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segunda-feira, abril 12, 2010

Momento conservador

No sábado passado, num dos mil suplementos que o jornal Expresso retira às pobres arvorezinhas, foi publicada uma not(íci)a referindo alguns exemplos de previsões famosas que saíram furadas. Furadas porquê? Sou suficientemente teimoso para fazer tudo depender do ponto de vista.


Margaret Thatcher: "Demorarão anos - não será no meu tempo - até que uma mulher seja primeiro-ministro" (1974) - Certo: não foi no seu tempo específico enquanto líder política que uma mulher cumpriu os requisitos de um exercício de poder verdadeiramente democrático.

Rutherford Hayes: "O telefone é uma boa invenção, mas quem o quererá utilizar?" (1876) - Certo: o uso do telefone corresponde menos a um acto de vontade verdadeiramente livre do que a uma compulsão doentia a que ninguém, no seu perfeito juízo ideal, sucumbiria.

H. M. Warner: "Quem é que raio quer ouvir os actores a falar?" (1927) - Certo: as pessoas vão ao cinema para verem os actores despirem-se, fazerem gracinhas ou rebolarem no chão após explosões.

Funcionário do Michigan Savings Bank: "O cavalo está cá para ficar, mas o automóvel é apenas uma novidade, uma moda" (1903) - Certo: em breve, haverá teletransporte e facilidades quejandas; o cavalo permanecerá insubstituível; é até possível que passemos a mencionar a potência dos motores dos teletransportadores em termos dos cavalos que eles possuem.

Ken Olson: "Não há razão para alguém querer ter um computador em casa" (1981) - Certo: um, não; vários, sim!

Cruzes canhoto

Há uma relação (não pretendida) entre a letra convencionada para representar a incógnita, a letra X, e a cruz que, a partir da Paixão de Cristo, se tornou um dos símbolos mais omnipresentes (e mais omnideprimentes) da cultura ocidental.

O X é a cruz transportada ao longo da Paixão, a cruz de um sofrimento terreno tal que só pode descambar em dúvida. A mudança de posição do X equivale à concretização da morte-ressurreição, de peso oblíquo torna-se símbolo recto e erecto, a incógnita cedendo perante a imposição espectacular da fé.

Se ainda não há um quadro represento o Cristo já morto numa cruz caída em X, então a história da pintura não pode estar terminada.

domingo, abril 04, 2010

Os contemporâneos

Em épocas de ocultação, tem de haver quem faça o trabalho de denúncia, de rasgar os véus. No entanto, quando a exposição se tornou uma banalidade, quando tudo é mostrado até à náusea e a mediação intelectual tende para a pornografia (mesmo se não pretendida), então é preciso que haja gente que nos lembre que a arte não se confunde com a vida.

Dito de outro modo, o artista tem de ser uma arma de precisão na escolha daquilo que vai revelar. Tanto Bertolt Brecht quanto Josef von Sternberg detinham a virtude desta ética.

terça-feira, janeiro 26, 2010

A zero dimensões

O filme "Avatar", de James Cameron, é de tal modo inócuo que não me aquece nem me arrefece. Mas hoje, no jornal PÚBLICO, um crítico de má fé dizia que o posicionamento de um espectador perante a obra seria revelador da sua fibra política. Ora, essa insinuação merece-me alguns comentários.

Não tenho razões nenhumas para duvidar das convicções ideológicas do realizador da obra em questão. Aliás, Hollywood gosta de manifestar a sua tendência esquerda suave, desde Sean Penn de mangas arregaçadas em New Orleans até à obsessão adoptante de Angelina Jolie. Mas também não tenho razões para duvidar da profunda incultura dos fazedores de cinema industrial, não querendo com isto dizer que por lá não se lêem muitos livros, mas que são raros os cineastas que trabalham nesse contexto e que pensam a fundo o seu métier. Nem sequer é suposto que o façam...

