Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, abril 17, 2012

Nota "Tabu"

No seu último filme, Miguel Gomes retoma parte do gesto que o tinha motivado a realizar "Aquele querido mês de agosto". O lado maldito do amor incestuoso que incendiava a ficção estival encontrava um subtil eco no universo cultural escolhido para o ilustrar, o cancioneiro pimba, maldito por razões absolutamente diversas. Ora, em "Tabu", a maldição sentimental (algo tão simples como um adultério) articula-se em torno de um cancro ainda mais desconcertante e polémico: o imaginário de direita (note-se que não se trata apenas de evocar o passado colonial visto pelos olhos dos colonizadores; na mesma linha se situa a atenção dada ao cristianismo, à vida de casino, à relação patroa-criada, e temos até direito à aparição de uma espécie de skinhead). A frase-chave de toda a fita é aquela em que Ventura diz que Aurora, a mulher casada que lhe ensinou o sentimento da verdadeira paixão, se lhe impôs como uma realidade absoluta e totalitária. E quando o assassinato do ex-seminarista é reclamado pelas forças rebeldes africanas, a libertação que aí está em jogo é sobretudo aquela que permite a Ventura afastar-se de tão pouco venturoso amor.

O parti pris é, francamente, arriscado. Não tanto pela defesa de um imaginário incómodo (ainda que, ao contrário do que acontecia na obra pimba, Miguel Gomes não assuma diretamente a sua posição de gosto), mas sobretudo porque esse imaginário parece ser instrumentalizado enquanto motivo sociológico e esvaziado da sua (inevitável) dinâmica política. É um partido, contudo, que se revela ganho, por três razões:

1. O episódio meramente vocal das cartas de amor é sobreposto a imagens lírico-documentais do continente africano com a força de quem acredita que esse continente possa voltar a ser olhado como um continente desconhecido.

2. A decisão de retirar os diálogos da banda sonora da segunda parte, e de a fazer brotar da voz encantatória do ator que interpreta o papel de Ventura, decisão formal muito simples e clara, dá a toda a sequência um poder onírico como há muito eu não via no cinema (de certo modo, toda a história poderia ter sido inventada).

3. O esmero dado aos aspetos secundários do filme (aos personagens que rodeiam os amantes, ao sabor do romanesco, à estilística de um português serôdio) faz-nos acreditar que estamos perante uma jóia, polida até poder ser lágrima de crocodilo.

domingo, abril 15, 2012

Nota "É na Terra não é na Lua"

É curioso que, no início do seu documentário sobre a ilha do Corvo, Gonçalo Tocha verbalize a vontade de filmar tudo do lugar que a sua câmara vai tomar de assalto. Curioso, porque, como sempre acontece num documentário (por ex., em "Mur murs", o que Agnès Varda viu em Los Angeles foram as pinturas murais), não há concretização fílmica que não resulte de um processo de seleção.

E, na verdade, o que Tocha filma é sobretudo a memória da ilha, como se estivesse a tentar refazer o diário daquele corvino que, a uma dada altura da sua vida, resolveu destruir os registos que demorara toda essa vida a coligir. São muito poucas as imagens de crianças, jovens ou até de jovens adultos que aparecem em "É na Terra não é na Lua", pois a câmara parece enamorada dos anciãos e da faculdade que eles possuem de definirem a ilha enquanto ilha cultural (um momento antes da aldeia global a destruir como um tsunami?).

Será que é preciso recorrer-se à insularidade profunda para ainda se poder experimentar um sentimento de "comunidade" (no sentido formulado por Ferdinand Tönnies)? Tanto o gorro em torno do qual a montagem do filme se tece, como a sombra da nuvem que engole a sombra do próprio realizador no último capítulo da sua obra, parecem atribuir ao cinema (à sua lentidão, à sua curiosidade, à sociabilidade que é sua condição sine qua non) o poder de (re)inventar o sentido da pertença. A pertença à Terra, com e sem maiúsculas.

De resto, salientaria dois momentos magistrais nesta obra. O comentário em direto, por um conjunto de homens, às características de cada onda que embate na ilha desagua num momento de pura poesia. Mais eloquente ainda é a cena da militante da CDU que, em frente a uma parede onde religião e política partilham a ingenuidade, nos dá um retrato simultâneo da urgência do empenhamento cívico e da pequenez da sua resposta partidária institucional. Um filme a reter.

