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quinta-feira, outubro 08, 2009

No escrínio 50

Poema "Se os atritos do amor me provocassem cócegas " de Dylan Thomas, traduzido por mim:



"Se os atritos do amor me provocassem cócegas,
Uma miúda sabida p'ra si me roubando
Sua palha e meu cordão enfaixado rompesse,
Se as cócegas carmim como o parir do gado
Ainda uma gargalhada em meu pulmão coçassem,
Não temeria uma maçã nem o dilúvio
Nem o primaveril sangue queimado.

As células perguntam Será macho ou fêmea?,
E largam a cereja qual fogo da carne.
Se cócegas fizesse o cabelo a chocar,
A ossada alada que brotou nos calcanhares,
A sarna adulta sobre a coxa do bebé,
Não temeria forca nem machado
Nem os cruzados paus da guerra.

E Será macho ou fêmea? perguntam os dedos
Que nas paredes gizam moças e seus homens.
Não temeria a tensa imiscuição do amor
Se me fizessem cócegas fomes de putos
Ensaiando calor num nervo mal afiado.
Não temeria a coisa-ruim no lombo
Nem o sepulcro franco.

Se a mim me cocegassem atritos de amantes
Que não varrem madeixas nem pés-de-galinha
Da estiolada hombridade de dentes com trismo,
O tempo e os chatos e o bercinho do namoro
Deixar-me-iam tão frio como papa p'ra moscas,
Poderia afogar-me o mar quebrando espumas
De morte aos pés das namoradas.

Este mundo é metade do demónio e meu,
Tolo co'a droga que fumega numa miúda
E enleado no botão que trespassa o olho dela.
Partilhando a medula co'a perna de um velho,
Ante um mar abundante em arenques fedendo,
Sento-me e observo o verme sob as minhas unhas
Desgastando o que é vivo.

E esses são os atritos, os que fazem cócegas.
O macaco abonado que swinga o seu sexo
Desde as húmidas trevas-do-amor e o twist da ama
Nunca consegue pôr de pé a meia-noite
De um riso surdo, nem quando encontra beleza
Num peito amante, no da mãe, ou nos seus sete
Palmos no pó do atrito.

E qual atrito? A pluma da morte no nervo?
Tua boca, meu amor, o cardo no beijar?
O meu manel de Cristo nado espíneo na árvore?
São mais secos os verbos mortais que o seu corpo,
Com teu cabelo imprimo as feridas verbosas.
Far-me-ia cócegas o atrito que é:
Homem sê a minha metáfora."



(O texto original pode ser lido aqui)



Este poema foi escrito por Dylan Thomas quando tinha cerca de vinte anos de idade (ele auto-denominava-se o Rimbaud de Cwmdonkin Drive), e a verdade é que o seu assunto é o fim da adolescência. Ou mais correctamente, o desejo de que adolescência finde.

De verso em verso, o poeta vai protestando contra o excesso de gravidade com que encara o amor e a morte - precisamente o estado de alma que caracteriza aquela idade. Por exemplo, se ele já conseguisse lidar com o amor de forma distanciada, não teria medo da noção católica de pecado (assim entendo a primeira estância).

O jovem é aquele que se define por ainda não ser. É, por excelência, a arena do devir psicológico. As primeiras quatro estâncias sugerem, precisamente, um percurso de metamorfoses: na primeira, o sujeito lírico engravida uma rapariga e ela dá à luz, a segunda estância evoca um nascimento (e de imediato o sujeito se apropria da nova figura poeticamente parida), segue-se a sugestão da masturbação adolescente ("putos / Ensaiando calor num nervo mal afiado"), e por fim tudo regressa ao amor.

Apesar de haver um sujeito comum a todo o texto, Thomas está consciente do seu carácter de abstracção, e por isso pode modificá-lo ao sabor das necessidades discursivas. Repare-se que, quando no início da segunda estância, as células perguntam "Será macho ou fêmea?", o passo refere-se à dúvida sobre o sexo que vai ter o sujeito nascente. Mas quando, alguns versos mais tarde, surge a mesma pergunta, o que aí está em causa já é a orientação sexual do adolescente: ele vai preferir homens ou mulheres?