Cameron parece querer estabelecer um discurso sobre o Outro (imediatamente, o modelo é o índio da Amazónia, mas o árabe também está na mira, o que é desde logo estranho, pois qualquer semelhança entre as duas situações é pura coincidência). Se o objectivo era esse, pergunto-me qual terá sido o motivo que o levou a substituir a tentativa de construção de uma imagem desse Outro (veja-se o notável esforço de Audiard em "Un prophète") pela imagem de um efeito especial que se confunde com o bestiário disney e o imaginário alien de Steven Spielberg? Dir-me-ão que é uma parábola, e que eu até sou um nerd do simbolismo. No entanto, quer-me parecer que a referência cultural escolhida é tudo menos dignificadora desse Outro. É como se Cameron não soubesse nada do índio (como eu não sei), e também não quisesse, profundamente, saber (só que eu não quero fazer filmes sobre os índios). Aliás, não teria sido interessante recorrer a um modelo de narrativa mítica próximo da sensibilidade cultural desses povos da floresta, em substituição da forma gasta e gasta e gasta do screenplay hollywoodiano?

Ouvi opiniões de alguns espectadores dizendo que a história do filme era the same as usual, a sua mais-valia sendo apenas o panache tecnológico. Não sei como Jorge Mourinha ainda não percebeu que a forma de transmitir a mensagem é mais determinante, do ponto de vista político, do que a espuma superficial da própria "mensagem" (pois isto não é jornalismo, nem ensaísmo). O público já o percebeu. Aliás, uma das visões mais nobres do Outro que o cinema americano produziu recentemente é o filme "Letters from Iwo Jima" de Clint Eastwood, cineasta conservador.

Para além das suas piroseiras pseudo-poéticas dignas do quadro do menino com a lágrima ao canto do olho, o filme de Cameron está cheio de teias de aranha: o 3d é um efeito muito antigo, a forma narrativa é mais velha que o António Pedro Vasconcelos, não há nenhuma inovação ao nível da montagem (isso custa, o Eisenstein pensou-a sistematicamente, o Godard teorizou-a em boutades), do som, da representação dos actores (já agora, onde é que eles estavam?). Enquanto espectáculo, "Avatar" nem se consegue aproximar do "Titanic", que era um blockbuster tão histérico que acabava por nos afundar com ele. A relação do espectador com o próprio cinema também não é beliscada em nada: Cameron continua a querer produzir um espectáculo de feira, como quiseram os pioneiros da história dessa suposta arte (o espectador é o paraplégico circunstancial que se identifica com o seu avatar no ecrã). Durante o visionamento deste futuro do cinema, lembrei-me com saudade de um simulador com que me diverti na Eurodisney, mas logo a seguir tremi de horror: no próximo "maior-filme-de-sempre-o-mais-caro-e-o-que-vai-ganhar-mais-óscares" que o realizador fizer, vamos ter de usar coletes ortopédicos para protegermos a coluna dos solavancos que as cadeiras da sala de cinema nos vão proporcionar.

A oeste nada de novo: só o aprimoramento da tecnologia. Dir-me-ão que é o futuro do marketing do cinema. Eventualmente. Mas então eu digo ao senhor Cameron que a destruição da floresta tropical e das civilizações que nela floresciam se deveu, precisamente, a um primeiro momento de glória de um funcionamento da economia, o capitalismo (que não se chamaria ainda assim, claro), em que o valor intrínseco de qualquer produto é secundarizado perante a possibilidade de geração de lucro. Ora, "Avatar" é um objecto capitalista declarado (com tudo o que, de positivo, isso traz: postos de trabalho, liberdade de consumo, etc.). Os críticos da sua suposta mensagem de esquerda não têm motivos para estar alarmados: o espectador, ao sair da sala de cinema, não se vai tornar um guerrilheiro da "Greenpeace" (sobre a possibilidade da arte mudar o mundo, já me pronunciei aqui).

E quanto à ecologia do cinema? Quantas espécies de cinema estão neste momento em vias de extinção, porque este tipo de estética definitivamente triunfou e está a secar todas as outras possibilidades à sua volta? Presumo que algum leitor me vá insultar com a palavra "intelectual" (mais je ne m'accuse pas). Quem tem tido a bondade de me ler, saberá que tenho tentado, ao longo da feitura deste blogue, falar das mais diversas possibilidades de cinema, e que me mantenho aberto a todos os debates que envolvam cinéfilos militantemente apaixonados. Estou, isso sim, empenhado no salvamento da floresta selvagem, perigosa, abundante e inesgotável, do cinema.