Nota "Blue"

Se o cinema é um meio de comunicação estética orientado para dois sentidos, a sua origem está ligada ao império exclusivo da visão. Os trinta anos em que a sétima arte foi muda (sem disso ter consciência) fizeram-na atingir um alto nível de expressividade visual, sem paralelo nas outras artes da imagem (nem a pintura nem a fotografia se definem por um processo de edição distendido numa temporalidade contínua). A expressividade era de tal ordem que era possível dizer-se que a palavra da Joana d'Arc de Dreyer se conseguia fazer "ouvida" por meios exclusivamente visuais.

Essa génese ótica determinou a maneira como nos relacionamos com o cinema. Se um filme como "Branca de neve", de João César Monteiro, deu origem a uma pequena escaramuça social de despeito, "The artist" conseguiu atingir o prémio máximo da Academia de Hollywood. Nunca saberemos onde acaba a essência de um fenómeno e onde começa a sua arbitrariedade cultural, mas a verdade é que toleramos passar uma sessão de cinema na contemplação de imagens (aparentemente) sem som, mas o contrário nos parece uma bizarria insultuosa.

Na verdade, há já muito tempo que o cinema procura inverter as regras do seu próprio jogo. Cineastas como Straub/Huillet ou Manoel de Oliveira foram-se apercebendo de que, ao gerarem imagens torturadas por um elemento de falta, era possível produzirem a ilusão de filmagem da palavra. Esses autores insistiram sobretudo na criação da evidência de um problema ao nível do movimento (a famosa roda da carruagem filmada durante demasiados minutos em "O dia do desespero"), uma espécie de equivalente assimétrico da "falta" de som no cinema mudo (na verdade, o som sempre existiu, seja sob a forma de acompanhamento musical, seja a título do conceito de silêncio de John Cage). As duas faltas não se equivalem de facto (esta minha tese é bastante contestável), mas iluminam-se mutuamente.

Um filme como "Blue", no qual o cineasta Derek Jarman reduz toda a dimensão visual a uma única cor, omnipresente do princípio ao fim da obra, leva a uma espécie de momento limite esta vontade de filmar o som (ao contrário do Dreyer do tempo do mudo que, no seu ensaio sobre a mártir cristã, tentou pôr a imagem a "falar"). "Blue" é tanto mais expressivo quanto resulta da progressiva cegueira que estava a invadir o seu autor (fatalmente infetado pelo vírus da Sida). Não se trata, contudo, de uma performance sonora à qual teria sido acrescentada uma imagem monocromática, mas de um momento de verdadeiro cinema, destinado às peculiares condições de projeção da sala escura. Como é óbvio, a experiência, enquanto limite, não se poderá tornar a norma da produção audiovisual ("Branca de neve", aliás, mostrava algumas imagens ao espetador), mas constitui um gesto de liberdade capaz de influenciar o pensamento futuro sobre a sétima arte.

quarta-feira, abril 11, 2012

Nota "A vingança de uma mulher"

Quando se fala sobre casas de putas, o mais terno que se consegue dizer é que há muitos homens que recorrem aos serviços das profissionais do prazer só para poderem conversar.

É terno, de facto. Mas ainda assim opressor, e machista. Este filme dá à prostituta a possibilidade de ser ela a falar. Se toda a foda contém em si latente uma narração, a foda prostituída é capaz de trazer consigo toda a tristeza de uma civilização que, tantos milénios mal passados, não sabe o que fazer nem com a alegria do sexo nem com a alegria do amor (o que, de resto, talvez seja bom).

domingo, março 25, 2012

Cadernos cinematográficos: prazer

A minha boa amiga Lina Marques Carvalho diz-me que, por vezes, vai ao cinema para se divertir e, outras vezes, cede à curiosidade de ver cinema de autor. Gosto muito da minha boa amiga, mas não consigo perceber o seu ponto de vista.

Ponto de vista que é, de resto, consensual. Manoel de Oliveira, odiado em terras lusas por fazer cinema sem concessões (se bem que, quando não fazia concessões nenhumas, o seu cinema era muito mais divertido - hoje, ele seria incapaz de fazer um filme de sete horas porque um determinado texto exigiria tal duração), Manoel de Oliveira, dizia eu, acha que há lugar para um cinema de entretenimento e para um cinema artístico. E numa entrevista recente, o também austero Aki Kaurismaki defendia que o cinema comercial era algo aceitável, pelo menos para a situação de ressaca após uma noite de copos.

