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quarta-feira, novembro 26, 2008

23:17 (resquícios de autoritarismo)

Um ser superior que tudo explique?

Porque não inferior, lateral, oblíquo, tangente, interior, fecal, esquizofrénico?

el bullinho

Um dia destes, fiz um milagre: misturei as pevides de uma romã (que eu separo do fruto com paciência de Job) com um farrapo de vinho do Porto.

Recomendo (com buraco negro Michelin).

quarta-feira, setembro 10, 2008

Retalhos da vida de um jovem 1

Há cerca de quinze anos atrás, fui um dos assistentes de realização na rodagem do filme "Ma's sin" de Saguenail. Trabalho que, aliás, nunca mais repetirei: para além de ser a pessoa menos pragmática que conheço, sou desajeitado, esquecido, flácido e ansioso perante a urgência, o que faz com que eu esteja sempre no sítio errado, na hora errada, com a pessoa errada a resolver o problema errado... Enfim, a despeito de mim, o filme fez-se.

A bailarina e coreógrafa Né Barros (penso que ainda está ligada ao Ballet Teatro, aqui no Porto) foi escolhida para protagonizar a estranha obra. Na altura, o realizador confidenciou-me que uma das razões que o levou a seleccionar a senhora foi o facto de o seu nariz ligeiramente preponderante quebrar a regularidade da sua beleza escultural, ao mesmo tempo que evocava a figura de um pássaro. Belo passo de casting.

Passados uns meses, estando o trabalho concluído e até premiado, escrevi uma crítica sobre "Ma's sin" na revista A Grande Ilusão (o que não deveria ter feito na medida em que não tinha distância suficiente sobre o assunto). Ora, a dado momento do elogioso artigo, eu saí-me com esta pérola: "(...) Daí as incongrências: a espectadora quase-bonequinha tem um narigão a estragar o esquema, (...)". A espectadora era a personagem interpretada por Né Barros. E a minha generossísima intenção era sublinhar a inteligência subtil do trabalho do autor.

Mais meses se passaram, e houve uma altura em que eu precisei da tecnologia do Ballet Teatro para fazer um trabalho meu. Foi então que comecei a notar que a bailarina olhava para mim com uma espécie de ódio não declarado. E eu, terrivelmente inocente, não conseguia perceber o porquê. Só ao fim de algum tempo o realizador me disse que Né Barros lhe tinha perguntado se tinha um nariz tão grande quanto isso...

Estúpido Pedro Ludgero, sempre a passar o cabo das tormentosas boas intenções, eterno adolescente sem mundo que não sabe respeitar a legítima vaidade de uma candidata a mulher-estrela.


(Imagem retirada daqui)

domingo, agosto 24, 2008

Chatice

Devo ser das poucas pessoas do planeta que não apreciam Cerimónias de Abertura de Jogos Olímpicos. Assim seja.

A meu ver, esse tipo de espectáculo orienta-se em torno de três vectores estéticos essenciais: o louvor abstracto da multidão em detrimento da dignidade infinita do indivíduo (não diria que se trata de estética totalitária, mas a verdade é que há quem defenda que uma das razões que tornou o nazismo possível foi a faculdade inédita do cinema mostrar reais e imensas multidões sem rosto), a coreografia do rigor da simultaneidade (ou seja, todos os indivíduos a virarem a cara para o mesmo lado e ao mesmo tempo, aqui sim, evidente metáfora da carneirada) e a exibição da superioridade financeira e tecnológica (o novo-riquismo, portanto).

Os chineses, nação ambiciosa e de ética duvidosa, cumpriram todos esses requisitos na perfeição (há quem qualifique a sua Abertura como a melhor de sempre). Não me impressionaram. Zhang Yimou (que poderia ter-se tornado o melhor realizador contemporâneo - meço bem as minhas palavras) é nada mais que um encenador pimba.

sexta-feira, agosto 08, 2008

Proposta de concurso

Como os programas televisivos portugueses são sempre imitações de originais importados (como se vivêssemos num país onde a gente do "entretenimento" não fosse capaz de ter uma ideia... ou será que vivemos mesmo nesse país?), vou lançar aqui uma proposta de concurso. É o seguinte:

Os concorrentes terão de ser crianças de dez anos de idade. Nem mais, nem menos. Uma turma de adultos, alguns casados, outros com filhos, sexualmente bem rodados, a maioria com pós-doc (não me lembro de graduação mais alta), viajados, com a sua quota de sofrimentos e livros lidos, e com as costas vergadas por muitos anos de trabalho estúpido, dizia eu, portanto, que essa turma de adultos terá a função de tentar ajudar as crianças a responderem às perguntas feitas por um entrevistador muito encantado com esse belo conceito que é a cultura geral (cada criança concorrente terá direito a espreitar uma sugestão de resposta do adulto, a copiá-lo, ou a ser salva por ele - só podendo usar cada ajuda uma vez).