Alguma vantagem em "Avatar"? Claro: a intuição de que, quando encontrarmos os marcianos, são eles que têm de ter medo de nós.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Bem-aventurados os humildes

Se a compreensão que o Homem tem de Deus não evolui historicamente (porque ele é bafejado por evidências reveladas), então os crentes têm mesmo de aceitar os fundamentalismos mais saramaguianos que os textos religiosos comportam. Mas se essa compreensão evolui, como pode ter a Igreja a certeza de não estar a viver uma época pré-coperniciana (ou pré-eisensteiniana)?

domingo, janeiro 03, 2010

Argumento privado

Penso que já aqui disse que não tenho propriamente uma opinião sobre a querela levantada pela iminente entrada em vigor do novo acordo ortográfico para a língua portuguesa. Não se pode ter opinião sobre tudo...

A dimensão etimológica da ortografia não é uma manifestação de verdades arquetípicas, mas o resultado de uma opção histórica concreta, contingente e questionável (os Renascentistas curtiam o latim). Não me custa, por isso, abandonar esse rigor. A questão dos possíveis erros de pronúncia que a nova ortografia pode causar é, claro, uma falsa questão: basta que aprendamos um novo conjunto de relações normativas entre essas duas dimensões da língua; afinal, quase tudo o que se refere à linguagem é convencional. Para além disso, estou isento de ilusões de colonialismo: a continuidade das civilizações indígenas da América do Sul poderia ter engendrado um Brasil bem mais glorioso do que este que, por gentileza, dá futuro ao português.

Por outro lado, não me parece que um conjunto de leis sobre ortografia constituam um passe de mágica capaz de dar força internacional à língua de Camões. Sem modéstia nem vaidade, acho que se eu produzir um excelente texto literário, tenho mais chances de gerar curiosidade pelo meu idioma do que qualquer acordo palopiano (não disse pavloviano, atenção). Quem diz literatura, diz ciência, pensamento, política. E quanto ao mito contemporâneo (tão capitalista quão socialista) da facilitação, respondo que só é fácil a dificuldade que cada um por si mesmo conquista. Ou seja, em vez de servir de bandeja, prefiro ensinar a cozinhar.

Espero que Vasco Graça Moura (que será o mais eminente dos intelectuais, não é isso que está em causa) nunca venha dizer publicamente que a legalização do casamento entre as pessoas do mesmo sexo não é um assunto prioritário... Pois eu gostava de saber qual a prioridade de todo este chinfrim em torno de mais letra, menos letra. E eu até sou daqueles que podem afirmar que o seu exílio é a língua portuguesa.

Tenho, contudo, um argumento muito meu contra este acordo superstar. Parece-me que se vai limpar, da ortografia da minha língua, o pouco que ainda lhe restava de uma certa beleza selvagem. É um luxo meter uma uma letra numa palavra para ninguém a pronunciar! Um luxo luxuriante. A escrita vai ficar mais parecida com um alicate do que com um sexo. Mas quem se interessa por isto? Só sei que, no meu próximo projecto de poesia (apropriadamente intitulado "uma selva"), tentarei inventar uma ortografia que o leitor possa namorar.

sábado, dezembro 26, 2009

Cravos-ferraduras (mais alguns)

1. Nas últimas páginas de "O homem livre" (ver este post), Filipe Verde fornece ao seu leitor a seguinte citação: "Devemos portanto estudar a excelência do carácter, tentar descobrir o que o constitui e como é que ele se forma e evitar enredar-nos em discussões sobre epistemologia moral ou de fundamentação da ética" - Gisela Striker.

Para todo o moralista céptico da moral, estas palavras são preciosas. Aliás, estou cada vez mais convicto de que os grandes pensadores éticos são os romancistas, e não os filósofos. Precisamente porque não escondem o relativismo do seu ponto de vista, porque analisam a irredutibilidade de cada carácter e a tirania das circunstâncias em que ele tem de evoluir (Herberto Helder afirma não se interessar pela prosa de ficção por causa da pretensão moral que os seus cultores ostentam; contudo, dada a irrisória quantidade de romancistas que o grande poeta madeirense tolera, eu acho que será mais justo dizer que, sendo a ética um assunto privilegiado do romance, a maior parte dos exemplares relevantes dessa arte não são propriamente moralistas).

