Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, março 13, 2007

Crónica da neve

É sabido que Deus pode fazer o que quiser. Pois faça o que fizer, não há a menor prova de que Ele tenha feito o que fez. A proximidade verbal entre o ânus e o ónus da prova mostra logo quão frágil é a situação daquele que leva com os diversos sentidos da sua graça.

Noé era um menino como muitos outros. Mas como poucos outros vivia no interior e no sul. Combinação perigosa que fecha quem a vive na ausência de neve e de mar. Noé nunca tinha visto neve (o que era uma saudade vertical). Noé nunca tinha visto o mar (e isso já era horizontal ignorância).

E Deus disse-lhe: Escolhe, fiel meu, um dos dois modos de viver. E eu te premiarei de acordo com as tuas obras.

Conforme foi crescendo, Noé foi-se tornando um homem vertical. Viveu de acordo com os mandamentos. E foi de tal modo um homem moral, que teria sido capaz de conservar todos os princípios éticos dentro da arca do seu frio coração, mesmo que todo o resto da humanidade entrasse em dilúvio de crueldade.

Um dia, Noé viu a neve cair das nuvens. E como a neve era rara no sul e no interior, Noé pensou que era um milagre destinado a suprir a sua velha saudade.

Num outro dia, Noé viu o mar cair das nuvens. E como era ignorante, não sabia que o mar lhe era especificamente dirigido.

De qualquer modo, nem pegadas Ele deixou.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Crónica do vinho

Depois de alguns anos de abstinência, ele achou que podia recomeçar a tomar um copo de vinho em cada refeição. O prazer, quando abre as suas urnas, não permite a abstenção. Entre a dor e o nada, o desejante não é eleito pela segunda hipótese.

Com o peixe, um copo de vinho branco. Com a carne, um copo de vinho nulo. Mas em ambos o casos, um carimbo abstracto sobre a independência da alma.

Nos assuntos doces, as fronteiras querem deixar de o ser. Cada mancha (cada copo de vinho) quer diluir-se na mancha mais próxima. Primeiro é o mero desejo de arquipélago, a constelação que se forma com as linhas da obsessão. Mas depois as manchas exigem mais manchas: os momentos felizes precisam de ser multiplicados. Tudo o que pode trazer alegria requer fermentação.

Assim seja: um copo de vinho também no intervalo de dez minutos na manhã de trabalho, um copo de vinho quando o filho telefona, um copo de vinho quando o sol passa para a janela do seu lado, um copo de vinho quando passa na rádio a música do Chico Buarque, quando a colega da secretária em frente mostra sem querer uma parte do corpo, quando só falta uma hora para o fim do trabalho, quando só faltam cinco minutos, quando descalça os sapatos ao chegar a casa, quando na televisão passa "Some came running", quando a companheira quer fazer amor.

Lentamente, as manchas perdem a condição insular, e tornam-se borrão (horizonte) único: mágoa. Que subtil diferença não existe entre prazer e perdição.

Mas ele era um homem civilizado: ele tomava copos de vinho, mas nunca os enchia.

domingo, janeiro 07, 2007

Crónica do guarda-chuva

Dizem as más línguas que o guarda-chuva é um dos poucos esperantos que não evoluiu. Assim como guarda o Homem da chuva, guarda-se a si mesmo da invenção. Afinal, se em equipa vencedora não se mexe, é melhor deixar chover no molhado do que fazer, por capricho, revolução. E a engenhoca é suficientemente ambígua para saber que a sua beleza é só um giro sobre si mesma.

Mas nada pode parar o ciclo da invenção. Ela existe perdida no passado, oculta no presente, nebulosa no futuro. Aliás, a preguiça da imaginação só morre à sede à beira da água, quando a água se faz rogada, quando exige vontade. Isso não acontece no fenómeno da chuva: a água cai para todos, e para matar a sede basta fechar o... guarda-chuva. O guarda-chuva evolui por negação.

Que maior invenção pode haver, portanto, do que usar um guarda-chuva quando faz sol? Se a isso se chama sombrinha, é só para que ninguém se esqueça de que o guarda-chuva a si mesmo se anulou para devir coisa diversa: na caverna de todas as alegorias, o fogo das ironias secou o arquétipo para que ele se tornasse ilusão. De qualquer modo, a essência é apenas uma forma de precipitação (que o digam os perfumes que formam as varetas dos sistemas de pensamento).

