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terça-feira, agosto 23, 2011

Conselhos a um jovem prosador (eu)

Recentemente, tenho vindo a sentir-me mais apto na escrita de prosa de ficção. Não quero com isto dizer que pretendo auferir um estatuto específico com esse modesto progresso, mas penso que devo partilhar as razões que possibilitaram a aquisição da relativa desenvoltura (num diário, pensa-se publicando). Esquematicamente:

1.
Sou, neste momento, capaz de visualizar o essencial do conto que pretendo escrever. Esta condição não significa que eu saiba todos os passos do texto por vir (esses são descobertos no momento do fazer), mas também já não equivale à ideia vaga de uma situação ficcional com a qual, no passado, eu partia para a escrita. Sei para onde quero ir, o que pretendo atingir, e como.

2.
Estou apaixonado por cada conto que quero escrever. É uma condição essencial. Antigamente, estaria com toda a certeza apaixonado pela linguagem, mas não sonhava a narrativa projetada, como sonho um poema, um ensaio ou um filme.

3.
Estou também, finalmente, em pleno controlo da minha poética. Na minha prosa anterior, encontrava-me demasiado ansioso para escrever bem, para escrever belas páginas, e forçava a qualidade da escrita até ela degenerar num mau barroco (o autor barroco tem de ser tão rigoroso quanto o minimalista...). Isso já não acontece: a beleza tornou-se um mero fator de respiração.

4.
Perdi a ansiedade da imensa folha por preencher. Costumava ficar petrificado perante o número de palavras que era necessário desenterrar para compor uma folha de papel em branco, e recorria a todo o tipo de expedientes para que o chouriço nunca deixasse de ser enchido. Começo agora a conseguir dar o devido peso a cada palavra na estratégia global de um texto. Tornei-me um verdadeiro economista. O tamanho do conto? que sera, sera.

5.
Começo a interessar-me por questões de forma e de técnica que têm a ver especificamente com a arte da narração literária. Estou por isso apto a jogar o jogo romanesco, a jogar sobretudo com as suas regras, a tentar expandi-las, provocá-las, ou confessar o seu vigor. É, de facto, prosa de ficção o que quero escrever quando escrevo prosa de ficção.

(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, agosto 17, 2011

Auto-retrato de Agosto

Sou uma mula estupidamente racional: não aceito pre-conceitos, não aceito superstições, defendo um ponto de vista distanciado.

A despeito da minha prática de uma poesia lírica, sou bastante pragmático: acho sinceramente que uma das causas da decadência lusa é o gosto que os portugueses têm de ir conversar, em vez de trabalhar, para as reuniões. Aprecio a síntese, a clareza, a eficácia.

Sou fiel à ciência, ainda que ela me fascine muito pouco (não sei nada de medicina, nem quero saber).

Curiosamente, sou capaz de paixões de caixão à cova, tenho um amor incondicional pela beleza de parte do mundo (convido o Manuel de Freitas para um duelo a propósito de flores) e sou dado a inúmeras fobias que não consigo controlar.

Agnóstico, adoro falar sobre Deus: eu faço o meu próprio cinemascope, o meu technicolor, o meu offshore de imaginação.

Amo a Humanidade, o melhor tema sobre o qual um homem pode falar. Mas dentro deste plano abstrato, sou um pessimista abrupto: espero simplesmente o pior de toda esta espécie. Na relação de um-para-um, há pessoas de quem gosto e há pessoas de quem não gosto. De quem não gosto mesmo nada. A este nível concreto, sou otimista: acho que cada um dos meus amigos pode encontrar o seu melhor dentro das condições que o mundo lhe impõe.

Apesar de ter sido um excelente aluno até à entrada na faculdade, não fui nada precoce. Nada. Só aprendi a escrever poesia aos vinte e seis anos de idade, e penso ter aprendido a escrever ficção aos trinta e oito. Ainda tenho esperança em relação ao teatro. Orgulho-me de nunca ter estagnado e de me sentir ainda a evoluir.

