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sábado, novembro 08, 2008

Nota Messiaen



Eu, que tanto aprecio um cavalheiro como Luiz Pacheco quanto um javardo como Olivier Messiaen, tenho uma relação complexa com a religião.

Aos onze anos, já cometia blasfémias e riscava santinhos com o rosto hippy de Jesus Cristo. Não tardei em tornar-me ateu convicto, capaz de longas discussões teológicas com amigas que talvez estivessem mais interessadas noutras coisas, demolindo todo o edifício judaico-cristão com a convicção da juventude e da liberdade da inteligência.

Hoje em dia, presumo que sou aquilo que se chama um agnóstico. Indiferente. Não há nenhuma prova da existência de Deus. Defendo isso contra todos os obscurantismos. Mas também não há prova da sua inexistência (se bem que me interrogue se um dia não viremos a saber que o que de facto existe é afinal a Fada Sininho ou o Monstro de Loch Ness - ou seja, porquê o conceito de Deus?). Mas nada disto me interessa. Se Deus se pretendeu NÃO-MANIFESTÁVEL, é porque não quer que percamos tempo consigo. E se a tal juntarmos o puritanismo, a hipocrisia, a história criminosa da Igreja, então é que ficamos mesmo conversados.

No entanto, a minha parte favorita d' "A divina Comédia" não é, como acontece com toda a gente, o Inferno, mas sim o Paraíso... Como eu me recuso a tomar drogas (não por uma questão moral, mas porque já tenho fraquezas que cheguem), penso mesmo que a teologia funciona em mim como se fosse uma substância de prazer alucinatório. É que eu não posso ouvir falar em Luz incomensurável, em Bondade que tudo redime, em Jardins sem mácula, em Harmonias celestiais ou em Eternidade livre de dor, sem que o meu íntimo derreta como um adolescente apaixonado. Não é apenas nostalgia do Paraíso, mas também de um Sono sem pesadelos, de uma Ternura sem usura, de um Conhecimento sem limitações kantianas (tudo isto enquanto categorias do pensamento, não do sobrenatural).

Já ouvi gente dizer que, se ouvir demasiado Messiaen, ainda acaba por se converter. Sou demasiado terra-a-terra para tal. Mas leiam só isto que está escrito na partitura de "O papa-figos" da obra pianística "Catálogo dos pássaros":


"Le loriot, le bel oiseau jaune d'or aux ailes noires, siffle dans les chênes. Son chant, coulé, doré, comme un rire de prince étranger, évoque l'Afrique et l'Asie, ou quelque planète inconnue, remplie de lumière et d'arcs-en-ciel, remplie de sourires à la Leonard de Vinci."

quarta-feira, outubro 29, 2008

Zoologia




Algumas palavras sobre o cágado, um amigo de Bernardo, personagem do Pantanal:


"É cheio de vestígios do começo do mundo, por isso nos parece inacabado. Mas quando metade da terra estava por decidir se seria de pedra ou de água - já estava decidida a sua desforma."

Manoel de Barros


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, outubro 21, 2008

Lendo Manoel de Barros




"Um homem pegava, para fazer seu retrato, pedaços de
......
tábua, conchas, sementes de cobra"

domingo, setembro 14, 2008

Defesa de Mozart

"Mas depois desses cavalheiros terem arrotado o que tinham a arrotar, dado todos os traques que tinham a dar, e bebido um bom bagacinho, foram provavelmente juntar-se no enorme salão de Mathilde von Merken, que cheirava a bafio, para aí fazerem uso dos seus instrumentos e, como verdadeiros anjos, executar música de maneira sublime."


(retirado de "Lanterna mágica", de Ingmar Bergman, tradução de Alexandre Pastor)

sábado, setembro 06, 2008

Defesa de Agustina

"- Ah, Joaquina Augusta - disse ela, dando-se à canseira de se fingir pensativa -, haverá muita gente assim, pelo mundo? É que diz palavras de iluminada, como se só contasse um chiste.

- Doutra maneira, quem me ouvia?"


(retirado de "A sibila")

sexta-feira, agosto 08, 2008

Caravana

"Quer dizer, a sociedade gostava de sopa de favas, mas as pessoas, essas, preferiam sopa de couve-flor."

Rui Manuel Amaral

quarta-feira, julho 02, 2008

Sobre a Directiva do Retorno

"(...) se a Europa não servir para defender os direitos humanos, não serve para nada."

José Vítor Malheiros (hoje no PÚBLICO)

quinta-feira, maio 01, 2008

Do poema "Poética exaustiva"

"De mim só ficará grande: grande alegria,
pássaros de papel, amores e teologia"

António Barahona

quarta-feira, abril 30, 2008

Do poema "Marinha"

"Dia pintado de fresco
Os passantes patinham as ruas de cores"



António Barahona

sexta-feira, abril 04, 2008

Poesia que é cinema de palavras


"Os afectos são o modo cantabile como sais de ti
uma impura conversa de fantasmas, seduzida pela matéria
do mundo de que são também feitos os sonhos."


