Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, setembro 05, 2011

Crónica da santidade

Quando, como uma lenda dourada, a noite cai sobre a rua da garagem que ladeia a minha casa, os paralelos do piso mil vezes pisado pela obesidade automóvel animam-se com uma rave de caracóis.

Gosto imenso de caracóis. Não é que tenha quaisquer expectativas quanto à psicologia animal. Presumo mesmo que todo o bicho seja um porco, um tarado sexual e um homicida em potência. Os poucos que, só Deus sabe porquê, adquiriram na paciência o dom do carinho, só receberam em troca uma infelicidade que não é carne nem peixe: vinte anos de vida castrada e fechada em gaiolas de ouro, ou três anos de rua ceifados por temíveis predadores como o jaguar, o citroën ou o mitsubishi.

Mas, dizia eu, gosto imenso de caracóis. Fazem parte de um estranho arranjo das coisas do mundo que não deixam que o homem se torne medíocre de vez e atinja aquela felicidade que resulta de já nem se saber o que é querer ser feliz. Acho que isso se chama a beleza, mas não estou seguro. Em breve, quando tudo estiver reduzido a centros comerciais, rotundas autárquicas e lagos evaporados, o teatro de Tchékhov deixará de ser representado.

Às vezes, em plena noite, quando caminho pela rua da garagem, ouço um súbito crrztrwzshshrr: assassinei, sem querer, um caracol. E é nessas mucosas alturas que penso no São Francisco de Assis, que não queria pisar nem uma formiguinha porque toda a formiguinha era uma criatura de Deus. Imagino o santo a caminhar, passo após passo, por altos pensamentos, e então crrztrwzshshrr (exatamente o mesmo som): exterminou, sem querer, um caracol.

Francisco há de se ter mortificado (com criaturas minerais, porque o chicote vegetal é criatura de Deus), há de ter rezado não sei quantas Avé Marias e Padres Nossos, muito se deve ter penitenciado com longas caminhadas nas quais crrztrwzshshrr... E deve ter pensado nessa bela alegoria que é fazer o mal só porque a lanterna nunca será inventada.

sexta-feira, junho 17, 2011

Crónica da Celebridade

Temos todos nós dentro um Lobo Antunes em latência, desejoso de ver a Avenida da Liberdade repleta de povo, não para ir ao piquenique do Continente, claro, mas para nos levar em ombros até à glória. Lembro-me de uma gravura que me impressionou imenso na adolescência, com o Schubert a chegar ao Paraíso e a ser recebido de braços abertos pelo Bach, o Mozart, o Haydn... Se eu me lembro disto (e a gravura nem era notável do ponto de vista pictórico), quer dizer que não estou propriamente imune a delírios de vaidade.

Mas o tempo passa. E com ele, passa muita coisa (não toda). A verdade é que, jovem tontinho que pensava que os criadores andavam de mãos dadas saltitando em jardins ingleses, acabei por me aperceber de que o mundo dos artistas era tão cão quanto o dos empresários, o dos políticos ou o dos padres (o que só acentuou a minha tendência patológica para a misantropia). Uma receita gourmet à base de sofrimento, pensamento, reconversão do prazer e das prioridades acabou por modificar o teor das minhas condições para a realização de um contrato com o Diabo: venderei a alma não tanto para conquistar a imortalidade, mas para poder continuar a minha modesta epopeia do FAZER (no Inferno, wherever...).

Continuo a achar que um conjunto de versos escritos sobre uma pedra tem o valor potencial da eternidade. Quero com isso dizer que acredito (mas o tempo também me pode curar disso) que, a despeito de ter sido fundado sobre a sua época, um verso válido é válido para todo e qualquer tempo. Mas sei que a eternidade não pertence a este mundo, e que não há arte que não esteja sujeita aos processos da contingência: o mais belo texto de sempre, escrito nas paredes de uma gruta, pode ter sido comido pela erosão sem nunca ter sido lido. Será, contudo, um texto eterno.

Costuma-se dizer que o artista tem de sobreviver às impiedosas críticas que lhe são feitas (mito que alimenta muito mártir com pouca capacidade de auto-terrorismo). Mas a mim parece-me que o artista tem também de sobreviver aos generosos elogios que lhe são prodigalizados. Por mais duro que isto possa soar, não há Prémio Nobel que consiga garantir que alguém seja, de facto, um bom escritor. Nem chorrilho de recensões, nem cartas de adoração de fanáticos. Citando uma frase justamente célebre: é possível enganar toda a gente durante algum tempo (incluindo nós mesmos). É preciso permanecer alerta e ser um extremista ao nível da deontologia do trabalho.

Dir-me-ão que esta atitude leva à solidão, à paranóia e à insatisfação constante. Eu respondo que são tudo coisas altamente recomendáveis (e, de qualquer modo, há sempre a possibilidade excepcional do amante e do amigo). Numa altura da história humana em que o valor do produto foi substituído pela especulação à sua volta (é a civilização da publicidade), o artista que se queira manter político deve lutar pela rigorosa integridade do seu produto, deve lutar pela sua eternidade potencial, imune às contingências da sua recepção. Chama-se a isto um trabalho de amor.

sábado, janeiro 08, 2011

Crónica da Universidade

A minha experiência universitária resume-se a uma licenciatura no falhanço. Excelente aluno na área das Humanidades, fui-me encaminhado para o Curso de Direito na Universidade Católica do Porto, onde confirmei o meu total desinteresse pelas profissões sisudas, o meu agnosticismo de estimação, e uma saudável alergia aos ácaros da alta roda conservadora. Alcancei uma única nota memorável, um dezoito, na disciplina de Economia, porventura o ramo de todo o saber que menos me interessa. De resto, saí da aventura académica com depressão, menos inteligência e já outra profissão.

Talvez por causa disso, ou talvez não, a verdade é que acabei por formar uma imagem fantasiosa do que seria uma verdadeira vida académica. Assim como gostaria de ter escrito um livro intitulado "InterRail e outras coisas que não fiz" (especialmente dada a frustração heróica do decassílabo que o estrutura), poderia com toda a facilidade dedicar-me a um projecto "Entre Hogwarts e Salamanca". A universidade, como o Brasil ou a parentalidade, é uma daquelas existências que sempre idolatrei porque só delas participei enquanto turista acidental. Oxford, Cornell, Sorbonne, seduzem-me de maneira pueril como só as constelações de estrelas o conseguem, e nelas vejo-me rodeado de livros-que-eu-quero-de-facto-ler e de outonos-de-brochura, para sempre dedicado ao estudo e ao sexo com todas as protecções insulares que a gratuitidade, a civilidade e a inesgotável profusão nos podem oferecer.

Mas não é preciso ir para a universidade para poder, enfim, desconfiar da universidade. Estou neste momento a meio da leitura do excelente livro "Stratégies de Rimbaud", um conjunto de micro-leituras do autor do "Bateau ivre" pelo académico inglês de expressão francesa Steve Murphy. A erudição do estudo é exuberante, talvez sem mácula, a sua aplicação é invariavelmente eficaz, a clareza do discurso é total. No entanto, vive em mim a impressão de que essa erudição talvez esteja sempre a ser utilizada pelo ensaísta para defender a sua imagem (apriorista?) de um Rimbaud militante de esquerda. De qualquer modo, isso talvez seja o que todos fazemos. O que verdadeiramente me inquieta é a dúvida sobre qual a real utilidade literária de todo este esforço para um leitor que não seja um hamster de universidade.

