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sábado, junho 01, 2013

O respeito conquista-se

EU SERIA INCAPAZ DE DIZER QUE O CAVACO É UM PALHAÇO!!!!

(Talvez dissesse, contudo, que é a senhora que vende pipocas e batatas fritas na entrada do circo.)

sexta-feira, maio 31, 2013

Batismo

A partir de agora, os meus espermatozóides serão carinhosamente tratados por "Pintos em Banho Marinho".

terça-feira, maio 21, 2013

Humanidades forever

As mamas da Angelina Jolie não me aquecem nem me arrefecem. Mas algo me diz que esta cedência à probabilidade genética tem uma índole semelhante à da economia de casino com que nos querem mutilar. Em todo o caso, a próstata ninguém ma tira.

segunda-feira, maio 20, 2013

galinhovo

"A política é o que fazemos uns aos outros, a cultura é o modo como falamos disso."

Penny Arcade


- Falta só dizer que aquilo que fazemos uns aos outros é o resultado do modo como falamos daquilo que fazemos uns aos outros.

quinta-feira, abril 25, 2013

Bitaite pop

Normalmente, as pessoas que apreciam música popular fazem uma ligação direta entre esse gosto e o cinema dito popular.

Acontece que não há uma correspondência justa entre a produção fílmica industrial (sobretudo hollywoodiana, mas também a que se inspira no modelo americano) e fenómenos musicais como os cantos klapa, o flamenco, o jazz ou o hip hop. A música popular, que surge no contexto do trabalho agrícola, da festa de aldeia, do encontro para celebração de culto, das ruas urbanas cheias de perigo, etc., nada tem a ver com os estudos de mercado, os exercícios de propaganda, os cálculos de manipulação psíquica que acompanham a feitura do produto cinematográfico industrial. Vítor Gaspar, com o seu excel, seria um excelso produtor de putativas aventuras exóticas e outros sonhos que o pariu.

Claro que também há Justins Biebers. Claro que os bardos da Jamaica ou do Mali acabam por ser absorvidos por estratégias de mercado. Mas, no cinema, dada a complexidade, a especificidade técnica e os elevados custos de todo o processo criativo, a possibilidade de expressão "popular" é diminuta e sobretudo nunca genuína. Mais do que qualquer outra arte, a sétima pressupõe a energia resistente de um autor para poder falar, verdadeiramente, de alguma coisa verdadeira.

domingo, outubro 14, 2012

Uma nota sobre antropologia

Estando perfeitamente consciente da patologia cancerígena que invadiu a cultura dos povos ditos primitivos após a sua invasão pelos colonizadores ocidentais (nem peixe nem carne, exílio na lota e no matadouro) e das múltiplas formas de violência a que eles foram submetidos até serem vias rápidas para uma provável extinção, o encontro com as narrativas antropológicas e com uma obra como a de Jean Rouch (na imagem, um fotograma do filme "La chasse au lion à l'arc"), tem me feito entender essa História outra, perdida no tempo (ainda que recente) e no mar das possibilidades, como um planeta feérico que me parece estranhamente equivalente daquele que me chega por via de fábulas, lendas e mitos. Embora factuais e documentados, esses outros modos de viver, quando ainda tinham a integridade de modos de viver, oferecem-me um maravilhoso político e moral que se pode traduzir pela fórmula iniciática: "era e poderá ser uma vez"...

sábado, outubro 06, 2012

Uma nota sobre o presente

Ouvimos os dirigentes de Portugal defenderem que as decisões que vão tomando nas costas largas da crise não poderiam ser outras decisões. Convém contudo sublinhar que essa fatalidade não resulta de nenhuma virtude das estruturas que organizam a civilização presente, mas da chantagem que um determinado estado das coisas provoca. E se esta verdade é la palisse, ela parece não estar presente nem nas mentes dos carrascos económicos (Passos Coelho e Vítor Gaspar terão com toda a certeza fantasias de submissão masoquista, mas eu, enquanto cidadão de um estado moderno, não tenho de aturar as taras eróticas dos meus governantes) nem nas daqueles que exigem um outro rumo político para o país (já que aparentemente pressupõem que, com os mesmos ingredientes civilizacionais, se pode fazer uma receita de sabor totalmente diverso).

