... e aceito todos os estudos prévios que me queiram fazer. Só me reservo o direito de escolher os estudiosos.
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sábado, junho 20, 2009
quinta-feira, junho 11, 2009
Retalhos da vida de um jovem 5
O padre Concha (o nome está pixelizado para evitar o reconhecimento da sua verdadeira identidade) foi o segundo professor de música que tive no Colégio Internato dos Carvalhos. Era um homem virtuoso, especialmente no manejo da baqueta nas cabeças dos alunos que se portavam mal. Segundo Ele.
O padre Concha foi o primeiro mentor do único Grupo de Jovens (os bandalhos cristãos são sempre jovens) no qual participei (o segundo foi o padre Argilas - nome igualmente pixelizado -, que tinha os pés tão grandes que poderia ser um santo a contrario, que escrevera um livro que tinha "30 temas, dava para tudo" - sic - e cuja coroa de glória era o facto de ter sido o primeiro docente da Faculdade de Psicologia do Porto a ter reprovado nas provas para o doutoramento).
Ah, os Grupos de Jovens... Nos Grupos de Jovens, os rapazes ou são amaricados (o que não estimula nada um verdadeiro maricas) ou já trazem, marcado no rosto, o destino de futuros autarcas do PPD/PSD ou do CDS/PP, as raparigas têm ar de que nunca foram de facto comidas, há sempre alguma que frequentou, sem sucesso, o Conservatório, por vezes uma outra com ar de halterofilista masculino, há sempre quem saiba tocar guitarra (cantar torna a alma mais pura, e a guitarra é absolutamente insuspeita no que toca a evocações do corpo), há sempre um padre insuportável que se esforça imenso por parecer porreiro (aprecia os Mão Morta e o Quentin Tarantino) e discutem-se muitos temas. Sempre os mesmos temas: o aborto, a eutanásia, a homossexualidade, a eutanásia das discussões sobre o aborto, a homossexualidade da eutanásia, a interrupção voluntária da participação num Grupo de Jovens até às dez semanas (sob pena de, passado esse prazo, o jovem se ter tornado um aborto), etc. Essa gente só não é hippy porque se lava muito, porque prefere drunfar-se com hóstias, e além disso tem toda uma imensa Guerra Santa no seu passado genético.
No entanto, o Grupo de Jovens em que eu participei era apenas um conjunto de rapazes hormonalmente desequilibrados que tinham de aturar o padre Concha. O assunto favorito do padre Concha era a masturbação. Conhecedor das tecnologias de ponta ao nível da publicidade, o pastor arrebanhava-nos com os magníficos gráficos que fazia no quadro negro (desenhos que, perdoe-me nosso senhor, eram menos inocentes que os de Salvador Dali), infinitas espirais de giz, descrevendo o abismo de egoísmo que o onanismo fazia no psiquismo do punheteiro (ufa, acabou a rima). O que o padre Concha queria era vender Skip, com bata em vez de batina e trocando as suas baquetas por uma daquelas canetas enormes que contam com o seu próprio tamanho para conduzir as ovelhas por um quadro negro constelado de gráficos de grande validade científica. Mas como o sexo é o oposto do pó, e a situação daqueles jovens era preta, o padre Concha teve de resignar-se a lavar mais branco com as palavras do Sr., validadas por mais de sessenta e nove marcas de preservativos.
Mas o estúpido era eu. Embora já me divertisse a riscar santinhos com o rosto de Jesus, era um menino tão bem comportado que fazia tudo para agradar aos adultos (e até cantava em vários coros). Assim sendo, resolvi contar ao Padre Concha, durante uma confissão, que praticava o vil pecado da masturbação. Alarmado, o velho manteve-me ajoelhado durante uma boa meia hora, dissertando sobre os malefícios daquele tabaco. Quando saí do confessionário, os meus colegas, que sempre haviam pensado que eu seria canonizado ainda em vida, olharam para mim com um misto de horror e admiração (eles, que faziam o serviço em cinco minutos).
Mais tarde, fui falar com o padre Concha no seu gabinete. E ele lá continuou a sua prática, contando thrillers sobre aqueles maridos que, fechados em si mesmos como numa concha, preferiam masturbar-se a dormir com as esposas a seu lado na cama. Claro que o padre nunca pôs a hipótese das esposas serem camafeus. No entanto, este seu profundo entendimento da vida conjugal e do funcionamento do cérebro humano levaram-me a supor que ele nem sequer seria aceite para participar num estágio da Universidade Júnior no departamento de Psicologia.
Lá me perguntou se eu comprava revistas, se fantasiava com coleguinhas e coisas quejandas. Ainda bem que eu não lhe disse qual o teor da minha imaginação erótica, ou nem sei o que a curiosidade do homem me teria feito. Enfim, mais inquérito menos homilia, a coisa lá caiu no esquecimento.
O que eu não entendo é qual a razão que me levou a um acto tão beato, quando eu tinha a certeza absoluta de que, nem que o padre Concha me tivesse tentado vender o mais ardente dos Infernos, eu nunca iria parar de me masturbar. O que mais há-de fazer um rapaz de doze anos, quando começa a ouvir a música das feras, mas ainda não lhes pode passar a mão pelo pêlo?
O padre Concha foi o primeiro mentor do único Grupo de Jovens (os bandalhos cristãos são sempre jovens) no qual participei (o segundo foi o padre Argilas - nome igualmente pixelizado -, que tinha os pés tão grandes que poderia ser um santo a contrario, que escrevera um livro que tinha "30 temas, dava para tudo" - sic - e cuja coroa de glória era o facto de ter sido o primeiro docente da Faculdade de Psicologia do Porto a ter reprovado nas provas para o doutoramento).
Ah, os Grupos de Jovens... Nos Grupos de Jovens, os rapazes ou são amaricados (o que não estimula nada um verdadeiro maricas) ou já trazem, marcado no rosto, o destino de futuros autarcas do PPD/PSD ou do CDS/PP, as raparigas têm ar de que nunca foram de facto comidas, há sempre alguma que frequentou, sem sucesso, o Conservatório, por vezes uma outra com ar de halterofilista masculino, há sempre quem saiba tocar guitarra (cantar torna a alma mais pura, e a guitarra é absolutamente insuspeita no que toca a evocações do corpo), há sempre um padre insuportável que se esforça imenso por parecer porreiro (aprecia os Mão Morta e o Quentin Tarantino) e discutem-se muitos temas. Sempre os mesmos temas: o aborto, a eutanásia, a homossexualidade, a eutanásia das discussões sobre o aborto, a homossexualidade da eutanásia, a interrupção voluntária da participação num Grupo de Jovens até às dez semanas (sob pena de, passado esse prazo, o jovem se ter tornado um aborto), etc. Essa gente só não é hippy porque se lava muito, porque prefere drunfar-se com hóstias, e além disso tem toda uma imensa Guerra Santa no seu passado genético.