Se não há sombra de dúvida sobre a utilidade das pesquisas altamente especializadas no âmbito das ciências (mais tarde ou mais cedo têm uma aplicação pragmática), eu já não estou tão certo de que um texto literário tenha uma maior repercussão sobre o seu potencial leitor se for observado com o auxílio de um microscópio ou de um telescópio. Quem escreve, fá-lo para encontrar uma brecha de troca directa com um receptor que não pode alcançar no espaço e/ou no tempo. Mas a distância a que o texto tem de estar do seu leitor é a distância do olho nu. Claro que a investigação académica pode contribuir, por exemplo, para uma anotação esclarecedora das obras, ou para um apoio pedagógico à sua circulação (nomeadamente quando se trate de obras de leitura pouco evidente). Tenho, contudo, a certeza absoluta de que Rimbaud não escreveu para ser estudado, mas para intervir no espírito generoso de quem com ele queira entabular uma conversa de café (no sentido nobre, tertuliano, da expressão). A utilidade das artes e das humanidades exerce-se num regime quase oposto (porque mais íntimo, essencial, e menos urgente) ao da utilidade das ciências de índole matemática.

Estamos numa época da história humana em que temos de (podemos?) assumir que o paradigma que nos rege é o da ignorância selectiva. Isto seria impensável noutros tempos, mas a verdade é que, dada a quantidade de conhecimento que foi produzido pelo homem, mais do que escolhermos o que queremos saber, temos hoje de escolher o que não poderemos nunca saber. Só o computador terá ainda hipótese de ser um sábio renascentista... E que difícil é equilibrar a curiosidade intelectual para não se descambar nem no diletantismo-trivial-pursuit nem na especialização deformadora. De qualquer modo, postulo que, ou os livros são abre-te-sésamos para todo e qualquer intelecto, ou então não vale a pena continuar a fazê-los.

Nos textos sobre cinema que tenho vindo a escrever no Cabo da Boa Tormenta, estou a tentar justificar o meu gosto cinéfilo ligeiramente impopular (ao que parece). É a Universidade Pedro Ludgero: se me dizem que não percebem o porquê da minha adesão a (ou o próprio conteúdo de) um filme, eu tento, em textos de clareza e dimensão legíveis, esgrimir as minhas razões objectivas e desvelar alguns aspectos da obra que podem parecer obscuros mas que, afinal, até nem o são. Não pretendo uma graduação académica, mas seguir um pouco o espírito de Agostinho da Silva, que dizia que uma Universidade deveria ser apenas um sítio onde íamos perguntar aquilo que não sabíamos. Tento ser tão útil quanto o médico, o bombeiro ou o agricultor.

terça-feira, novembro 24, 2009

Crónica de Ingmar Bergman

No fim da adolescência, a minha cinefilia era ainda extremamente infantil. Com isto quero simplesmente dizer que me faltava aprender a destrinçar a paixão da reverência. Nomes colossais como TARKOVSKI, GODARD ou BERGMAN quase poderiam ser pedra erguida sobre as colinas de uma pessoal Medina do cinema. Acima de tudo, adorava enfrentar obras conotadas com o hermetismo, com a dificuldade, condições sem as quais não parecia haver suficiente aventura no processo de descoberta.

Quando passou o extenso ciclo Bergman na RTP2 (não me perguntem datas), eu gravei todos os filmes exibidos em cassetes VHS, e assisti com fervor religioso a dois terços da obra do sueco. Ou talvez devesse dizer fervor erótico. De qualquer modo, em terras bergmanianas, as duas coisas andam sempre muito próximas...

Sabia tudo sobre os actores: sabia que Gunnel Lindblom fazia sempre de rapariga alucinada, estremecia ao pensar até onde Ingrid Thulin conseguiria ir na representação do nojo moral, acompanhava as sucessivas mortes de Harriet Andersson (morte social em "Mónica e o desejo", morte mental em "Em busca da verdade", física por fim em "Lágrimas e suspiros"). Na altura, escrevi um ensaio (que ainda conservo, e até me parece válido) em que equiparava as estratégias narrativas-formais do autor a diversos processos de terapia psíquica.

Passados tantos anos, a quão descoberto está o meu saldo Bergman? Continuo um pouco distante de alguns dos seus filmes: "O sétimo selo" (sim, esse mesmo), "Sorrisos de uma noite de verão" (um nadinha reaccionário, não?), "O silêncio". Mantenho a admiração imaculada por algumas obras-primas: "Persona", "Lágrimas e suspiros", "Fanny e Alexandre". Defendo com convicção filmes menores: "No limiar da vida" (que o próprio Bergman detestava...), "O rosto" (de que Hitchcock não desdenharia), "O olho do diabo" (talvez a mais engenhosa comédia de um cineasta que não tem piada nenhuma), "Em busca da verdade" (filme de uma terrível beleza). Aceito os falhanços ("A sede", "A força do sexo fraco"), e continuo sem opinião sobre o incompreendido "O ovo da serpente".

O fascínio tornou-se mais saudável ao ser polemizado em termos de prós e contras. Acabei por me aperceber que Bergman era um magistral escritor de diálogos, e que o seu ascendente sobre outros autores se devia em parte à preguiça daqueles espectadores que vão ao cinema para verem actores a falarem uns com os outros (e quão mais lato é o cinema...). A sua fama como campeão na direcção naturalista de actores (que o torna tão admirado na cultura anglo-saxónica) não resistiu ao meu encontro com um jovem cineasta seu conterrâneo, admirador confesso do mestre, que me disse que, para um conhecedor do sueco falado, os intérpretes bergmanianos eram demasiado... teatrais (o que diriam disto os detractores do cinema português?). O excessivo acabamento técnico dos filmes deixa-me um pouco inquieto: para mim, ou a técnica é esplendorosa e está ao serviço de um formalismo total (Angelopoulos, Tarkovski, o Fassbinder de "Querelle"), ou então é melhor aceitar uma certa rugosidade desafiadora (Rossellini, Pasolini, António Reis/Margarida Cordeiro, Straub/Huillet). Ou seja, Bergman é, por vezes, um nadinha académico. E é preciso não sermos inocentes literários para conseguirmos avaliar a verdadeira originalidade da sua escrita (quantas coisas ele roubou ao Dostoiévski...).

Pelo contrário, não aceito que me digam que ele nada trouxe de novo, em termos visuais, ao cinema. Isso é não levar em conta o contornar do problema do campo-contracampo em "Um verão de amor" (falarei disso um dia aqui no blogue), o olhar de Mónica a enfrentar o espectador numa espécie de estreia brechtiana para a sétima arte, a fusão dos rostos de "Persona" (ideia surripiada para a publicidade da TMN?), a fotografia de "Lágrimas e suspiros". E se Bergman foi um fabuloso perscrutador do rosto humano (Deleuze escreveu várias páginas sobre isso), penso que será mais correcto dizer que ele trabalhou, formalmente, a questão da distância do actor perante a câmara (por exemplo, em "Sonata de Outono", os flash-backs são todos filmados em planos distanciados). Curiosamente, nunca achei os seus filmes difíceis: pelo contrário, são prodígios de comunicabilidade.