Esta especialização do consumo estético não é mais do que uma variação do sonho antigo que todo o macho acalentava de casar com uma dama na mesa e uma puta na cama. Em termos que todos hoje possamos entender, digamos que a nossa cultura nos exige que sejamos sérios e competitivos no trabalho mas uns ganda-malucos na diversão noturna, promíscuos na adolescência mas fiéis no casamento, praguejadores entre rapazes mas elegantes entre raparigas, etc. A recusa da unidade do comportamento humano é um dado universal, pacificamente aceite e praticado. Com franqueza, tenho alguma dificuldade em adaptar-me a tal etnologia.

Tudo o que eu sempre esperei do cinema tem a ver com prazer. Desde a infância. Aliás, eu diria que o facto de o público em geral zurzir contra o cinema de autor é um elemento sociológico que deve ser entendido com otimismo: pelo menos, as pessoas continuam a esperar algo de genuíno do cinema, ao contrário do que acontece nas artes plásticas (para quando o documentário sobre Serralves mostrando os turistas a passearem-se por entre obras-primas e obras-tias como se fossem palácios a olharem para bois?).

O único fator de distinção da minha cinefilia tem a ver com a desmesura com que eu assumo esse prazer. Não faço o menor sacrifício para ver "La passion de Jeanne d'Arc" de Dreyer (e muito menos regresso ao filme para me cultivar intelectualmente). Simplesmente, sinto um prazer imenso em ver todos os passos que um ser humano tem de dar para se manter fiel ao seu sonho. Espero que não me tomem por um sádico: o prazer não me vem da dor estampada no rosto da Falconetti mas irradia do próprio sonho e da delícia inconsútil que uma ética rigorosa sempre serve àqueles que com ela são agraciados. Do mesmo modo, o que me dá prazer em "Il vangello secondo Matteo" de Pasolini é a beleza do rosto do protagonista, a sensualidade da cidade de Matera, o verbo bíblico, a grandeza certamente polémica de algumas ideias, etc. Diria mesmo que, à semelhança do que acontece no teatro de Tchékhov, só um filme que nos mostre uma luz tem o direito (e o dever) de revelar também a inevitável sombra que ela implica.

Dir-me-ão que o "Ocean's Eleven" e o "Rosetta" são exemplos muito diferentes de sétima arte. Mas o que neles é diferente é a gravidade do universo humano que abordam, e não o "tipo de cinema" que praticam. Pelo menos assim o entendo. Nunca me passaria pela cabeça (pelo menos nesta fase da minha vida) ir ver um filme por razões éticas, culturais ou de diferenciação social. Penso que, assim como há melhores maneiras de javardar do que a trip de pipocas e efeitos especiais, há também modos mais relevantes, úteis e nobres de praticar a cidadania do que fechar-se numa sala escura que se parece mais com o quarto de dormir e foder do que com o ágora onde a democracia se debate.

Não vale a pena estar sempre a bater na vista grossa de autores como Hitchcock ou Almodóvar, porque não são só eles que conseguiram unificar seriedade e prazer. Todo o cineasta digno de nota me parece almejar essa fusão inquieta e imperfeita. Não há "Persona" sem a beleza de Bibi Andersson, nem "Pickpocket" sem fascínio pela coreografia do carteirista. Simplesmente, como "a filmmaker gotta do what a filmmaker gotta do", nem todos estes amantes das imagens em movimento conseguiram tornar-se modelos de box office. Mas isso é uma questão de sociologia (e de contabilidade capitalista), não de cinema.

Nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado, filmes como "A splendor in the grass", "Jules et Jim", "La dolce vita", "Mon oncle" ou "Blow up" pareciam conseguir equilibrar a seriedade absoluta dos seus propósitos e a função social do cinema. Hoje, o cinema não tem essa função social. Quando vou ver os chamados filmes de entretenimento (que me aborrecem de morte), sinto que me estão a piscar o olho à la José Rodrigues dos Santos, como quando um chato de um vendedor aborda um potencial seu cliente tentando-o fazer-se sentir parte de uma generalidade vaga e inquestionável. Quando os espetadores começarem a ir ao cinema com o desejo de que os filmes falem deles mesmos, dos seus prazeres, sonhos, medos, falhanços e memórias, vão mandar à merda tanto o Weerasethakul como Hollywood. Há quem se divirta com pipocas, há quem exija nada menos que um banquete.

quinta-feira, março 08, 2012

O ATUAL 33

"Shame" - Steve McQueen


Os universos de Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni permanecem dois dos modelos cinematográficos mais produtivos na contemporaneidade. O segundo filme do artista plástico Steve McQueen (definitivamente um cineasta) segue o sueco no seu estudo do bloqueio psíquico (e da necessidade de um choque para o desfazer ou pelo menos atenuar) e segue o italiano enquanto observador da incomunicabilidade sentimental em cenário de beleza urbana.