Um dia, quando a pintura estiver menos morta, surgirá um movimento estético que substituirá a tela tradicional pelo tecido do guarda-chuva. As ruas serão museus onde as exposições mudarão a cada segundo (curadas apenas pela ignorância do clima), onde os quadros se abrirão e fecharão, serão úteis e inúteis, mas estarão sempre ao preço da chuva. A Sotheby's será um mero clube de meteorologistas.

Também no cinema aparecerá um autor que filmará as suas histórias sempre em picado. As acções transformadoras das personagens surgirão todas do céu. Desgraças, coincidências, reviravoltas, surpresas, finais felizes: será tudo torto argumento escrito pelo divino Certo. Os actores abrirão ou fecharão a câmara sobre as suas cabeças conforme se queiram ou não proteger das narrativas que sobre eles caem. O cineasta limitar-se-á a aperfeiçoar o tecido (luz, nitidez, cor, geometria) esticado entre as varetas do enquadramento. E o sucesso do filme dependerá não do box-office, mas do efeito-Mary-Poppins sobre o espectador.

O guarda-chuva deixará de ser esperanto.


quarta-feira, dezembro 20, 2006

Crónica do ovo

Três fragmentos do livro inacabado “Branco é”, da autoria de William Black (tradução de Richard Nadir).


1. No princípio, foi o big bang (três dias). Então, o Demiurgo considerou três hipóteses. Espalhar a matéria primeira segundo o acaso da expressão (uma ética de espuma). Trabalhá-la até ser obra divisível apenas por si mesma (uma imanência do recheio). Deixá-la ferver no tempo até o tempo a estrelar (uma poética da criatura). Ao sexto dia, o Demiurgo escolheu a terceira hipótese (e assim ficámos a saber tudo sobre nós).

No dia seguinte, Ele foi contemplar a Obra de Ninguém: e viu que o Mar tudo acolhia.


2. O demiurgo lançou nove ovos em torno de si mesmo. Pensou que fossem novos por definição. Mas o resultado foi mais chocante: de cada eu, nasceu uma ptolomave. Foi preciso que, na Galileia, alguém nascesse urbi e morresse orbi, para que o Sistema se tornasse mais solar. Mais suave.


3. De vez em quando, as crianças abrem vulcões na crusta do ovo, e deles saem claras lavas que parecem inócuas. Algum tempo depois, a Terra é pintada numa (meno)pausa de cores ingénuas. A ressurreição do ventre feminino dá-se quando ele se torna tão fino que as suas costuras (em ponto de cruz) já só querem rebentar. A gema do vazio é doce e inconsútil. No fim dos Tempos, o universo será Mar.

domingo, novembro 19, 2006

Crónica do cigarro

Elegia - Dir-se-ia que o cigarro é sempre um último desejo. De tal modo está nele a vida toda envolvida numa mortalha. E ainda porque o tabaco se presta filosoficamente a nada mais devir senão cinza e mais cinza. Dir-se-ia que o fumador, sabendo que ser humano é uma contagem decrescente, pretende que a ave que sempre renasce da degradação de um corpo tenha direito a alguma nobreza no momento do seu único voo.
Fumo - Dir-se-ia que o hábito do cigarro contradiz a cristalização do desejo. Talvez porque este seja um vago odor que precisa da carne para poder arder, enquanto o cigarro termina precisamente num odor e assim reata o devir erótico do mundo. Ou então porque o cigarro é sempre um preliminar. Depois do seu calor, da sua sujidade, do veneno que contém, depois da chama insidiosa que finge não queimar e do fumo que, prestidigitador, finge cumprir velhas ambições ao etéreo, que mais pode surgir senão a vida (a única coisa que afinal possuímos sem filtro)? A pátria do vivente é este português suave.
Narração - Não eram os deuses belos nem os industriosos que preferiam o tabaco. Aqueles eram ambrósios da ambrosia, estes seguiam um menu light. O grande fumador era Hermes, a divindade graciosa onde se conjugavam os melhores atributos que passariam para os Homens: o contágio de boas novas, a juventude, o voo, o roubo e a troca. Conta-se que Alexandre só fumava quando fazia amor com homens. E de Cleópatra, diz-se que o leite de burra fora uma mentira para enganar outras fêmeas desejosas de beleza: a mulher conservava-se era em tabaco. De humano, Cristo só tenha o vício de fumar. Os padres da Inquisição faziam cigarros com restos de bruxas: com as melhores das intenções. Quanto a Rimbaud, os seus versos só foram possíveis devido à falta de nicotina (a falta era ancestral, anterior ao seu próprio nascimento). Greta Garbo só se concentrava quando os plateaus cheiravam a tabaco. Sempre se desconfiou que o Marlboro Man fizera um voto de castidade na adolescência (já tinha sexo suficiente entre os lábios). E a verdade é que o Capuchino Vermelho estava a tirar umas passas quando viu o lobo, e só por isso se assustou.
No século XXI, diz-se que a Narração chegou ao fim.