É, de facto, uma questão de chantagem histórica. Um pouco como no estranho caso do Estado Social: dizem-nos que não há dinheiro para o sustentar, mas o que nos estão na verdade a dizer é que, entre a invenção chamada “dinheiro” e a invenção chamada “Estado Social”, querem optar pela primeira. Ora, eu por acaso discordo. Dizem-nos também que o capitalismo é o único sistema eficaz, e eu respondo que sim, é como o cancro, é sempre mais fácil fazer merda. É fácil fazer funcionar uma sociedade na qual um conforto de uns é assegurado pelo sofrimento de outros (por vezes extremos, os dois opostos).

Ao contrário do que pensam certos próximos e distantes, eu não tenho qualquer sedução pelo comunismo. Acho tudo isto demasiado complicado, dever-se-ia regressar a uma introdução à Economia e verificar, sem dogmas nem vícios, para que é que ela serve: para gerir a escassez em defesa do bem-estar humano? Então pensemos a forma mais simples e elegante de o fazer.

Em todo o caso, não vale a pena pensar em utopias, nem que sejam utopias da simplicidade e da evidência. Os milhares de manifestantes de 15 de setembro, com cujo desespero sou absolutamente solidário, são na sua maioria praticantes de uma filha-da-putice relacional e profissional no seu quotidiano que impediria fosse qual fosse o sistema de organização político-económica de funcionar em plenitude. E o Tólstoi, que era um escritor francamente chatinho, tinha razão ao minorar o papel dos grandes homens e das revoluções no fazer da História: tudo acontece por um sem-fim de circunstâncias que mais ou menos por acaso se conjugam numa determinada época, sendo o destino uma lenta diplomacia de Parcas de bastidores que movem os homens um centímetro mais para aqui ou mais para acoli.

Já ouvi alguém dizer que o restabelecer da idoneidade das contas públicas era uma maratona e não um sprint, e acho que quem o disse até tinha três iniciais apenas. E talvez seja isso que é preciso fazer. Aproveito contudo para dizer que, sendo eu filho da dúvida cartesiana e tendo experimentado o fim das certezas como um copo cheio de possibilidades, não estou disponível para mudar as moscas. Sobreviverei, como os outros.

sábado, setembro 15, 2012

Bio-manifestação

Após o já famoso passo do coelho em direção à tsu, ouvi alguém dizer que, por entre as reações a quente às declarações primeiro-ministeriais, se estavam a escutar enormidades em termos de ciência económica.

Não tenho conhecimentos técnicos de economia (aliás, é provavelmente o único assunto humano que me dá vómitos mal o começo a abordar), mas sei que, nas chamadas ciências exatas, a eventual correção das suas teorias e dos seus procedimentos não está divorciada da ética (os conservadores costumam aliás ficar histéricos com estas questões). Não me parece que a economia possa ter diferente ambição, e por isso, a virtude técnica da sua prática não pode ser separada de uma hipotética configuração desta enquanto crime.

segunda-feira, abril 09, 2012

Prosaísmo

O problema não é o capitalismo, o comunismo, o cristianismo, o islamismo, o sexismo, o chauvinismo, o racismo, a homofobia, etc (castelos de cartas). O problema, menos sublime, é a teimosia e a arrogância intelectual que faz com que os seres humanos defendam histericamente determinadas ideias, mesmo quando essas ideias causam sofrimentos insuportáveis a outros seres (humanos ou não).

sábado, março 31, 2012

Da originalidade

Não é assim tão raro quanto isso encontrar-se hoje a opinião (do criador ou do crítico) que postula o anacronismo ou a inutilidade do conceito de "originalidade". O conceito é normalmente remetido para o dogmatismo das estéticas de ascendência romântica, e defende-se que um autor como Camões, imitador severo de Petrarca, nunca se teria revisto num tal ideário.

Contudo, em vez de entendermos a originalidade como uma característica passageira de determinado "ismo" histórico, podemos assumi-la da mesma maneira que assumimos, por exemplo, o evolucionismo de Darwin. Ou seja, o romântico não teria inventado um valor que só possuiria significado no seu próprio tempo e no seu quadro cultural, mas teria antes descoberto uma característica definidora de todo o trabalho artístico, característica essa que anteriormente não estava consciencializada pelos criadores.