Apesar de ser uma das facilidades mais antigas do mundo, nem sempre é sem sofrimento que se converte o desejo sexual, por definição prolixo e disperso, numa fé fraternal (ou seja, em amor). O que incomoda Brandon na presença da sua irmã é o facto de ela precisamente lhe fazer lembrar essa dimensão fraternal que, algures no percurso da sua vida, o terá abandonado num deserto de erotismo desenfreado. Quando Sissy canta "New York, New York" (numa versão tristíssima), ela dá, de si e do seu irmão, um retrato de emigrantes, não tanto da Irlanda (embora isso seja verdade), mas da infância comum. Emigrantes fascinados pela cidade que nunca dorme (há apenas duas sequências diurnas de exteriores, e em ambas o simbolismo é evidente), mas que os devorou no seu cocktail explosivo de capitalismo e frieza emocional.

Apesar de este ser um filme empenhado na montagem paralela, o paralelismo mais importante que ele oferece estabelece-se entre uma cena que não se vê (a tentativa de suicídio da irmã) e a descida aos infernos da foda por que passa o protagonista. Na verdade, trata-se de um confronto com a morte que este sofre e, pelas imagens finais da obra, talvez esse confronto tenha tido um papel realmente libertador.

O rigor narrativo do filme é irrepreensível (eu diria que até é demasiado bem comportado perante as regras do storytelling, o que o leva a alguns clichés - mas quantas vezes já não vimos a cena do papa-milhas erótico que fica impotente no momento da foda com ternura?). O trabalho do ator Michael Fassbender joga pela mesma bitola. Mas, acima de tudo, Steve McQueen filma primorosamente, evitando decupagens gratuitas, aproveitando toda a expressividade possível de cada cenário, recuperando figurações pouco frequentes como os planos de costas, etc. Eu diria que ele tentou filmar o bloqueio relacional no seio de uma beleza, não tanto tecnológica (como Antonioni), mas vintage. Tudo é vintage neste filme, desde o prato para discos de vinil ao guarda-roupa de Sissy, dos arranha-céus à sensualidade do ator principal (basta comparar com bonecos de plástico como Brad Pitt ou Tom Cruise), da música de Bach ao azul da noite novaiorquina. Um mundo de bom gosto, onde tudo é sexy, tudo tem classe, mas onde tudo está podre.

Diria que a temática que une este filme à obra de estreia de McQueen ("Hunger") é a observação da degenerescência que acaba por atacar os impulsos mais legítimos da emancipação política moderna. No entanto, se no filme anterior se dava uma imagem ambivalente da militância política (e por isso era uma peça tão surpreendente e inquietante), neste constrói-se um retrato enojado da liberdade sexual. Ora, por muito que esta geração tenha de facto lidado mal com a alforria ética que recebeu, e por muito que haja freaks mórbidos que vão fazer de "Shame" uma obra de culto, a verdade é que não há ninguém que consiga afirmar, sem mentir para si próprio, que o sexo não é um dom bastante satisfatório. McQueen recuou na ambivalência e talvez tenha perdido sinceridade.

Contudo, depois de um filme nulo sobre Margaret Thatcher (com uma interpretação fabulosa de Meryl Streep, de resto), e depois de um "The artist" espertinho mas muito pouco inteligente, é um alívio ver uma coisa feita por gente que sabe o que está a fazer. Steve McQueen será dos pouco cineastas-narradores contemporâneos que talvez possa chegar à obra-prima.