sábado, novembro 04, 2006

Crónica do chocolate

Mark Rothko morreu sem ter pintado esta sua última obra-prima. Na Sotheby's, já crescia água na boca de toda a gente. Talvez fosse aquilo a que os britânicos chamam word of mouth, e por isso mesmo se espalhou, doce porque elo-quente.
Havia quem já lhe desse o título A face oculta da lua. O autor, tendo atingido o maior valor calórico (colérico) da sua criatividade, afirmava que o verdadeiro quadro não era o resultado evidente desta sua cozinha, mas o branco amargo que permanecia indomado nas traseiras da tela.
Os miúdos só pensavam em fazer dedadas no quadrado: pequenos passos para as mãos, grandes pegadas para as bocas.
Aliás, muita agitação surgiu em torno da obra omissa: os hermeneutas supuseram um recheio, os falsários reconstituiram a receita original, os pensadores dela derivaram conceitos (juntaram-na à Razão, que é menos ordem do que ordenha), os coleccionadores aprimoraram as suas técnicas de congelamento, os comerciantes sonharam com cacau.
Os poetas comeram o quadro. Não por estarem rotos de fome (ou aluados pela sugestão das pratinhas), mas porque não resistem às iguarias de um museu imaginário.

quinta-feira, outubro 26, 2006

No divã

(Por favor, não façam isto em casa)

Há alguns posts atrás, eu escrevi uma Crónica da Coca Cola. Concluo agora que esse texto tinha, ao mesmo tempo e em plena fusão, um sentido poético e um sentido político. Contudo, aquilo que no texto era válido para a poesia (a coco-alma a invadir o mundo dos que desejam), era catastrófico no âmbito político (o aumento do nível dos mares).
Ou seja, o texto pode ser considerado ora realista (é essa a fractura que podemos observar no real), ora pessimista (a tentativa de viver poeticamente pode até acelerar a decadência do mundo).
Você decide.

sábado, outubro 21, 2006

Crónica da Coca Cola

A bebida tem tudo o que convém a um império dos sentidos.
Desde logo a sua fórmula é secreta, está guardada no segredo dos deuses, e por isso a sede que convoca é acima de tudo inteligência. Uma inteligência que tenta passar a cortina de ferro do Olimpo (é a guerra fresca com o divino), e que por isso é bem mais Bond (James Bond) do que CIA. Em todo o caso, a sede é sempre íntegra e competente.
Conta-se que a garrafa que guarda o valioso líquido foi inspirada nas curvas e contra-curvas da actriz Ava Gardner (na altura, ainda não havia as auto-estradas do top modelismo). Os boatos são sempre verdadeiros quando neles se contém um ser que não pode ser contido. De qualquer modo, confesso que, para a garrafa dos meus sonhos, escolheria outros corpos (os homens pensam sempre com o seu pigmalião, nunca com a consciência). Esta coisa dos gostos tem muito de snobismo: haverá quem pense que me satisfaz com um Pepsi Prazer? Eu sou um especialista no meu próprio desejo, nenhum falsário me vende gato por rato.
No entanto, aquilo que existe dentro da garrafa (chamemos-lhe alma porque é borbulhante), isso já eu entregaria de boa vontade à condessa descalça. Nenhum conde aceita uma aristocracia abaixo de felino. E quando o outro de súbito nos acelera, ele entranha-se de imediato e só depois deixa um lastro de estranheza. A paixão é gasificada.
De resto, não há Salvação. Se é light, a bebida traz um tédio cancerígeno. Se é intensa, engorda-nos a propensão para a morbidez. Mais tarde ou mais cedo, há-de o mundo ser invadido pela coca-cola (disso falava Nostradamus). Apenas podemos lançar as nossas preces ao nosso Senhor (que é árabe como o Al Gore), e dizer: Deus nos livre da Canada Dry.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Crónica do espanta-espíritos