Não me incluo no grupo acima mencionado: para além de ter mais curiosidade pelos dilemas éticos do que expectativas punitivas sobre as actuações concretas, eu sou tão céptico da moral como céptico do cepticismo. Considero, claro, que a dúvida é um dos fundamentos nobres daquilo a que chamamos humanidade. Já Descartes demonstrou que nada consegue ser mais ético do que o questionamento da autoridade do edifício cultural que cada indivíduo herda. Em qualquer altura da história da civilização, podemos assumir o exaltante direito-dever de tudo pôr em causa. É a pergunta eleita da criança: porquê?

Ora, essa prerrogativa traz consigo uma fatalidade: para não cedermos por completo à pulsão de morte, é preciso que o momento da dúvida seja sempre seguido de um passo de construção. É preciso fundamentarmos, para nós mesmos, a possibilidade de um caminho. E essa fundamentação acaba por ser, em grande parte, racional.

Eu também desconfio profundamente da atitude de Platão. Os disparates de Descartes são assinaláveis. Kant foi tão brilhante que acabou por ocupar demasiado espaço na cultura ocidental. No entanto, continuo a achar que a formulação do conceito de imperatico categórico é colossal. Se podemos defender que uma cultura da vergonha, como a dos índios Bororo, é uma cultura ética (na medida em que, nas próprias palavras de Filipe Verde, o outro que impede o acto pernicioso para a comunidade é um outro imaginário, interno portanto, e imaginado enquanto entidade especificamente moral), não sei se podemos defender que os indíviduos que a assumiam eram homens completamente livres. Eram livres na medida em que viviam de acordo com os "direitos da natureza" (aí estou completamente de acordo), mas já não o eram se tivermos em conta que a sua cultura, para ser eficaz, nunca era propriamente questionada.

Basicamente, o que estou a tentar dizer é que a razão pode ser (ou deve ser) um dos instrumentos privilegiados da construção da liberdade, e não há liberdade enquanto não questionarmos mesmo aquilo que é, supostamente, bom. Não é por acaso que Espinosa construiu a sua "Ética" segundo o modelo da geometria, que Freud construiu as suas teorias a partir de uma (hoje questionável) pretensão científica, e que o próprio Filipe Verde se pode assumir herdeiro desses moralistas cépticos da moral na sua especulação de base antropológica. Se nem todos os meios justificam os fins, é porque o meio de chegar ao fim não pode ter menos valor do que este tem. Se é pela razão que conseguimos admirar a ética do mundo Bororo, é porque a razão terá os seus méritos.



2. A razão é um instrumento. Mas não é o único, e não é necessariamente o principal.

Conforme vou lendo o que Paul Ricoeur escreveu sobre a metáfora, vou-me apercebendo do seu desprezo pela capacidade que essa figura de estilo tem de fascinar o receptor de uma mensagem verbal. Critica-se a metaforização quando ela é um mero ornamento. Claro que tudo aquilo que for gratuito na construção de um texto, tudo aquilo que nele não tiver uma pertinência, acaba sempre por enfraquecer a sua possibilidade de comunicação. Ovídio, por exemplo, foi useiro e vezeiro na criação de metáforas para romano ver (aliás, Ricoeur reconhece que a teorização retórica dos latinos foi medíocre, e que constituiu logo um passo atrás em relação aos escritos de Aristóteles).

No entanto, é bem curioso este ódio contemporâneo ao ornamento. Voltando aos índios Bororo, saúdo o seu respeito religioso pela ornamentação (a começar pela ornamentação do próprio corpo humano). Mas não é preciso ir para tão longe, basta reconhecer a sua importância na configuração de uma liberdade improvisadora (de composição em tempo real, portanto) ao intérprete de música barroca (algo que em grande parte se perdeu a partir do classicismo com resultados empobrecedores para a cultura musical).

Mas estou a incorrer no preconceito de Ricoeur, estou a tentar dar uma legitimidade racional àquilo que não tem, nem precisa de ter, uma pertinência racional. Pois há outros tipos de pertinência. A começar pela pertinência sexual.