domingo, fevereiro 12, 2012

Cadernos cinematográficos: montagem

Li, certa vez, uma entrevista de um escritor brasileiro na qual este assumia que, ao decidir dedicar-se à escrita de haikus, tinha investigado tudo o que podia ser investigado sobre o assunto de modo a conseguir aproximar-se aos poucos do virtuosismo especificamente nipónico na abordagem desta forma poética. Senti-me algo humilhado dada a relativa leviandade com que sempre assumo um "fazer" (subitamente, senti que os meus próprios haikus talvez não pudessem ser classificados enquanto tais), mas a verdade é que não consigo funcionar de uma outra maneira. Não por irresponsabilidade, mas porque me recuso, visceral e profundamente, a tornar-me um virtuoso ou um especialista seja do que for. A prática historicamente informada do haiku é apenas um exemplo. O piano de concerto, o ballet, a ginástica rítmica, a cerimónia do chá, a montagem cinematográfica: ainda que não seja punk ou dadá, a minha costela anárquica não quer que eu contorcione o meu espírito de modo a poder emular na perfeição um gesto de complexidade rigorosamente codificada e vigiada. Retirei do super ego a velhinha inglesa da Royal Academy of Dance que vem avaliar os meus ports de bras e os meus pas de chat. Mais depressa inventava uma ciência como Jarry do que ia estudar para Oxford ou para Harvard.

Uma das coisas que mais me repelem no cinema standard (o que significa sempre "cinema de influência hollywoodiana") é o tipo de montagem que este exige. Não me parece nada uma prática de fácil compreensão ou execução, muito pelo contrário. É preciso aprender com esforço a montar "em continuidade", como se aprende uma língua não natal ou o repertório de movimentos do teatro nô. A liberdade criativa reconhecível num trabalho como o de Thelma Schoonmaker / Martin Scorsese só surge após uma longa conjugalidade com um determinado sistema de regras e de hábitos. Muito francamente, nunca percebi essas regras e esses hábitos (como não percebo futebol ou as virtualidades dos jogos de espelhos). Para os dominar, parece-me que teria de violar parte da minha integridade intelectual (não estou a falar de ética, mas da inteireza dinâmica dos meus processos mentais). O que seria mais violento para mim: emigrar para um país nórdico, casar por dinheiro ou dominar os processos da découpage cinematográfica tradicional? Não sei, não sei mesmo.

Lembro-me de alguém me dizer que, em "Le voyage dans la lune" de Georges Méliès, não havia ainda as preocupações de raccord que viriam a dominar posteriormente, e de modo obsessivo, a gramática da montagem cinematográfica. A história do cinema poderia ter sido outra, portanto: se já se consegue hoje reconhecer um conjunto de padrões que se repetem em quase todas as línguas de todos os tempos e lugares (por exemplo, a diferença entre perfectivo e imperfectivo), não é o pouco mais de um século de cinema que consegue garantir a Verdade de todas as convenções até agora preguiçosa e comummente aceites. Acima de tudo, não precisamos de recorrer todos às mesmas soluções para os mesmos problemas, pois só os problemas são universais.

Apesar de eu ter a perfeita noção de que toda a obra tem de evidenciar elementos de continuidade que a tornem legível e coesa, estou muito mais interessado naquilo que se modifica com o corte de um plano num plano subsequente do que naquilo que se mantém. Talvez seja mais verdadeiro de um ponto de vista filosófico, mas será com toda a certeza muito mais divertido. Não sei onde esta curiosidade me vai levar (se é que me vai levar a sítio algum), mas sei que ela é o princípio fundador da minha relação com o cinema.

domingo, fevereiro 05, 2012

Cadernos cinematográficos: movimento

Quando me comecei a interessar seriamente por cinema, fiquei particularmente fascinado com a sensualidade dos movimentos que uma câmara de filmar podia fazer. Com um agrado quase doloroso, lembro-me de algumas obras de Samuel Fuller capazes de, a esse específico nível formal, produzirem uma impressão de êxtase violento sobre o espetador.

Tudo isso parece ter passado. Revi recentemente o "Jules et Jim", e a volúpia da câmara que Truffaut coreografou para a sua obra-prima deixou-me praticamente indiferente. E em "Sombras dos antepassados esquecidos" já não estou à procura do virtuosismo desse tipo de movimento, mas de outros aspetos da sua poética singular.

Presumo que há um fator "idade" a sabotar esta relação sensual (sendo esta "idade" sobretudo definível como um estado de espírito decorrente do triunfo da mediocridade das condições que se oferecem à vida adulta sobre a disponibilidade emocional genuína que existe na adolescência). Mas também não ilibo a história do cinema de alguma responsabilidade neste caso de patologia anestésica: o movimento tornou-se uma espécie de galinha dos ovos de ouro formal em tudo aquilo que se quer chamar "filme", sendo o seu abuso quase sempre pautado pela gratuitidade e por um excesso que se aproxima mais do entretenimento invisível que do barroco espetacular.