Os meus Bergmans são "Um verão de amor" (que Godard disse ser o mais belo dos filmes...), "Mónica e o desejo" (Harriet Andersson continua a ser uma das minhas actrizes favoritas) e "Morangos silvestres". Nestes filmes, a vibração lírica dos momentos de harmonia faz-nos compreender o que de facto está em causa na tragédia. Bergman percebeu aí bem a lição de Tchékhov. Depois, enveredou por um crescendo (cada vez mais exibicionista) de lágrimas e suspiros que, no filme que destes sintomas retira o título, atinge uma violência quase insuportável. Dá quase vontade de lhe perguntar: mas afinal por que estamos chorar?

Tudo contabilizado, a verdade é que eu acredito que um filme como "Morangos silvestres" é mesmo capaz de mudar a vida de um espectador. Que mais pode fazer um realizador de cinema?

domingo, agosto 16, 2009

Crónica do Compositor

Se eu fosse compositor, teria um programa bem concreto a cumprir. Registo aqui as alíneas que comporiam o corpo de um tal programa:


1. Acabaria de vez com o mito do solista. Temos todos oportunidades suficientes para a solidão (ao músico, basta-lhe o tempo de prática). Eu só escreveria música de câmara, e sobretudo música que traduzisse a sociabilidade possível entre humanos produtores de som. Faria peças-conversas, peças-namoros, peças-danças, peças-círculos-de-anedotas. A Schubertíada finalmente liberta de todos os formalismos.

2. Só comporia para instrumentos de que gostasse. De entre os institucionalizados, escolheria o oboé, o violoncelo, e a inesgotável família da percussão. Mas a minha organologia estender-se-ia em todas as direcções: instrumentos antigos (o alaúde, o aulos), instrumentos esquecidos (lire organizatte, um violino baseado num quadro de Bartolomeo Bettera), instrumentos marados (o arpeggione, o violino de pregos), instrumentos feéricos (a harmónica de vidros, a kora), instrumentos eléctricos (ondas martenot, theremin), e sobretudo financiaria a criatividade visionária de luthiers loucos e acriançados. Escreveria para todos os tipos de vozes menos para os tenores (vão guinchar para a terra do silêncio). Eu sou como a Agnès Varda: rodeio-me apenas do que amo.

3. Traria o humor para a mais sisuda das artes. Tudo o que sabemos, de Aristófanes a Buster Keaton, seria aplicado à dinâmica do grupo de instrumentistas, para provocar a gargalhada, o sorriso, a ironia, a distância, até a lágrima (que é coisa bem cómica). Começaria pelas próprias concepções das obras (concepções comidas ao pequeno almoço, aliás): uma meia-peça sobre um meio-assunto, construída em torno do meio-tom, tocada num meio-instrumento por um visconde cortado ao meio... E etc.

4. Fundaria a música na palavra, pois a palavra é a entidade que me rege. Ora explorando o lied até à Adília e o Miguel-Manso (passando pelo Battaile e pela Constituição da República Portuguesa). Ora fazendo da música um esplendor onomatopaico (em sentido lato): peças recriando constelações, lagos parados, a internet, le genou de uma qualquer Claire...

5. Exploraria um virtuosismo oposto ao das mãos a mexerem muito depressa. O virtuosismo da escuta, do olhar, do suspense, da conversa, do riso, do assobio, da respiração, da compreensão, talvez até mesmo o da ética.

6. E mesmo que o Boulez ou o Lyotard não deixassem, eu restituiria a importância da melodia. Só porque é uma das coisas mais bonitas que a humanidade inventou.


Mas se eu digo isto tudo, é porque não quero ser compositor.

sábado, junho 27, 2009

Crónica do Museu

Na única vez que fui ao Louvre (que é um sítio onde uma pessoa que é pessoa deve ir), a visita seguiu-se a uma noite em que tinha estado numa discoteca com alguns companheiros de viagem e posteriormente regressado ao hotel a pé pelas ruas de Paris (continuo a não gostar de discotecas, mais os seus djs programadores e barmen curadores, mas acho que não há suficiente literatura sobre o ar livre nocturno das cidades). O que eu sei é que papei o maior número de quadrinhos possíveis, com curiosidade de atleta e resistência de intelectual comprometido, seguido pela raiva ensonada dos pés macerados dos compagnons de route. Juventude...

Hoje, apesar de querer muito regressar ao Musée Gustave Moreau, de querer ir a Berna ver os Klees, de me estar a apaixonar por gabinetes de curiosidades tipo British Museum; apesar de, portanto, a ideia de Museu não ter esmorecido no meu imaginário, a verdade é que mal começo a calcorrear um destes espaços, começo a sentir aquilo que os guias de viagem chamam "museum fatigue". Mesmo que na noite anterior eu tenha adormecido ao som dos patinhos, dez minutos são suficientes para eu já não me aguentar nas pernas, para me irritar histericamente com a inevitável carteira a tiracolo, para me apetecer correr o mais depressa possível para o exterior (nem que seja com clima de País de Gales), e para eleger, como momento alto da minha visita, a passagem pela cafetaria do museu (que costuma fornecer comida kitsch tão ao meu gosto). Ou seja, na verdade, o meu corpo detesta museus (ah! a condição humana...).

E ponho-me a pensar qual seria a melhor maneira de eu suportar esta prova de resistência exigida ao turista sem talento? Claro que a solução do "Bande à part" é uma solução à parte. Eu não sou desportista. Mas sprintar por entre Ballas e Boccionis, patinar em torno da Pedra de Roseta, usar os Munchs como obstáculos de corrida, saltar à vara sobre o corpo hipotético do dinossauro, ou fazer um triplo salto sobre partituras de polifonia eborense, tudo isso tornaria a prestação bem mais exaltante e coerente. Mens sana in corpore sano, e o ensaio e a ecfrase acabariam por se tornar modalidades olímpicas.

Gostava, isso sim, que em vez de me darem aqueles auscultadores que são traumatizantes porque podem ser calados a qualquer momento, me fornecessem um guia de carne e osso, pessoa de erudição infinita, com jeito para a anedota e o aforismo, mago da palavra e histrião intimista, pintor nas horas frustradas mas apaixonado pela sua frustração, que me levasse de peça em peça com o mesmo sex appeal com que o Mic Mic escapa a todas as armadilhas da raposa. Que contasse histórias, revelasse inquietações, deixasse perguntas no ar, mais Mário Viegas que Luís Miguel Cintra, mais Quim Barreiros que Michael Jackson, comerciante de souq.

Gostava, isso sim, que os museus estivessem submersos (não me venham com fahrenheits de chamas), e precisássemos de escafandro para os visitarmos, que fosse preciso vencer o medo do mergulho, exercitar a respiração, sofrer a cerimónia do pacto com um elemento raro, mas nos fosse dado contemplar Turners lado a lado com restos de galeões, a "Giaconda" açambarcada por seres condenados a sashimi, e tubarões mais dados à forma do que ao formol. Veneza, de novo, avant guarde...