Sou uma contradição: nada na minha gentileza, na minha moderada cobardia diária, na minha timidez, pode preparar o potencial leitor para a minha escrita. Aviso: aquilo que eu escrevo é aquilo que eu, de facto, sou.

Não posso esconder que já considerei mais do que uma vez o suicídio. Tive a minha dose de desesperos inteiriços e o problema camusiano fez de mim filósofo. Acabei por perceber que gosto disto aqui. As larachas que a mim mesmo contei, o pensamento vicioso (a vida é um vício) que me obrigou a permanecer: era capaz de vender a mim mesmo a vida de um extremófilo.

Tenho uma força de árvore: quieto mas firme. Sou fiel até ao prejuízo pessoal, mas sou capaz de deixar de amar se o amor me estiver a impedir a vida.

sexta-feira, julho 22, 2011

Compreender e ser compreendido

Quando li a obra poética de Rimbaud pela primeira vez, fiquei completamente fascinado, rendido, sem ter percebido nada do que tinha acabado de ler. No entanto, e ao contrário do que sempre se diz sobre o facilitismo do presente, a liberdade faz de todos nós os eleitores do relevo das nossas próprias dificuldades: há quem queira conquistar um salto olímpico, há quem queira seduzir um homem ou uma mulher demasiado belos, há quem tenhas aulas de voz para chegar a primeiro ministro, há quem queira enriquecer... Eu decidi que havia de compreender tudo aquilo que na escrita e no cinema se fazia difícil de apanhar.

Dizem-me que, nas coisas que precisamente vou escrevendo sobre literatura e sobre a sétima arte, eu sou fácil de entender. O elogio é arremessado a título de uma putativa preocupação pedagógica da minha parte, o que, francamente, me custa a aceitar sem algum grau de legítima defesa.

É verdade que, graças não sei bem a quê, nunca fui dado a hermenêuticas simplistas (o mundo está cheio de maus leitores), e nunca restringi a minha relação com uma obra de arte a uma espécie de sherlockiana decifração. Ao discurso de uma obra, eu preciso simplesmente de contrapor o meu discurso, preciso de integrar os seus estímulos no meu próprio sistema (de pensamento, de experiência, de memória, de sensualidade). É, por isso, de forma bastante genuína que eu proponho compreensões transparentes: estou, eu-mesmo, a tentar compreender. E como não sou muito dado à abstracção ou à digressão (estou a ser absolutamente franco), concentro todo o meu labor de leitura em miniaturas de clareza e palpabilidade.

Ao mesmo tempo que quero compreender, eu quero ser compreendido. No fundo, escrevo "O INACTUAL", "O ACTUAL" ou "NO ESCRÍNIO" para que a minha sobrinha (em sentido lato) não me julgue lunático ou pretensioso quando assumo a minha admiração por Chantal Ackerman, Albert Serra ou Wallace Stevens. E quando rejeito "Gone with the wind", "Slumdog millionaire" ou a "Trova do vento que passa". Não tenho grandes ilusões de proselitismo, mas acredito na racionalidade tendencial da argumentação sincera. Se até a Brigitte Bardot tinha dúvidas sobre a beleza do seu corpo ("Le mépris"), e sendo a evidência tão rara quanto a paixão, como não havemos de explicar o pai-nosso ao vigário com a esperança de que este entenda, um dia, o vigarista?

Confissão 31 + Cadernos Rimbaldianos 7

Exactamente como Arthur Rimbaud, eu posso dizer que tive uma infância naturalmente feliz e uma juventude miticamente penosa. Todavia, o poeta francês construiu o seu sofrimento em excesso de vida (quando deixou de escrever, aos vinte anos, parecia ter experimentado uma biografia de muitas décadas), enquanto eu passei a pouca seriedade dos anos em que não se é sério na clausura da minha casa, como Emily Dickinson. Penso que, fascínio crítico à parte, esta será uma das razões subterrâneas pelas quais elegi o autor de "Une saison en enfer" como interlocutor privilegiado (e em torno da sua obra gravitarei certamente durante alguns anos). À aporia faulkneriana que hesita entre a dor e o nada, eu acrescentaria aquela outra que não sabe o que pedir ao génio que sai da lâmpada-do-desejo-único: a felicidade ou a juventude?

quinta-feira, junho 30, 2011

Agnosticismo estendido

Li, certo dia, uma breve e bem-humorada autobiografia do fotógrafo Gérard Castello-Lopes, na qual ele assumia que tivera alguns problemas na sua vida por causa de ser heterossexual...