Se hoje vivemos num mundo onde a sexualidade strictu sensu veio cobrar os seus merecidíssimos direitos, a criação artística perdeu alguma da sumptuosidade que a esse nível sempre a marcara. O triunfo do conceptualismo é um sinal (note-se que não estou a defender o conceito de beleza de uma época em particular, estou a lamentar a relativa indiferença de algum pensamento estético em relação à comunicabilidade das formas). Sinal também é a cisão que alimenta a história do cinema: assistimos ao triunfo do chamado cinema de entretenimento (que tem uma clara dimensão sexual, disso sou solidário, mas que depende por completo de um sistema de calculismo financeiro, e por isso configura um caso evidente de prática de prostituição) perante aquilo que seria um cinema de conteúdo (cuja dimensão sexual ou é minimizada pelos autores com vontade de respeitabilidade, ou é trabalhada com tanto amor que não pode por definição convencer a totalidade de uma audiência, o que é mal visto pela racionalização económica).

Já alguém fez o estudo sociológico do público que se arrasta com apatia ou ironia pelo sucesso de Serralves?

Podemos deixar de lado palavras como ornamento, beleza ou até mesmo fascínio (cuja ligação a determinadas ideologias estéticas é susceptível de provocar equívocos). Mas se, no âmbito da criação artística, acolhêssemos sem complexos os "direitos da natureza", talvez nenhuma das "perversões" acima descritas pudessem vingar.

Há monstros do sono da razão, mas igualmente há monstros da razão. Talvez o poeta deva ser também pensador, e o pensador deva ser também poeta.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Nota de leitura

No fundo de toda a investigação que o anima, o excelente ensaio "O homem livre" de Filipe Verde (Angelus Novus, 2008) interroga a possibilidade da mera consciência intuitiva da morte poder servir como fundamento de uma inteligência moral.

A cosmologia dos índios Bororo (do Mato Grosso, Brasil) previa a existência de dois mundos transcendentes a este em que nos encontramos: o mundo dos aroe (livre da metamorfose libidinosa da vida) e o mundo dos bope (todo ele anarquia vital, mas livre do corolário da vitalidade, que é a morte). A especificidade do homem vivente não seria, portanto, a anarquia da sua dimensão natural (como acontece na mundividência cristã), mas o facto desse seu eros estar fatalmente associado ao desgaste, à extinção. E bastaria isso para que o índio adulto aceitasse refrear voluntariamente o seu desejo, sem necessidade de conhecer o conceito de culpa (que é tão opressivo que nem requer a concretização de um ilícito para se fazer sentir) e sem necessidade de qualquer punição socialmente organizada. Por exemplo, bastavam as evidências patológicas resultantes da reprodução consanguínea, para que o incesto fosse raro na sociedade Bororo.

Filipe Verde diz-nos que todos os observadores desse mundo supostamente primitivo foram unânimes em reconhecer a sua imensa paz social e a grande liberdade de cada indivíduo no seio dessa harmonia. Era quase um manifestação da Utopia. Mas diz-nos também que o drama da antropologia é que as sociedades que definiram o seu objecto estavam a desaparecer precisamente no momento da sua constituição enquanto ciência. Ou seja, apesar do rigor de todos os relatos (dos salesianos a Lévy-Strauss) a partir dos quais o autor especula, a verdade é que a sua hipótese não pode ser verificada vivencialmente. E nenhuma ética pode ser sentida como ética sem ser vivenciada (aliás, o ensaista é o primeiro a reconhecer a preponderância humanista do seu assunto, sobre qualquer veleidade de positivismo).

A este livro podemos então atribuir o encanto de serem mais os horizontes que abre do que aqueles que fecha. É como quando conhecemos uma pessoa de meia idade que nos dizem ter sido muito bela numa juventude que não pudemos presenciar: que valor atribuir às fotografias que registaram esse passado?

sexta-feira, novembro 27, 2009

Distopia sensual



Será que, um dia, Brando e Marylin também vão ser considerados meramente pitorescos?

terça-feira, novembro 17, 2009

Prós e contras

A maneira mais eficaz de atingirmos um argumento lógico é acreditarmos naquilo que dizemos e dizermos aquilo em que acreditamos.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Ajuste

Como parece que corro o risco de ser um dia saudado como uma espécie de nerd do simbolismo, esclareço que o meu diferendo com a literalidade não se confunde com a apologia de uma hermenêutica grosseira. A leitura de Paul Ricoeur está a fornecer-me instrumentos para eu poder explicar com mais precisão a minha prática de leitura.