Ou então gostava de ser um extraterrestre, e chegar à Terra quando esta por fim estivesse liberta dos humanos (ainda pode ser no meu tempo, portanto), e visitar os museus como quem considera que tudo é rupestre, no duplo sentido da rudeza vital e de uma vontade de fazer, de cada ponto de chegada, um ponto de partida. Depois iria a pé até Marte (onde não há Museus).


(Fotografia de Andrew Prokos)

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Crónica da Presidência


Um dia, hei-de chegar a presidente da minha própria vida.

Dizem-me que é difícil, que isso só acontece quando a vida adquire demasiado faroeste. Mas eu não me fio: sou negro o suficiente para meter medo ao destino.

E já tenho alguns antecedentes. Uma vez, resolvi sentar-me naqueles lugares de poder e privilégio que, no autocarro da minha vida, estavam reservados aos outros. Disseram-me que não, que os cus têm de obedecer à lei, e que mesmo os olhos que vêem têm de evacuar a sua visão pelo enquadramento previsto pela sociedade. Eu não arredei nádega. Fui preso e tudo, mas a coisa deu mais barraca do que hilaridade.

Quando por fim for presidente da minha própria vida, vou rodear-me de Prémios Nobel da Educação Física que regenerem o meu corpo em crise. Vou comprar um cão-de-licor inglês, que eu gosto de lambidelas doces como as senhoras, e não perco uma oportunidade de insultar maníacos do ultimato. E vou fechar Guantanamera e outras músicas de raça.

Quando for presidente da minha própria vida, um pássaro vai fazer-me os discursos com que hei-de brilhar perante os outros. Serei famoso na áfrica-da-poesia. E terei o posto mais poderoso e invejado na terceira idade a contar do sol: a liberdade para desiludir.

Mas esperem... enganei-me na escrita. Bolas: estou possuído mas ainda não empossado. Tenho de voltar a escrever. E a escrever. E a escrever.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Crónica da Avó Materna

A minha avó materna não queria morrer.

Aos vinte anos, deram-lhe alguns meses de vida, e ela prolongou-os até ultrapassar as oito décadas de hipocondria. Dela se poderia dizer com justeza que mulher doente é mulher para sempre. Considerava-se médica de si mesma, perseguia todos os licenciados em medicina da cidade do Porto, negava-se a tomar um medicamento cuja bula prometesse uma leve azia como efeito secundário, mas morrer é que não era assunto.

Foi com as mulheres da minha família que eu aprendi a ser feminista. Durante a minha infância, a influência da avó Nena foi a do mais puro kitsch de ternura. Por exemplo, as pataniscas que ela fazia, mais pequenas, fofas e recheadas que the real thing, eram entre nós conhecidas como iscas deliciosas. À noite, chamávamos rezeiras àqueles momentos de despedida não assumida que se jogam antes do sono separar adultos e crianças durante uma breve eternidade - eu, na altura um menino exemplar, queria mesmo rezar (mas logo a seguir me perdia em pensamentos eróticos); já o meu irmão, um verdadeiro desastre de (filo)sofia, preferia contar anedotas. Enfim, um deus iradamente delicodoce insinuava o elo familiar por entre ladainhas e gargalhadas com destino comum.

Mas a minha avó nunca ultrapassou essa fase. Quando os netos se tornaram adolescentes (eu, um fogoso rebelde interior; o meu irmão, falando e agindo pelos cotovelos dos dois), nunca nos perdoou o afastamento que para nós foi essencial. Desde então, a minha relação com a avó materna tornou-se combativa.

Com os anos, o elo tornou-se romanesco: quando mais pugnávamos por causa de afectos amolecidos, orgulhos inconsúteis ou tomadas de posição moral, mais a relação se tornava forte, mais se distanciava da lisura de conveniência para se parecer com o verdadeiro laço efectivo que dois adultos conflituantes podem negociar.

Acompanhei a sua degenerescência física e intelectual com lucidez. Mas antes que o tempo impusesse uma despedida sem retorno, resolvi realizar um sonho que a minha avó tinha desde sempre: ir a Paris. E assim fui, com os meus pais e com uma octogenária frágil e teimosa, visitar a luz difusa da capital francesa. Claro que Paris pouco lhe interessou (exceptuando talvez o passeio de Bateau Mouche). Todo o seu amor sem cultura foi canalizado para a Eurodisney, e acima de tudo para esse Além-de-todo-o-Kitsch que é o túnel de bonecas onde nos cantam que it's a small world.

A alegria da minha avó (tivemos de repetir a visita) deixou-me um sabor sereno na saudade futura: consegui devolver uma cegonha à terra Natal.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Crónica do Avô Materno

Quando eu era miúdo, não gostava de dormir: especialmente durante a noite... Por isso, sempre que, estando já deitado na cama a horas decentes para qualquer infância, eu ouvia o carro dos meus avós maternos a chegar a minha casa, isso constituía um momento de imaculada felicidade. Por vezes, a visita dava mesmo direito a curtir a insónia longe dos lençóis (apesar dos protestos da minha mãe); outras vezes, era só a minha avó que me visitava com o seu carinho excessivo (os avós maternos sempre foram mais importantes para mim do que os paternos, pois estes tinham os meus primos para se ocuparem). Seja como for, aquele zumbir carnal do automóvel era inconfundível para mim, e para sempre me marcou como uma delícia pueril (e pavloviana, diga-se).

O carro era um prolongamento do BuQuim. O senhor conservava-o como se fosse um objecto precioso, destinado a um convívio com o tamanho da vida inteira. Era um Ford Cortina XL (parecido com o da imagem), espaçoso, elegante, absolutamente fiável, capaz de vexar qualquer algodão inquisidor de limpeza. Era um carro antigo, e a relação do meu avô com o carro era uma relação antiga. Aliás, todas as relações que o meu avô constituiu funcionaram segundo o mesmo modo recto e ancestral.

O meu estranho nome Ludgero (que, ao contrário do que é costume em empresários, fotógrafos ou médicos, não é um apelido) foi herança sua. Só que o meu avô não era meu avô real: a minha mãe não foi criada com os seus verdadeiros progenitores, mas com uma tia e o marido desta (o tal Ludgero). Ora, não só a minha mãe sempre assumiu a verdadeira filiação perante os seus pais de afecto (que nunca chegaram a legalmente adoptá-la), como nem eu nem o meu irmão alguma vez conhecemos outros avós maternos que não fossem esses (a avó verdadeira morrera antes de nós nascermos, e o avô não era bem vindo). Ou seja, o meu avô materno não me deu o seu sangue, mas o seu nome.

E eu, que tenho a mania das árvores genealógicas por afinidade (considero-me mesmo descendente de Heraclito), sempre senti essa nobre estafeta como um orgulho. Estão sempre a dizer-me, apesar de eu protestar contra isso, que eu sou um rapaz antigo (e dizem-no como elogio, imagine-se). Se isso significa eu valorizar, modernamente, a relação do meu avô com o seu Ford Cortina (os temas clássicos), em detrimento das putativas emoções do ciborg-carro (os temas pós-egípcios), então aceito. De qualquer modo, o meu avô foi uma das seivas que marcaram decisivamente a minha maturação. É claro que (à semelhança do meu professor de português do secundário, fundamental para o meu gosto pela escrita) era um indivíduo terrivelmente conservador, que hoje talvez me fosse difícil suportar. Mas a sua estatura talhada a prumo, a sua afectividade pouco exuberante mas absolutamente segura, a sua precisão ética, constituíram para mim um precioso espaço-pai (que é carne do espírito).