Em breve, irei realizar uma curta-metragem, e espero que a essa experiência outras se possam seguir. Uma das ambições que a mim mesmo coloco numa virtual obra cinematográfica que possa erigir, é a tentativa de voltar a encontrar emoção no movimento de câmara. Não o mesmo tipo de emoção da juventude, claro, mas um erotismo mais experiente e, quem sabe, mais perverso.

Uma das intuições que a esse nível constantemente me visitam é a necessidade de criar dificuldades ao movimento do aparelho filmador, de lhe impor peso, para que ele se revele mais necessário e inesperado. Não me interessam nada os complicados movimentos de grua, a handheld camera, nem mesmo as panorâmicas (isto apesar de tudo o que de magnífico foi filmado desta maneira). Sinto-me sobretudo interpelado pela beleza do travelling (uma das grandes invenções do século XX) e pelas possibilidades da steadycam. Estas duas formas de agitar uma câmara parecem-me guardar nelas toda a evidência da maquinaria que as possibilita, parecem-me mais próximas do comboio que da corrida ou do voo, e eu sinto que preciso desse lastro de gravidade para me entusiasmar (as perversões são, como se sabe, inúmeras...).

Outra intuição é o desejo de fazer cada filme justificar plenamente todos os movimentos que acolhe. Não se trata aqui de uma justificação meramente semântica, e nem reclamo a possibilidade de a poder traduzir numa congruência verbal. Mas quer-me parecer, por exemplo, que a vontade de fazer travellings laterais em "Checkpoint Sunset" (o tal filme que tentarei rodar) deriva sobretudo da intenção de realizar um tipo de movimento algo "murado", preso à fixidez que a parede em torno do qual a obra se constrói impõe ao mesmo tempo como obstáculo e como superfície de projeção. Travellings que sejam muros andantes e transparentes. A própria montagem deverá forjar uma justificação para a repetição dos movimentos, criando a ilusão de que o filme não poderia viver sem eles, e que eles não poderiam surgir numa outra ordem.

A ver vamos.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

O INATUAL 44 (bis)

"Adieu, plancher des vaches!" - Otar Iosseliani (1999)



(Já tinha falado deste filme aqui, mas uma revisão recente fez-me entendê-lo de uma outra forma, e por isso a ele regresso)

A um dado momento de "Adeus, terra firme", o seu jovem protagonista aponta para um helicóptero que o sobrevoa e diz: "É a minha mãe". A cena tanto pode ser freudiana (lembra o segmento de Woody Allen em "New York Stories") como fantasista. Na verdade, os seres que, no filme, coagem a liberdade dos outros não são menos excêntricos do que eles: o superego tem aqui direito a uma representação para-onírica.

Iosseliani é tão distanciado que parece quase promover uma equivalência amoral entre os vários pólos da sua ficção: desejo de fuga, desejo sexual, crime, preguiça, amizade... O georgiano exilado em Paris filma os seres humanos com aquele grau de obliquidade burlesca que faz com que, na aparência dos seus gestos reconhecíveis, se instaure uma camada de estranheza fascinante. A uma dada altura, todos os malucos do filme parecem ser tão aberrantemente coloridos quanto os dois negros que se passeiam pelo bairro.

É o mesmo gesto criativo de "Et la lumière fut", a invenção de uma cultura social ao mesmo tempo plausível e poeticamente jocosa. De facto, frequentemente as pessoas tentam iludir os outros quanto à sua classe social. Mas não o fazem como o operário deste filme, que vive num buraco onde pouco mais tem do que um fato chique, que tem um amigo que lhe empresta uma mota de alto gabarito, um outro que lhe empresta as chaves de um iate de luxo, e assim consegue levar a bom porto as suas investidas de sedução erótica.

Conhecedor do horror soviético, Iosseliani tem noção de que o capitalismo oferece alguns mecanismos de escape àqueles que vivem sob as suas regras. E filma esses mecanismos (o golpe permanente que é o trabalho de mendigo, por exemplo) com a inevitável dose de maravilhoso com que eles se evidenciam. No entanto, gulags à parte, a diferença entre o mundo liberal e a distopia comunista é que aqui, na democracia do ocidente, quem nos fode tem bom ar. A nossa mãe castradora tem cabelo vermelho, canta Schubert, convive com uma ave enorme, desloca-se de helicóptero e não é sexualmente inibida.