Na verdade, se Camões não fosse um autor original, seria ilegível no presente. É claro que, à semelhança do que aconteceu com o impressionismo na pintura (a descoberta de que toda a imagem é uma apropriação subjetiva dos dados oferecidos à visão levou a uma espécie de cientifização das técnicas destinadas a sugerir a impressão ótica), a passagem da originalidade à vanguarda saldou-se frequentemente por uma excessiva racionalidade programática. É também verdade que, quando uma lei é descoberta, há sempre a tentação de a cumprir por obediência ideológica e não por espontaneidade natural. Em todo o caso, o conceito de originalidade não tem uma definição fácil (haverá quem o considere apenas sinónimo de idiossincrasia).

No entanto, parece-me inevitável que a capacidade de comoção e comunicação que qualquer arte possui está dependente da constante renovação dos meios expressivos que ela tem ao seu alcance. E, como já escrevi uma vez neste blogue, quando todos os cientistas, médicos, empresários, militares, criminosos, filósofos ou publicitários tentam ser originais, seria notável que só os artistas estivessem isentos de aumentarem o campo de conhecimento das suas disciplinas específicas.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Em desacordo com o desacordo

Depois de ver várias pessoas ensandecidas por causa do novo Acordo Ortográfico e de assistir à eleição do improvável Vasco Graça Moura a herói da Resistência Portuguesa, achei que devia partilhar meia-dúzia de larachas explicativas do meu agnosticismo perante o assunto.

A ideia de que uma legislação sobre a ortografia possa ser favorável à divulgação da língua portuguesa parece-me de um provincianismo inaceitável (pior, só o franchise dos pastéis de nata). Um escritor fascinante pode eventualmente promover uma língua na Torre de Babel, mas mesmo para isso é preciso que um Eduardo Prado Coelho o ande a difundir pelas capelinhas internacionais que relevam nestes negócios da cultura (tudo isto é triste, tudo isto é jogo de influências). Sobretudo, uma língua impõe-se na cena do mundo se um dos países que a acolhem tiver, nessa cena, impacto político, económico e/ou histórico. Portugal é, de facto, um dos países mais decisivos da história (os Descobrimentos mudaram realmente a vida no planeta, talvez não para melhor), mas isso foi há já demasiado tempo para a total irrelevância do país em termos de protagonismo planetário. Agora, um acordo ortográfico não é um instrumento de facilitação da circulação de uma língua (talvez os leitorados de português nas universidades estrangeiras o sejam, mas os governos insistem em aboli-los).

Não tenho conhecimentos suficientes para poder militar por uma ortografia baseada na etimologia ou por uma ortografia cujo modelo é a fonética. Não conheço as últimas teses sobre o assunto, e presumo que todos os assanhados da polémica também não as conheçam. Mas estou à espera de que algum desses comentadores que sabem de tudo e mais alguma coisa me dêem dois ou três argumentos arrebatadores a favor ou contra cada uma das posições (seria um contributo da ordem da cidadania). Algo tipo o "imperativo categórico". Esses argumentos existem?

Acho curioso que, se a base da ortografia passa a ser a fonética, ao retirar-se a consoante muda daquelas palavras em que essa consoante tinha a função de abrir a vogal que as precedia, o que se está a colocar em risco é... a própria fonética. Pois a pronúncia correta da palavra deixa de ser clara. Esta ambiguidade da escrita que só pode ser suprida pelos hábitos dos falantes é típica das ortografias... etimológicas (como é, em grande parte, a da língua inglesa). Talvez se devesse colocar um acento grave nessas sílabas delicadas (por ex.: "espètador"), ou outra coisa qualquer, mas a supressão da consoante muda é simplesmente um ataque à fonética, e não a sua consagração.

O acordo não simplifica nem unifica, como promete. Já nem falo de grafias diferentes para os vários países da CPLP. Em Portugal, há palavras que se podem escrever de maneira diferente consoante os hábitos da pessoa que a utiliza (ex. "acupunctura" ou "acupuntura")... Maior confusão não era possível.