Como diz o autor de "La métaphore vive", se todas as palavras de um texto forem metafóricas, esse texto tem de ser classificado como uma alegoria (repare-se: no enunciado especificamente metafórico, há apenas uma palavra cujo sentido sofre um desvio). Quando eu questiono a probabilidade teórica do conceito de literalidade, não estou, pois, a defender que um texto tem de ser sempre interpretado à luz de uma cosmética de substituição (esta palavra quer dizer aquela, x frase significa y, etc.), ou seja, não estou a defender que todos os textos sejam alegóricos.

É porque concordo com a ideia de Ricoeur de que o sentido depende sempre da totalidade de um discurso (do con-texto criado pelo texto), que me parece que nenhum livro pode ser interpretado a partir da literalidade. Ou seja, o discurso de um autor não altera necessariamente o sentido que o dicionário fornece às palavras com que ele se exprimiu (como acontece no enunciado metafórico), mas submete esse sentido imediato à dinâmica da sua impertinência global. Um discurso de escrita pede, portanto, um discurso de leitura. Uma obra é mais do que a mera soma das suas partes.

Durante o recente episódio da polémica entre José Saramago e a Igreja Católica, houve quem dissesse que os consumidores do texto bíblico não têm conhecimentos teológicos e históricos suficientes para fazerem uma sua leitura que não seja literal. Isto não só me parece falso como, acima de tudo, se revela paternalista. É claro que, abaixo de um certo nível de literacia, não se pode ler nada... No entanto, eu não preciso de ser um perito na História francesa do século XIX, nem de ter lido o Walter Benjamin, para conseguir construir o meu discurso de leitura a partir da poesia de Baudelaire. Claro que uma maior informação pode trazer resultados mais satisfatórios, mas a informação não equivale a criatividade (ler é criar) nem a rigor.

Compreenderia as declarações do Nobel se, precisamente, ele tivesse querido alertar para os perigos de uma leitura literal, da devoção a um livro único, ou da fé ingénua na possibilidade de uma obra ser de facto sagrada, se tivesse questionado os valores que o texto bíblico no seu todo defende (por exemplo, a noção de pecado), se até tivesse pretendido recriminar as monstruosidades históricas que a cegueira intelectual dos cristãos provocou. Da forma como o fez, foi no mínimo desajeitado.

Mas não foi Saramago quem ficou mal na fotografia. O seu romance pode ser, aliás, muito bom. Talvez até nem tenham sido os inefáveis representantes da Igreja quem mais se pôs a jeito do ridículo: mesmo que os cristãos sejam uns vidrinhos de cheiro que ninguém pode ofender, a verdade é que têm o direito à sua defesa. O nojo foi todo direitinho para certas fileiras do Partido Social Democrata. Então essas liberdades individuais, por onde andam?

quinta-feira, outubro 22, 2009

sábado, agosto 15, 2009

sábado, julho 18, 2009

Da carochinha

1. Não sei bem o que Orson Welles terá alterado no conto de Isak Dinesen para escrever o argumento do seu filme "Uma história imortal". Seja de quem for a responsabili- dade do que a seguir defendo, a verdade é que fiquei com a ideia de que, nessa alegoria, o povo judaico é considerado um povo de tal modo desejando a vinda de um Messias, que preferiu não acreditar no cumprimento desse seu desejo (afinal, mesmo que a história do Filho de Deus fosse/seja verdadeira, quem poderia/poderá acreditar nela?). Não é por acaso que o personagem judeu do filme é um misantropo que não quer nada para si, um insecto que não conseguimos aniquilar porque está isento de desejo.


