Com o passar do tempo, tenho-me vindo a habituar à ideia de que, nos mais variados assuntos, é razoavelmente possível que eu não tenha razão. Excluo apenas a hipótese peregrina de um dia ter toda a gente contra mim: uma situação de tal modo improvável, que o mais provável seria que fosse eu o único a estar certo.
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domingo, junho 20, 2010
Daqui a um mês faço 38 anos
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terça-feira, maio 18, 2010
Durante algum tempo, este blogue permanecerá suspenso.
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domingo, maio 02, 2010
Tenho um novo site...
... intitulado:
Orfeu de corpo inteiro
É uma plataforma de publicação prévia e experimental da minha produção ao nível do ensaio. Já estão alguns textos online, em breve surgirão mais. Ao longo do tempo, surgirão novos ensaios, e serão rescritos e acrescentados os que já se encontram esboçados.
Obrigado pela atenção.
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sábado, maio 01, 2010
Alívio egoísta
Um dia destes, alguém me disse que o Homem tinha ficado tão inteligente que estava a destruir o Universo.
Uma formulação leviana. Não só o uso da palavra "inteligente" foi nela indevido, como não é o Universo que está em causa no último capítulo da grandeza humana, mas pura e simplesmente um pequeno planeta (seja qual for o rigor deste medo presente, ele ficará como uma das marcas mais tragicamente cómicas da nossa época).
A verdade é que fiquei aliviado. Foder a Terra, tudo bem, mas para o Universo ainda não temos tesão. Experimentem lá alterar o clima do Sol...
É claro que, há alguns séculos atrás, a perspectiva de uma perversão fatal do equilíbrio ecológico de um planeta inteiro por acção humana seria completamente inverosímil. E, por isso, não sei mais alguns séculos não nos darão os Magalhães suficientes para darmos cabo de toda a obra pública do Big Demiurgo. MAS EU JÁ NÃO ESTAREI POR CÁ!!!!!
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quarta-feira, abril 21, 2010
Confissão 28
Se alguma coisa aprendi com as ousadias e os erros do surrealismo, foi a ter respeito pelo inconsciente, seja lá o que isso for. Não quer dizer que pratique a escrita automática, da qual desconfio. Mas acredito realmente que a coerência mais férrea e a originalidade mais insuspeita de um texto literário são fornecidas por aquilo que nele não conseguimos controlar.
Daí que não estabeleça pontes entre a minha actividade de escrita poética e o meu esforço de reflexão sobre a poesia e a criação em geral (que é um esforço de índole assumidamente lógica). Há muitas dimensões da minha poesia sobre as quais nem discorro. E raramente tento aplicar um conceito teórico num poema.
Ponho-me, portanto, nas mãos da minha saúde mental. Espero não sofrer de múltiplas personalidades, e que as diferentes facetas da minha vida intelectual se relacionem umas com as outras com um mínimo de coerência aceitável.
Daí que não estabeleça pontes entre a minha actividade de escrita poética e o meu esforço de reflexão sobre a poesia e a criação em geral (que é um esforço de índole assumidamente lógica). Há muitas dimensões da minha poesia sobre as quais nem discorro. E raramente tento aplicar um conceito teórico num poema.
Ponho-me, portanto, nas mãos da minha saúde mental. Espero não sofrer de múltiplas personalidades, e que as diferentes facetas da minha vida intelectual se relacionem umas com as outras com um mínimo de coerência aceitável.
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quinta-feira, abril 01, 2010
Estourar a caixa antiga
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domingo, fevereiro 07, 2010
Confissão do adulto
Não endeuso a minha infância particular (apesar de ter sido uma época suficientemente serena para não me deixar demasiadas recordações), nem me considero propriamente um nostálgico (preferia, aliás, que a vida me corresse bem agora, ou daqui para a frente).
Se dou tanta relevância à infância na minha reflexão, é porque esse é o único momento da vida em que os humanos acreditam mesmo, e com pujança física, na possibilidade de serem felizes sem mácula. Ora, essa evidência (essa convicção) parece-me ser o ponto de partida a partir do qual podemos elaborar uma ética, um empenhamento político e/ou uma aventura criativa, sem precisarmos de recorrer a uma fundamentação transcendente.
A suivre.
Se dou tanta relevância à infância na minha reflexão, é porque esse é o único momento da vida em que os humanos acreditam mesmo, e com pujança física, na possibilidade de serem felizes sem mácula. Ora, essa evidência (essa convicção) parece-me ser o ponto de partida a partir do qual podemos elaborar uma ética, um empenhamento político e/ou uma aventura criativa, sem precisarmos de recorrer a uma fundamentação transcendente.
