeiro pretende reconstruir o paganismo a partir da sua latência degenerada no cristianismo. Precisa de libertar o céu do céu. Assim sendo, e ao contrário do que pensava o heterónimo das Odes, a aparição da figura de Cristo (ou de Santa Bárbara) na obra não-religiosa de Caeiro não é um erro, mas uma imposição da língua portuguesa.
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