2. Em "Uma história imortal", Welles representa o papel mais relevante (o do milionário que morre depois de ter conseguido dar realidade a uma ficção). Das duas uma: ou o realizador pretende dizer que, após ter feito um filme como "Citizen Kane" (o encontro entre a total liberdade de produção e um paroxismo de uma criatividade), de certo modo morreu; ou então quer partilhar connosco a ansiedade que sentiria se pudesse fazer, de novo, um filme nas mesmas condições da sua obra-prima inaugural. O que aconteceria ao homem que conseguisse realizar o filme exacto que traz dentro da cabeça?

sábado, julho 04, 2009

Anti-sabedoria

Uma das poucas coisas que aprendi durante a minha imaturação foi a certeza de que, enquanto não acreditamos numa coisa, ela não é, de facto, possível.

terça-feira, junho 16, 2009

Comentário a "The edge of love"

O aspecto mais simpático deste filme (de título hediondo) é a representação do poeta Dylan Thomas como a mais antipática das suas personagens (no limiar da crueldade, aliás). Quando visitei o Dylan Thomas Center, em Swansea, País de Gales, vi por lá uma excitada exposição sobre este filme que fazia prever uma hagiografia do pior calibre.

Para além da negatividade, Thomas é também a menos relevante das quatro personagens em torno das quais a narrativa se constrói. Presumo que seja uma subtileza: a ideia (estafadíssima, inexactíssima) de que o artista protagoniza melhor a sua obra do que a sua biografia.

Subtil também a atribuição de um certo dom da palavra à personagem de Cillian Murphy. Este interpreta William, o homem com uma serena vontade de perfeição, e aquilo que ele escreve deriva de uma espécie de poética da pureza (cheia de lugares comuns), nos antípodas do mundo luxuriante da escrita de Dylan Thomas.

De resto, o filme tem uma tese: a nostalgia da infância de que o poeta galês padecia acabou por torná-lo um ser infantilizado. Interessante, se calhar até é verdade (ainda não conheço a sua biografia de cor e salteado). No entanto, se isto diz qualquer coisa sobre o homem Dylan Thomas, é paupérrimo enquanto ilustração da sua poesia. Aliás, quase nem ouvimos os seus textos ao longo do filme, como se afinal a figura do poeta fosse apenas uma caução para contar mais um historinha telenovelesca de amor. Por isso, o filme não consegue ser mais do que académico. Todo seu o brique-à-braque técnico é sugado pela falta de oudadia até ao ponto em que perde qualquer expressividade.

Por fim, os actores. Matthew Rhys parece ser tão antipático quanto a sua personagem, pelo que foi um achado de casting. No entanto, não tem nada para fazer, a não ser o habitual número de circo da imitação dos tiques de uma pessoa real. Keira Nightley é, para mim, uma das actrizes mais irritantes do cinema actual (bem, também há a Zellweger...), e por isso escuso-me a comentar. Sienna Miller está muito bem como Caitlin Thomas, mas parece-me que a força sensual da personagem deveria vir do interior (ou seja, não era preciso sublinhar a beleza da actriz, muito pelo contrário). Cillian Murphy está magnífico na primeira parte. Sempre o achei superficialmente bonitinho (um pouco mais de peito e era a Keira Nightley), mas aqui todo o seu jogo, do físico à linguagem, acaba por dar origem a um personagem com algum fulgor romanesco (a do homem encerrado numa torre de marfim de seriedade, que precisa de passar pela guerra e pelo par de cornos para se tornar um ser suportável). Mas na segunda parte do filme já não tem nada que fazer (e quantas vezes já vimos aquela cena do cornudo de arma em punho...).

O melhor é ler a poesia de Dylan Thomas.

quinta-feira, maio 28, 2009

Ne medida do bebível

Na poesia de Umar-i Khayyam, a embriaguez funciona ao mesmo tempo como revolta herética contra o fado que a criação divina impôs ao homem, e como fonte de inspiração para o homem fazer, na medida do bebível, a criação da sua própria vida.

terça-feira, março 03, 2009

Com título

Na última edição do Jornal de Letras, saiu um artigo muito interessante sobre o fenómeno dos títulos que os livros podem ter, e que os podem tornar célebres, muito vendáveis, excêntricos ou pura e simplesmente repelentes. Devo dizer que não vejo a questão (paratextual ou lá o que é) do título de nenhuma das maneiras que ali foram abordadas.