Estaremos verdadeiramente na posse da liberdade que nos garantem os arautos da sociedade contemporânea? Quando o protagonista é preso durante algum tempo, algo se altera profundamente nele que o faz abandonar a referência anárquica do pai (representado pelo próprio realizador) a favor da ética de hipocrisia da mãe. O seu mundo parece até ter acabado (as relações sociais descritas ao longo do filme foram em grande parte substituídas por outras). As derrotas são imensas e injustas: a rapariga amada casa com o rival cínico, o assassino fica judicialmente ileso, a criada é despedida... E o rapaz acaba por não aguentar o mundo absurdo dos negócios e das conveniências e torna-se tão alcoólico quanto o pai.

A liberdade talvez não passe de um estado interior (um olhar, aquele que demiurgicamente criara a etnografia da primeira parte do filme). A viagem do velho e do seu amigo vagabundo não tem nenhuma verosimilhança porque é, na verdade, uma metáfora. Mas não tomemos Iosseliani por um louco feliz: em "Chantrapas", a evasão aproxima-se perigosamente da figuração do suicídio.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

O INATUAL 72

"Et la lumière fut" - Otar Iosseliani (1989)



Poderá o homem, no início de cada dia, ter a mesma liberdade de que Deus gozou no início do mundo? Iosseliani assume-se como um demiurgo e inventa a hipotética cultura de uma tribo africana que, dada a resistência da sua superfície aos critérios da modernidade ocidental, pode ser convenientemente assimilada a uma antiguidade originária. Apesar de não ser mais do que um exercício de antropologia inventada, esta liberdade de fantasiar todo um modelo de relações sociais está contudo em íntimo acordo com a antropologia verdadeira, essa ciência cujo trabalho de campo confirmou a eficácia real de outros sistemas de sociabilização do humano.

Ora, se os rituais encenados pelo metteur en scène podem passar por verdades documentais aos olhos do espetador distraído, como podemos acreditar piamente nas normas da religião ou da política a que o mundo civilizado presta culto? Nas mãos de Iosseliani, o "fazer luz" promove a convergência natural entre a pura criatividade e a distância crítica: uma espécie de iluminismo, portanto.

Como nenhum demiurgo pode deixar de criar segundo a verdade, o realizador revoluciona o que é revolucionável (inverte alguns dos papéis normalmente assumidos por homens e por mulheres, flexibiliza a moral sexual) e submete-se àquilo que é fatal: a discórdia. Aliás, Deus himself não conseguiu parir um universo sem mal. Em "Et la lumière fut", a condenação de uma anciã ao exílio (se é que apenas de exílio se trata...) pelo simples facto de que vai um nascer um bebé que terá o seu nome e só pode haver um exemplar de cada nome na aldeia, é um momento de profundíssima crueldade, mas uma crueldade tão natural que chega a parecer bela (só posso dizer isto a propósito de um outro filme, "Il bidone" de Fellini).

Quando, no fim da obra, um casal põe à venda as imagens dos deuses pelos quais a aldeia, finalmente destruída pela fome dos arroteadores de florestas, nutria uma verdadeira fé, o que eles estão a vender é a magia da sua cultura, ou seja, a sua idiossincrasia sociológica. É claro que é também um sinal de que os cineastas estão sempre em processo de prostituição, mas Iosseliani, desiludido com as férreas culturas dos dois lados da cortina ferro que tão bem conheceu, lá foi conseguindo filmar aquilo que sempre lhe interessou: o fim dos mundos. Não há luz que não dê em incêndio: poderia ser um provérbio destes indígenas do cinema que terminam cada um dos seus dias com a contemplação do pôr-do-sol.

domingo, janeiro 08, 2012

O INATUAL 71

"Mon oncle" - Jacques Tati (1958)



A inadaptação do indivíduo à tecnologia foi um dos temas mais caros aos cineastas que se dedicaram à comédia burlesca. Mas o opinion maker contemporâneo será demasiado apressado se os acusar de reacionarismo. Na verdade, quem se presta ao cinema sabe que a sua matéria de trabalho é uma cereja no topo do bolo da história da técnica. Ainda por cima, esses realizadores sempre foram exímios no congeminar de verdadeiros cenários-máquinas para as suas produções (basta lembrar "The general", "Modern times" ou "Playtime").