No entanto, o Grupo de Jovens em que eu participei era apenas um conjunto de rapazes hormonalmente desequilibrados que tinham de aturar o padre Concha. O assunto favorito do padre Concha era a masturbação. Conhecedor das tecnologias de ponta ao nível da publicidade, o pastor arrebanhava-nos com os magníficos gráficos que fazia no quadro negro (desenhos que, perdoe-me nosso senhor, eram menos inocentes que os de Salvador Dali), infinitas espirais de giz, descrevendo o abismo de egoísmo que o onanismo fazia no psiquismo do punheteiro (ufa, acabou a rima). O que o padre Concha queria era vender Skip, com bata em vez de batina e trocando as suas baquetas por uma daquelas canetas enormes que contam com o seu próprio tamanho para conduzir as ovelhas por um quadro negro constelado de gráficos de grande validade científica. Mas como o sexo é o oposto do pó, e a situação daqueles jovens era preta, o padre Concha teve de resignar-se a lavar mais branco com as palavras do Sr., validadas por mais de sessenta e nove marcas de preservativos.
Mas o estúpido era eu. Embora já me divertisse a riscar santinhos com o rosto de Jesus, era um menino tão bem comportado que fazia tudo para agradar aos adultos (e até cantava em vários coros). Assim sendo, resolvi contar ao Padre Concha, durante uma confissão, que praticava o vil pecado da masturbação. Alarmado, o velho manteve-me ajoelhado durante uma boa meia hora, dissertando sobre os malefícios daquele tabaco. Quando saí do confessionário, os meus colegas, que sempre haviam pensado que eu seria canonizado ainda em vida, olharam para mim com um misto de horror e admiração (eles, que faziam o serviço em cinco minutos).
Mais tarde, fui falar com o padre Concha no seu gabinete. E ele lá continuou a sua prática, contando thrillers sobre aqueles maridos que, fechados em si mesmos como numa concha, preferiam masturbar-se a dormir com as esposas a seu lado na cama. Claro que o padre nunca pôs a hipótese das esposas serem camafeus. No entanto, este seu profundo entendimento da vida conjugal e do funcionamento do cérebro humano levaram-me a supor que ele nem sequer seria aceite para participar num estágio da Universidade Júnior no departamento de Psicologia.
Lá me perguntou se eu comprava revistas, se fantasiava com coleguinhas e coisas quejandas. Ainda bem que eu não lhe disse qual o teor da minha imaginação erótica, ou nem sei o que a curiosidade do homem me teria feito. Enfim, mais inquérito menos homilia, a coisa lá caiu no esquecimento.
O que eu não entendo é qual a razão que me levou a um acto tão beato, quando eu tinha a certeza absoluta de que, nem que o padre Concha me tivesse tentado vender o mais ardente dos Infernos, eu nunca iria parar de me masturbar. O que mais há-de fazer um rapaz de doze anos, quando começa a ouvir a música das feras, mas ainda não lhes pode passar a mão pelo pêlo?
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Retalhos da vida de um jovem
quarta-feira, junho 10, 2009
Diário das obras
Fazendo uma brevíssima adenda ao que escrevi neste post, informo os meus futuros leitores (categoria deprimente, esta...) que desisti do projecto de escrever os poemas "Évora" e "Quem me dera ser mosca tzé tzé" a que aí fiz referência, mas em compensação dei por terminado o livro de poesia erótica-amorosa com a inclusão de um texto novo, chamado "a evidência de P (rimance)".
Por seu lado, a recolha passou agora a ser intitulada: "é tão difícil escrever sobre isto".
Por seu lado, a recolha passou agora a ser intitulada: "é tão difícil escrever sobre isto".
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quarta-feira, junho 03, 2009
O estado das obras 2
De narcisismo em narcisismo, vou dando conta do estado das obras.
Terminei hoje uma recolha de poemas. Como é um livro com uma organização matemática firme, sei que não posso ceder à tentação de o aumentar (o que, em mim, é bastante normal...).
Passo a explicar. O livro chama-se "Caminho estreito para o que está mais perto", e é, como o nome indicia, uma recolha de haikus (muitos deles já publicados aqui no blogue). É composto por três partes: a. três sequências com três haikus cada uma (Três tercetos), b. cinco sequências com cinco haikus cada (Cinco quintetos), e c. sete sequências com sete haikus cada (já não preciso de revelar o título...).
Ao todo são 83 haikus. Todos partem de uma aproximação ao esquema e ao tom desenvolvido por Matsuo Bashô, mas tentam funcionar como poemas contemporâneos. Entre o lirismo e o sarcasmo, ora mais intemporais ora ancorados no presente, acabam por compor um cancioneiro com a minha mundividência.
Terminei hoje uma recolha de poemas. Como é um livro com uma organização matemática firme, sei que não posso ceder à tentação de o aumentar (o que, em mim, é bastante normal...).
Passo a explicar. O livro chama-se "Caminho estreito para o que está mais perto", e é, como o nome indicia, uma recolha de haikus (muitos deles já publicados aqui no blogue). É composto por três partes: a. três sequências com três haikus cada uma (Três tercetos), b. cinco sequências com cinco haikus cada (Cinco quintetos), e c. sete sequências com sete haikus cada (já não preciso de revelar o título...).
Ao todo são 83 haikus. Todos partem de uma aproximação ao esquema e ao tom desenvolvido por Matsuo Bashô, mas tentam funcionar como poemas contemporâneos. Entre o lirismo e o sarcasmo, ora mais intemporais ora ancorados no presente, acabam por compor um cancioneiro com a minha mundividência.
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segunda-feira, junho 01, 2009
O estado das obras
Há já bastante tempo que tinha dado por encerrado o meu livro (de inéditos) "nu abrir em nó", de temática erótico-amorosa.