Ora, o agnóstico não está menos sujeito à incompreensão preconceituosa. Sempre que eu confesso ser essa a minha atitude perante a fé, os ateus acusam-me de "não tomar posição" (isto, quando não me vêm com argumentos delirantes tentando provar a inexistência de Deus), os religiosos sugerem que a minha hesitação é sinal de que esse mesmo Deus me está a conduzir, paulatinamente, até ele.

Na verdade, não aceito que me chamem ateu nem que me chamem quase-religioso. Eu, de facto, tomei uma posição, uma posição mais funda e filosófica do que a destes doentes de clubismo: eu não acredito que o Homem tenha meios para conhecer a verdade acerca deste assunto (já se inventou o microscópio metafísico?). É de tal modo uma posição assumida, que a epígrafe dos textos teórico-críticos sobre literatura que estou a publicar no site "Orfeu de corpo inteiro" é: "Ensaios de um autor rigorosamente agnóstico". Rigorosamente: todo o meu sistema de pensamento está a ser construído a partir dessa premissa.

Aliás, eu não só reconheço a impotência intelectual humana neste domínio, como o acho um domínio algo irrelevante. Se por acaso existiu um Demiurgo gerador do Universo, é muito claro que ele apenas criou (e que bem criou!) as regras pelas quais a vida poderia medrar nesse Universo, e fez essa biologia ser atravessada pelas possibilidades da linguagem (da construção da cultura) que ao mesmo tempo permite e dificulta a emancipação do Homem dos rigores naturais. Ao contrário do que diz Agustina Bessa-Luís, a revolução (que aqui tomo em sentido lato) não se opõe à obra divina, porque a revolução é um produto natural da linguagem (que permite reequacionar alguns aspectos da realidade) e a linguagem é uma consequência, sofisticadíssima é certo, da evolução biológica cujas possibilidades podem ter sido geradas por Deus.

Agora, que esse Senhor nos ande a pregar partidas, ora agora manda um incêndio com dez mandamentos, ora faz um show de sol perto de Leiria, ora pune os invertidos com doenças macacas, ora providencia a cobrição das místicas, e ainda escreve Livros e faz milagres hollywoodianos avant la lettre... Não, para isso não contem com a minha credulidade. Se Deus existe, ele pretende ser incognoscível e pairar apenas nos corações humanos como uma desconfiança inquietante.

De resto, sou fascinado pelas grandes figuras da religiosidade, desde que sejam heterodoxas (condição sem a qual não sou capaz de respeitar a inteligência de ninguém). Acho mesmo que Deus é uma guloseima na minha boca de vate (gosto imenso de falar sobre essa maravilha conceptual), e um dos projectos pessoais futuros que mais acarinho é a escrita de um livro de orações ao estilo de Lewis Carroll.

Mas o agnosticismo impõe-se sempre. Aliás, quero-o mesmo estendido. Desde logo, milito pela separação completa entre a filosofia e a teologia (opinião que não poderá ser partilhada por um homem de fé, claro). E gostaria que a filosofia pudesse ser limpa das questões que de algum modo se prendem ou com a transcendência (por exemplo, conhecer o verdadeiro sentido da palavra "eternidade") ou com a tentação do absoluto (por exemplo, questionar a veracidade da "existência"). A filosofia é uma arma que o homem pode manejar para continuamente discutir as suas possibilidades como espécie, como civilização, como habitante da imanência.

Deus criou o Homem para que ele fosse político.

sexta-feira, junho 17, 2011

Crónica da Celebridade

Temos todos nós dentro um Lobo Antunes em latência, desejoso de ver a Avenida da Liberdade repleta de povo, não para ir ao piquenique do Continente, claro, mas para nos levar em ombros até à glória. Lembro-me de uma gravura que me impressionou imenso na adolescência, com o Schubert a chegar ao Paraíso e a ser recebido de braços abertos pelo Bach, o Mozart, o Haydn... Se eu me lembro disto (e a gravura nem era notável do ponto de vista pictórico), quer dizer que não estou propriamente imune a delírios de vaidade.