O hífen é uma das vulgaridades da gramática. Usámo-lo, a maior parte das vezes, com um utilitarismo preguiçoso. Por exemplo, unindo duas palavras no sacramento de uma função: guarda-chuva. Sugiro, aliás, que nestes casos se substitua o hífen pelo underscore (função rasteira merece rasteiro instrumento): guarda_chuva (até porque nos podemos guardar de tudo, menos do ar do tempo, do clima).
Todavia, a quem lhe custa distinguir ensaio de poesia, resta a possibilidade de polemizar em torno do fino traço. Couve-flor. Uma couve que tem a aparência de uma flor. Ou se quisermos ser mais surreais, um modesto vegetal que é, ao mesmo tempo, uma couve e uma flor. As conjunções copulativas são, no entanto, pouco exactas na descrição da cópula entre as palavras. Pois não conhecemos, no nosso mundo, essa quimera que a língua enuncia. Seríamos assim mais fieis ao nosso entendimento se traduzíssemos o hífen por ou. Pois se a nossa inventividade ainda não materializou esse ser híbrido no real, a nossa imaginação só o pode entender de modo disjuntivo: olhamos para a salada, e pensamos (existencialistas...) que aquilo pode ser ou uma couve ou uma flor. A fusão não passa de ilusão.
E se trocássemos o ou pelo mas? A adversativa viria trazer uma dignidade inesperada. O vegetal é couve, sim, mas também flor! Não uma flor estetizante que venha tirar o vigor à couve, mas uma exaltação da função alimentar, uma celebração da possibilidade da vida.
Falam-me do espanta-espíritos. Um conjunto de hífens delicados que seguram bibliotecas de conchas, luas-de-trazer-por-casa, pequenas internets de barras de metal. Hoje, essa delicadeza apenas serve de motivo de decoração.
No entanto, é precisamente hoje que a nossa interpretação poética do mundo apenas surte efeito através de uma fé lúdica no mito. Não uma fé racional, muito menos cega. Presumo que ninguém supõe que o espanta-espíritos consiga afastar almas penadas, mau-olhado, ou vudus... Pelo contrário, a fé lúdica permite abrir a brecha da disjunção, do ou. Pois podemos querer espantar (afastar, assustar) os espíritos dos falecidos (o Além, quando ainda estamos aquém, é um filme de terror). Mas também podemos entender o espanto de outro modo: podemos querer que os espíritos, que os nossos mortos, nos espantem, nos maravilhem, nos seduzam, regressem até nós com palavras mansas, plenas de sabedoria e imaginação. Afinal, que mais pode o espanta-espíritos: recebe um ventinho timorato, e produz uma música tão simples, tão estelar, é o mais mágico dos instrumentos de percussão (John Cage terá composto para o espanta-espíritos?).
E a memória daqueles que nos deixaram, que outra coisa é senão uma música interpretada pela brisa? Um segredo não-verbal, uma companhia sem matéria.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Crónica do sabonete

Os traumas não se medem aos palmos. Era eu ainda uma criança de palmo e meio (não louro, no entanto), quando me pregaram uma partida que nunca esqueci. Umas meninas de bem, presumo que precoces vestais da higiene, perguntaram-me se eu tomava banho por prazer ou por obrigação. Respondi com sinceridade: por obrigação! Como aliás, a maior parte das crianças responderia. No entanto, há aspectos da moral que provocam muito mais histeria do que reflexão, aspectos em que nenhuma argumentação é capaz de vencer a crispação tonta dos paladinos da triste figura, e as ditas meninas sentenciaram-me com um lacónico: PORCO! Que o simples facto de eu cumprir fielmente o ritual do banho, apesar do desprazer que me causava, fizesse de mim precisamente o oposto de um porco, nunca seriam capazes de o compreender. Na casa de banho, só o politicamente correcto é permitido.
Adiante. Com o passar dos anos, como é normal, fui ganhando o gosto do banho. Mas ficou-me sempre atravessada na garganta essa obsessão pelo prazer. De vez em quando, dou por mim a procurar sabonetes com perfumes raros, de produção artesanal, ou bonitos de serem olhados, compro esponjas que se distinguem pela macieza, já flirtei com sais, espuma, e etc., e etc. E não resisto mesmo a fazer uma infantil proposta aos Professores Pardais da inovação higiénica. É que já houve o sabão: escorreito, sem poesia, meramente funcional. Depois puxou-se pelas sílabas da coisa, e veio o sabonete: já se apostava no perfume, na cor, na textura, à limpeza uniu-se a fruição. Hoje, toda a gente usa o gel de banho. Ora, como eu dizia, peço aos inventores destas coisas que puxem ainda mais pela palavra e nos apresentem o sabonetino. E o que seria isso, perguntam-me? Um sabonete que já não servisse tanto para livrar o corpo do esterco, mas que estivesse quase só ao serviço do prazer: sabonetino de cores oníricas, perfumes orientais, consistência de mel, com agentes afrodisíacos, a macieza similar à pele do género que nos orienta o sexo, formas sugestivas, tudo muito mil e uma noites...
Dizia a minha avó que a maçã era o sabonete da alma. Uma avó tem sempre razão (quando lha damos). A verdade é que nunca fui grande adepto desse fruto, matador de brancas de neve, iniciador da alta costura, e que ainda por cima se declina em raineta, golden, e outras paroladas do género, mas sempre amei os produtos que dele derivam: tartes, purés, sumos, gelados, rebuçados...