Por exemplo, adulterar o título pensado pelo autor do livro para o tornar apelativo para o seu público-alvo parece-me um disparate. Não só por causa da integridade (palavra tão grande, cruzes canhoto). Também por razões comerciais: o alvo de um bom livro deve ser todo o público (dizendo isto através de um trocadilho de muito mau gosto: o livro procura sempre um público-alva).

Para mim, o título funciona como a iluminação ou a banda sonora no cinema e no teatro. Ou seja, pela sua colocação e função, o título é qualitativamente distinto do corpo textual da obra a que se refere. É como se fosse outra arte, outra ontologia. E, por isso, assim como a luz altera o sentido e a comoção do jogo dos actores e seu discurso verbal, também o título, do seu posto privilegiado e diferenciado, banha todo o conteúdo do livro, dialoga com ele, muda-o, faz a sua condução, assombra-o, expande-o, restringe-o, salva-o ou lança-o no absurdo.

O título não é uma tabuleta mais ou menos espirituosa. E que tédio a história da música, com os seus infindáveis opus e números. E o que deu aos pintores para terem começado a assassinar as suas obras com "Composições" e vaguezas quejandas...

Por mim, tenho projectos de cujos títulos nunca abriria mão ("dar o dizer por Não dizer", "um pouco mais ou menos de serenidade", "Nem as abelhas sabem dizer mel"). Sobre outros teria todo o gosto de proceder a uma negociação com quem de direito ("nu abrir em nó", "história(s) da poesia"). E para evitar calculismos manhosos (não assumir um título com medo de que ele seja repelido pelos potenciais destinatários de uma obra), o melhor é investir na coisa, e tentar fazer sair um título que seja, simplesmente, muito bom: cumprirá a sua função.

domingo, março 01, 2009

Sensibilidade e censura

Depois da lamentável oposição ao episódio de censura pela polícia bracarense com base em argumentos de respeitabilidade cultural (ah! o quadro de Courbet é inatacável porque até está exposto no Museu de Orsay, em Paris), algumas pessoas vieram formular o problema com a justeza que ele merece (Vasco Pulido Valente, Pedro Mexia, Alexandra Lucas Coelho).

Eu apenas acrescentaria outra ideia. Sendo a pintura a arte da eternidade (na medida em que não precisa de performance como o teatro-encenação, a música-execução, o cinema-projecção, a literatura-esforço de leitura), é talvez insuportável para nós que um quadro nos imponha para sempre uma imagem de animalidade (uso esta palavra sem qualquer sentido pejorativo).

A verdade é que quase ninguém aguentaria passar toda a vida a ingerir papas de sarrabulho, ou profiteroles com gelado, ou batatas fritas com sabor a bacon (o nojo é propositado). Ou seja, a nossa sensualidade (quando suficientemente rica) precisa de uma variedade de intensidades e requintes que acompanhe a própria variedade de estados psíquicos a que o quotidiano nos leva. As famosas erecções de Sting (quantas horas eram?) são mais motivo de anedota que de inveja. O sucesso das indústrias do vestuário e do calçado, a erotização dos automóveis, o close up explorado pelo cinema, tudo isso mostra que a sensualidade se quer tão literal quanto figurada (por metonímia, metáfora, ornamentação, sublimação, etc.). Talvez me possam acusar de recalcamento por via de educação católica... Não sei, não me quero estudar a mim mesmo (o meu Freud é pintor). Ou me digam que, numa sociedade alternativa, seríamos todos alegres naturistas. Mas desconfio de tais fundamentalismos. Por muito que eu, como toda a gente, perca a compostura perante genitais, não quereria passar a minha vida inteira nesse ponto específico da vida sexual. O sexo é, aliás, uma das modalidades da transitoriedade. E mesmo que ele tenha de estar omnipresente em todos os momentos do quotidiano, só pode assegurar essa eternidade por via de uma constante metamorfose de si mesmo. Nem tudo é recalcamento, sr. Sigmund: há também a pura e simples vivência do tempo (o meu filósofo é Heraclito).

Como aguentar então a eternidade de uma vagina frontal? Lacan mantinha o quadro escondido. Parece que Courbet atingiu mesmo um dos limites da pintura.