A suivre.
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domingo, janeiro 17, 2010
O registo da vertigem
Algumas palavras sobre o mais recente livro que editei, e que foi ontem apresentado num filo-café em Vila Nova de Gaia:Independentemente da opinião dos seus prováveis leitores (que é a opinião que verdadeiramente releva), os meus "sonetos para-infantis", escritos entre 2002 e 2003, (há uma eternidade, portanto) constituem a primeira colectânea de poemas que eu assumo como estando plenamente dominada. Nenhuma vaidade aqui: quero apenas dizer que este é um livro que, se tivesse de o rescrever, não lhe alteraria nada (o mesmo não posso dizer das duas recolhas previamente publicadas). Não o rescreveria, portanto.
A intenção que animou a elaboração destes poemas (muitos dos textos não são na verdade sonetos, o título resultando parcialmente do nonsense que eu aprendi com John Donne e os seus "Songs and sonnets") foi a tentativa de construir uma espécie de poesia rupestre. Sem nostalgia. Rupestre enquanto exploração do lugar pré-histórico de cada vivente (a infância). Rupestre também enquanto recuperação quase paródica das cosmogonias que estiveram na origem do fenómeno poético. Rupestre enquanto escrita sobre a pedra (sobre o Pedro...).
Tenho a ligeira sensação de que, se pudesse fazer cinema, acabaria por realizar um filme mudo. E se usufruísse do menor talento pictórico, vejo-me a grafitar os muros de pedra da cidade com os seres que sobre mim exercem magia (os que quero caçar, os que domestiquei, os que me atemorizam). Como disse atrás, não me considero um nostálgico. Simplesmente, assim como a infância é um cimento fresco que para sempre guarda todas as marcas que nele foram feitas, acredito que todas as actividades criativas se exercem numa relação de amor-ódio com os seus momentos fundadores. Em ambos os casos (pequena história biográfica, grande história da criação), aquele que se empenha amorosamente na vida é obrigado a registar a vertigem que acompanha essa queda desde o início (repare-se que a queda não precisa de ser uma figura com conotação negativa).
"na idade adulta
o único trabalho
infantil
lícito ou talvez implícito
quem sabe
é o registo da vertigem"
o único trabalho
infantil
lícito ou talvez implícito
quem sabe
é o registo da vertigem"
O livro está dividido em duas partes. A primeira chama-se "Descoberta" e regista a recepção do mundo por uma criança-poeta. Da parte do mundo que não teve autoria humana (o céu, as estrelas, o sol, o cometa, a lua, a nuvem, a chuva, a neve, o fogo, o vento, a montanha, o vulcão, o lago, o rio, o mar, a ilha, a árvore, a flor, os frutos, o pássaro). São poemas intuitivos, de leitura muito simples, de intencionalidade mágica. A secção termina com o primeiro soneto propriamente dito, intitulado "o Homem".
O Homem é, pois, aquele ser que, recebendo de bandeja o mundo que a sua infância descobre, tem posteriormente de o reinventar, de sobre ele edificar um edifício de mundividência onde a tristeza entra pela primeira vez (a queda, sentenciada por Deus no Génesis, adquire uma pertinência pejorativa). O soneto é talvez a forma poética que mais celebridade adquiriu no ocidente (o seu equilíbrio é notável), e por isso surge aqui como metonímia das glórias e das monstruosidades da cultura. Nada se opõe tanto ao rupestre como o soneto. No entanto, a minha paixão quase irracional pelos números 2 e 7 foi determinante para esta escolha mais-do-que-técnica.
A segunda parte chama-se "Invenção". Nela, a criança, fantasma de um génio (como na pintura de Paul Klee que ilustra a capa do livro), torna-se um demiurgo a partir do seu próprio corpo. São textos onde a sintaxe foi deturpada para simular uma escrita primitiva (mas que assim adquirem uma musicalidade estranha). Têm ideias ocultas (por exemplo, quase todos os poemas se referem a invenções humanas concretas, como a roda, o avião, a fotografia, etc.), precisam de ser esgaravatados para produzirem algum sentido, e mesmo quando uma clareira neles se abre, ela não possui o carácter de evidência dos textos da primeira parte. Toda a secção está organizada em torno de uma contagem decrescente desde um número limite, o cem (também número mágico), mas que não termina no fim da obra, ficando o leitor livre para continuar a sua própria invenção (até ao zero, que mais do que uma vez é citado). Não termina porque são apenas catorze poemas (é um macro-soneto). Com catorze anos, tive o primeiro grande sofrimento da minha biografia (o que não é relevante para a leitura do livro).