Mas o tempo passa. E com ele, passa muita coisa (não toda). A verdade é que, jovem tontinho que pensava que os criadores andavam de mãos dadas saltitando em jardins ingleses, acabei por me aperceber de que o mundo dos artistas era tão cão quanto o dos empresários, o dos políticos ou o dos padres (o que só acentuou a minha tendência patológica para a misantropia). Uma receita gourmet à base de sofrimento, pensamento, reconversão do prazer e das prioridades acabou por modificar o teor das minhas condições para a realização de um contrato com o Diabo: venderei a alma não tanto para conquistar a imortalidade, mas para poder continuar a minha modesta epopeia do FAZER (no Inferno, wherever...).

Continuo a achar que um conjunto de versos escritos sobre uma pedra tem o valor potencial da eternidade. Quero com isso dizer que acredito (mas o tempo também me pode curar disso) que, a despeito de ter sido fundado sobre a sua época, um verso válido é válido para todo e qualquer tempo. Mas sei que a eternidade não pertence a este mundo, e que não há arte que não esteja sujeita aos processos da contingência: o mais belo texto de sempre, escrito nas paredes de uma gruta, pode ter sido comido pela erosão sem nunca ter sido lido. Será, contudo, um texto eterno.

Costuma-se dizer que o artista tem de sobreviver às impiedosas críticas que lhe são feitas (mito que alimenta muito mártir com pouca capacidade de auto-terrorismo). Mas a mim parece-me que o artista tem também de sobreviver aos generosos elogios que lhe são prodigalizados. Por mais duro que isto possa soar, não há Prémio Nobel que consiga garantir que alguém seja, de facto, um bom escritor. Nem chorrilho de recensões, nem cartas de adoração de fanáticos. Citando uma frase justamente célebre: é possível enganar toda a gente durante algum tempo (incluindo nós mesmos). É preciso permanecer alerta e ser um extremista ao nível da deontologia do trabalho.

Dir-me-ão que esta atitude leva à solidão, à paranóia e à insatisfação constante. Eu respondo que são tudo coisas altamente recomendáveis (e, de qualquer modo, há sempre a possibilidade excepcional do amante e do amigo). Numa altura da história humana em que o valor do produto foi substituído pela especulação à sua volta (é a civilização da publicidade), o artista que se queira manter político deve lutar pela rigorosa integridade do seu produto, deve lutar pela sua eternidade potencial, imune às contingências da sua recepção. Chama-se a isto um trabalho de amor.

domingo, maio 01, 2011

Cinema sobre poesia

Porventura, o ponto mais baixo da relação do cinema com a poesia é o filme "The piano" de Jane Campion (filme cujo público alvo são as pessoas sensíveis de que falava Sophia de Mello Breyner). Porventura também, o ponto mais alto será o grupo de quatro longas-metragens da maturidade de Sergei Paradjanov (obra a que hei-de voltar com a máxima oficina de leitura que estiver à minha disposição). E ainda porventura, dois filmes do ano de 2010 que, com três letrinhas apenas, atingiram alguma notoriedade ("Bal", em português "Mel", do turco Semih Kaplanoglu, e "Shi", em português "Poesia", do sul-coreano Lee Chang-dong) estarão algures a meio do caminho entre esses dois pólos.

Prefiro a obra turca, desde logo porque, goste-se ou não, a mise en scène de Kaplanoglu propõe em si mesma uma poética cinematográfica (ele diz-se herdeiro de Tarkovsky, mas eu vejo o seu filme muito mais na continuidade de "El espíritu de la colmena" do espanhol Victor Erice, até pela referência às abelhas...). Já o sul-coreano parece ser muito melhor escritor do que cineasta, pois, se o seu filme é bastante rigoroso em termos de discurso, falta-lhe, para que a candura da sua personagem seja de facto poética, uma envolvência ao nível da encenação (o que Fellini terá conseguido, por exemplo, em "Le notti di Cabiria").