Tudo isto é sobre poesia.
Ao contrário do discurso crítico em Portugal, não me importo nada se a poesia é limpa ou porca (os traumas, os traumas...). A primeira é o mero papel higiénico que impede que se forme o selo de qualidade da segunda.
Gosto da poesia que em si mesma não se contém, que aponta para o seu horizonte de evolução, e nos deixa um travo de paraíso e conhecimento. Gosto da poesia que não distingue entre missão e insatisfação. Gosto de tarte de poesia.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Crónica do alcaçuz

Gosto de pensadores que sussurram coisas graves ou polémicas. Não gosto dos que afirmam coisas técnicas.
Dizem-me que vivemos numa aldeia global. Presumo que queira isto dizer que o mundo encolheu ao nível da imaginação, que agora está tudo mais perto, podemos ir num ápice a casa da vizinha Amazon, fazer umas comprinhas na mercearia e-bay, vemos o mundo inteiro não mudado na caixa que mudou o mundo, conhecemos o pessoal todo, sabemos os podres (mas quem matou JFK?), vivemos em estado de boato, a borboleta já nem precisa de muito esforço para provocar tempestades, e todos os truz-truz nas portas e portais são agora virtuais. Será isto? Raios de conceitos...
Ainda por cima, sou um desajeitado profissional. E apesar de também querer ser aldeão, nunca acerto com a boçalidade da coisa.

Enfim, também eu já namorisquei as "Mil e uma noites", com moderada convicção. E o que mais gosto em tais páginas são aquelas enumerações de delícias que nos fazem crescer água na boca e tintol no pensamento. Tudo é maravilhoso, rutilante, apetecível, recendente, e a gente embriaga-se assim só com palavras. Ora, um dos alimentos muitas vezes referidos nestas pompas árabes é o alcaçuz. Coisa que, asseguram as personagens, deve ser, no mínimo, celestial. Mas nunca soube o que era, e a que sabia.

Este verão estive em Nova Iorque. Gastei rios de dinheiro, suei as estopinhas, dei o corpo ao manifesto por aquelas ruas feitas para manifestações, vi coisas com piada, com graça, horrorosas, gente gira, maus cheiros, teatro, cinema, museus, jardins, irrita-céus, e não sei que mais. E numa lojinha divertida, que faria a felicidade de qualquer criança, encontrei um chá de egiptian licorice. Comprei pelo Egipto, que licorice eu não sabia o que era. Regressei.

Comecei a beber o chá todas as noites antes de fingir que me ia deitar. E a coisa sabia mesmo bem. Ao fim de algumas infusões, fui ao dicionário tirar as dúvidas: licorice queria dizer... alcaçuz.

Pronto. Está aqui a minha versão da aldeia global: um chá feito de um componente literário, proveniente da mitologia do Egipto (que da terra, eu já não sei), comprado em Nova Iorque, e bebido em Vilar do Paraíso, Portugal... Um verdadeiro diálogo de civilizações! Mas desconfio que não seja bem isto. Devia ter resolvido a transacção por telefone, fax, ou e-mail - isso sim, seria mais global. Provavelmente até existe uma loja aqui no Porto que vende o raio do doce produto...

Mas, enfim, uma vez desajeitado, desajeitado para as outras vezes. O que ganhei? O meu alcaçuz tem um sabor com história e foi estrumado com a boa e velha realidade. Sabe ao mesmo, mas acrescenta-me sabedoria. Sim, sim: é mesmo uma coisa de aldeia...