"mas uma invenção
vem sentido o dar
a vOz que a tudo isto cede eros e canta (e não cessa)
o do fim do fim"
Agradeço a generosidade de todos os leitores que me queiram acompanhar nesta aventura.
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quinta-feira, janeiro 14, 2010
Raison en chantée
Recentemente, uma jornalista comentava que o quadro de Nikias Skapinakis dedicado ao quarto (imaginário) de Paul Klee estava investido de uma geometria algo sufocante. Não me lembro desta obra específica de Skapinakis (que penso ter visto na Fundação Árpád Szenes - Vieira da Silva), por isso não posso confirmar ou desmentir a afirmação. Mas a regularidade com que realmente a geometria visita a obra de Klee, juntamente com o facto de ele ter sido professor numa instituição tão associada à racionalidade como a Bauhaus, levaram-me a especular por que razão eu, que me aborreço de morte com Malevitch ou Mondrian, sinto tanta empatia pela pintura do grande autor suiço (é, de longe, o meu artista plástico de eleição).Há motivações evidentes: a puerilidade latente em todo o seu trabalho (os ingleses têm uma expressão bem bonita para isso: childlike), a valorização da ironia, o flirt (sempre infiel) com diversos pensamentos estéticos (por vezes contraditórios entre si), a relação com a música, o gosto pela escala reduzida.
Mas no que se refere à obsessão pela geometria (e pelos números, letras, setas, etc.), eu diria que ela progride na obra de Klee lado a lado com uma pulsão onírica que é tudo menos sufocante. É como se uma não pudesse passar sem a outra (o pensamento e a poesia não se confundem, mas continuam-se). E nessa perplexidade tomo consciência de uma das linhas orientadoras do meu próprio trabalho criativo (é de nós que falamos quando falamos dos outros, e vice-versa), a que eu daria o nome de : lirismo vertebrado.
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segunda-feira, dezembro 28, 2009
Já tem capa...
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terça-feira, dezembro 15, 2009
Confissão 27

Recentemente, tenho tido alguns escrúpulos em considerar-me pura e simplesmente ateu. Prefiro a palavra agnóstico, pela sua maior humildade, pelo seu menor grau de risco. Continuo (e espero continuar até ao Fim) a não acreditar em nenhuma possibilidade de comunicação efectiva com a transcendência (tenho fé na ciência). Muito menos aceito a possibilidade de livros divinos, homens iluminados, dogmas institucionais ou moralismos sem fundamento racional. Baseio o meu agnosticismo, então, nos seguintes três critérios:
1. Acho estranho que o conceito de sentido tenha um alcance tão modesto. Se, por exemplo, eu inquirir qual o sentido da existência do meu pâncreas, eu consigo facilmente encontrar uma resposta satisfatória, talvez mesmo uma resposta cabal. O mesmo vale para a seiva da árvore, para a bolsa do canguru, para a régua e o esquadro, para a porta e a janela, para a legislação do trabalho, para o avião. No entanto, quanto mais me distancio do âmbito restrito de uma funcionalidade clara, menos consigo definir o sentido dos seres inquiridos. Posso saber qual o sentido do pâncreas, mas dificilmente atingirei igual sapiência em relação à necessidade de comer (pois posso sempre perguntar por que razão é que a vida tem de ser assegurada através da ingestão de alimentos). Daí até perguntar qual o sentido da vida, é um saltinho. Ora, ninguém, ninguém mesmo, sabe responder a isto.
Podemos dizer que a vida tem um sentido hedonista (dançar, foder), e/ou ético (política, generosidade). Mas isso são apenas métodos de vida, possibilidades de viver o melhor possível, não respondem realmente à inquietação profunda a que a palavra sentido convoca. Também podemos desistir, e dizer que o sentido da vida é viver. Mas isso é recusar a dimensão de espanto que está na base de toda a cultura humana (e muito especificamente da metafísica). Daí até ao cinismo, é um saltinho.
Resposta, não há. Mas há pelo menos a palavra sentido, a que os homens antigos deram uso ingénuo e que nós agora recebemos como um apêndice aparentemente inútil mas que, mesmo em caso de dor aguda, não podemos de nós mesmos extrair. É tão estranho saber qual o sentido do intestino, mas não saber o sentido de algo ligeiramente menos merdoso... Qual o sentido da palavra sentido? Se as palavras são erros, imprecisões, por que têm algumas uma inteligência tão exuberante? Mais vale reduzir-me à minha ignorância.