Ao longo de todo esse percurso, a mutação é efectuada através da técnica metafórica. O sujeito é metaforizado como boi, ave (a chocar num ovo), Hermes (deus que possuía umas sandálias com asas), macaco, Cristo, etc. Apesar do jogo me repugnar um pouco, pode-se tentar decifrar cada um dos desvairados tropos de que Dylan era capaz. William York Tindall, por exemplo, defende que a "coisa-ruim no lombo" é um símbolo fálico, e o "sepulcro franco" é o sexo feminino (e se lermos com atenção essa estância, isso faz todo o sentido). Eu atrever-me-ia a defender que o "mar abundante em arenques fedendo" é uma imagem do esperma, e que o "verme sob as minhas unhas desgastando o que é vivo" é o pénis masturbado.

Mas não é isso o mais importante. Thomas dá, do adolescente, uma imagem de impotência (espiritual - não conseguir "pôr de pé a meia-noite / De um riso surdo"). O último (e genial) verso é uma espécie de exortação tremendamente obscura: o sujeito lírico pede para o Homem ser a sua metáfora. Defendo que "Homem", neste caso, se refere ao macho adulto, e não, propriamente, à generalização "humanidade", como defendem alguns comentadores. Todavia, note-se que a metaforização pressupõe que a referência a um ser se faça através de uma palavra que, no seu uso denotativo, não refere esse ser. Ora, haverá aqui uma contradição: um humano quer que o humano seja a sua metáfora?

A ousadia tem várias consequências semânticas. Por um lado, Thomas exprime a inquietação do adolescente: ele já quer ser um homem adulto quando ainda não o é (e por isso, só o alcança por via metafórica - por um desvio na lógica). Por outro lado, a exortação marca paradoxalmente o fim imaginário do devir (da metaforização): ao tornar-se homem, o adolescente passa a SER, o seu atrito é aquele "que é" (pelo menos é essa a ilusão que temos na juventude). E por fim, ao desejar não ser outra coisa que não um homem, mas querer sê-lo enquanto metáfora, isso faz com que a maturidade se imponha ao adolescente de forma distanciada. Poderíamos adulterar os dois versos finais, explicando-os do seguinte modo: "Se o adulto for a minha metáfora, eu poderei finalmente viver o amor e a morte sem drama doentio".

Thomas escreveu este poema depois de ter estreitado um relacionamento com Pamela Hansford Johnson . À sua maneira oblíqua e abstrusa, escreveu-lhe aqui um poema de amor.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Em breve...

... postarei aqui a tradução deste poema ("If I were tickled by the rub of love").

O declamador é, claro, o próprio Dylan Thomas.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Tradução 17

Poema "Onde a princípio as águas da tua face" de Dylan Thomas, traduzido por mim:




Onde a princípio as águas da tua face
Minha hélice agitavam, venta teu 'spectro seco,
Alça o cadáver o olho;
Onde a princípio erguiam sua pelagem
Os tritões no teu gelo, conduz o árido vento
Por sal, raízes e ovas.

Onde a princípio os teus verdes nós afundavam
Suas costuras na corda da maré,
Lá vai o verde desenlaçador.
Bem oleada a tesoura, a faca branda alçada
P'ra cortar os canais na sua nascente
E por terra o fruto húmido deitar.

Invisíveis, as tuas marés pontuais
Sobre os ninhos de amor das algas quebram;
Mantém-se seca a alga do amor;
Lá, em torno das tuas pedras andam
As sombras das crianças que, da ausência,
Gritam para os delfins do mar.

Secas qual tumba, as tuas pálpebras de cor
Não fecharão enquanto a tão sábia magia
Deslizar sobre a terra e sobre o céu;
Haverá em teus tálamos corais,
Serpentes haverá nas tuas marés,
Até que morra todo o nosso mar-de-fés.



(O texto original pode ser lido aqui)

terça-feira, setembro 01, 2009

Tradução 16

Poema "O meu herói desnuda os nervos" de Dylan Thomas, traduzido por mim:



O meu herói desnuda os nervos ao longo do punho
Que regula do punho até à espádua,
Desempacota a cabeça que, fantasma com sono,
Se inclina sobre a minha mortal régua,
A altiva espinha desdenhando o giro e o torço.