No entanto, também não reconheço grande maturidade nas críticas ao acordo. Esta enorme paixão que agora toda a gente diz ter pelo latim enquanto principal base etimológica da língua não tem a menor expressão estatística entre os falantes de português. Ninguém sabe latim, ninguém quer saber latim e até talvez haja quem tenha raiva de quem o saiba. Nenhuma criança lusa precisa da muleta da língua morta para aprender ortografia. Sintomaticamente, ninguém se indispõe por já não escrevermos "pharmácia" de acordo com a sua inspiração etimológica.

"Egito" contra "egípcios" - já temos coisas parecidas: "doce" contra "dulcíssimo"

"Ação" em português dificulta a aprendizagem de outras línguas, mais fiéis à etimologia (línguas que, por exemplo, dizem "Action") - já temos coisas parecidas: como hão-de as criancinhas aprender a escrever "plage", se a palavra francesa se distanciou tanto das nossas ensolaradas "praias"?

Como saberemos, a partir de agora, pronunciar "espetador" de cinema? - Mas então eu quero que a palavra "muito" se passe a escrever "muinto" para que eu tenha consciência perfeita da sua fonética. Note-se que, na língua russa (e os russos não brincam em serviço, cultural ou político), não há acentos que ajudem os falantes a distinguir a sílaba tónica das palavras: tudo isso é conquistado pelo uso quotidiano do idioma.

Há também um certo elitismo em toda esta discussão. Cita-se a "dansa" da Sophia, mas não se pergunta a opinião daqueles falantes do português que pertencem a meios económica e culturalmente oprimidos e que, francamente, escreverão sempre mal seja qual for a norma ortográfica. Mas a língua também lhes pertence, e eu gostaria de saber o que eles pensam sobre a minissaia.

Não colo a recusa do acordo a um conservadorismo ideológico (muita gente de esquerda resolveu acolher esta causa). Mas estou certo de que, para um Vasco Graça Moura, o "voltar para trás" é suficientemente atrativo para pode ser estendido a várias outras áreas da vida coletiva (do estado social à interrupção voluntária da gravidez). Soigne ta droite! Escolhe bem os teus heróis! 

Estará o Vasco preocupado com o facto de as crianças portuguesas começarem agora a festejar o Halloween? Não me interpretem mal: eu acho que as crianças se devem divertir de todas as maneiras e feitios, mas não as vejo a adotarem costumes do Tibete ou do... Portugal antigo. Pior do que um ataque ortográfico da ex-colónia à ex-metrópole, é a lenta uniformização da cultura da Aldeia Global.

Acima de tudo, gostava que os detratores do acordo tomassem uma posição de fundo sobre toda a história da ortografia, pois, de outro modo, estão indiretamente a aceitar que o acordo ortográfico anterior a este é o mais perfeito. Alguém está a estudar o assunto a sério? Eu não sei se no tempo do Camões a ortografia não seria mais justa... Só com uma posição de fundo, bem argumentada, sobre a história e a ideologia desse domínio linguístico, e não com exemplos pseudo-absurdos que só revelam o seu apego afetivo àquilo que lhes foi ensinado na infância (e por que não nos rebelamos contra a maneira como nos ensinaram a escrever?), é que eu poderei respeitar estes irredutíveis lusos. É uma questão de justeza filosófica.

Quanto a mim, espero que me digam, de uma vez por todas, como hei-de ortografar. Se é mais assim, se mais assado. Eu depois continuarei a cuidar da arte de bem escrever em português.


(Imagem retirada daqui)

domingo, novembro 27, 2011

Dicionário 18

Segundo o "Dicionário de expressões idiomáticas" da responsabilidade de António Nogueira Santos, o dito familiar "a pão e água" tem, como equivalente linguístico, uma outra fórmula bem mais branda, a saber: "a pão e laranjas".

Claro que a validade emocional desta segunda expressão terá adquirido o seu fundamento num contexto em que o citrino em causa seria uma banalidade de nutrição popular. Mesmo assim, há uma doçura potencial, uma corzinha apetitosa, uma vitamina c de copiosidade, que contrariam um pouco o sabor que a água, ainda que bem essencial, não tem.