Manuel Gusmão

domingo, março 02, 2008

Cadernos Fellinianos 5

"O facto é que a música torna-me melancólico, carrega-me de remorsos, é como que uma voz de admoestação que nos consome porque nos recorda uma dimensão de harmonia, de paz, de gentileza de que fomos excluídos, exilados. A música é cruel. Enche-nos de tristeza de saudades e quando acaba não se sabe para onde vai. Sabe-se apenas que é inatingível e isto entristece-nos."

Federico Fellini (tradução de Helder Pereira Rogrigues)


Marc-Antoine Charpentier compôs uma versão operática do mito de Orfeu (de parte desse mito, aliás). A obra tem dois actos: o primeiro descreve a felicidade amorosa do poeta com Eurídice até esta ser mordida por uma serpente, o acto final encena a descida de Orfeu aos Infernos e termina com o início do caminho que o par tem de fazer para que Eurídice possa retornar à vida. O final em suspenso (anterior à derrota que Orfeu sofreu por ter desafiado a condição de Plutão) leva os especialistas a supor que talvez haja um terceiro acto perdido algures na História da Música, ou que pelo menos Charpentier tivesse em mente a sua posterior composição.

Da minha audição da ópera, concluo que o autor nem foi muito hábil a transmitir-nos a alegria do jovem casal (como compará-lo com Lully ou Mozart?), nem a contagiar-nos com a dor da tragédia. Mas, de repente, o segundo acto surge verdadeiramente encantatório. Não tanto por causa da mestria lírica da personagem Orfeu (como representar a poesia capaz de vencer a morte?), mas devido à música entregue aos seres do Inferno.

Quando as personagens do submundo sabem que o poeta os vai abandonar (já obteve o que queria do Além), pressentem que a crueza das suas penas irá regressar com força redobrada. A lira havia-os consolado, havia tornado o inferno suportável, o regresso da dor será então bem mais violento.

A música que dá conta desta nostalgia é lindíssima. E nós ficamos não só com a sensação de ter conhecido o Inferno tão bem como na "Divina Comédia" (conhecer é acima de tudo conhecer as perdas), mas também compreendemos as palavras de Fellini acima transcritas.

Ainda bem que não se encontrou o terceiro acto.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Criteriosamente

Duas confissões prévias: não vi o filme "Call Girl" de António-Pedro Vasconcelos e não li o primeiro artigo que Rui Moreira escreveu no PÚBLICO sobre cinema português, o qual, aparentemente, gerou alguma polémica.

Não vi o filme porque faço questão de não o ver. Depois de confrontado com o objecto "Jaime" (um dos três ou quatro piores pedaços de cinema que guardo na memória), decidi não mais seguir a obra do realizador. Não li o artigo porque a frase escolhida pelos editores para resumir o texto me soou a argumento decrépito, simplista e acima de tudo inútil. Tudo preconceitos meus, claro está - mas a vida também é assim.

No entanto, o colunista voltou à carga no jornal de ontem. Esforcei-me então por ler o seu pedaço de prosa.

Passando por cima da recente e tresloucada tendência que leva os opinion makers a distribuírem acusações de fascismo, estalinismo, dirigismo e etc. a tudo quanto se mexa na sociedade portuguesa, eu lançaria apenas duas modestas achegas para a conversa.

Em primeiro lugar, defendo que quem quer falar de cinema àqueles que por cinema se interessam (por definição, os cinéfilos), deve-o fazer a partir do amor pelo cinema. Talvez eu seja um mau leitor (de resto, todos os colunistas contrariados se queixam de ser mal lidos), mas parece-me que o incómodo manifestado por Rui Moreira se prende essencialmente com o suposto desprezo do cinema português pelo público (visivelmente, o senhor não tem noção de quais são as profundas ambições de um criador honesto). Pondo tudo em pratos um pouco mais asseados, o busílis da questão é afinal económico (em sentido lato): para o presidente da Associação Comercial do Porto, a relevância de um filme medir-se-ia pelo número de cabeças que picam o ponto na bilheteira do cinema e não pela influência que a matéria fílmica provoca na inteligência, na memória e na afectividade de cada espectador. O colunista pode ter as suas razões, mas eu já não me interesso pelo que tem a dizer. A minha ideologia é um avião que não precisa de virar nem à direita nem à esquerda.