As perguntas versarão sobre os mais variados assuntos: física quântica, astrofísica, fenomenologia, teoria literária, estudos queer, polémica em torno do aborto, sociologia das relações afectivas, tabus de Cavaco Silva, etc.

Quando uma criança for eliminada por falhar uma resposta (o que será pouco provável), essa criança terá de se virar para a câmara de televisão e, com um profundo sentido de humilhação, dizer: "Eu não sei mais que um adulto com experiência de vida".

quinta-feira, agosto 07, 2008

domingo, julho 13, 2008

Tenho dito

Fazer uma leitura pós-colonialista de "The tempest" de Shakespeare é tão ridículo como ler contos de fada a partir de um ponto de vista anti-monárquico.

segunda-feira, julho 07, 2008

Contos da lua vaga

Quando a ciência consegue (por fim) superar os diversos erros que fazem a História de cada uma das suas Descobertas e Invenções, quando atinge uma verdade consensual, irrefutável, o futuro que a isso se segue tem de ser forçosamente diferente. Depois de sabermos que as maçãs são mais importantes pela gravidade com que caem do que pela ligeireza com que se comem no Éden, não podemos voltar mais atrás. Pode haver aprofundamento do achado, mas não retrocesso (e por isso toda esta questão do criacionismo se me afigura francamente perturbante).

Todavia, não me parece que a História da Arte possa imitar (de modo simplista) este modelo de evolução (embora sempre o tenha tentado fazer).

Quando, no reino da palavra (em sentido amplo), se descobre algo de novo e justo ao nível do Conteúdo (por exemplo, quando o poeta Heraclito verbalizou que as águas que correm num rio nunca são as mesmas; ou quando o filósofo Baudelaire descobriu a beleza da Cidade), o efeito é, de facto, semelhante ao descrito no primeiro parágrafo. Não podemos voltar atrás. Sabemos algo de novo, de irrefutável, sobre nós mesmos.

Mas quando, no reino da palavra, se descobre algo de novo ao nível da Teoria, já tenho as maiores dúvidas sobre toda essa tralha ortodoxa dos posicionamentos reaccionários ou revolucionários (embora saiba que este meu posicionamento é pouco popular). Já somos milenarmente crescidinhos para sabermos que as bocas que os teóricos vão mandando não se escrevem a não ser enquanto provocações. O poeta Wittgenstein quis acabar com a filosofia, o filósofo Duchamp quis jogar xadrez com a pintura, e ainda por cá temos o Zizek e a Paula Rego. A própria História da Arte é a GRANDE narrativa das constante deposições da teoria-anterior-à-minha, e dessa grande narrativa, nem o pós-modernismo se livrou. Uma vez li que o escultor Alberto Carneiro defende que, ao longo do tempo, fomos evoluindo do ponto de vista conceptual/estético. Ou seja, o Michelangelo até fez umas coisas, mas o que hoje produzimos está mais avançado do ponto de vista intelectual. Será assim? Coloco profundas reticências (embora não duvide que as contribuições de Wittgenstein e Duchamp vieram trazer uma nova e decisiva dinâmica mesmo àquilo sobre o qual eles pensavam ter tido a última palavra).

Peço desculpa, o poetinha é mais céptico e, para além de não querer que o chateiem, acha mesmo que a História da Teoria é acima de tudo uma história da moda. Como explicar que depois de Oliveira e de Straub/Huillet, quando se descobriu que adaptar um livro não era simular a sua narrativa mas sim registar visualmente a palavra literária, o cinema tenha ficado exactamente na mesma a esse respeito? É que, francamente, isso não dava jeitinho nenhum (nem ao comércio nem à preguiça). Por muito que os Críticos vociferem, os Estetas façam propaganda, os Comissários manejem o polegar no circo da sobrevivência criativa, a verdade é que pode sempre aparecer um tipo que esteja atrás, à frente, ao lado, acima ou abaixo da Teoria cientifiquíssima que contém a última berra da verdade, e que faça a palavra reinar com a humanidade que dela se espera.