2. Também me parece estranho que toda a minha riqueza psicológica esteja destinada a uma aniquilação prosaica (eu gosto muito do corpo, claro, mas isso deve-se essencialmente à minha mente; a comida e o sexo são bons; mas se é o corpo que os sente, a verdadeira satisfação é sempre psicológica).
Este argumento não tem a menor chance perante o rigor técnico do mestre em filosofia. Mesmo assim, eu acho muito, muito estranho que a pungência, a profundidade, a verdade dos meus sentimentos de amor, esperança, desejo, medo, dos meus sonhos, da minha imaginação, da minha sede de conhecimento, que toda essa riqueza a que nenhum capitalismo tem acesso, seja uma manifestação fisiológica equivalente à produção de glóbulos brancos ou à fotossíntese. Eu diria mesmo que este é um argumento lírico. Dizem-me que a alma é apenas uma variação sofisticada da materialidade do mundo... Está bem, está: digam isso à minha psicologia quando eu me apaixonei pela primeira vez, quando eu contemplo o fracasso da minha vida, quando um dia eu estiver perante o corpo morto da minha mãe.
Resposta, não há. Mas há pelo menos esta desconfiança de que algo na minha humanidade parece ter ultrapassado a mera competência neuronal. Mais vale reduzir-me à minha ignorância.
3. E, na continuidade deste argumento, o que fazer da alegria? Se não formos abusados e violentados na mais tenra infância, a verdade é que os primeiros anos da nossa vida são tutelados pela evidência da alegria. Aliás, a comida e o sexo (que há-de chegar mais tarde) são meros avatares dessa evidência. Ao contrário, toda a nossa vida adulta é construída como uma reacção ao facto da busca da plenitude ser sempre traída pela realidade. O mais amargo, pessimista e cínico dos homens talvez seja aquele que viveu mais intensamente (e menos pragmaticamente) essa promessa da alegria. Espinosa, príncipe dos filósofos, construiu a sua ética a partir de uma ideia semelhante. Freud terá andado pelas mesmas bandas (e os surrealistas, claro).
A vida é, de facto, decepção. Mas por que continuamos a viver em função da alegria? Pois é em função de uma alegria em sentido lato que vivem o cliente da prostituição, o consumista, o depressivo, o viajante, o ambicioso, o filantropo, o grevista de fome. Mera evolução do impulso de conservação vital? Talvez, mas era preciso o mundo exagerar?: a música de Bach, o dente-de-leão, o chocolate, Alice in Wonderland, as cidades de Calvino, a Utopia, o corpo de Jesus Luz... Uma tão profunda consciência da alegria parece excessiva para caber na modéstia de todas as leis (físicas, sociais) que nos limitam.
Resposta, não há. E se o suposto Deus (personagem de mau romancista, de resto) quisesse que eu soubesse alguma coisa, teria sido claro nessa didáctica. Assim não sendo, nada quero saber sobre um eventual universo que transcenda este em que agora me encontro. Não o confirmo, mas também não o desminto. Mais vale reduzir-me à minha ignorância.
1. Acho estranho que o conceito de sentido tenha um alcance tão modesto. Se, por exemplo, eu inquirir qual o sentido da existência do meu pâncreas, eu consigo facilmente encontrar uma resposta satisfatória, talvez mesmo uma resposta cabal. O mesmo vale para a seiva da árvore, para a bolsa do canguru, para a régua e o esquadro, para a porta e a janela, para a legislação do trabalho, para o avião. No entanto, quanto mais me distancio do âmbito restrito de uma funcionalidade clara, menos consigo definir o sentido dos seres inquiridos. Posso saber qual o sentido do pâncreas, mas dificilmente atingirei igual sapiência em relação à necessidade de comer (pois posso sempre perguntar por que razão é que a vida tem de ser assegurada através da ingestão de alimentos). Daí até perguntar qual o sentido da vida, é um saltinho. Ora, ninguém, ninguém mesmo, sabe responder a isto.
Podemos dizer que a vida tem um sentido hedonista (dançar, foder), e/ou ético (política, generosidade). Mas isso são apenas métodos de vida, possibilidades de viver o melhor possível, não respondem realmente à inquietação profunda a que a palavra sentido convoca. Também podemos desistir, e dizer que o sentido da vida é viver. Mas isso é recusar a dimensão de espanto que está na base de toda a cultura humana (e muito especificamente da metafísica). Daí até ao cinismo, é um saltinho.