Contudo, recentemente acrescentei-lhe cinco novos poemas, cujos títulos são os seguintes: "Azul", "Match point", "Tenrura", "In absentia" e "Partitura para oboé d'amor (poème à clef)". Os últimos dois parecem-me particularmente bem conseguidos. Tenho mais duas ideias a assediarem-me (textos provavelmente intitulados "Évora" e "Quem me dera ser mosca tzé tzé", assim mesmo com z), mas parece-me que o assédio não é forte nem concreto o suficiente.
O título da própria recolha também está aberto a negociações. O sentido é óbvio: evoca o laço que surge entre duas pessoas que partilham a sua nudez (e fá-lo a partir do infinitivo do verbo). Mas não me parece uma expressão eficaz (é mais bizarra do que eloquente). Aceito opiniões...
De qualquer modo, fica aqui esta nota narcísica para os meus futuros leitores (não partilharei aqueles textos no blogue).
Contudo, recentemente acrescentei-lhe cinco novos poemas, cujos títulos são os seguintes: "Azul", "Match point", "Tenrura", "In absentia" e "Partitura para oboé d'amor (poème à clef)". Os últimos dois parecem-me particularmente bem conseguidos. Tenho mais duas ideias a assediarem-me (textos provavelmente intitulados "Évora" e "Quem me dera ser mosca tzé tzé", assim mesmo com z), mas parece-me que o assédio não é forte nem concreto o suficiente.
O título da própria recolha também está aberto a negociações. O sentido é óbvio: evoca o laço que surge entre duas pessoas que partilham a sua nudez (e fá-lo a partir do infinitivo do verbo). Mas não me parece uma expressão eficaz (é mais bizarra do que eloquente). Aceito opiniões...
De qualquer modo, fica aqui esta nota narcísica para os meus futuros leitores (não partilharei aqueles textos no blogue).
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sexta-feira, março 20, 2009
Ao fim e ao cabo...
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terça-feira, março 03, 2009
Retalhos da vida de um jovem 4
Confesso que não frequento o Fantasporto.A razão é simples: detesto filmes de terror (e seus géneros próximos). Só mesmo um talento como o de Cronenberg me consegue sentar numa cadeira (de forças) para ver as carnavaladas de que toda essa mitologia se compõe.
Ainda por cima, o meu historial de frequência do certame não é famoso. Apanhei lá uma gripe de caixão à cova, fui ver o "Frankenstein" de James Whale mas não vi (nem eu nem ninguém) metade do filme não sei por que mistério de projecção, e assisti ao único Werner Schroeter de que alguma vez gostei (this is also bad news).
O ponto alto da minha relação com o Fantasporto deu-se quando fui acompanhar a projecção da média metragem "Jaime", de António Reis (penso que este filme ainda não é co-assinado pela sua mulher). Um par de cândidas e incautas professoras primárias resolveram levar a sua turma de crianças à mesma sessão. Presumo que estavam à espera de algo entre a "Mary Poppins" e o "Batman" (o Harry Potter ainda estava no cu dos franceses... estou a falar de cinema). Olhem só o que lhes caiu na rifa: um deslumbrante documentário-poema sobre um louco rural com laivos de genialidade pictórica...
Claro, as crianças javardaram qualquer hipótese de missa cinéfila que ali estivesse prometida. Uma barulheira infernal, comentários entre o irreverente e o apalermado, gargalhadas sem motivo: o pintor teria gostado. O meu momento preferido (e uma das mais deliciosas recordações que tenho da juventude cinéfila) deu-se quando, no filme, uma voz de mulher aldeã começa a chamar várias vezes pelo Jaime. Perante tão tentadora guloseima, a miudagem decidiu representar o papel do eco. De cada vez que a senhora gritava o nome do louco, ouvia-se em seguida um coro de crianças esganiçadas a guinchar: "Jaime! Jaime! Jaime!". Não sei mesmo se o Jaime não terá ouvido.
Depois da projecção, houve uma cena de terror (Fantas oblige), quando Margarida Cordeiro resolveu explicar às crianças que o filme era muito importante porque os quadros daquele maluquinho valiam muito dinheiro. Mas já não havia hipótese: "Jaime" tornou-se, até hoje, um dos meus filmes portugueses favoritos. Até à comoção.
terça-feira, fevereiro 03, 2009
Momento Woody Allen
Os dois aspectos mais engraçados das fobias são a invulgar variedade com que elas existem no mercado (do medo da cultura japonesa ao medo das boas notícias, ele há de tudo) e a estranheza dos nomes com que baptizaram essas doenças de estimação, às quais nos afeiçoamos como a um gato ou a um casaco velho que nos garante conforto como nenhum outro.
Eu, por exemplo, tomo conta de dois bichinhos chamados aracnofobia e acrofobia (repare-se na preguiça do meu subconsciente escrevedor, que quase redundava em anagrama): aranhas e alturas, portanto. E ponham fobia nisso: se me quiserem matar com um ataque cardíaco, recorram à primeira, se o objectivo for obrigar-me a um suicídio involuntário, façam o favor de me pôr a lavar vidros no Empire State Building.
Ora, há pessoas que se curam dos seus medos. Valentes... Mas eu não as percebo. E pergunto: que indivíduo minimamente inteligente pagaria para no futuro deixar de ser sensível ao horror que no presente lhe provocam, com intensidade e evidência, as suas sublimes fobias? Se eu não posso ver uma aranha de um centímetro quadrado mexer as patinhas sem me lembrar de um nazi, e se acarinho esse medo como um filho, se quero estar sempre em guarda contra o Eixo do Mal, protejer-me do Demo como quem vende a alma cara, por que carga de água havia de me lobotizar até me tornar um pateta alegre que não sente o fogo a queimar o seu próprio corpo?
Eu, abandonar o meu bobby e o meu tareco?... Não há-de ser o filho da minha mãe que se vai armar em carapau de corrida.
Eu, por exemplo, tomo conta de dois bichinhos chamados aracnofobia e acrofobia (repare-se na preguiça do meu subconsciente escrevedor, que quase redundava em anagrama): aranhas e alturas, portanto. E ponham fobia nisso: se me quiserem matar com um ataque cardíaco, recorram à primeira, se o objectivo for obrigar-me a um suicídio involuntário, façam o favor de me pôr a lavar vidros no Empire State Building.