E estes coitados nervos ao crânio tão conectados
Padecem no mal-amado papel
Que eu abraço p'ra amar com rabiscos desregulados
Que do amor a fome toda proferem
Dizendo à página a vazia enfermidade.

Desnuda o herói o meu costado e vê seu coração
A caminhar, como uma nua Vénus,
Pela praia da carne, e a enrolar a trança cor de sangue;
Desvestindo o meu lombo de promessa,
Ele promete uma oculta acaloração.

Ele sustém o arame desde a sua caixa de nervos
Louvando o erro fatal
Da nascença e da morte, tristes gatunos traiçoeiros,
E o imperador da fome;
Ele puxa a corrente, a cisterna procede.



(Nota: o texto original pode ser lido aqui)

sábado, agosto 15, 2009

A voz do próprio

Quem viu uma destas animações, já as viu todas. E talvez nem sejam uma boa ideia.

Fica o registo sonoro de Dylan Thomas lendo o seu poema "The force that through the green fuse".

quarta-feira, agosto 12, 2009

O coleccionador 14

Em "The force that through the green fuse", Dylan Thomas confessa-se inepto para formular a sua concepção algo panteísta da fertilidade. É uma técnica de retórica antiga e frequentemente abusada pelos escritores de poesia.

No entanto, o poeta de Swansea inunda o seu texto de pequenos detalhes que dão um corpo fértil a essa mudez. O mais sedutor é aquele que resulta do recurso a um idioma distinto do inglês para tentar exprimir uma ideia radical precisamente em inglês: é o que acontece no verso "How time has ticked a heaven round the stars".

Segundo explicação de Ralph Maud, "amser" é, na língua galesa, a palavra usada para designar "tempo". No entanto, se dividirmos essa palavra em duas partes ("am" e "ser"), obtemos a formulação "ao redor das estrelas". Quer-me parecer que isto não é uma brincadeira gratuita do poeta, mas a sua sujeição voluntária a um panteísmo linguístico: se o Céu do tempo está ao redor das estrelas, é porque o redor das estrelas é de facto feito da mesma matéria (verbal) do tempo.

Mas se Thomas foi buscar isso a um idioma marginal ao que usou no seu poema (ainda que mais próximo da sua geografia mítica), tal deveu-se à marginalidade processual a que a inépcia expressiva o levou. Como se Babel fosse um território de imanência guardando as nossas mais profundas capacidades de pensamento e de expressão.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Galeria 47



Dylan Thomas

Tradução 15

Poema "The force that through the green fuse" de Dylan Thomas, traduzido por mim:




A força que p'la mecha verde

A força que p'la mecha verde impele a flor
Minha verdura impele; a que estoura raízes
É minha destrutora.
E sou mudo a dizer à rosa retorcida
Que também meu frescor cai em febre invernosa.

A força que impele água p'las rochas, impele
Meu sangue; a que ressica os desbocados rios
Transmuda o meu em cera.
E sou mudo a bradar às minhas rubras veias
Que na fonte da serra a mesma boca suga.

A mão que redemoinha a água na poça, açula
A areia movediça; a que ata o vento em sopro
O meu sudário enfuna.
E sou mudo a dizer a alguém ante a sua forca
Que do meu barro é feita a cal viva do algoz.

Sanguessugam-se os lábios do tempo à nascente;
Goteja e empola o amor, mas o sangue cadente
Acalmará suas chagas.
E sou mudo a dizer a um climático vento
Que o tempo pulsa um Céu ao redor das estrelas.

E sou mudo a dizer ao sepulcro da amante
Que avança em meu lençol o retorcido verme.



Nota: A tradução de "And I am dumb to tell" é difícil. Os comentadores do poeta dizem que ele poderia estar a pensar no calão americano quando escolheu a palavra "dumb", o que levaria a que ela significasse não apenas "mudo", mas também "palerma". A princípio, optei pela hipótese "E sou mono a dizer". No entanto, o sentido do texto tornava-se um pouco obscuro e até risível, o que, neste caso, é desaquedado ("The force that through the green fuse" é um dos textos mais claros e imediatos de Thomas). Mas também não me satisfazia a expressão (demasiado bonitinha): "E não tenho palavras para dizer". Acabei por me render à simplicidade de "E sou mudo a dizer", na medida em que esta expressão despojada acaba por contribuir para a tensão paradoxal que o poema todo encena. De qualquer modo, isto de traduzir é render-se à impossibilidade de evidência.