Resposta, não há. Mas há pelo menos a palavra sentido, a que os homens antigos deram uso ingénuo e que nós agora recebemos como um apêndice aparentemente inútil mas que, mesmo em caso de dor aguda, não podemos de nós mesmos extrair. É tão estranho saber qual o sentido do intestino, mas não saber o sentido de algo ligeiramente menos merdoso... Qual o sentido da palavra sentido? Se as palavras são erros, imprecisões, por que têm algumas uma inteligência tão exuberante? Mais vale reduzir-me à minha ignorância.
2. Também me parece estranho que toda a minha riqueza psicológica esteja destinada a uma aniquilação prosaica (eu gosto muito do corpo, claro, mas isso deve-se essencialmente à minha mente; a comida e o sexo são bons; mas se é o corpo que os sente, a verdadeira satisfação é sempre psicológica).
Este argumento não tem a menor chance perante o rigor técnico do mestre em filosofia. Mesmo assim, eu acho muito, muito estranho que a pungência, a profundidade, a verdade dos meus sentimentos de amor, esperança, desejo, medo, dos meus sonhos, da minha imaginação, da minha sede de conhecimento, que toda essa riqueza a que nenhum capitalismo tem acesso, seja uma manifestação fisiológica equivalente à produção de glóbulos brancos ou à fotossíntese. Eu diria mesmo que este é um argumento lírico. Dizem-me que a alma é apenas uma variação sofisticada da materialidade do mundo... Está bem, está: digam isso à minha psicologia quando eu me apaixonei pela primeira vez, quando eu contemplo o fracasso da minha vida, quando um dia eu estiver perante o corpo morto da minha mãe.
Resposta, não há. Mas há pelo menos esta desconfiança de que algo na minha humanidade parece ter ultrapassado a mera competência neuronal. Mais vale reduzir-me à minha ignorância.
3. E, na continuidade deste argumento, o que fazer da alegria? Se não formos abusados e violentados na mais tenra infância, a verdade é que os primeiros anos da nossa vida são tutelados pela evidência da alegria. Aliás, a comida e o sexo (que há-de chegar mais tarde) são meros avatares dessa evidência. Ao contrário, toda a nossa vida adulta é construída como uma reacção ao facto da busca da plenitude ser sempre traída pela realidade. O mais amargo, pessimista e cínico dos homens talvez seja aquele que viveu mais intensamente (e menos pragmaticamente) essa promessa da alegria. Espinosa, príncipe dos filósofos, construiu a sua ética a partir de uma ideia semelhante. Freud terá andado pelas mesmas bandas (e os surrealistas, claro).
A vida é, de facto, decepção. Mas por que continuamos a viver em função da alegria? Pois é em função de uma alegria em sentido lato que vivem o cliente da prostituição, o consumista, o depressivo, o viajante, o ambicioso, o filantropo, o grevista de fome. Mera evolução do impulso de conservação vital? Talvez, mas era preciso o mundo exagerar?: a música de Bach, o dente-de-leão, o chocolate, Alice in Wonderland, as cidades de Calvino, a Utopia, o corpo de Jesus Luz... Uma tão profunda consciência da alegria parece excessiva para caber na modéstia de todas as leis (físicas, sociais) que nos limitam.
Resposta, não há. E se o suposto Deus (personagem de mau romancista, de resto) quisesse que eu soubesse alguma coisa, teria sido claro nessa didáctica. Assim não sendo, nada quero saber sobre um eventual universo que transcenda este em que agora me encontro. Não o confirmo, mas também não o desminto. Mais vale reduzir-me à minha ignorância.
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terça-feira, novembro 24, 2009
Crónica de Ingmar Bergman
No fim da adolescência, a minha cinefilia era ainda extremamente infantil. Com isto quero simplesmente dizer que me faltava aprender a destrinçar a paixão da reverência. Nomes colossais como TARKOVSKI, GODARD ou BERGMAN quase poderiam ser pedra erguida sobre as colinas de uma pessoal Medina do cinema. Acima de tudo, adorava enfrentar obras conotadas com o hermetismo, com a dificuldade, condições sem as quais não parecia haver suficiente aventura no processo de descoberta.Quando passou o extenso ciclo Bergman na RTP2 (não me perguntem datas), eu gravei todos os filmes exibidos em cassetes VHS, e assisti com fervor religioso a dois terços da obra do sueco. Ou talvez devesse dizer fervor erótico. De qualquer modo, em terras bergmanianas, as duas coisas andam sempre muito próximas...