Muitos santos se terão restringido ao pão e à água (deve ser verdade porque - isso está hoje cientificamente provado - o vinho só alimenta anjos). Mas o que importa é que cada um seja cuidadoso a sonhar o menu que há-de levar para a ilha deserta da crise. Já sabemos que um romano faria do "pão e circo" uma dieta de cidadania. E Maria Antonieta, talvez com mais fama do que proveito, teria a delicadeza de condenar o seu povo a "brioches e champanhe". Recuso-me a perguntar a Ferran Adrià qual seria a sua ementa. As possibilidades são, contudo, infinitas, até porque a boca não come só matéria mas também se alimenta de palavras.

Ainda não escolhi a essência da minha penúria: pão de alho e sangria? scones e chá de canela-maçã? uvas moscatel e vichyssoise?

segunda-feira, outubro 17, 2011

Monogamia seriada

1. A arregimentação de um conjunto de argumentos esclarecedores quanto à mediocridade das telenovelas não é tarefa que exija especial perícia. Lá porque os bárbaros há já muito tempo fazem parte da implosão e não da invasão, não quer isso dizer que baixemos os braços perante o insolúvel problema. Mas não é preciso recorrer a vasta bibliografia ou a farto dote de oratória para conseguir casar a evidência de merda com o discurso que a denuncia. Às vezes, basta atentar em pormenores aparente e secundariamente simples.

Por exemplo, não há novela que se preze que não ofereça a bela cena em que um cônjuge apanhado de surpresa recebe um envelope que compromete o outro cônjuge com a fotogenia da infidelidade. O que é notável é que nunca há ninguém que se lembre de que o casamento junta seres humanos e não heróicas máquinas de castidade e que, por isso, talvez seja preferível desvalorizar do que não-perdoar. Também nunca há pensadores livres que saibam que a fidelidade do matrimónio é histericamente espiritual e que o sexo talvez não tenha sido feito para a vida a apenas-dois. Acima de tudo, nunca há uma puta de uma personagem que veja telenovelas e que por isso já saiba que, quando chega um envelope com o photoshop da ameaça do amor, isso há-de ser um ardil de argumentista pago para mentir ao mundo.


2. Ao contrário do que aconteceu a Xerazade, uma série televisiva aguenta-se o tempo que o share achar que é preciso. Esta vida e morte de personagens (e dos salários dos atores que elas representam) está sempre por um fio de lucro, e talvez isso seja considerado justo pelos sultões do conservadorismo. Acontece que, quando a série se prolonga por várias temporadas, dado o sucesso que patenteia em impedir o sono-alvo do seu público, é praticamente impossível que um casal se mantenha casal durante todo o tempo da imaginação dos argumentistas (tédio makes the world go round). Logo, por um efeito perverso que põe em causa os silogismos de direita, uma produção de entretenimento regida pelos valores de mercado é uma provocação concretamente cultural ao entendimento da relação amorosa como património imorredoiro. Quod erat demonstrandum.

sábado, outubro 15, 2011

Valsa do indignado

1. Uma história verídica:

Uma pessoa que muito estimo precisava de alguém que lhe trabalhasse o quintal. Outra pessoa que muito estimo foi contratada para tal tarefa. O jardineiro disse ao proprietário que, independentemente de todo o restante trabalho que era necessário, não era a altura do ano adequada para podar uma das árvores do quintal. O proprietário disse que, se não houvesse a dita poda, não haveria contrato para o resto do serviço. O jardineiro, que precisava do dinheiro, aceitou o trabalho e podou a árvore. Veio o verão-em-pleno-outono e a árvore ignorou, claro, a poda.

Isto é o capitalismo.


2. Não sei exatamente o que se vai passar no mundo, e dou de barato (mesmo com o IVA a 23%) que esta crise seja (mais) um momento passageiro que não vai obliterar o triunfo glorioso do capitalismo (ainda que as suas regras e centros de influência estejam sentenciados a uma fatal mutação). O que eu sei é que nunca se atingirá a dignidade plena da vida, enquanto a economia não for fundada na integridade dos produtos e serviços que os homens têm para oferecer a outros homens (integridade material, funcional e ética). O lucro, a publicidade, a especulação financeira, não fazem mais do que, como dizia Godard, oferecer copos de plásticos e bombas atómicas a pessoas que não precisam de copos de plástico nem de bombas atómicas.