Ora, há pessoas que se curam dos seus medos. Valentes... Mas eu não as percebo. E pergunto: que indivíduo minimamente inteligente pagaria para no futuro deixar de ser sensível ao horror que no presente lhe provocam, com intensidade e evidência, as suas sublimes fobias? Se eu não posso ver uma aranha de um centímetro quadrado mexer as patinhas sem me lembrar de um nazi, e se acarinho esse medo como um filho, se quero estar sempre em guarda contra o Eixo do Mal, protejer-me do Demo como quem vende a alma cara, por que carga de água havia de me lobotizar até me tornar um pateta alegre que não sente o fogo a queimar o seu próprio corpo?
Eu, abandonar o meu bobby e o meu tareco?... Não há-de ser o filho da minha mãe que se vai armar em carapau de corrida.
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quarta-feira, janeiro 21, 2009
Auto-retrato enquanto leitor
Leio "Dormia tudo como se o universo fosse um erro; e o vento, flutuando incerto, era uma bandeira sem forma desfraldada sobre um quartel sem ser" (do Livro do desassossego).
E o que me comove não é a psicologia de Bernardo Soares (esse homem cuja lucidez a si mesmo impôs a alma experimental de um espectro). Nem a metafísica furiosa aqui latente (e que Pessoa nunca sistematizará, nem mesmo agora).
O que me move é o requinte de uma bandeira toda feita em vento: sou um terrível materialista, e gosto das matérias-primas mais raras e caras, mais puras e duras. O que me move é saber que tipo de erro é o universo: erro gramatical? erro de cálculo? de afinação? humano? Pode ser apagado? Posto entre parêntesis? O despertar é um corrector? O que me move é pensar que, se ainda houvesse serviço militar obrigatório, eu gostaria de o cumprir (sem ir) num quartel sem ser.
E o que me comove não é a psicologia de Bernardo Soares (esse homem cuja lucidez a si mesmo impôs a alma experimental de um espectro). Nem a metafísica furiosa aqui latente (e que Pessoa nunca sistematizará, nem mesmo agora).
O que me move é o requinte de uma bandeira toda feita em vento: sou um terrível materialista, e gosto das matérias-primas mais raras e caras, mais puras e duras. O que me move é saber que tipo de erro é o universo: erro gramatical? erro de cálculo? de afinação? humano? Pode ser apagado? Posto entre parêntesis? O despertar é um corrector? O que me move é pensar que, se ainda houvesse serviço militar obrigatório, eu gostaria de o cumprir (sem ir) num quartel sem ser.
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Pessoa
domingo, janeiro 18, 2009
Jean Renoir - pas le patron

Há muitos anos atrás, fiz a exibição pública de um conjunto de cassetes de vídeo da minha filmoteca pessoal na Pastoral Universitária do Porto. Uma ilegalidade em nome do Senhor, portanto (não, não sou católico - de qualquer modo, já prescrevi). A coisa acabou depressa, porque ninguém estava interessado na História do cinema.
Uma dessas sessões foi composta por três curtas-metragens que me pareceram ter um obscuro sentido de continuidade entre si: "Une partie de campagne" de Jean Renoir, "A agência matrimonial" de Federico Fellini e "O milagre" de Roberto Rossellini. No fim da projecção, os pastorinhos mostraram um grande interesse pelo filme do Rossellini (o que, de resto, seria de esperar), e desprezaram as outras duas obras (curiosamente, a curta do francês é, das três, a que maior consenso histórico gerou).
De qualquer modo, isto tem muito a ver com Renoir. É um cineasta que nunca fez um filme que ostentasse a pretensão de ser um filme sério, um filme importante (mas também nunca fez uma inanidade de mula fingida). Se os hollywoodianos são predadores das emoções do espectador, muitas vezes os candidatos a autor são predadores da sua aprovação. Jean Renoir nunca nos esfregou o seu génio na cara - ele pede apenas a nossa generosidade.
(Na imagem: "Elena et les hommes", filme desprezado)
Uma dessas sessões foi composta por três curtas-metragens que me pareceram ter um obscuro sentido de continuidade entre si: "Une partie de campagne" de Jean Renoir, "A agência matrimonial" de Federico Fellini e "O milagre" de Roberto Rossellini. No fim da projecção, os pastorinhos mostraram um grande interesse pelo filme do Rossellini (o que, de resto, seria de esperar), e desprezaram as outras duas obras (curiosamente, a curta do francês é, das três, a que maior consenso histórico gerou).
De qualquer modo, isto tem muito a ver com Renoir. É um cineasta que nunca fez um filme que ostentasse a pretensão de ser um filme sério, um filme importante (mas também nunca fez uma inanidade de mula fingida). Se os hollywoodianos são predadores das emoções do espectador, muitas vezes os candidatos a autor são predadores da sua aprovação. Jean Renoir nunca nos esfregou o seu génio na cara - ele pede apenas a nossa generosidade.
(Na imagem: "Elena et les hommes", filme desprezado)
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domingo, janeiro 11, 2009
Faz sentido
Durante as mini-obras-macro-caos que tive em casa (que me permitiram montar uma pequena biblioteca organizada), só dei pelo desaparecimento de um livro: "Alice do outro lado do espelho".
terça-feira, dezembro 23, 2008
Alterações climáticas

Conforme vou ficando menos novo, vão-se alterando as minhas predisposições climáticas. Já não gosto de neve, nem de chuva, nem de frio, e qualquer dia nem pelo outono respondo. Agora, só quero clima tropical, calção e chinela o dia inteiro, mar à temperatura da sopa, pássaros exóticos, bossa nova e aguinha de coco.
Não, não vou viajar. É só para desejar Bom Natal.
Não, não vou viajar. É só para desejar Bom Natal.
(Imagem retirada daqui)
quarta-feira, novembro 26, 2008
el bullinho
Um dia destes, fiz um milagre: misturei as pevides de uma romã (que eu separo do fruto com paciência de Job) com um farrapo de vinho do Porto.
Recomendo (com buraco negro Michelin).
Recomendo (com buraco negro Michelin).
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domingo, novembro 23, 2008
Fora-de-texto
A primeira vez que me desloquei a uma sala de projecção para ver um filme de Andrei Tarkovsky, encontrei um barbudo de fato-de-macaco que me disse que aquilo era cinema muito difícil, muito simbólico. Eu já ia cheio de medo, medo de não compreender o filme de um intelectual. Mas aquela introdução amacacada só desajudou: passei todo o "Stalker" a tentar descortinar o sentido por trás de cada objecto que aparecia na imagem. Isto quer dizer aquilo, aquilo quer dizer aqueloutro, aqueloutro quer dizer aquelaqueloutro - um verdadeiro dominó de alienação.