De tal modo era sólido o meu avô, que uma vez a Pide o convidou para ingressar nos seus quadros. Ele rejeitou. Penso que o fez essencialmente para evitar dilacerações na sua vida (aliás, sempre lamentou o vinte e cinco de Abril), mas a verdade é que tomou a atitude certa.

Um dia, estavam as estradas de minha casa ainda alcatroadas com algum desleixo rural (que, como toda a gente sabe, é uma praga camarária), uma chuva diluviana rebentou os muros da rua da garagem e, provocando um Nilo digno do Antigo Testamento, arrastou o Cortina até o danificar severamente. Mais tarde, numa noite estupidamente indiferente, o carro foi roubado sem ruído, e o BuQuim nunca mais foi indemnizado pelo seu paradeiro.

Há um momento na vida em que começamos a morrer. A agressividade do dilúvio e do roubo traçou essa fronteira para o meu avô. Não por causa do automóvel propriamente dito, mas porque a violência do tempo em revolução dilacerou por fim o homem de certezas lentas.

Hoje, não encontro motivos suficientemente fortes para desprezar um bom sono. E mesmo detestando automóveis, acredito, sinceramente, que aqueles sinistros que a felicidade zumbidora sofreu foram ordenados por uma infernal Pide divina.

domingo, junho 29, 2008

Crónica do Avô Paterno

Quando eu nasci (tarde e a más horas, enegrecido, esquelético, inerte, mudo: sem vontade de nascer, portanto), o meu avô paterno, que não era dado a diplomacias, exclamou: " - Este vai para os anjinhos!".

Nada de estranho: a geração que andaria agora pelos noventa anos de idade, ainda estava habituada a um modelo de natalidade fundado mais no azar da quantidade do que na concentração afectiva. Todavia, a verdade é que os anjos nos condenaram aos campos opostos da mortalidade, e por isso, quando eu cheguei à idade de estar nascido por completo (se bem que a pós-parteira da maturidade até hoje ainda não me tenha parido a diligência), o meu avô estava profundamente doente. Já o pai dele estivera entrevado durante mais do que uma década, e agora o seu exemplo (várias tromboses incapacitantes) começou a moldar a hipótese de uma maldição familiar, destinada a ser transmitida de varão em varão. Assim, o personagem que a minha infância acompanhou resumiu-se a um velhinho gasto, mirrado, parado, insano, com os dedos amarelados pelo cigarro e a boca viciada na arte do palavrão. Um dia, ele morreu.

Penso que serei sincero se afirmar que o meu avô paterno vive mais em mim como a memória de uma imagem do que como um afecto. São as voltas que o sangue dá (e como esta frase diz tudo). Hoje, a crónica do avô paterno só pode ser a crónica dos laços secundários (alguns ornamentais) que em torno da sua figura se formaram. Da teia que, sem querer, ele urdiu.

É, por exemplo, a crónica do Tio Capitão, o seu cunhado, assim chamado porque era militar profissional, e que o Bu-Guedes abominava com aquela irritabilidade sem fundamento que os machos sempre adquirem no envelhecimento. O Tio Capitão tinha um discurso de homem pio, ou melhor, de gentleman ingénuo. Quando me telefonava a desejar um bom aniversário, gostava de mostrar a sua patente lírica e mandava-me conduzir a minha vida de acordo com as estrelas (ao seu lado, a irmã do meu avô, que não era dada a diplomacias, mandava-o deitar as estrelas às urtigas). Como sofri várias heranças por afinidade, penso que foi mesmo dele que me veio a falta de competência na condução automóvel.

É a crónica da Teresa, a jovem empregada, uma rapariga pasoliniana cuja timidez era um traço inquestionavelmente social. Na altura, todos os adultos brincavam imenso com ela por causa dos benefícios de ir à farmácia de vez em quando (ela tinha casado há pouco), enigma cujo sentido só decifrei muito mais tarde (acho eu). Se de alguma coisa me lembro, é precisamente do sorriso da Teresa, um sorriso demasiado servil para ser malicioso.

É a crónica das alcunhas que tinham todos os habitantes de Vilar do Paraíso (na altura um limbo ruralóide, hoje um purgatório suburbano). Quando a minha mãe, educada em pleno centro do Porto, começou a conviver com os habitantes locais, julgou mesmo que havia pessoas que tinham sido baptizadas como Olinda Batata ou Azeiteiro. Já se sabe, isto de Éden só se aguenta se for temperado com muito humor.

É a crónica dos animais que sobrepovoavam a casa dos avós paternos: os cães (que ferraram o meu irmão, mas deixaram o medo comigo), as gatas de má vida, os borrachos (que eram tão fofinhos mas sabiam tão bem quando cozinhados - o meu primeiro dilema endocrino-ecológico), ou as tartarugas imorredoiras.

O meu avô era fundidor. E é assim que eu o vejo: como alguém cuja presença-ausente deu brônzea consistência a uma infinidade de modelos que me acompanham ao longo da minha travessia. Prévios anjos de gesso que a memória a partir dele endureceu em estátuas que, lutando contra a maldição, não me deixam ficar parado na ponte que diariamente construo (ou destruo?).

sexta-feira, junho 06, 2008

Anexo



Esta imagem funciona como anexo da Crónica de Chidiya Tapu.

É, obviamente, uma fotografia pirosíssima. Mas a verdade é que o jovem casal que eu apaparizzei, estava mesmo a caminhar em direcção ao sol poente (estes indianos...). Se a coloco no blogue, é apenas para ilustrar aquela Crónica (o que na altura não consegui fazer), para provar que eu estive mesmo lá, e para contribuir com uma imagem de tão belo lugar para esta rede onde, aparentemente, todos podemos ir a todo o lado.

sábado, maio 31, 2008

Crónica da Avó Paterna

Sempre que penso na minha avó paterna, desaparecida há já bastantes anos, visita-me a imagem das andorinhas a preparem-se para migrar no mês de Setembro.

Durante a infância, eu ia sempre passar quinze dias a casa dos pais do meu pai no fim das férias de Verão (os meus tios e primos, que viviam lá, viajavam para o Algarve nessa altura, o que significava que havia quartos vazios para eu e o meu irmão ocuparmos). Como em casa da avó Lina havia muitos ninhos de andorinhas, eu gostava de ficar a observar as rotinas dos últimos voos nortenhos destas aves, e de ir mentalmente anotando a quantidade decrescente da sua presença. Na altura, nada disto me entristecia, mas agora, a recordação do fim de uma era da preguiça afigura-se-me insuportável.