Sabia tudo sobre os actores: sabia que Gunnel Lindblom fazia sempre de rapariga alucinada, estremecia ao pensar até onde Ingrid Thulin conseguiria ir na representação do nojo moral, acompanhava as sucessivas mortes de Harriet Andersson (morte social em "Mónica e o desejo", morte mental em "Em busca da verdade", física por fim em "Lágrimas e suspiros"). Na altura, escrevi um ensaio (que ainda conservo, e até me parece válido) em que equiparava as estratégias narrativas-formais do autor a diversos processos de terapia psíquica.
Passados tantos anos, a quão descoberto está o meu saldo Bergman? Continuo um pouco distante de alguns dos seus filmes: "O sétimo selo" (sim, esse mesmo), "Sorrisos de uma noite de verão" (um nadinha reaccionário, não?), "O silêncio". Mantenho a admiração imaculada por algumas obras-primas: "Persona", "Lágrimas e suspiros", "Fanny e Alexandre". Defendo com convicção filmes menores: "No limiar da vida" (que o próprio Bergman detestava...), "O rosto" (de que Hitchcock não desdenharia), "O olho do diabo" (talvez a mais engenhosa comédia de um cineasta que não tem piada nenhuma), "Em busca da verdade" (filme de uma terrível beleza). Aceito os falhanços ("A sede", "A força do sexo fraco"), e continuo sem opinião sobre o incompreendido "O ovo da serpente".
O fascínio tornou-se mais saudável ao ser polemizado em termos de prós e contras. Acabei por me aperceber que Bergman era um magistral escritor de diálogos, e que o seu ascendente sobre outros autores se devia em parte à preguiça daqueles espectadores que vão ao cinema para verem actores a falarem uns com os outros (e quão mais lato é o cinema...). A sua fama como campeão na direcção naturalista de actores (que o torna tão admirado na cultura anglo-saxónica) não resistiu ao meu encontro com um jovem cineasta seu conterrâneo, admirador confesso do mestre, que me disse que, para um conhecedor do sueco falado, os intérpretes bergmanianos eram demasiado... teatrais (o que diriam disto os detractores do cinema português?). O excessivo acabamento técnico dos filmes deixa-me um pouco inquieto: para mim, ou a técnica é esplendorosa e está ao serviço de um formalismo total (Angelopoulos, Tarkovski, o Fassbinder de "Querelle"), ou então é melhor aceitar uma certa rugosidade desafiadora (Rossellini, Pasolini, António Reis/Margarida Cordeiro, Straub/Huillet). Ou seja, Bergman é, por vezes, um nadinha académico. E é preciso não sermos inocentes literários para conseguirmos avaliar a verdadeira originalidade da sua escrita (quantas coisas ele roubou ao Dostoiévski...).
Pelo contrário, não aceito que me digam que ele nada trouxe de novo, em termos visuais, ao cinema. Isso é não levar em conta o contornar do problema do campo-contracampo em "Um verão de amor" (falarei disso um dia aqui no blogue), o olhar de Mónica a enfrentar o espectador numa espécie de estreia brechtiana para a sétima arte, a fusão dos rostos de "Persona" (ideia surripiada para a publicidade da TMN?), a fotografia de "Lágrimas e suspiros". E se Bergman foi um fabuloso perscrutador do rosto humano (Deleuze escreveu várias páginas sobre isso), penso que será mais correcto dizer que ele trabalhou, formalmente, a questão da distância do actor perante a câmara (por exemplo, em "Sonata de Outono", os flash-backs são todos filmados em planos distanciados). Curiosamente, nunca achei os seus filmes difíceis: pelo contrário, são prodígios de comunicabilidade.
Os meus Bergmans são "Um verão de amor" (que Godard disse ser o mais belo dos filmes...), "Mónica e o desejo" (Harriet Andersson continua a ser uma das minhas actrizes favoritas) e "Morangos silvestres". Nestes filmes, a vibração lírica dos momentos de harmonia faz-nos compreender o que de facto está em causa na tragédia. Bergman percebeu aí bem a lição de Tchékhov. Depois, enveredou por um crescendo (cada vez mais exibicionista) de lágrimas e suspiros que, no filme que destes sintomas retira o título, atinge uma violência quase insuportável. Dá quase vontade de lhe perguntar: mas afinal por que estamos chorar?
Tudo contabilizado, a verdade é que eu acredito que um filme como "Morangos silvestres" é mesmo capaz de mudar a vida de um espectador. Que mais pode fazer um realizador de cinema?