Talvez por causa desse episódio anti-iniciático, eu sempre me tenha divertido a gozar os simbólicos. Repare-se que eu sou insuspeito: contra toda a teoria contemporânea, sou um ardente defensor da metaforização (da penetração de cada ser por um outro). Mas quer-me parecer que o tipo de hermenêutica que se ensina na escola (mesmo o meu magnífico professor de português do secundário caía por vezes nessa esparrela), e acima de tudo a insegurança intelectual de alguns intelectuais, faz com que muitas vezes o acto de leitura seja completamente desvirtuado.
A leitura é a compreensão (detectivesca, se quisermos...) do modo como funciona um texto (literário, visual, musical, etc.). Um texto pode conter símbolos, mas também pode não os conter (não há dogmas na criação). O sentido pode apresentar-se transparente ou obscuro. Mas ler não significa propriamente decobrir o sentido (embora isso também possa ser relevante). O detective-leitor está à procura não tanto do autor do crime mas da maneira como o crime foi executado.
Perante um filme, é preciso perceber como a direcção de actores, a escolha dos enquadramentos, as opções de montagem, etc., como tudo isso funciona de modo a criar um todo coerente (coerente, note-se, não tem nada a ver com puro nem com perfeito, nem mesmo com lógico), um todo em torno do qual se possa construir uma estabilidade conceptual provisória. Se esse todo se articula em mensagem, ensinamento, interrogação, exposição, sensação, ocultação, etc., isso difere de filme para filme.
Já conheci todo o tipo de simbólicos: desde um rapaz que queria atribuir uma conotação metafísica aos ratinhos que aparecem no "Bleu" de Kieslovski, até à senhora que afirmava não gostar de Fiama Hasse Pais Brandão porque aquilo era só "metáforas" (ou seja, a senhora não entendia o funcionamento de uma poética que, por acaso, até tem uma relação problemática com a metaforização...).
A vontade de escrever este post surgiu-me quando, ao fazer a leitura do poema "estação" de Mário Cesariny, tive a ideia de que a palavra "vir", a mais relevante desse texto, talvez pudesse ser lida como uma evocação latina da masculinidade (como Cesariny era homossexual, teria assim anotado secretamente a orientação do seu desejo num poema que, precisamente, fala de desejo). No entanto, parece-me de todo improvável que isso possa ser lido dessa forma. Mesmo que, na leitura do meu post, eu defenda alguns processos de semantização que talvez não tenham sido usados conscientemente pelo autor, a verdade é que eles se articulam uns com os outros numa estabilidade conceptual provisória (o poema ultrapassa sempre o seu poeta), e são todos decifrados a partir daquilo que o texto oferece. Ao contrário, não há no poema nenhum indício de citação clássica, de substracto verbal morto, nem mesmo de ludicidade joyceana. Pelo que descartei aquela possibilidade leitura, com receio de passar da hermenêutica para o simples delírio.
Ler é, de facto, difícil. Ler um livro, um homem, uma sociedade, um firmamento. Mas depois de ter lido o "Dom Quixote", fiquei convicto de que a falta dessa competência é um dos problemas centrais da Humanidade.
Talvez por causa desse episódio anti-iniciático, eu sempre me tenha divertido a gozar os simbólicos. Repare-se que eu sou insuspeito: contra toda a teoria contemporânea, sou um ardente defensor da metaforização (da penetração de cada ser por um outro). Mas quer-me parecer que o tipo de hermenêutica que se ensina na escola (mesmo o meu magnífico professor de português do secundário caía por vezes nessa esparrela), e acima de tudo a insegurança intelectual de alguns intelectuais, faz com que muitas vezes o acto de leitura seja completamente desvirtuado.
A leitura é a compreensão (detectivesca, se quisermos...) do modo como funciona um texto (literário, visual, musical, etc.). Um texto pode conter símbolos, mas também pode não os conter (não há dogmas na criação). O sentido pode apresentar-se transparente ou obscuro. Mas ler não significa propriamente decobrir o sentido (embora isso também possa ser relevante). O detective-leitor está à procura não tanto do autor do crime mas da maneira como o crime foi executado.
Perante um filme, é preciso perceber como a direcção de actores, a escolha dos enquadramentos, as opções de montagem, etc., como tudo isso funciona de modo a criar um todo coerente (coerente, note-se, não tem nada a ver com puro nem com perfeito, nem mesmo com lógico), um todo em torno do qual se possa construir uma estabilidade conceptual provisória. Se esse todo se articula em mensagem, ensinamento, interrogação, exposição, sensação, ocultação, etc., isso difere de filme para filme.
Já conheci todo o tipo de simbólicos: desde um rapaz que queria atribuir uma conotação metafísica aos ratinhos que aparecem no "Bleu" de Kieslovski, até à senhora que afirmava não gostar de Fiama Hasse Pais Brandão porque aquilo era só "metáforas" (ou seja, a senhora não entendia o funcionamento de uma poética que, por acaso, até tem uma relação problemática com a metaforização...).
A vontade de escrever este post surgiu-me quando, ao fazer a leitura do poema "estação" de Mário Cesariny, tive a ideia de que a palavra "vir", a mais relevante desse texto, talvez pudesse ser lida como uma evocação latina da masculinidade (como Cesariny era homossexual, teria assim anotado secretamente a orientação do seu desejo num poema que, precisamente, fala de desejo). No entanto, parece-me de todo improvável que isso possa ser lido dessa forma. Mesmo que, na leitura do meu post, eu defenda alguns processos de semantização que talvez não tenham sido usados conscientemente pelo autor, a verdade é que eles se articulam uns com os outros numa estabilidade conceptual provisória (o poema ultrapassa sempre o seu poeta), e são todos decifrados a partir daquilo que o texto oferece. Ao contrário, não há no poema nenhum indício de citação clássica, de substracto verbal morto, nem mesmo de ludicidade joyceana. Pelo que descartei aquela possibilidade leitura, com receio de passar da hermenêutica para o simples delírio.