(O texto original pode ser lido aqui)

segunda-feira, julho 27, 2009

Exhibit

Tradução 14

Poema "Antes de eu ter batido" de Dylan Thomas, traduzido por mim:



Antes de eu ter batido e a carne aberto,
Co'a instalação das mãos no ventre-d'água,
Eu que era informe como a mijoca
Que o Jordão meu vizinho formava
Era irmão da filha de Mnetha
E irmã do verme paternal.

Eu que era surdo p'ra verão e primavera,
Que pelo nome não sabia sol e lua,
Ouvia o baque sob o arnês da minha pele,
Que ainda era forma dissoluta,
Das plúmbeas 'strelas, do pluvial martelo
Brandido por meu pai desde a sua cúpula.

Eu sabia a mensagem do inverno,
O granizo flechado, a neve pueril,
E minha irmã era amada pelo vento;
Vento e infernal orvalho saltavam em mim;
O clima do Levante andava nas veias;
Não gerado eu sabia a noite e o dia.

Embora não gerado, de facto eu sofria;
A tortura dos sonhos as minhas ossadas
Passiflóreas torcia em cifra viva,
E a carne era rasgada p'ra passar
Marcas tais gallow crosses sobre o fígado
E espinheiros em crânios a penar.

A minha goela soube a sede antes da estrutura
De pele e veia em torno do poço
Onde palavras e água fazem uma mistura
Incansável até que o sangue fica torpe;
O coração sabia o amor, o ventre a míngua;
Cheirei o verme em meu esterco.

E o tempo arremessou minha mortal criatura
Nas derivas e nos p'rigos das águas
Que conhecem a salina aventura
Das marés que nunca atingem as praias.
Eu que era rico aumentei a fortuna
Gole após gole na vinha dos dias.

Eu, nascido de carne e espírito, nem homem
Nem 'spírito era, mas espírito caduco.
E fui derrubado pela pluma da morte.
Fui mortal até ao último
Longo suspiro que levou ao genitor
A mensagem do seu cristo moribundo.

Tu que te ajoelhas ante o altar e a cruz,
Recorda-te de mim e tem pena d'Aquele
Que meus ossos e carne tomou por arnês
E bateu coro dúplice ao ventre materno.




Nota: No quinto verso da quarta estância, optei por não traduzir para português a expressão "gallow crosses". Apesar de nunca ter encontrado essa hipótese em nenhum comentador ou tradutor do poeta galês, a verdade é que Gallows Cross (mais conhecido como Bewell's Cross) refere-se a um marco em pedra que, na Idade Média, estabelecia a fronteira entre o condado de Bristol e o País de Gales. Ora, parece-me evidente que Thomas (apreciador de Joyce e perito em trocadilhos) alude aqui precisamente à passagem de uma fronteira: a fronteira da morte (mesmo a palavra "liver", em inglês, para além de "fígado" também significa "o vivente"). Como o nome do referido marco é literalmente traduzível por "cruzes de forca", torna-se clara a razão pela qual Thomas o resolveu discretamente evocar. Claro que, para o leitor português, a passagem seria mais evidente se a citação se referisse a um mito ("Taj Mahals", ou "Torres Eiffel"). Assim, parece simplesmente que o tradutor se esqueceu daquelas duas palavras. É um passo que, por isso, exige uma nota de rodapé.



Pode ler-se aqui o texto original.

terça-feira, junho 16, 2009

Comentário a "The edge of love"

O aspecto mais simpático deste filme (de título hediondo) é a representação do poeta Dylan Thomas como a mais antipática das suas personagens (no limiar da crueldade, aliás). Quando visitei o Dylan Thomas Center, em Swansea, País de Gales, vi por lá uma excitada exposição sobre este filme que fazia prever uma hagiografia do pior calibre.

Para além da negatividade, Thomas é também a menos relevante das quatro personagens em torno das quais a narrativa se constrói. Presumo que seja uma subtileza: a ideia (estafadíssima, inexactíssima) de que o artista protagoniza melhor a sua obra do que a sua biografia.