No filme "Poesia", o que se descreve, passo a passo narrativo, é a tomada de consciência de uma personagem quanto ao valor da arte que intitula o filme. Se, a princípio, a avó em processo de senilidade pensava que a poesia era gostar de flores e dizer excentricidades (se possível sem o contágio de ordinarices), a tragédia profunda que se lhe impõe leva-a a concluir que a poesia é afinal o registo do falhanço da poesia. A minha experiência é próxima da que Chang-dong descreve. De facto, quando o sofrimento aperta para além do saudável, pode surgir a necessidade imperiosa de amanhar meia dúzia de palavras sobre um papel, não para atingir uma salvação (o poema que a personagem escreve é o anúncio do seu suicídio), mas para construir, com letras de ouro deveras, uma muito frágil hipótese de sentido no seio do absurdo. É pôr as palavras a brilharem, não na direcção do maravilhoso (embora também o possa ser), mas para reclamar aquele Direito Natural pelo qual Antígona aceitou ser enterrada viva.

No entanto, até neste aspecto "Mel" é um filme mais incisivo. O miúdo em torno do qual gira a narrativa (rarefeita) não tinha uma especial relação com a palavra. Dedicara-se mesmo a decorar todo um texto do seu manual escolar para não ter de mostrar ao professor as suas dificuldades no campo da leitura. Ora, no momento em que ele toma consciência da morte do pai, deixa de conseguir ler o texto que sabia de memória. Ou seja, um sofrimento decisivo alterou por completo a sua relação com a palavra. O filme mostra isto com muito mais secura, com muito maior economia de meios, sem digressão por disparates, o que faz com que a sua epifania seja muito mais afiada e certeira.


(Nota: "Poesia" tem ainda pontos de contacto com dois grandes filmes recentes, o também sul-coreano "Madeo" e o filipino "Lola", de que já falei aqui. Nos três casos, trata-se da história de uma mulher de idade que tem de se confrontar com um crime praticado por um descendente próximo, e de o tentar resolver à margem das soluções legalmente instituídas. Apesar de nada levar a supor alguma proximidade cultural entre estes dois países, a verdade é que a coincidência extrema me leva a perguntar se estes filmes estão a tentar materializar alguma referência arquetípica das sociedades orientais. Trabalho para um antropólogo, claro.)

sábado, abril 30, 2011

Conforme vou escrevendo...

... prosa de ficção, descubro que um dos maiores prazeres proporcionados por esse género literário é a possibilidade de evitar o diálogo (a palavra oral pertencerá ao teatro) para favorecer o trabalho da figura do narrador, ele sim a verdadeira personagem da ficção, e cujo estilo-conteúdo pode ser investigado e experimentado até à exaustão.

domingo, abril 10, 2011

Confissão 30

Há quem defenda que uma das hipocrisias do nosso mundo é a discrepância que existe entre o preceito constitucional que garante que todo o cidadão pode atingir o cargo de Presidente da República e a efectiva margem de possibilidades que a sociedade oferece a todos os seus elementos.

No entanto, eu gostaria que na Constituição estivesse também consagrado o Direito de Não Chegar a Presidente da República. Nem a Conselheiro de Estado, Comendador ou o mais que daí se segue. A minha necessidade de respeito está ancorada numa noção de dignidade que me ultrapassa enquanto indivíduo, tendo uma índole universalmente antropológica. E essa necessidade de respeito é tão premente, tão funda, que me faz desprezar a respeitabilidade.