Ler é, de facto, difícil. Ler um livro, um homem, uma sociedade, um firmamento. Mas depois de ter lido o "Dom Quixote", fiquei convicto de que a falta dessa competência é um dos problemas centrais da Humanidade.
quarta-feira, novembro 19, 2008
Know why (post humilde)
Por vezes receio que as minhas diatribes contra aquela arte contemporânea que secundariza o papel da pintura sejam interpretadas como nostalgias-do-restelo.Que fique aqui gravado que eu não tenho nada contra novos suportes, e que sou a favor de todos os esforços de emancipação e pesquisa criativa. O que acontece é que, para além de eu ter sempre algum pudor em deitar coisas ao lixo (a não ser que elas sejam tóxicas), acho estranho que, a partir de certa altura, os artistas plásticos tenham quase todos perdido o gosto de pintar. Como se quase todos tivessem mudado a sua orientação sensual.
Vejo por mim. Eu gosto de poesia. Mais exactamente: eu gosto de escrever poesia. É claro que eu posso continuar a ser poeta quando escrevo um romance, quando concebo uma performance, quando cuido da horta ou faço amor. Mas nunca me passaria pela cabeça deixar de escrever, por obediência à ideia (peregrina?) de que nada de novo pode ser expresso por via da escrita.
Basicamente, eu não estou interessado no título (nobiliárquico) de Poeta. Talvez seja falta de ambição (talvez não), mas eu quero é prolongar o irredutível (e tenebroso) prazer de escrever. Poesia.
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sábado, novembro 08, 2008
Nota Messiaen

Eu, que tanto aprecio um cavalheiro como Luiz Pacheco quanto um javardo como Olivier Messiaen, tenho uma relação complexa com a religião.
Aos onze anos, já cometia blasfémias e riscava santinhos com o rosto hippy de Jesus Cristo. Não tardei em tornar-me ateu convicto, capaz de longas discussões teológicas com amigas que talvez estivessem mais interessadas noutras coisas, demolindo todo o edifício judaico-cristão com a convicção da juventude e da liberdade da inteligência.
Hoje em dia, presumo que sou aquilo que se chama um agnóstico. Indiferente. Não há nenhuma prova da existência de Deus. Defendo isso contra todos os obscurantismos. Mas também não há prova da sua inexistência (se bem que me interrogue se um dia não viremos a saber que o que de facto existe é afinal a Fada Sininho ou o Monstro de Loch Ness - ou seja, porquê o conceito de Deus?). Mas nada disto me interessa. Se Deus se pretendeu NÃO-MANIFESTÁVEL, é porque não quer que percamos tempo consigo. E se a tal juntarmos o puritanismo, a hipocrisia, a história criminosa da Igreja, então é que ficamos mesmo conversados.
No entanto, a minha parte favorita d' "A divina Comédia" não é, como acontece com toda a gente, o Inferno, mas sim o Paraíso... Como eu me recuso a tomar drogas (não por uma questão moral, mas porque já tenho fraquezas que cheguem), penso mesmo que a teologia funciona em mim como se fosse uma substância de prazer alucinatório. É que eu não posso ouvir falar em Luz incomensurável, em Bondade que tudo redime, em Jardins sem mácula, em Harmonias celestiais ou em Eternidade livre de dor, sem que o meu íntimo derreta como um adolescente apaixonado. Não é apenas nostalgia do Paraíso, mas também de um Sono sem pesadelos, de uma Ternura sem usura, de um Conhecimento sem limitações kantianas (tudo isto enquanto categorias do pensamento, não do sobrenatural).
Já ouvi gente dizer que, se ouvir demasiado Messiaen, ainda acaba por se converter. Sou demasiado terra-a-terra para tal. Mas leiam só isto que está escrito na partitura de "O papa-figos" da obra pianística "Catálogo dos pássaros":
"Le loriot, le bel oiseau jaune d'or aux ailes noires, siffle dans les chênes. Son chant, coulé, doré, comme un rire de prince étranger, évoque l'Afrique et l'Asie, ou quelque planète inconnue, remplie de lumière et d'arcs-en-ciel, remplie de sourires à la Leonard de Vinci."
Aos onze anos, já cometia blasfémias e riscava santinhos com o rosto hippy de Jesus Cristo. Não tardei em tornar-me ateu convicto, capaz de longas discussões teológicas com amigas que talvez estivessem mais interessadas noutras coisas, demolindo todo o edifício judaico-cristão com a convicção da juventude e da liberdade da inteligência.
Hoje em dia, presumo que sou aquilo que se chama um agnóstico. Indiferente. Não há nenhuma prova da existência de Deus. Defendo isso contra todos os obscurantismos. Mas também não há prova da sua inexistência (se bem que me interrogue se um dia não viremos a saber que o que de facto existe é afinal a Fada Sininho ou o Monstro de Loch Ness - ou seja, porquê o conceito de Deus?). Mas nada disto me interessa. Se Deus se pretendeu NÃO-MANIFESTÁVEL, é porque não quer que percamos tempo consigo. E se a tal juntarmos o puritanismo, a hipocrisia, a história criminosa da Igreja, então é que ficamos mesmo conversados.
No entanto, a minha parte favorita d' "A divina Comédia" não é, como acontece com toda a gente, o Inferno, mas sim o Paraíso... Como eu me recuso a tomar drogas (não por uma questão moral, mas porque já tenho fraquezas que cheguem), penso mesmo que a teologia funciona em mim como se fosse uma substância de prazer alucinatório. É que eu não posso ouvir falar em Luz incomensurável, em Bondade que tudo redime, em Jardins sem mácula, em Harmonias celestiais ou em Eternidade livre de dor, sem que o meu íntimo derreta como um adolescente apaixonado. Não é apenas nostalgia do Paraíso, mas também de um Sono sem pesadelos, de uma Ternura sem usura, de um Conhecimento sem limitações kantianas (tudo isto enquanto categorias do pensamento, não do sobrenatural).
Já ouvi gente dizer que, se ouvir demasiado Messiaen, ainda acaba por se converter. Sou demasiado terra-a-terra para tal. Mas leiam só isto que está escrito na partitura de "O papa-figos" da obra pianística "Catálogo dos pássaros":
"Le loriot, le bel oiseau jaune d'or aux ailes noires, siffle dans les chênes. Son chant, coulé, doré, comme un rire de prince étranger, évoque l'Afrique et l'Asie, ou quelque planète inconnue, remplie de lumière et d'arcs-en-ciel, remplie de sourires à la Leonard de Vinci."
