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quarta-feira, setembro 13, 2006

Confissão 4

O cinema que me preenche.
E, no entanto, não sou crente, dou-me pouco à fé, e não muito à nostalgia. Mas perco-me nos fascínios generosos.
("Nostalghia" - Andrei Tarkovsky)

Partilha 3

a montanha


foguetão desactivado
por ser demasiado antigo
porém mantém-se apontado
para o céu
como um castigo


(Isto é um excerto do poema "a montanha", pertencente ao livro "descoberta seguido de invenção", já terminado, mas ainda não publicado.
Assumo que, na primeira colectânea de poemas que publiquei, havia dois ou três textos dolorosos que se reduziam a clichés da tradição lírica, nos quais deixei de me rever. Obviamente. Pretendo exilá-los da recolha, na eventualidade de uma reedição. Ora, este pedaço de poema que aqui partilho parece-me genuinamente doloroso...)

domingo, setembro 10, 2006

Confissão 3


O meu tipo de imagem, enquanto espectador: não necessariamente, a imagem que eu faria...

(Nunca vi este "O último dos homens", de Murnau)

sexta-feira, setembro 08, 2006

Crónica do alcaçuz

Gosto de pensadores que sussurram coisas graves ou polémicas. Não gosto dos que afirmam coisas técnicas.
Dizem-me que vivemos numa aldeia global. Presumo que queira isto dizer que o mundo encolheu ao nível da imaginação, que agora está tudo mais perto, podemos ir num ápice a casa da vizinha Amazon, fazer umas comprinhas na mercearia e-bay, vemos o mundo inteiro não mudado na caixa que mudou o mundo, conhecemos o pessoal todo, sabemos os podres (mas quem matou JFK?), vivemos em estado de boato, a borboleta já nem precisa de muito esforço para provocar tempestades, e todos os truz-truz nas portas e portais são agora virtuais. Será isto? Raios de conceitos...
Ainda por cima, sou um desajeitado profissional. E apesar de também querer ser aldeão, nunca acerto com a boçalidade da coisa.

Enfim, também eu já namorisquei as "Mil e uma noites", com moderada convicção. E o que mais gosto em tais páginas são aquelas enumerações de delícias que nos fazem crescer água na boca e tintol no pensamento. Tudo é maravilhoso, rutilante, apetecível, recendente, e a gente embriaga-se assim só com palavras. Ora, um dos alimentos muitas vezes referidos nestas pompas árabes é o alcaçuz. Coisa que, asseguram as personagens, deve ser, no mínimo, celestial. Mas nunca soube o que era, e a que sabia.

Este verão estive em Nova Iorque. Gastei rios de dinheiro, suei as estopinhas, dei o corpo ao manifesto por aquelas ruas feitas para manifestações, vi coisas com piada, com graça, horrorosas, gente gira, maus cheiros, teatro, cinema, museus, jardins, irrita-céus, e não sei que mais. E numa lojinha divertida, que faria a felicidade de qualquer criança, encontrei um chá de egiptian licorice. Comprei pelo Egipto, que licorice eu não sabia o que era. Regressei.

Comecei a beber o chá todas as noites antes de fingir que me ia deitar. E a coisa sabia mesmo bem. Ao fim de algumas infusões, fui ao dicionário tirar as dúvidas: licorice queria dizer... alcaçuz.

Pronto. Está aqui a minha versão da aldeia global: um chá feito de um componente literário, proveniente da mitologia do Egipto (que da terra, eu já não sei), comprado em Nova Iorque, e bebido em Vilar do Paraíso, Portugal... Um verdadeiro diálogo de civilizações! Mas desconfio que não seja bem isto. Devia ter resolvido a transacção por telefone, fax, ou e-mail - isso sim, seria mais global. Provavelmente até existe uma loja aqui no Porto que vende o raio do doce produto...

Mas, enfim, uma vez desajeitado, desajeitado para as outras vezes. O que ganhei? O meu alcaçuz tem um sabor com história e foi estrumado com a boa e velha realidade. Sabe ao mesmo, mas acrescenta-me sabedoria. Sim, sim: é mesmo uma coisa de aldeia...

quinta-feira, setembro 07, 2006

Confissão 2



Gente com quem simpatizo: quando o melhor do cinema é também o melhor da vida.

(Charles Chaplin e Giulietta Massina)

Confissão 1

O único meio de transporte que eu suporto (não sei bem de que parte da imagem estou a falar).

(Fotografia de Shaikhet)

terça-feira, setembro 05, 2006

Ensaio-em-poema

Há alguns meses decidir começar um livro ecléctico que seria essencialmente constituído por aquilo que na altura chamei de ensaios-em-poema. Afinal, se existem poemas em prosa...

Conforme vou avançando no projecto, apercebo-me de que, para que um ensaio descambe em poema, é necessário que se verifique uma destas duas condições:

a) Se o problema colocado no ensaio for exaustivamente desenvolvido, para que a poesia o acompanhe é preciso estar sempre a forçá-la, é preciso continuamente surpreender o texto com a vontade e a exibição de fazer poesia. É preciso escrevê-la.

b) Em compensação, se o ensaísta for suficientemente livre para ter a poesia dentro de si, e se o seu texto apenas quiser sugerir um problema, sonhar uma questão, a via para a poesia pode ser directa. É o próprio acto de pensar que tem a evidência do poético.

Volto a afirmar que todas as teses estão erradas. Mas, pelo sim, pelo não, forneço um exemplo da segunda atitude retirado da "Ética" de Espinosa:

Quem quer vingar-se das injúrias pelo ódio recíproco vive, por certo, miseravelmente. Mas quem, ao contrário, deseja vencer o ódio pelo amor, esse, por certo, combate alegre e com segurança, resiste tão facilmente a um homem como a vários e carece, menos que ninguém, do auxílio da sorte. Àqueles que ele vence, esses cedem alegremente, não por deficiência, mas por acréscimo de forças; todas estas coisas se seguem de tal modo claramente só das definições de amor e de inteligência que não é preciso demonstrá-las uma por uma.

(Tradução de António Simões)