A casa da avó era enorme, não à maneira do mausoléu de um jogador de futebol, mas com aquele charme dos lugares antigos, construídos sem rigor, marcados pelo tempo e pela falta de sofisticação. Enquanto o meu irmão se ia esmurrando a andar de bicicleta no pátio, eu preferia arquitectar uma solidão mágica na grandeza do interior. Senhor de um vasto palácio onde tudo era possível, eu sonhava mundos vagamente paralelos, perscrutava os livros dos meus primos (li alguns enredos de Shakespeare num livro de banda desenhada), e escrevia textos ridículos para concursos literários (uma vez, armado em anglófilo, participei num concurso de drama radiofónico da BBC cujo tema era "Pride and prejudice", e que eu, ignorante de todas as Janes Austen deste mundo, traduzi por "Orgulho e prejuízo").

A avó paterna era conhecida pelos seus disparates, que faziam parte do anedotário familiar. Até ao fim da vida, nunca conseguiu pronunciar o nome Vanessa (o que teria agradado ao António Variações), conversava baixinho quando na televisão se segredava, e se alguém lhe falava com sotaque brasileiro, ela respondia logo com aquela musiquinha de quem já vive no Rio de Janeiro há décadas. Com ela, eu passava longo tempo a discutir o progresso das telenovelas que na altura faziam furor. Enfim, reconheço que os pastelões da Globo foram, para mim, uma importante escola de ódio (ah! quando a Tónia Carrero desmascarava a vilã Teresa Rachel...). De outro modo, ter-me-ia tornado um lorpa incorrigível. A minha avó é que nunca conseguiu aprender nada com as telenovelas.

Havia também as especialidades culinárias, tudo muito pouco saudável. Desde gordurosíssimos panados ao lendário e espesso timbale de frango, eu deliciava-me nesta idade da inocência-pré-asae, e certamente ia educando o meu corpo para a tendência de engordar.

Uma vez, estava eu alojado no quarto do meu primo Ricardo, a mosquitada não me deixou dormir. Toda a santa noite fui assombrado pelo ruído de dezenas (não exagero) de aviões low cost, e pela dor prazerosa das suas picadas. Não preguei olho, a insónia foi completa. Quando amanheceu, os mosquitos começaram a tentar sair para a luz pelo vidro da janela. Saciados, queriam partir. Então eu, verdadeiro Pedro o Cru, matei, um a um, todos os meus torturadores. Foi uma festança de sangue e vingança. O último a rir fui eu.

E ainda hoje, não sei se já deixei a minha avó partir, ou se ainda não realizei o luto que, dada a infantilidade da idade que eu tinha quando ela migrou, me esqueci de fazer.

quinta-feira, maio 01, 2008

Crónica do Sino

"Only the bell that follows does not wait
galloping motherfaced across the shadowy fields
across the shadowy fields at nightfall
to abrase you to the bone with rough chime"

Malcolm Lowry





Vivemos numa época em que os sinos não são ouvidos. E no entanto, eles permanecem aí, à espera de que o badalo do silêncio os torne de novo possíveis. Raros, sabem que a sua música já não vale apenas bronze, mas ritma o que pode ser ouro no quotidiano.

Comecemos. De madrugada, estou sempre preso à rotina onírica. Por lá não encontro propriamente relógios derretidos, mas o pressuposto da fundição é omnipresente: o tempo funciona como molde infinitamente variável que faz com que todos os instantes do sonho sejam formas musicais.

Quando acordo, o meu sino profano é uma gata de feitio pouco laudatório. Pelo menos, ela fica num sino quando alguém lhe dá a primeira refeição do dia. E enrosca-se dentro de mim para que eu nunca me sinta mudo e vazio. Sua voz é apenas um carril do carrilhão felino.

Enquanto conduzo, a rádio vai debitando a sua insuportável liturgia de optimismo. Nada é mais odioso que um locutor convencido de que o seu horário dá saúde e faz crescer. Automóveis, trânsito pop, notícias de S. Petersburgo, o mundo, sobre tudo isso paira o sol na sua torre ainda tão longe do mar e do fim.

Guloso como sou, um grilo falante repica-me nos ouvidos à hora do almoço: é a dra. Helena Coutinho que me promete um inferno de diabetes e ataques cardíacos se eu não emagrecer. Os alimentos desfilam em procissão, inatingíveis como todas as imagens de devoção. Obrigo-me a uma santidade alimentar: na praça do meu prato passa apenas o papa-móvel da dra. Helena Coutinho.

Por volta das três, começo a trabalhar. Money makes the world go round, mas eu tenho espírito ptolomaico, e ainda acho que o movimento é oração exclusiva do sol. Assim mo diz a permanente combustão que no meu íntimo exige liberdade, sensualidade, alegria. O sino está agora dentro de mim, como uma resistência incandescente.

Depois, o paradoxo: quando a sagrada luz devolve a sua torre às presas da grande noite mamífera, fico então disponível para a palavra. Sobre o dorso do poema, descubro o caminho sonoro para as índias do sul. Reencontro sem acaso a minha vera cruz: aquela que eu escolhi.

E por fim o sono: a Fada Sininho que me devolve à terra do nunca. Completo.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Crónica de Chidiya Tapu

A Índia não nos recebe com aquele meneio de cabeça que os seus habitantes usam para exprimir timidez, comoção, delicadeza, ingenuidade, resignação e espírito submisso (tudo o que há de bom e de mau em tão nobre povo).

Pelo contrário. O país expõe a sua miséria como se ela não fosse inefável, mostra-se pouco higiénico, propício a doenças, desordenado e perigosamente confiante nas virtudes das indústrias de tecnologia e informação. Em compensação, o sistema de castas permanece oculto perante o estrangeiro. Seria preciso recorrer a uma convivência quotidiana para captar toda a aberração dessa situação social.

O rapaz que nos conduzia pelas intrincadas estradas de Port Blair nunca fez o dito meneio de cabeça. Mas como todos os indianos, conduzia como um louco. Buzina omnipresente, ultrapassagens suicidas e homicidas, desprezo por qualquer código da estrada (será que existe um código naquelas paragens?). Para os cépticos da viagem, prometo que a Índia é um daqueles raros lugares onde ainda é possível fazer uma experiência de genuíno caos. A ordem da globalização ainda não chegou lá (também não vi nenhum McDonalds).

Ao fim de uma inverosímil meia hora de viagem, chegamos a Chidiya Tapu, um pequeno cabo da South Andaman Island onde os mafiosos do turismo gostam de levar os estrangeiros para ver o pôr-do-sol. No entanto, o nosso guia perguntou se não gostaríamos de ir primeiro até à praia ali vizinha. Desejosos de relaxamento marinho, aceitamos logo a proposta.

Mal chegamos ao local, soubemos que tinha sido uma das zonas costeiras afectadas pelo grande tsunami de Dezembro de 2004.

Atrás do pequeno areal, havia uma selva inexpugnável onde se adivinhavam animais indómitos e excêntricos. Pastando à beira-mar, via-se um conjunto de vacas que, pela excessiva magreza, não se deviam sentir sagradas. O mar era um lago calmo e cálido, um eco do crepúsculo decorrente. Ao longo de toda a praia, viam-se árvores feitas em pedaços, caídas ao chão, com as raízes agressivamente expostas, como se fossem feridas resistentes à cirurgia plástica da passagem do tempo. Era um lugar protegido, solitário, de uma tranquilidade infinita.