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sábado, outubro 25, 2008
Retalhos da vida de um jovem 3
Quando eu comecei a escrever poemas-de-quem-tem-vinte-anos-mal-medidos, houve quem me tivesse dito, com a mais pedagógica educação, que aquilo era mau como o excremento das cobras. Estive, por isso, cerca de seis anos em silêncio, sem saber como poderia fazer corresponder psicologia, intelecto, experiência e expressão num processo genuíno.
Foi só em 1998, já com vinte e seis verões pré-al-gore (tardio como em tudo), que voltei a escrever: estou portanto a fazer dez anos de morte oculto-literária. Como os poemas desse novo período me pareceram mais ajeitadinhos, resolvi fingir que não me achava o melhor poeta à face da terra e assim enviei os meus textículos a um poeta famigerado para que ele sobre eles se pronunciasse com um inevitável derrame de admiração.
E como, anos antes, tinha dirigido uma curta-metragem com base num texto de Herberto Helder, estando por isso na posse dos dados do seu endereço de então, foi mesmo ao autor de "A colher na boca" que mandei os meus trejeitos de poetizo.
Herberto Helder foi de uma gentileza sem par. Disse-me que gostava dos poemas, se bem que eu não o esmagasse como Rimbaud e Celan (sic). Gostei mais da segunda parte da apreciação: se alguém tem de se defender do nosso abrir-em-vaidade com tais termos de comparação, é porque o ego-pavão já tem algum colorido no cu.
Até aqui, tudo bem. Mas eu não dei tréguas. Ao sonho romântico do mestre autorizante, seguiu-se o delírio incm da correspondência-postumamente-publicada. Ora, na altura, eu tinha um amigo que, ao contrário de mim, não disfarçava as suas ambições, e que me garantiu, verdade verdadinha, que toda a gente sabia que o Herberto Helder passava as tardes a jogar suecadas no Bairro Alto (ou no Chiado, já não me lembro). Era a fantasia total: então não é que o poeta cuja faca não corta o fogo era um viciado cortador de baralhos? Ah, a boémia, a boémia...
O pavão não esteve com meias medidas (estava naquela fase em que o poeta se acha um acelerador de partículas só porque descobriu que Roma é anagrama de Amor). E assim, engraçadinho da polissemia, eu disse ao Herberto Helder que sabia que ele gostava de jogar cartas, e que por isso gostaria de continuar a nossa correspondência. Ao que o Poeta me respondeu, furioso, que detestava tanto o jogo como a epistolografia.
Foi então que terminou, bruscamente, este capítulo das minhas obras póstumas. Mas garanto-vos: como pessoa, tenho melhorado um bocadinho.
Foi só em 1998, já com vinte e seis verões pré-al-gore (tardio como em tudo), que voltei a escrever: estou portanto a fazer dez anos de morte oculto-literária. Como os poemas desse novo período me pareceram mais ajeitadinhos, resolvi fingir que não me achava o melhor poeta à face da terra e assim enviei os meus textículos a um poeta famigerado para que ele sobre eles se pronunciasse com um inevitável derrame de admiração.
E como, anos antes, tinha dirigido uma curta-metragem com base num texto de Herberto Helder, estando por isso na posse dos dados do seu endereço de então, foi mesmo ao autor de "A colher na boca" que mandei os meus trejeitos de poetizo.
Herberto Helder foi de uma gentileza sem par. Disse-me que gostava dos poemas, se bem que eu não o esmagasse como Rimbaud e Celan (sic). Gostei mais da segunda parte da apreciação: se alguém tem de se defender do nosso abrir-em-vaidade com tais termos de comparação, é porque o ego-pavão já tem algum colorido no cu.
Até aqui, tudo bem. Mas eu não dei tréguas. Ao sonho romântico do mestre autorizante, seguiu-se o delírio incm da correspondência-postumamente-publicada. Ora, na altura, eu tinha um amigo que, ao contrário de mim, não disfarçava as suas ambições, e que me garantiu, verdade verdadinha, que toda a gente sabia que o Herberto Helder passava as tardes a jogar suecadas no Bairro Alto (ou no Chiado, já não me lembro). Era a fantasia total: então não é que o poeta cuja faca não corta o fogo era um viciado cortador de baralhos? Ah, a boémia, a boémia...
O pavão não esteve com meias medidas (estava naquela fase em que o poeta se acha um acelerador de partículas só porque descobriu que Roma é anagrama de Amor). E assim, engraçadinho da polissemia, eu disse ao Herberto Helder que sabia que ele gostava de jogar cartas, e que por isso gostaria de continuar a nossa correspondência. Ao que o Poeta me respondeu, furioso, que detestava tanto o jogo como a epistolografia.
Foi então que terminou, bruscamente, este capítulo das minhas obras póstumas. Mas garanto-vos: como pessoa, tenho melhorado um bocadinho.
quinta-feira, outubro 16, 2008
Red tape
Numa das escolas (de ensino artístico) onde dou aulas, verifico que há um certo respeito institucional pela figura recentemente criada da auto-avaliação do desempenho dos professores (uma trapalhada de documentos que exige muita disponibilidade temporal).Perante o meu relatório referente ao ano passado, no qual pedi a nota global máxima porque achei que, naquele período lectivo específico, a tinha merecido, a direcção pedagógica dessa escola (que, de resto, muito admiro e na qual tenho plena confiança) aumentou o nível de uma das secções parcelares da auto-avaliação (de 4 para 5), e baixou-me o nível numa outra secção (de 5 para 4), o que, em termos globais, deixou a nota inalterada. No entanto, o abaixamento daquela nota parcelar foi justificado apenas pelo desleixo com que eu preparei precisamente... o relatório de auto-avaliação (o que é a mais pura das verdades). E em seguida, a figura da dita auto-avaliação foi elogiada enquanto forma da escola conseguir reunir argumentação suficiente e documentada no caso de pretender despedir algum membro do seu corpo docente.
Ora, continuo sem perceber a função de toda esta trapalhada. Na verdade, a minha auto-avaliação pode ser sempre alterada pela comissão que sobre ela se debruçar. Parece-me, assim, lógico que gastaríamos menos papel e menos tempo (time is knowledge) se as direcções das escolas assumissem, directamente, qual a sua própria avaliação do trabalho dos seus funcionários (e repito que, neste caso, eu teria confiança no seu juízo, o que não exclui a eventualidade de discordância e protesto). Repare-se que, se a direcção for desonesta, não vai ser o relatório que vai proteger o trabalhador, na medida em que a sua alteração é sempre possível (e a desonestidade encontra sempre argumentos). E se for honesta e competente, saberá avaliar convenientemente os professores que trabalham sob a sua alçada.