De qualquer modo, prefiro ser amado.

domingo, fevereiro 20, 2011

Qualidades-&-defeitos

Não sei se as predisposições de personalidade nos aproximam de uma certa postura política, ou se é esta que acaba por influenciar a maneira de ser, ou até se nada disto é relevante. O que eu sei é que, por ser um produto do Ocidente hegemónico, eu seria incapaz de o vender como o único modelo defensável de Civilização.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Retórica de trazer por casa

Certa vez, fui acusado de ser misantropo (ou autista, ou lá o que era) por ter começado uma enumeração pela palavra "coisas", e só depois ter escrito a palavra "pessoas". Desde aí, sempre que faço uma enumeração, tenho o cuidado de ordenar os itens de modo a criar a perfeita ilusão da minha sanidade mental.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Cinefilia

Sempre me intrigou o mistério de alguns espectadores de cinema disponibilizarem preferencialmente a sua afeição por aqueles filmes que confirmam o seu sistema de crenças. O comunista tende a apreciar fitas de discurso militante, o católico elege obras de inquietação em torno do sagrado, o homossexual vibra com a estética queer, o médico quer ver a sua missão recriada no ecrã, e etc., e etc.

Quero crer que o espectador cinéfilo é aquele que, quando vai ver um filme, vai ver, em primeiro lugar, o cinema: a sua história, as suas possibilidades, o seu idiossincrático poder de sedução. Não quero com isto dizer que um cinéfilo se demite da sua relação com a vida quando está dentro da sala de projecção. Muito pelo contrário: o cinéfilo não é um freak que colecciona DVDs ou posters de vedetas, mas alguém que sinceramente aceita que o cinema lhe abra perspectivas sobre a vida.

Parte do meu fascínio pela teologia (eu, que sou agnóstico convicto) deve-se à casualidade de a história do cinema ser fértil em obras-primas de discurso religioso. Pelo contrário, a despeito de eu me dedicar à escrita poética, o cinema de Jane Campion diz-me muito pouco. Uma das poucas gloríolas que eu reclamo para a minha insignificante existência é, precisamente, este gosto do cinema.

domingo, dezembro 05, 2010

O critério

Se me perguntarem por que profundíssima razão eu escrevo poesia, sou capaz de urdir um ou dois ensaios de alguma extensão argumentando meia dúzia de bitaites conceptuais (e até políticos) sobre o assunto. Mas, para ser muito sincero, e por mais voltas e reviravoltas que eu dê à minha intelectualidade, a principal e mais profunda razão pela qual escrevo poesia é porque adoro poesia. Só isso.

Compreendo que, para algumas pessoas (especialmente se forem tão sérias como o Rimbaud pós-dezassete-anos...), um certo nojo existencial se possa sobrepor a um tal amor simples (falei disso a propósito de David Perlov e o cinema - aqui). Mas já me custa mais a aceitar que, no seguimento da presente desvalorização filosófica da pintura (e é preciso dizer que, mais tarde ou mais cedo, as razões passam de moda), quase todo o artista plástico (de renome?) tenha perdido o gosto pela pintura. Eu sei que já disse isto milhares de vezes, e que esta até nem é a minha guerra, mas é um assunto que não cessa de me espantar.


Imagem retirada daqui

domingo, novembro 07, 2010

Confissão 29

Sou tão absolutamente ambicioso que não me comove nenhum dos modelos de reconhecimento que o mundo tem para me oferecer.

domingo, setembro 05, 2010

E agora, um pouco de vida real

Nos últimos anos, o Ministério da Educação pautou a sua gestão do ensino artístico, no ramo da música, por uma filosofia de democratização progressiva. O que, teoricamente, tem toda a lógica. Neste sentido, o ensino dos alunos que frequentam o chamado regime articulado, ou seja, que substituem algumas disciplinas do currículo regular (como Educação Visual e Tecnológica) por disciplinas técnicas de música ministradas em escolas especializadas, tem vindo a ser financiado quase na íntegra pelo Estado.

Esse financiamento (e a expectativa da sua continuidade) foi fundamental para que as escolas de ensino particular e cooperativo do ramo musical pudessem crescer enquanto instituições. Ainda nos últimos meses do ano lectivo que findou em Julho, o Ministério estava a fornecer instruções sobre a admissão de novos alunos em regime articulado nessas escolas. Centenas de alunos foram admitidos, dezenas de professores contratados, tudo para preparar atempadamente o ano escolar 2010/2011.