Tirei logo a t-shirt e lancei-me àquele oceano sem ondas e livre de toda a sensação de frio. Mergulhei, nadei, etc. Mas eis que reparo nos indianos que estavam presentes no local. Incapazes de turismo fútil, incapazes também de sofisticação, entravam na água vestidos. As mulheres envergavam os seus saris (a peça de roupa mais bela do mundo), os homens talvez tirassem apenas a camisa. E tratavam o elemento líquido com tal discrição, tal gentileza, tal espírito de adoração, que eu supus que aquele lugar manso mas cheio de cicatrizes de uma violência excessiva conseguía reunir em si todo o sofrimento de um país.

Depois disso, o pôr-do-sol pareceu-me redundante.

terça-feira, novembro 27, 2007

Crónica da chuva


Não tenho especial prazer em andar à chuva. Sinal, afinal, de que não sou tão tolo quanto precipitadamente me julgam.


Prefiro ficar de cima, despejando os cântaros (há quem lhe chame potes) de onde a chuva cai. Esta auto-sãopedrização não deriva de qualquer vaidade ética, mas do meu gosto por chaves que não sejam mestras (gosto partilhado por todos os tolos que acreditam em almas -desconfortavelmente- siamesas).

Os ingleses fazem chover gatos e cães, o que é simpático mas pouco prático: especialmente em Portugal, muitos andam por aí vadios a cheirar os cadáveres da sua própria condição (são gatos e cães de raça skeleton key).

Dos meus cântaros, eu faço chover outras coisas. Já disse num poema que eram peças de lego. Um pouco construtivista de mais, é certo. Mas não é que a construção final se reduz ao mero vapor do ciclo da criatividade infantil?

Fazer chover maná? Isso era no tempo das mercearias: a papinha vem agora toda feita em tétricos packs.

Chover é folhas de trevo(a) que completem quem ainda só tiver três. Chover parafusos sem fim para quem tenha a cabeça demasiado porca (quem lhe falte apenas um, não saia à rua nesse dia). Chover as jubas fluorescentes que vão desaparecendo aos dentes-de-leão. Chover minúsculos Baedekers para que as joaninhas conheçam outro destino que não a capital. Chover o que falta à catedralita do Gaudí, chover títulos do Hemingway sobre o Kilimanjaro ou chover vestidos de himeneu sobre o túmulo de Antígona. Chover as bolinhas dos sinais de percentagem das taxas de eu- juro.

Chover seja lá o que for, mas chover com garra, lata e abundância. Um dia virá a Asae e proibirá a chuva. Ou pelo menos a imaginação miudinha.


(Imagem de Animesh Ray)

quarta-feira, outubro 10, 2007

Crónica do voo

Nenhum homem é capaz de voo.

No entanto, se a faculdade do canto é teoricamente universal, a verdade é que a prática desse dom ornitológico contribui de modo particularmente intenso para a infinita variedade com que o humano se conjuga.

Seria a nossa vida mais justa se o negócio com os pássaros tivesse sido o oposto? Se a música vocal nos estivesse vedada e o voo fosse a forma comum de levar vibração ao desejo de sentido?

Desde logo, a nossa carência seria bem menos física. Afinal, o que projectamos no canto é algo que se pode tornar absolutamente independente de nós (o som). Se nunca tivéssemos sabido cantar, essa falta pesar-nos-ia tão pouco quanto hoje nos pesa o desconhecimento de um sexto sentido.

Já a carência do voo nos dói mais. É que a perícia alada não só produz vibração emocional como também transporta o corpo de lugar para lugar com liberdade e velocidade excepcionais. O que projectamos no voo? Nós-mesmos. Cabalmente.

Mas se pudéssemos voar, voaríamos todos de formas diversas. Desde logo, é certo que haveria mudos. Gente que, por uma terrível maldição patológica, não saberia dar uso às suas asas. Teriam de voar através de estranhos aparelhos artificiais. E isso talvez fosse bom: os aviões seriam análogos a um código gestual, encheriam o ar com mais enigmas do que ameaças.

Haveria roucos, claro: voadores menos perfeitos, mas nem por isso menos sensuais. Frequentariam consultas regulares de médicos cuja especialidade teria um nome maior do que otorrinolaringologia.

Não nos livraríamos dos artistas. Sopranos, contraltos, tenores e baixos encheriam os céus com as suas idiossincrasias capazes de coreografia coral. Haendel, Bach ou Luigi Nono abandonariam as pautas para se tornarem peritos numa notação bem mais pictórica. Uma mulher voaria demasiado perto do limite da atmosfera: chamar-se-ia Callas. Um homem seria capaz de exorcizar a terra no céu: chamar-se-ia Bob Dylan. Planadores carismáticos, Bogart e Bacall ter-se-iam encontrado num ecrã um pouco menos imaterial. Hitchcock filmaria o ataque de juke-boxes. Grandes virtuosos entreteriam o planeta ora em AM ora em FM.

No grito, perder-se-iam penas literais.

O bebé confirmaria a sua vida num pequeno golpe de asa.

Então, eu escreveria uma crónica nostálgica do canto.



(Imagem de Quint Buchholz)

sábado, setembro 15, 2007

Crónica da noite

Nocturno 2
(também conhecido como Suite Hipostila)



Cada noite define-se pelas colunas que a sustentam:

Noite dórica - Chegada a casa após as dores de coito, a mulher tira a base do rosto. Andou toda a noite na universidade da vida, em regime de trabalhadora-estudada. Está mais sóbria: não tem tocado nem numa gota de Jack the Ripper. Assim, apesar de se saber antes de Cristo, o tipo de fé que tem na vida não está nem um pouco envelhecido. Quando eu passo em frente da janela da sua casa, ela trauteia que o sol é um filho da puta.

Noite jónica - Não sabem bem o que são iões, mas querem muito partilhá-los durante a noite. Dão duas longas e, já cansados, duas mais breves. Estão a escandir aquilo que, por falta de imaginação, chamaram paixão. Estão a fazê-lo, por isso, em línguas que não são as suas. Espera-se que a arte do beijo vá fazendo com que cada um se traduza no outro de forma cada vez mais simultânea. Mas por enquanto, têm muito corpo para catalisar (digo eu).

Noite bizantina - A cúpula estridente da discoteca ergue-se sobre uma única coluna: a quinta aumentada pela traição que o desejo a si mesmo provoca. Os beijos trocados são subtis e fúteis como todas as questões teleológicas. Eu estou quietinho, como se pertencesse a um mosaico cujo fundo não fosse suficientemente dourado para estar em contraponto com o lugar: a minha alma by night.

Noite coríntia - Por vezes, a noite acantona-se com narrativas. Hélas: reservo essa noite para mim. Quero música cigana como banda sonora, quero cantar e dançar como uma mulher de Cabo Verde, uma lua lorquiana, muito relento embebido em álcool: tudo o que as passas-do-allgarve permitem. Não pretendo, aliás, distinguir os sonhos dos pesadelos. Nunca aprendi as regras estílisticas da execução dos diferentes trilos estelares.