Subtil também a atribuição de um certo dom da palavra à personagem de Cillian Murphy. Este interpreta William, o homem com uma serena vontade de perfeição, e aquilo que ele escreve deriva de uma espécie de poética da pureza (cheia de lugares comuns), nos antípodas do mundo luxuriante da escrita de Dylan Thomas.

De resto, o filme tem uma tese: a nostalgia da infância de que o poeta galês padecia acabou por torná-lo um ser infantilizado. Interessante, se calhar até é verdade (ainda não conheço a sua biografia de cor e salteado). No entanto, se isto diz qualquer coisa sobre o homem Dylan Thomas, é paupérrimo enquanto ilustração da sua poesia. Aliás, quase nem ouvimos os seus textos ao longo do filme, como se afinal a figura do poeta fosse apenas uma caução para contar mais um historinha telenovelesca de amor. Por isso, o filme não consegue ser mais do que académico. Todo seu o brique-à-braque técnico é sugado pela falta de oudadia até ao ponto em que perde qualquer expressividade.

Por fim, os actores. Matthew Rhys parece ser tão antipático quanto a sua personagem, pelo que foi um achado de casting. No entanto, não tem nada para fazer, a não ser o habitual número de circo da imitação dos tiques de uma pessoa real. Keira Nightley é, para mim, uma das actrizes mais irritantes do cinema actual (bem, também há a Zellweger...), e por isso escuso-me a comentar. Sienna Miller está muito bem como Caitlin Thomas, mas parece-me que a força sensual da personagem deveria vir do interior (ou seja, não era preciso sublinhar a beleza da actriz, muito pelo contrário). Cillian Murphy está magnífico na primeira parte. Sempre o achei superficialmente bonitinho (um pouco mais de peito e era a Keira Nightley), mas aqui todo o seu jogo, do físico à linguagem, acaba por dar origem a um personagem com algum fulgor romanesco (a do homem encerrado numa torre de marfim de seriedade, que precisa de passar pela guerra e pelo par de cornos para se tornar um ser suportável). Mas na segunda parte do filme já não tem nada que fazer (e quantas vezes já vimos aquela cena do cornudo de arma em punho...).

O melhor é ler a poesia de Dylan Thomas.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

terça-feira, janeiro 13, 2009

Galeria 46



Dylan Thomas

Tradução 11

Poema "Quando outrora o cabelo do crepúsculo" de Dylan Thomas, traduzido por mim:


Quando outrora o cabelo do crepúsculo
Não mais fechava à chave o longo verme do meu dedo
Nem reprendia o mar acelerado no meu punho,
Mamava a boca-tempo, qual esponja,
Ácido lácteo em cada gonzo,
Chupava até secarem as águas do meu peito.

Quando mamado foi o mar galáctico
E o seco fundo seu foi destrancado,
Mandei minha criatura a explorar o globo,
O globo el' mesmo de cabelo e osso
Que, a mim cosido por miolo e nervo,
Meu frasco de matéria atara à sua costela.

Do seu coração fiz bomba-relógio,
E ele estourou qual pólvora ante a luz
Comemorando com o sol um sabatzinho,
Mas quando as 'strelas, assumindo forma,
Sortearam sono nos seus olhos com palitos,
Ele afogou as artes mágicas do pai num sonho.

Tudo broto blindado, do jazigo,
O cancro ruivo ainda vivo,
Sobre o seu pano cataratas de filme dos olhos;
Cadáveres desfaziam barbudas queixadas,
E bolsinhas de sangue soltavam suas moscas;
Ele tinha de cor o abecedário em cruz dos mortos.

O sono navega as marés do tempo;
Os Sargaços secos da tumba
Dão os mortos que neles há a esse mar operário;
E o sono ondula mudo sobre os leitos
Onde o manjar dos peixes nutre as sombras
Que florescem em periscópio até ao empíreo.

Quando outrora outra volta em parafusos do crepúsculo
Entesou como areia o leite mãe,
Mandei meu próprio embaixador p'ra a luz;
Por ventura ou travessura adormeceu
E uma forma de carcaça ele invocou
P'ra me roubar os fluidos no seu coração.