No entanto, a 3 de Agosto, quando os estabelecimentos de ensino estavam encerrados e os docentes se encontravam de férias, o Ministério voltou atrás na sua palavra, e decidiu deixar de apoiar o crescimento das escolas de ensino especializado de música. Provavelmente porque, dada a enorme incompetência de quem tem responsabilidades governativas, não foi feita uma estimativa realista dos custos que esse crescimento, num contexto nacional, teria para os cofres de Estado. O que, numa situação de crise económica em que esse Estado se vê obrigado a controlar o seu défice, é, de facto, problemático.

Ainda não falei com nenhum colega que não concordasse com a necessidade de abrandar o financiamento deste tipo de escolas. Ninguém é mercenário. No entanto, nada disto justifica que esta legislação recente tenha saído depois das escolas terem organizado o seu ano lectivo seguinte.

Neste momento, a maior parte dos estabelecimentos de ensino estão na iminência de ter de rejeitar os alunos novos que aceitaram no fim do mês de Julho! O que criará um problema de credibilidade a essas escolas. Ao mesmo tempo, muitos professores que tinham deixado os seus postos de trabalho (alguns no sector público) para virem dar aulas no ensino particular e cooperativo, foram abruptamente forçados ao desemprego. Por sorte, a situação não me afectou.

O momento é dramático. Mas volto a dizer: ninguém queria receber um financiamento para o qual o Estado não tivesse capacidade. Queríamos apenas uma gestão que tivesse competência, capacidade de antevisão, boa-fé (sobretudo isto), e uma linha de rumo compreensível e estável. Assim não é porreiro, pá.

Caderno de encargos

1. Em breve, começarão a ser publicados neste blogue os poemas da segunda parte do meu work in progress "quarenta graus à sombra"; essa segunda parte chamar-se-á "poemas para serem ditos no cinema (estudos para uma dicção menos armada)". Nenhum dos textos terá título, mas será encabeçado pela indicação da voz específica concebida para a sua declamação. As vozes seleccionadas pertencem a actores e cantores míticos. Mas a selecção prende-se unicamente com o timbre da voz (e as características de cada intérprete enquanto falante), e não com o sentido, o passado ou a mitologia (a armadura) desses intérpretes. Por exemplo, o primeiro texto será dedicado à voz de Bruno Ganz. Independentemente dos filmes ou peças de teatro que Ganz tenha feito, mas só por causa da sua idiossincrasia vocal. Claro que essas vozes são ideais, na medida em que a maioria dos intérpretes já estão mortos ou não falam português.



2. Depois de vários anos de silêncio nessa área, recomecei ontem a escrever ficção. Título: "o conto bem temperado". Ao contrário do que fiz anteriormente, a superfície dos textos será bastante clássica, sem o ser profundamente. A verdade é que desconfio um pouco do tipo de vanguarda mais à flor da escrita (cortes, saltos, incongruências, neologismos), e prefiro escarafunchar na essência da narratividade para a tentar desafiar num plano mais estrutural. Por exemplo, no conto em que estou a trabalhar, "A morte é uma flor que só abre uma vez" (o título é um verso de Paul Celan), estou a tentar parodiar a ideia de omnisciência.

domingo, agosto 29, 2010

Ouvi, uma vez, o Rivette dizer que...

... se deve construir uma obra como quem desenterra um objecto antigo há muito aprisionado no solo. Deve dar-se tempo ao tempo, puxar com cuidado e paciência, sem forçar, para que o objecto não se danifique.

Esqueceu-se de dizer que há casos de extrema facilidade, objectos que saem da terra como se esta fosse uma areia superficial, e há, sim, outros casos, de objectos que demoram uma eternidade para conquistar a luz do mundo. E há ainda objectos que estão a sair a grande velocidade e depois a terra prende-os no último momento, e outros que pareciam inamovíveis e de repente se soltam como se a magia deveras existisse.

quinta-feira, agosto 26, 2010

Concluí, por estes dias,...

... um livro de poesia intitulado "p.s. - o trabalho do milionário". Alguns dos seus textos foram publicados neste blogue.

sexta-feira, julho 30, 2010

O que é isso de maturidade?

A única evolução que sinto na minha criatividade é que cada vez mais me consigo reconhecer nos textos que escrevo.