3. Não fosse a liberdade que decorre da democracia (e não do capitalismo) e algumas compensações poéticas, e eu julgaria estar já a viver num cenário de distopia.

domingo, setembro 25, 2011

Post a um crítico repetitivo

Em todas as suas recensões a romances (rigorosamente não em todas, mas eu adoro fazer generalizações que são, na verdade, hipérboles), dizia eu portanto que, em todas as suas recensões a romances, o crítico Eduardo Pitta elogia o estilo sem floreados e sem pirotecnia retórica da escrita do autor em causa.

(Não sei muito bem o que são floreados. Quando comecei a aprender órgão eletrónico, num ambiente de profundo provincianismo, as pessoas chamavam floreados às putativas improvisações jazzísticas que os jeitosos da coisa sobrepunham às melodias-de-sempre... Quanto a "pirotecnia retórica": trata-se de uma metáfora, portanto, de um exercício de pirotecnia retórica, ainda por cima de mau gosto, como tudo o que envolve foguetes.)

Eu compreendo a fidelidade a um determinado gosto pessoal (ódios e paixões são clubismos a que não devemos renunciar sem alguma luta). Compreendo também a cena do orgulho: quase toda a história do pensamento é feita de re-argumentações para re-comprovar teses pessoais atacadas, e não de genuínas mudanças de opinião.

Mas se alguém, vá lá saber-se porquê, resolve ganhar a vida a foder a paciência de quem toma verdadeiros riscos (e Pitta também é autor), eu espero que, da sua parte, haja pelo menos um verdadeiro esforço de pensamento. Talvez não seja preciso fazer uma "Summa Theologiae", mas o crítico que ataca, por exemplo, o adjetivo, a metáfora e o ponto de exclamação (até que venha nova doxa demonizar outros elementos da criatividade literária), deve teorizar profundamente em torno da sua opinião, precisamente para que esta não seja uma opinião, ou um tique, mas um argumento (e filosófico e tudo!).

Fico, portanto, a aguardar o "Tratado do Floreado" e os "Prolegómenos a um Manifesto contra a Pirotecnia Retórica", da autoria de Eduardo Pitta.

sábado, setembro 03, 2011

Nem respeitinho nem desrespeitão (cantiga de amigo)

Para mim, o cânone é o "Frère Jacques" que, em criança, eu cantava com outras crianças (ou as coisas um pouco mais complicadas que o Bach compôs). Mas a verdade é que mesmo os críticos, académicos e comentadores com mais tomates costumam respeitar com severidade essa instituição do Cânone artístico, e preocupam-se com coisas como: quais autores se (des)aprendem na escola, sobre quais há teses de mestrado, doutoramento e pós-doc, sobre quais se escreve nos jornais (o tema não me é suficientemente caro para eu apagar esta rima que aqui se intrometeu), e etc.

Defendo que a arte é uma linha indivisa desde o passado incognoscível até ao futuro imprevisível. Numa comparação bem ao gosto dos economistas do presente (que misturam os alhos do estado aos bugalhos da gestão doméstica), eu diria que, assim como cada sujeito tem uma noção evidente da inteireza da sua consciência, do seu "eu penso" estendido no tempo, mesmo não sendo capaz de recriar pela memória todos os momentos que constituíram essa consciência, também não precisamos de conhecer todos os momentos da existência da arte para compreendermos que só uma tentativa de apreensão da sua história global (do passado e do futuro) nos pode dar a medida aproximada daquilo que nela se investe em termos de humanidade. Sou pouco dadaísta, neste aspeto: não pretendo abolir o passado (ainda por cima, os bárbaros estão sempre à espreita, pois sabem que podem destruir uma milenar barreira de corais estéticos no espaço de uns anos de ignorância).

Daí até chegar à veneração do cânone, vai uma grande distância. O cânone será nada mais que um grande, grande amigo, de todo o tempo e de todo o lugar, que me diz: "Olha, tenho cá um feeling de que o "Don Quijote de la Mancha" é um livro que tu vais curtir, no sentido mais penetrante e seminal da palavra curtir". E eu espero que o meu amigo não se engane muitas vezes, e que nunca tenhamos de chegar ao corte de relações.