Acorda, meu dormente, para o sol,
Operário na vila matinal,
E deixa o estupefacto sicofanta onde ele jaz;
Estão por terra as vedações da luz,
Só não tombou quem cavalgou veloz,
E mundos pendem das árvores.


(O texto original pode ser lido aqui)

domingo, novembro 16, 2008

Tradução 10

Vejo os rapazes de verão


I

Vejo os rapazes de verão na sua ruína

Depreciando dízimas de ouro,

Desvalorizando colheitas, gelando solos;

Ali no seu calor que o inverno inunda

Com frígidos amores buscam moças,

E a carga das maçãs em suas marés afundam.


Rapazes de luz que coalham na loucura,

Azedando o mel em fervura;

Tocando os seus homens das neves nas colmeias;

Ali no sol sustentam nervos

Com fios glaciais de dúbias trevas;

Nos seus vazios a lua emblemática é zero.


Vejo os meninos de verão nas suas mães

Partindo os rijos climas uterinos,

Com mãos de fada dia e noite separando;

Ali na sombra funda e esquartejada

Com lua e sol os diques mátrios pintam

Como o sol pinta a carapaça dos seus crânios.


Vejo que dos rapazes só homens de nada

Vão crescer por germinação danada,

Ou mutilar o ar com cios fulgurantes;

Ali dos corações o canicular pulso

Com luz e amor explode nas gargantas.

Oh vede a pulsação do verão no sincelo.


II

Mas afrontemos as estações ou elas caem

No quarto consonante

Onde, pontuais de morte, tangemos as estrelas;

Ali, na sua noite, o homem hiberno

Maneja os carrilhões de língua negra,

Nem recobra da lua-e-meia-noite o alento.


Convoquemos, nós, escuros negadores,

De uma mulher de verão a morte,

Musculatura de amantes na sua cãibra,

Dos claros mortos que alagam o oceano

Verme radioso em lanterna de Davy,

E do ventre sementado o homem palhaço.


Rapazes de verão quatro ventos dobando,

De um ferro de algas esverdeados,

Vertemos aves do mar ruidoso que erguemos,

Tomamos o globo de espuma e vaga

P'ra afogar nas suas marés os desertos,

E penteamos jardins públicos em grinalda.


Co'azevinho cruzamos as testas vernais,

Ora bolas p'ra o sangue e baga,

E pregamos nas árvores ledos fidalgos;

Cá seca e morre o músculo do amor,

Pedreira em desamor que um beijo estala.

Oh vede os pólos da promessa nos rapazes.


III

Eu vejo-vos rapazes de verão em ruína.

O homem como larva baldia.

Rapazes inteiros e estranhos no marsúpio.

Sou o homem que o vosso pai foi.

Somos filhos de sílex e hulha.

Oh vede a cruz que os pólos fazem no seu beijo.


Dylan Thomas (tradução minha)


(O texto original está aqui)

quarta-feira, outubro 29, 2008

Traduzindo Dylan Thomas

Estou a começar a tradução da obra poética de Dylan Thomas. Até agora, apenas consegui desbravar meio poema! É, de facto, o autor mais desafiante que já traduzi. No entanto, posso já partilhar duas ou três notas sobre o processo:

- A nobreza da dicção thomasiana acaba por invadir o texto na língua de chegada. Ou seja, o poema traduzido parece estar destinado a uma voz tão solene, profunda e musical como a que o autor galês possuía.

- Apesar da obscuridade evidente dos textos, a verdade é que uma leitura feita com bisturi revela a extrema precisão com que eles são construídos (como se fossem pequenas selvas desenhadas por um relojoeiro suíço).

- Tenho tomado algumas decisões bastante polémicas ao longo da tradução. Para tentar ser o mais fiel possível ao espírito do original, e ao mesmo tempo criar um texto válido em português. Cada vez mais se torna evidente para mim que não existem traduções definitivas.

quinta-feira, agosto 21, 2008

A room with a view



































Houve um tempo em que uma das principais preocupações de um turista quando chegava a um hotel era a solicitação de um quarto com vista sobre. Claro que então os turistas eram em menor número e as vistas sofriam de pouco ruído...