E depois, veja-se o meu caso: o que me transmitiram foi que me consideravam um bom trabalhador, mas que eu não me tinha empenhado o suficiente na elaboração do documento de auto-avaliação... O que quer dizer que o pior trabalhador da instituição pode ser de tal modo genial a fazer relatórios documentados que a escola fica sem a argumentação fundamentada que justifica a existência desses mesmos relatórios.
Não será isto um bocadinho absurdo?
Ora, continuo sem perceber a função de toda esta trapalhada. Na verdade, a minha auto-avaliação pode ser sempre alterada pela comissão que sobre ela se debruçar. Parece-me, assim, lógico que gastaríamos menos papel e menos tempo (time is knowledge) se as direcções das escolas assumissem, directamente, qual a sua própria avaliação do trabalho dos seus funcionários (e repito que, neste caso, eu teria confiança no seu juízo, o que não exclui a eventualidade de discordância e protesto). Repare-se que, se a direcção for desonesta, não vai ser o relatório que vai proteger o trabalhador, na medida em que a sua alteração é sempre possível (e a desonestidade encontra sempre argumentos). E se for honesta e competente, saberá avaliar convenientemente os professores que trabalham sob a sua alçada.
E depois, veja-se o meu caso: o que me transmitiram foi que me consideravam um bom trabalhador, mas que eu não me tinha empenhado o suficiente na elaboração do documento de auto-avaliação... O que quer dizer que o pior trabalhador da instituição pode ser de tal modo genial a fazer relatórios documentados que a escola fica sem a argumentação fundamentada que justifica a existência desses mesmos relatórios.
Não será isto um bocadinho absurdo?
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quarta-feira, outubro 15, 2008
pedroludgerismo
Não forço, como os modernos, a originalidade.
Mas também não a desprezo, como os pós-modernos.
Tento ser fiel ao meu espírito: se ele por acaso for original, a sua obra também o será.
Mas também não a desprezo, como os pós-modernos.
Tento ser fiel ao meu espírito: se ele por acaso for original, a sua obra também o será.
quinta-feira, outubro 09, 2008
Retalhos da vida de um jovem 2
No PÚBLICO de hoje, a Dra. Rita Lobo Xavier, professora de Direito na Universidade Católica do Porto, pronuncia-se contra a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, manifestando um certo receio pela sobrevivência (??) das sociedades que tomem esse casamento, incapaz de gerar vida do ponto de vista biológico, como um dos seus modelos de contrato relacional.
Quando eu era um jovem retalhado, foi-me imposto um curso de Direito na Universidade Católica do Porto durante cinco penosos e absurdos anos, incapazes de gerar vida do ponto vista intelectual. A Dra. Rita Lobo Xavier foi minha professora (não me perguntem qual foi a disciplina, de tal modo eu passei distraído, e canino, por essa estéril vi(nh)a académica).
Numa das aulas da Dra. Rita a que tive o privilégio de assistir, a eminente professora defendeu (não sei a propósito de quê) que, se um católico não concordasse com todos os mandamentos decretados pela sua Igreja, deveria simplesmente apostatar. Como acontece em todas as aulas de todas as Universidades do mundo, eu segredei qualquer coisa para a colega do lado. A Dra. Rita, qual mestra de catequese, pediu então que eu revelasse à turma o conteúdo do meu mistério e eu, feito crente, resolvi confessar a verdade.
Então eu disse que não concordava com a dita opinião, e que achava que um católico podia manter a sua religiosidade ainda que, movido pela liberdade do seu pensamento, não concordasse com todas as materializações institucionais da fé. Ao que a Dra. Rita me respondeu que isso não era assim (não me disse que essa não era a sua opinião...): todo o cristão, se estivesse na vertigem da heterodoxia, teria forçosamente de apostatar. E eu dizia que não. E ela dizia que sim. E eu dizia que não. E ela dizia que sim. E foi assim o meu momento-clube-dos-poetas-mortos, mas ao contrário.
Este golpe baixo, nada habitual no historial do cabodaboatormenta, serve apenas para eu continuar a conversar com a Dra. Rita (long time, no see), e lhe dizer que nem sequer me digno reflectir sobre a opinião de uma pessoa que por norma aceita as imposições da autoridade sem a menor liberdade de pensamento.
Fim de comunicação.
Quando eu era um jovem retalhado, foi-me imposto um curso de Direito na Universidade Católica do Porto durante cinco penosos e absurdos anos, incapazes de gerar vida do ponto vista intelectual. A Dra. Rita Lobo Xavier foi minha professora (não me perguntem qual foi a disciplina, de tal modo eu passei distraído, e canino, por essa estéril vi(nh)a académica).
Numa das aulas da Dra. Rita a que tive o privilégio de assistir, a eminente professora defendeu (não sei a propósito de quê) que, se um católico não concordasse com todos os mandamentos decretados pela sua Igreja, deveria simplesmente apostatar. Como acontece em todas as aulas de todas as Universidades do mundo, eu segredei qualquer coisa para a colega do lado. A Dra. Rita, qual mestra de catequese, pediu então que eu revelasse à turma o conteúdo do meu mistério e eu, feito crente, resolvi confessar a verdade.
Então eu disse que não concordava com a dita opinião, e que achava que um católico podia manter a sua religiosidade ainda que, movido pela liberdade do seu pensamento, não concordasse com todas as materializações institucionais da fé. Ao que a Dra. Rita me respondeu que isso não era assim (não me disse que essa não era a sua opinião...): todo o cristão, se estivesse na vertigem da heterodoxia, teria forçosamente de apostatar. E eu dizia que não. E ela dizia que sim. E eu dizia que não. E ela dizia que sim. E foi assim o meu momento-clube-dos-poetas-mortos, mas ao contrário.
Este golpe baixo, nada habitual no historial do cabodaboatormenta, serve apenas para eu continuar a conversar com a Dra. Rita (long time, no see), e lhe dizer que nem sequer me digno reflectir sobre a opinião de uma pessoa que por norma aceita as imposições da autoridade sem a menor liberdade de pensamento.
Fim de comunicação.
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