Tirando isso, o cânone não me interessa para nada.

sexta-feira, julho 22, 2011

Compreender e ser compreendido

Quando li a obra poética de Rimbaud pela primeira vez, fiquei completamente fascinado, rendido, sem ter percebido nada do que tinha acabado de ler. No entanto, e ao contrário do que sempre se diz sobre o facilitismo do presente, a liberdade faz de todos nós os eleitores do relevo das nossas próprias dificuldades: há quem queira conquistar um salto olímpico, há quem queira seduzir um homem ou uma mulher demasiado belos, há quem tenhas aulas de voz para chegar a primeiro ministro, há quem queira enriquecer... Eu decidi que havia de compreender tudo aquilo que na escrita e no cinema se fazia difícil de apanhar.

Dizem-me que, nas coisas que precisamente vou escrevendo sobre literatura e sobre a sétima arte, eu sou fácil de entender. O elogio é arremessado a título de uma putativa preocupação pedagógica da minha parte, o que, francamente, me custa a aceitar sem algum grau de legítima defesa.

É verdade que, graças não sei bem a quê, nunca fui dado a hermenêuticas simplistas (o mundo está cheio de maus leitores), e nunca restringi a minha relação com uma obra de arte a uma espécie de sherlockiana decifração. Ao discurso de uma obra, eu preciso simplesmente de contrapor o meu discurso, preciso de integrar os seus estímulos no meu próprio sistema (de pensamento, de experiência, de memória, de sensualidade). É, por isso, de forma bastante genuína que eu proponho compreensões transparentes: estou, eu-mesmo, a tentar compreender. E como não sou muito dado à abstracção ou à digressão (estou a ser absolutamente franco), concentro todo o meu labor de leitura em miniaturas de clareza e palpabilidade.

Ao mesmo tempo que quero compreender, eu quero ser compreendido. No fundo, escrevo "O INACTUAL", "O ACTUAL" ou "NO ESCRÍNIO" para que a minha sobrinha (em sentido lato) não me julgue lunático ou pretensioso quando assumo a minha admiração por Chantal Ackerman, Albert Serra ou Wallace Stevens. E quando rejeito "Gone with the wind", "Slumdog millionaire" ou a "Trova do vento que passa". Não tenho grandes ilusões de proselitismo, mas acredito na racionalidade tendencial da argumentação sincera. Se até a Brigitte Bardot tinha dúvidas sobre a beleza do seu corpo ("Le mépris"), e sendo a evidência tão rara quanto a paixão, como não havemos de explicar o pai-nosso ao vigário com a esperança de que este entenda, um dia, o vigarista?

quinta-feira, junho 30, 2011

Agnosticismo estendido

Li, certo dia, uma breve e bem-humorada autobiografia do fotógrafo Gérard Castello-Lopes, na qual ele assumia que tivera alguns problemas na sua vida por causa de ser heterossexual...

Ora, o agnóstico não está menos sujeito à incompreensão preconceituosa. Sempre que eu confesso ser essa a minha atitude perante a fé, os ateus acusam-me de "não tomar posição" (isto, quando não me vêm com argumentos delirantes tentando provar a inexistência de Deus), os religiosos sugerem que a minha hesitação é sinal de que esse mesmo Deus me está a conduzir, paulatinamente, até ele.

Na verdade, não aceito que me chamem ateu nem que me chamem quase-religioso. Eu, de facto, tomei uma posição, uma posição mais funda e filosófica do que a destes doentes de clubismo: eu não acredito que o Homem tenha meios para conhecer a verdade acerca deste assunto (já se inventou o microscópio metafísico?). É de tal modo uma posição assumida, que a epígrafe dos textos teórico-críticos sobre literatura que estou a publicar no site "Orfeu de corpo inteiro" é: "Ensaios de um autor rigorosamente agnóstico". Rigorosamente: todo o meu sistema de pensamento está a ser construído a partir dessa premissa.