Rememos contra a corrente, a favor da corrente, sejamos reaccionários e revolucionários. Sejamos acima de tudo nós mesmos. E tratemos melhor o nosso gato do que a Teoria.

quarta-feira, junho 18, 2008

Links

- Boas Notícias

- Notícias que eu gostava que fossem notícias

- Más notícias (mas transmitidas com piada)

sexta-feira, junho 06, 2008

Graffiti

Quando eu for um escritor desconhecido, espero que atribuam o nome de uma rua à minha pessoa.
Não farei por menos: passarei a responder apenas se me chamarem Rua dos Mártires da Liberdade, Sunset Boulevard ou Marché aux Puces de St-Ouen.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

O gosto da cicuta

Que tédio, alguém chamar-se Sócrates e nem ter a elegância de corromper a juventude.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Douta ignorância

A criança, o pré-adolescente, o casto, a solteirona, o sacerdote lorpa, o marginalizado, o impotente, o assexuado-dizem-os-psis, o promíscuo incorrigível, o anjo, o autista...

Quem nunca teve uma relação sentimental, pode sempre imaginá-la guiando-se por aquilo que todos lhe dizem (todos: pessoas, livros, filmes, animais, plantas, paisagens...). Como Dürer fez com o seu famoso rinoceronte.

Logicamente, o ignorante cometerá erros de cálculo: um corno que não é suposto existir naquele sítio do amor, uma pele demasiado sofisticada, a desproporção abstracta entre as partes que constituem o todo. E etc., e etc.

Bagatelas.

O desenho do ignorante sobreviverá à passagem do tempo. Mesmo à passagem do tempo sobre o possível ganho de experiência do desenhador. Em parte por causa da intuição, mas acima de tudo porque um rinoceronte é sempre fácil de conceber.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Adverbial parcialidade

Aproveito para assumir que sou inamovível, enraivecida, estupefacta, física e metafísica, infantil e profunda...

...mente contra o produtor da corrupção.

quarta-feira, setembro 05, 2007

quarta-feira, agosto 15, 2007

... mudam-se as raivas

(Ao cuidado dos ternos condutores urbanos)

Perto do fim do romance de Cervantes, um bando de estranhos malfeitores insulta Dom Quixote e seu escudeiro Sancho Pança com estas pequenas pérolas de agressividade:


"
- Caminhai, trogloditas!
- Calai, bárbaros!

- Pagai, antropófagos!
- Não vos queixeis, citas, nem abrais os olhos, Polifemos matadores, leões carniceiros!"


(tradução de Miguel Serras Pereira)

quarta-feira, agosto 08, 2007

O estrebuchar da língua

Durante o período do liceu, tive um amigo sui generis que, entre muitas outras bizarrias dignas de nota, julgava que a expressão bode expiatório era aplicada a uma pessoa que estivesse a espiar os outros (a coscuvilhar). No fundo, o rapaz pensava que se tratava de um bode espiatório (e que jeito dava isto de passar da culpa pessoal para a vida alheia).

O erro só podia provocar a mais intensa galhofa adolescente.

O que hoje me parece mais engraçado é que essa gaffe conseguia, por momentos, dar vida a uma expressão morta. Ninguém pensa muito nas palavras que formam o bode expiatório: são dados adquiridos, convenções que usamos com negligência. No entanto, a partir do momento que um cancro de sentido afecta a estabilidade da expressão, começamos logo a pensar naquilo que a compõe. Começamos a analisar.

E então, o bode ganha um inesperado protagonismo. Não podemos deixar de imaginar um bichinho cornudo a espreitar pelo buraco de uma fechadura ou usando um arbusto como janela indiscreta (ainda por cima, o bode é um animal francamente tosco).

Penso que é daí que vem o humor.

terça-feira, julho 10, 2007

Dignidade negativa



O gato não é um tigre em bonsai.

(Imagem roubada ao forumnacional.net)

quinta-feira, junho 07, 2007

Post desactualizado

Para ser político, o poeta precisa de um alter-ego, precisa de uma espécie de repórter (activo, actor, alegre) que acrescente, ao seu nome, o nome do país que o poeta pretende tutelar. Por exemplo: Charles Baudelaire Cocagne, Dante Alighieri Paradiso, Rainer Rilke Absolut.


É a única maneira.

segunda-feira, junho 04, 2007

Material novo para Gato Fedorento

É de mim, ou José Sócrates está a discursar de modo diferente: mais pausado, em tom mais solene, citando Ortega y Gasset e tentando legar frases memoráveis? É que há uma diferença entre ser santo de casa parca em milagres e estar a viver a primeira internacionalização.