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domingo, outubro 25, 2009
Confissão 26
Não tenho fé porque as religiões não têm imaginação.
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segunda-feira, outubro 05, 2009
Confissão 25 (Lubitsch's touch)
Se eu pudesse fazer cinema, o mais provável é que as películas saídas do meu imaginário não contivessem cenas de sexo.Não por uma questão de deontologia profissional, como diz o imemorial Manoel de Oliveira. Porque o que o realizador quer dizer com isso é que teve uma educação católica muito rígida, e que é o recalcamento a falar quando ele defende que o sexo deve ser sempre vivido no recato da intimidade (os meus avós, aliás, diziam coisas muito semelhantes).
Não, o meu recato deve-se a duas razões específicas, que passo a partilhar. Em primeiro lugar, fundamenta-o o meu escrupuloso respeito pelo actor. No presente contexto histórico, um trabalhador do sexo continua a ser um ser de excepção (a sua relação com o impudor erótico é uma forma de marginalidade). Não está aqui implícita nenhuma crítica nem nenhuma solidariedade: é uma mera constatação. Ora, o actor, apesar de ser um trabalhador do corpo, não é um trabalhador do sexo. O erotismo em torno do qual todo o cinema gira é mais ou menos equivalente ao erotismo que é suportável em termos de vida pública. E, de qualquer maneira, o actor é acima de tudo um trabalhador do espírito (a sua matéria-prima é a emoção humana). Mesmo que as cenas de sexo não passem de encenações ilusórias, quer-me parecer que constituem uma invasão relativamente violenta da disponibilidade do intérprete. Pelo menos, eu não gostaria de passar por isso. Mas eu não sou actor, não posso negar uma educação também ela de raiz católica, e acima de tudo admito (e aplaudo) a possibilidade de um intérprete ultrapassar todos os limites que pretenda ultrapassar. Esta razão não é, portanto, muito válida. Ainda por cima, quem sabe um dia o sexo público se torna norma, e tudo isto passa a ser um discurso de velho... E depois, ó Pedro Ludgero, os filmes não se fazem para provocar tudo o que está estabelecido? Não foi a nudez foi também liberta pelo cinema?
Eu diria que a minha relutância aparentemente puritana se deve mais ao facto de eu achar que o sexo é um buraco negro de tal modo intenso que é capaz de sugar um filme inteiro para dentro de si. O estado de sonho sensual em que muitos filmes nos colocam não se deve, por isso, confundir com a urgência de concretização sexual. Dito à maneira de um gajo, o sexo explícito é tão maravilhoso, tão potente, tão pleno, que é capaz de obliterar a cabeça de cima a favor da cabeça de baixo. E quando falo de cabeça de cima, não me estou a referir apenas ao pensamento, mas também à memória, à emotividade, à vontade, à capacidade para sonhar, etc. Ora, quem faz cinema também faz sexo, é certo, mas sexo implícito. Quem conseguiria entregar o seu amor a um filme se estivesse submetido a uma dor física avassaladora?
Eu colocaria a questão nestes termos: se me aparecesse um génio da lâmpada com alto orçamento para eu realizar três filmes, mas me pusesse como condição da sua generosidade a inclusão obrigatória de muitas cenas de sexo nessas produções, eu dir-lhe-ia, sem hesitar, que faria então três filmes pornográficos. E tudo estaria bem.
Dito tudo isto, adoro o "Império dos sentidos" de Naguisa Oshima.
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quinta-feira, outubro 01, 2009
A despeito de este blogue ter agora um simpático número de seguidores (aos quais eu estou profundamente grato), a verdade é que a desmultiplicação da minha disponibilidade nas mais diversas tarefas me deixa pouco tempo para o actualizar com a regularidade que lhe era característica.
Penso que, a partir deste momento, trabalharei no "Cabo da boa tormenta" cerca de uma vez por semana. No entanto, a falta de intensidade numérica em nada diminuirá o meu empenho, pelo que tentarei que as minhas postagens mantenham o mesmo nível de relevância.
Obrigado, e continuem a aparecer.
Penso que, a partir deste momento, trabalharei no "Cabo da boa tormenta" cerca de uma vez por semana. No entanto, a falta de intensidade numérica em nada diminuirá o meu empenho, pelo que tentarei que as minhas postagens mantenham o mesmo nível de relevância.
Obrigado, e continuem a aparecer.
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quinta-feira, agosto 27, 2009
op. 3
... caminha, fala, o filho da mãe até já decifra algumas letras, não sei se já passou o complexo de Édipo mas pelo menos deu de caras com a esfinge, e demonstra um proverbial apetite:
é o Cabo da Boa Tormenta que faz hoje três anos.