Aliás, eu não só reconheço a impotência intelectual humana neste domínio, como o acho um domínio algo irrelevante. Se por acaso existiu um Demiurgo gerador do Universo, é muito claro que ele apenas criou (e que bem criou!) as regras pelas quais a vida poderia medrar nesse Universo, e fez essa biologia ser atravessada pelas possibilidades da linguagem (da construção da cultura) que ao mesmo tempo permite e dificulta a emancipação do Homem dos rigores naturais. Ao contrário do que diz Agustina Bessa-Luís, a revolução (que aqui tomo em sentido lato) não se opõe à obra divina, porque a revolução é um produto natural da linguagem (que permite reequacionar alguns aspectos da realidade) e a linguagem é uma consequência, sofisticadíssima é certo, da evolução biológica cujas possibilidades podem ter sido geradas por Deus.

Agora, que esse Senhor nos ande a pregar partidas, ora agora manda um incêndio com dez mandamentos, ora faz um show de sol perto de Leiria, ora pune os invertidos com doenças macacas, ora providencia a cobrição das místicas, e ainda escreve Livros e faz milagres hollywoodianos avant la lettre... Não, para isso não contem com a minha credulidade. Se Deus existe, ele pretende ser incognoscível e pairar apenas nos corações humanos como uma desconfiança inquietante.

De resto, sou fascinado pelas grandes figuras da religiosidade, desde que sejam heterodoxas (condição sem a qual não sou capaz de respeitar a inteligência de ninguém). Acho mesmo que Deus é uma guloseima na minha boca de vate (gosto imenso de falar sobre essa maravilha conceptual), e um dos projectos pessoais futuros que mais acarinho é a escrita de um livro de orações ao estilo de Lewis Carroll.

Mas o agnosticismo impõe-se sempre. Aliás, quero-o mesmo estendido. Desde logo, milito pela separação completa entre a filosofia e a teologia (opinião que não poderá ser partilhada por um homem de fé, claro). E gostaria que a filosofia pudesse ser limpa das questões que de algum modo se prendem ou com a transcendência (por exemplo, conhecer o verdadeiro sentido da palavra "eternidade") ou com a tentação do absoluto (por exemplo, questionar a veracidade da "existência"). A filosofia é uma arma que o homem pode manejar para continuamente discutir as suas possibilidades como espécie, como civilização, como habitante da imanência.

Deus criou o Homem para que ele fosse político.

quarta-feira, junho 29, 2011

O irritante volta a atacar

Na contracapa da edição em DVD do clássico japonês "Os amantes crucificados", afirma-se que a acção do filme decorre no século XVIII. Logo a seguir, na transcrição duma crítica do "Le monde" (os produtos culturais vêm agora infestados com putativos selos de qualidade), diz-se que a protagonista está muito expressiva no seu quimono do século XVII. A não ser que se queira fazer um comentário ao anacronismo do estilo da sra. Osan, convém não fazer revisionismo histórico em tão curto espaço gráfico.

Ainda por cima, na ficha técnica, aparecem os nomes de Yoshikata Yoda e Matsutaro Kawaguchi como autores do cenário do filme ("cenário" é, de resto, um termo com conotação demasiado teatral para definir o exercício de "direcção artística" ou "desenho de produção"). Ora, como estes senhores são os autores da adaptação do texto dramático de Chikamatsu no qual o filme se baseia, torna-se óbvio que alguém traduziu a palavra francesa "scénario" pela palavra lusa que se lhe assemelhava mais. Acontece que, neste caso, estamos em presença de um falso amigo linguístico. Quem faz este erro, não gosta de cinema, não gosta de correcção verbal, não gosta de comércio.

domingo, junho 26, 2011

renatosseabrices

Nada é mais irritante do que, quando se fala de "casamento homossexual", alguém se dar ao trabalho de corrigir a expressão para "casamento entre pessoas do mesmo sexo".

É claro que esta última formulação é mais interessante do ponto de vista da língua ("casamento homossexual" é um truque de retórica algo forçado). Mas, sendo eu pessoa de curtas vistas, só consigo conceber três situações minimamente saudáveis: um homossexual que se casa com alguém do mesmo sexo, um heterossexual que se casa com alguém do sexo oposto, ou um bissexual que se casa com alguém do sexo que lhe apetecer (isto, independentemente de tirar ou não uns troços por fora...).

O homossexual que se casa com alguém do sexo oposto ou o heterossexual que se casa com alguém do mesmo sexo são de tal modo asnos que não merecem o civil sacramento do matrimónio.