Noite romana - A vida é uma viagem a Itália cujos caminhos todos vão dar à morte. Não pode o Homem descalçar esta bota sob pena de andar vergado e sem equilíbrio à maneira de Pisa. E de qualquer modo, cada um de nós tem direito ao seu calcanhar-de-aquiles para acabar com as dores no cotovelo. Dizem os cristãos, atletas paralímpicos, que convém estar bem vertebrado no encontro com a Noite (ou pelo menos levar mais do que um óbolo). Ao que eu respondo que os discos da minha coluna só sabem lançar canções.

domingo, julho 29, 2007

Crónica do passado

Não se falava de outra prisão a não ser da que tinha cabido a El Solitário. Mas eu tinha tomado a máquina-do-tempo em direcção à Póvoa de Varzim (consegui viajar no expresso, o que me permitiu saltar os séculos que não me interessavam), para assistir a um concerto de cantos europeus do passado. Uma hipotética Grécia Antiga, a religiosidade medieval, cantares sefarditas, noruegueses, escoceses, instrumentos de fantasia (o passado é ficção científica sem efeitos especiais) chamados aulos, santur, e muitas outras bizarrias.

O espaço escolhido para o recital fora a Capela de São Pedro de Rates (nenhum passado português faz sentido sem uma capela). Pelo que tive de apanhar um autocarro gentilmente cedido pela autarquia para me dirigir desde o Turismo da Póvoa até à dita paróquia no meio de nenhures. No veículo, a companhia reduzia-se a um conjunto de velhinhas com cheiro a flores de cemitério (quando em modo de cinismo, o perfume é sempre um instrumento de vanguarda). Chegados a São Pedro, fomos recebidos pelo hospitaleiro casal rústico formado pelo silêncio e pelo odor do estrume. O tom sussurrante do momento, uma bolha protegida do presente, fez com que algumas recordações sem drama me visitassem (madalena, para mim, faz-me lembrar um orfeão onde eu tive de ser resistente Snaporaz no meio da cacofonia).

Ao longe, deparei com duas personagens que em tempos conheci (elas não me reconheceram porque eu sou menos memorizável). Um anão que declamava António Nobre sobre um fundo de ondas entoado pelo público por si instruído. E uma daquelas senhoras adoráveis que já no útero materno preferiam oxigenar o cabelo em vez da mente, com vozeirões de mezzosoprano enrouquecido, mas que foram casadas com indivíduos relevantes da vida intelectual.

Apareceram as pessoas do costume: discretas professoras de meia idade (professoras de piano, certamente, porque as discretas professoras de meia idade são sempre professoras de piano), betinhos que cantam em coros onde se cantam te deums e magnificats, jovens candidatos a prodígios de um instrumento, avós de jovens candidatos a prodígios de um instrumento, a senhora com aspecto de Clara Ferreira Alves, e alguma gente que foi parar ali como se o Governo a tivesse desviado para uma propaganda qualquer. Não vi aquele senhor que corria os concertos da Invicta com uma mala cheia de dicionários (talvez já tenha morrido: denotativamente). Também não estava presente o crítico Augusto Seabra. Cheguei a pensar que, se isso fosse relevante, valeria a pena ser a Agustina deste universo (Agustina que, claro está, é o Proust do Minho).

Fixei atentamente um homem cujo rosto me parecia familiar e estranho. Cheguei a supor que era um irmão do Manuel Luís Goucha (a parecença também pode ser pimba). Mas não. Ao fim de algum esforço, concluí que era um amigo casto (sic) de uma amiga casta (sic) que tive no passado, sem a barba que durante anos o tornou personagem do século XIX.

O concerto, máquina do tempo emocional, foi maravilhoso. Desde logo porque só participei como espectador. Passado, sim: mas sem barba.

quarta-feira, junho 27, 2007

Crónica da química

Antes de ter começado a minha especialização em Humanidades (no sentido de seguir a via de algo muito especial), tive de frequentar uma disciplina de estudos chamada Físico-Química.

Aos treze anos, ninguém é tão pouco sério que consiga servir dois científicos senhores. Pois na verdade, a Química é a ciência da infância e das suas reacções contínuas através da adolescência, enquanto que a Física é assunto de gente madura, velha até, gente sisuda que pensa mais do que sente. Por isso, aos treze anos tive de estudar a ciência do que eu era na altura, e a ciência do que haveria de ser. Tudo isso fragilmente divido em semestres, exactamente como o ano fragilmente se divide em aurícolas e ventrílocos.

Aos treze anos, ninguém gosta de Física (excepção feita talvez ao capítulo da óptica, porque a luz chega veloz a qualquer idade). Aos treze anos, toda a gente gosta de Química. De qualquer modo, ajuda ter um professor que se não cortasse o cabelo pareceria um cientista alienado, detentor de um sotaque nada neutrão, e que contava sempre as mesmas piadas como se estas estivessem desde sempre e para sempre escritas numa tabela dos elementos do humor.

E claro: havia também as experiências: aquele potássio que cai sobre a água e provoca a primeira ejaculação.... E as explosões, tudo aquilo que o professor trapalhão não conseguia controlar, e que acabou por descambar em fogos-de-artíficio no momento e em fogos fátuos na memória.

Chegados à idade adulta, todos nos tornamos einsteins dessa coisa tão relativa que é a sobrevivência. No segundo semestre da vida, temos de fazer os testes decisivos, por vezes alcançamos sucesso, mas também aprendemos a reprovar. Não quer isto dizer que já não haja coisas para simplesmente provar: o gosto do saké, fazer surf mal feito na última onda antes dos quarenta, pensar que o filho pode ser um bandalho se o quiser, um corpo mais jovem que nos aflige, ficar apóstata, ficar apóstolo, ou simplesmente tolo. Pequenas e pobres coisas que um qualquer mistério vital torna preciosas, riqueza-humanidade, controlo da morte com factor C.

O envelhecimento transmuta a Química em Alquimia.

terça-feira, abril 17, 2007

Crónica da manga

Um dia destes, uma manga mais espaçosa e grosseira sugeriu-me que aquilo que eu estava prestes a comer se parecia com uma bola de rugby.

Metáfora nada indigesta, aliás mais aperitivo que digestivo. Comecei logo a supor que desde a plantação inicial do fruto num país tropical, até ao meu prato, passando pelo cuidado agrícola, o esforço de colheita, a viagem sobre o oceano, a venda, tudo isso fora feito por homens rudes, fortes, francos, homens ainda capazes de fazerem valer o seu corpo, sem delicadezas desnecessárias, nem maldades requintadas.

O próprio acto de retirar a casca à manga se me afigurou um desafio (como se eu fosse ainda criança a descascar o meu primeiro fruto). E aí tudo surge: a adrenalina, a vontade de vencer, um certo sentido de táctica, faltas, cartões punitivos de mau comportamento, por vezes até a excitação de um público.

E não sei se isso se refere especificamente à minha bola de rugby, mas nestas andanças de descascar frutos e separar ossos de frango, há sempre imensas superstições que arranjam maneira de se impor. Pode ser o não ficar solteiro, o ter filhos rapazes ou raparigas, o morrer mais tarde ou mais cedo, o ter sorte na vida, ou o sair vencedor nos jogos da paixão, preocupações simples que pertencem à infância do mundo, e que por isso mesmo me parece bem que estejam na mão de homens que não pretendem crescer.

E no fim de tudo, o golo: o sabor do fruto a invadir a minha boca.