Em segundo lugar, não aceito as suas acusações contra a suposta mediocridade dos críticos que defendem o cinema de autor português. Que por essas bandas haja snobismos insuportáveis, não duvido (o Paulo Branco, homem essencial na dignificação da sétima arte lusa, teve o desplante de uma vez dizer que um bom filme é aquele que faz um espectador dormir durante alguns minutos...). No entanto, quando se quer confrontar a idoneidade profissional de alguém, tem que se pegar nas mesmas armas com que o visado trabalha. Ou seja, senhor Rui Moreira, comece a fazer crítica de cinema (no sentido mais nobre do termo). Ponha na mesa os seus argumentos, convença-nos dos seus gostos e desgostos, explique-nos por A mais B o que está errado na recensão do senhor X ou no ensaio do senhor Y. E leia, por favor. Leia muito sobre o cinema, investigue: Bazin, Deleuze, Daney, ou outros, muitos outros, saiba em que terreno se está a mover e deixe-nos sem palavras perante a inteligência dos seus raciocínios sobre estética. Até lá, a sua conversa é puro pulidovalentismo.

Termino com uma citação que me é muito cara:


"O público é tão pouco respeitado que, quando se vê profundamente respeitado, sente-se perdido".

Roberto Rossellini

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Além da indefinição

"Além da vida não há vida alguma.
Com ou sem sombra estamos sempre nela
- agasalhando pelo tempo a bruma

ou, se de ambos despidos, vendo-a a ela."


Fernando Echevarría, "Introdução à Filosofia"


segunda-feira, dezembro 10, 2007

Reinos em conflito

Após ter decidido viver para sempre no cimo das árvores, o pequeno Cosimo entra no jardim dos vizinhos rivais da sua família (sem nunca tocar no solo). Aí encontra a menina Violante, brincando coquettemente com o seu baloiço. De imediato elaboram um tratado alegórico definindo os seus territórios e respectivas legislações.

Enfim, há quem lhe chame outra coisa.




"- E o baloiço a quem pertence? - perguntou ela, sentando-se com o leque aberto nas mãos.

- O baloiço é teu - estabeleceu Cosimo -, mas como está ligado a este ramo, depende sempre de mim. Portanto, quando bates com os pés na terra para dar impulso, apoias-te em território teu, mas quando andas pelo ar estás em meu território."


Italo Calvino, "O barão trepador"

quinta-feira, novembro 22, 2007

Pensamento libertador

"(...) numa moeda: ou vejo a cara ou a coroa. Não posso ver as duas faces simultaneamente. Mas podemos, com um espelho."

José Croca, Prémio Galileu de Física, em entrevista ao JL de 21 de Novembro.

quarta-feira, novembro 07, 2007

O caso Llansol

Maria Gabriela Llansol não é uma profissional da escrita. O seu estar-no-mundo não se resume a um trabalho técnico inserido numa cadeia de notoriedades e retribuições. A autora desenvolveu o seu próprio (des)sistema de pensamento (a mutação que a forma romance sofre às suas mãos é o resultado desse gesto) e, mais do que isso, é alguém que vive de acordo com o projecto que vai escrevendo (pelo menos, a julgar pelos seus diários).

A escrita de Llansol é um atributo necessário da sua vida singular (ou melhor dizendo: plural).

Presumo que, no fim da segunda parte de "Lisboaleipzig", a rapariguinha humana se esteja a referir ao fazer amor quando:

"(...) voltando-se para__________ o texto, diz-lhe:
- Quando, por instantes, fazemos coincidir no nosso corpo a minha ausência com o teu inomeado,..... posso ir do quarto das sombras, em direcção ..... do fio de luz. (...)"

segunda-feira, novembro 05, 2007

Tiradas da boca

Nunca consegui verbalizar a razão que me leva a desconfiar profundamente dos cursos e dos manuais de escrita criativa. O jornalista Paulo Moura (no PÚBLICO de 4 de Novembro) encontrou as palavras que me faltavam:


"Praticar sexo segundo os conselhos de um sexólogo é como compor um poema segundo o manual de escrita criativa."

sexta-feira, novembro 02, 2007

Sentados em círculo, conversam

".....- A terra quimérica do mundo.
.......- Onde só há alpendre - acrescentou a voz de Anna quebrando a regra do jogo.
.......Houve uma pausa, e disse ainda:
.......- Onde existem todas as histórias que contamos uns aos outros, e a nós próprios, os actos dos poetas, o som dos músicos; e onde os místicos procuram entrar, inteiros, com o seu próprio corpo.
.......- Tudo é casa de talvez - repetiu o cego, seguindo o mau exemplo. A sua voz levantou-se, mas a da jovem mulher cresceu primeiro:
.......- Onde se mudam as fraldas, se ajeita o naperon, se rega o vaso, se limpa o pó sobre o piano, se acende a vela, se abre o livro,...........e vírgula, e vírgula. Tudo por onde o gato salte sem quebrar nada."


Maria Gabriela Llansol

sábado, outubro 20, 2007

Canto porque

"O que é a eternidade? Haver fósseis de peixes nos Himalaias. "

Luís Quintais