é o Cabo da Boa Tormenta que faz hoje três anos.
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domingo, agosto 16, 2009
A realidade também é isto
Há algum tempo, abriu um grande café mesmo ao lado de minha casa. Pensei que ia ter, finalmente, e a dois passos, um lugar-mítico (desses que ficam bem nas biografias) onde poderia passar as manhãs a ler jornais e romances, rodeado por janelas de dimensões luminosas e pelo calor do burburinho humano.
No entanto, o sistema de ar condicionado do lugar é deficiente (e não se vislumbra um investimento no futuro próximo). O que faz com que, no Verão, se esteja mais fresco num qualquer banho turco do que em frente a uma das chávenas de cafeína que por lá são servidas. Ir ao café tornou-se um desprazer.
É como se o Café fosse coisa de maiúscula, Hemingway em Paris, um lugar de Hollywood, a que eu, pobre mortal condenado à hipérbole suburbana, só tivesse direito em versão realidade.
No entanto, o sistema de ar condicionado do lugar é deficiente (e não se vislumbra um investimento no futuro próximo). O que faz com que, no Verão, se esteja mais fresco num qualquer banho turco do que em frente a uma das chávenas de cafeína que por lá são servidas. Ir ao café tornou-se um desprazer.
É como se o Café fosse coisa de maiúscula, Hemingway em Paris, um lugar de Hollywood, a que eu, pobre mortal condenado à hipérbole suburbana, só tivesse direito em versão realidade.
domingo, agosto 09, 2009
Passagem por Coimbra
Fui à Quinta das Lágrimas, em Coimbra, para assistir ao último espectáculo do 1º Festival das Artes promovido pela instituição. Descontando a desorganização generalizada (anunciam locais de venda de bilhetes que afinal não os vendem, não respondem a e-mails, dizem que mandam bilhetes para casa e esquecem-se, etc.) e o ambiente muito "recreio das tias" (com direito a aparição do ubíquo José Miguel Júdice), devo dizer que o local é magnífico para recitais dos mais variados estilos.Gostei muito de ouvir o pianista Alexandre Tharaud. Achei a leitura de poemas de Álvaro de Campos (por André Gago) improvisada de mais (ou seja, uma declamação menos espontânea do que próxima do cliché).
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segunda-feira, julho 20, 2009
37
... nasceu o Petrarca, morreu o Paradjanov, primeira alunagem, falhanço de um plano para assassinar Hitler...
sábado, julho 18, 2009
Com-cisão
1. Conforme vão sendo retirados os direitos elementares aos judeus da Holanda ocupada no ano de 1942, Etty Hillesum vai reduzindo o valor da vida a aspectos cada vez mais essenciais. De certo modo, a escritora acaba por sublimar aqueles pedaços de realidade que permanecem intocados pela opressão (num sentido oposto ao que foi enunciado por Kant para essa categoria estética). Para quem muitas vezes desejou viver num convento, a ironia trágica acabou por condenar Etty Hillesum à felicidade de uma vida frugal. Fê-la encontrar a existência simples que está na origem do discurso cristão (e cuja primeira traição é a existência do estado do Vaticano).Tenho pensado imenso enquanto leio o estarrecedor diário desta mulher. Pensado em carne viva (meço bem as palavras). E apesar de viver num contexto histórico infinitamente mais benéfico que o de Etty (e de não ser crente), posso dizer que sinto uma certa empatia com esta predisposição existencial. Não digo que me satisfizesse com apenas pão, fruta e água cristalina (eu, que sou internauta e tudo...), mas há algo na complexidade superabundante da vida contemporânea (a começar na sua economia-para-a-qual-não-há-alternativa) que me provoca um profundo desconforto. Como se tivéssemos perdido a noção que fundamenta cada gesto que herdámos do passado.
2. A dada altura, Etty diz que, apesar de saber que mais tarde ou mais cedo vai ser enviada para um campo nazi, tem a certeza íntima de que há-de um dia fazer uma viagem até à Rússia. De facto, todos nascemos supondo, como Harry Potter, de que somos "the chosen one" das nossas próprias vidas. E todos temos certezas íntimas (evidências quase maternas de quando todas as coisas estavam nos seus lugares). Ora, a despeito dessa verdade interior, Etty Hillesum foi exterminada durante o Holocausto. Nunca foi à Rússia.
Basicamente, a vida não é para brincadeiras.
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