Fui ao País de Gales para poder compreender a vista que o escritor Dylan Thomas (cuja poesia pretendo começar a traduzir) tinha da casa onde morou os últimos quatro anos da sua vida (um período de grande fecundidade onde ele escreveu os seus últimos e magistrais poemas e a obra dramática "Under Milk Wood"). Presumo que um homem (e muito especificamente um poeta) se pode também definir pela riqueza que ofereceu aos seus sentidos.

A casa, conhecida como The Boathouse, foi-lhe cedida por uma ricaça qualquer (Thomas nunca foi seu proprietário), e fica situada em Laugharne (pronuncia-se Laárne), no sul da região, de frente para o estuário do rio Tâf.

Dizem os Baedekers do presente que Laugharne se mantém quase idêntica ao período em que foi habitada por Thomas e sua família (na verdade, o poeta viveu vários períodos curtos no local, mas só se fixou definitivamente lá em 1949). Eu diria que é uma vila com todos os benefícios da província e quase nenhuns dos seus defeitos.

Laugharne é pequena mas não claustrofóbica. Tem todas as condições de um lugar civilizado. A intimidade entre as pessoas cria-se de imediato. Mesmo um tímido inveterado como eu, ao segundo dia, já conhecia várias pessoas. Mais, quando eu me preparava para me vir embora, o carteiro perguntou-me, preocupado, se eu tinha apanhado um autocarro no dia anterior... Já sabia coisas da minha vida. Tem poucos restaurantes, mas todos distintos uns dos outros, cumprindo funções diferentes: há o pub rasca, o restaurante onde se comem pêssegos recheados e se ouve bossa nova, a loja onde se pode comer marisco, e a casinha que, lado a lado com venda de compotas regionais, serve deliciosos bolos. O ar é puro. Tem um castelo em ruínas (como sempre acontece nas Ilhas Britânicas), suficientemente dramático para não ser apenas mais um. E toda a linha costeira, quando não se sabe bem se a água que se nos oferece ainda pertence ao rio, ou já ao mar (ou aos outros dois rios que também desaguam no mesmo sítio...), é de uma beleza assombrosa.

Thomas gostava do local, mas por vezes sentia necessidade da grande cidade, e ia a Nova Iorque. De qualquer modo, em todos os lados onde esteve, dedicou-se com afinco à sua grande actividade existencial: beber. "Under Milk Wood" terá sido baseada na vida dos populares de Laugharne (ver este post).

A casa, agora um museu (mau como todos os museus do género), não tem nada de particularmente relevante. E a minha peregrinação literária (como todas as peregrinações do género) é ridícula (aliás eu também fui a Swansea e a Cardiff). Mas a verdade é que, quando deixei uma mensagem no livro a isso destinado em The Boathouse, só me lembrei de escrever: "Mr. Thomas deserved this view".

Não vou, claro, fundamentar a importância de uma vista. Seria tão tolo como se quisesse fundamentar o sexo.


(Imagens minhas)

domingo, agosto 10, 2008

Paragem



Durante cerca de quinze dias, este blogue ficará parado. Estarei no País de Gales.

(Imagem retirada daqui)

sábado, setembro 01, 2007

Galeria 31



Dylan Thomas

O coleccionador 9

Fragmento do Prólogo em verso que Dylan Thomas escreveu para os seus Collected Poems:

" (...)
As the flood begins,

Out of the fountainhead

Of fear, rage red, manalive,

Molten and mountainous to stream

Over the wound asleep

Sheep white hollow farms


To Wales in my arms.
(...)"


Thomas encena-se a si mesmo como um construtor de arcas (os poemas) que salvam o mundo do dilúvio (que pode ter ou não ter sido criado pelo próprio autor). Neste pequeno excerto, ele diz que a maré diluviana vai cair sobre as pequenas quintas adormecidas (e brancas como as ovelhas) to Wales in my arms. A preposição to não é fácil de interpretar, mas podemos pensar que é aqui usada no sentido de toward. Ou seja, o dilúvio ameaça as pequenas unidades rurais até que o poeta as abraça, e nesse salvamento as transforma numa grande unidade espiritual colectiva que é o País de Gales.

O poeta é um fazedor de comunidade.