O que parece inquietar Buster Keaton, Charles Chaplin ou o mais tardio Jacques Tati, é a tentativa de mutação antropológica que a hipertecnologia tem vontade de descontroladamente infligir à espécie que a engendrou (preocupação expressa de forma mais grosseira nas fantasias populares sobre motins de robôs). Qual a diferença entre o percurso semilabiríntico que o senhor Hulot tem de fazer na sua tosca casa e aquele a que a sua irmã e a vizinha desta são obrigadas na habitação da alta burguesia moderna? Aquele é solidário da poesia, este degenera em absoluto ridículo: algum equilíbrio foi quebrado na cadeia do fazer, da "poiesis". Hulot consegue, com a simples orientação do reflexo da luz solar num vidro da janela da sua casa, pôr um pássaro engaiolado a cantar. Para Tati (para mim também), isto é tecnologia de ponta.

O senhor Hulot é o cão vadio que ladra ao peixe morto no início do filme (peixe que ressurgirá como evidência de sucesso social na mansão da sua irmã). Hulot é uma criança. A encenação que engendrou "Mon oncle" é um prolongamento exato do conceito de patifaria. Note-se como, para responder à vaidade que a senhora burguesa tem no facto de que, na sua casa, tudo comunica, Tati faz o seu irritante repuxo esguichar em vários cantos do jardim durante a garden party: na verdade, tudo comunica! Isto é apenas o exemplo mais exuberante, já que o filme todo se organiza em torno desta atitude.

Se os putos disfarçam a sua traquinice, Hulot nunca é realmente culpado de nada. Ora, sendo o ator que o interpreta a mesma pessoa que realiza o filme, é forçoso notar-se a décalage entre a pureza do personagem e a matreirice do autor. É que se as crianças têm o talento natural para serem crianças, a infantilidade que persiste nos adultos tende a funcionar como uma patologia cujas repercussões não são brincadeira nenhuma. Para manter uma puerilidade saudável durante a vida madura, é preciso reaprender a infância, adaptá-la, selecionar o que faz a sua beleza e a sua verdade: é preciso encená-la. Todo o projeto cinematográfico de Tati, culminando na magistral cena do carrossel de trânsito de "Playtime", gira em torno desse separar das águas entre o bom sentido e o mau sentido dos dentes de leite (dentes que, como se sabe, são os únicos que não caem).

Tati vem trazer um pouco de luz a um mundo aprisionado (no fim do filme, o pai do miúdo aprende a maneira irreverente que lhe permite relacionar-se com ele). Mas não há nenhum paternalismo no seu gesto. Ele é apenas um tio que gostaria que a humanidade sua sobrinha fosse um pouco mais livre.

domingo, dezembro 18, 2011

O ATUAL 32

"Habemus papam" - Nanni Moretti 



(O segundo parágrafo do presente post tentará ser algo morettiano; mas como eu não sou o Moretti e ninguém pode ser quem não é, sair-me-á com toda a certeza um parágrafo simplista e até demagógico, pelo qual adianto desde já as minhas desculpas ao leitor)

A história que toda a arte sofre deve a sua configuração tanto ao progresso que experiência e pensamento conjugam numa impressão-de-dialética, como à casualidade com que os homens sempre remam a favor ou contra a corrente do tempo. Mas como ninguém empresta relevância a este último elemento da equação, e porque moda e modernidade se tendem a confundir nos corações frágeis, a vanguarda toma sempre um certo ar de censura para com tudo o que não se escreva com o lápis azul do momento. Por vezes com razão (o bolor está por todo o lado). Outras vezes não.

Aquele cinema contemporâneo que vai sendo objeto de consagração crítica (e de ameaça de institucionalização histórica) parece auferir o seu prestígio com base em três critérios: ascetismo (herdado de Dreyer e Bresson), violência gráfica (a tradição americana) e, acredite-se ou não, excentricidade (ou talvez deva dizer "esquisitice", para não ofender a brava ética daqueles que se mantêm fiéis a si mesmos). Claro que há excelentes exemplos de gente que trabalha bem esses pressupostos (Albert Serra, Park Chan-Wook ou David Cronenberg, respetivamente), mas a verdade é que, hoje em dia, é quase impossível ir ver um grande filme no qual se possa assistir a uma boa conversa, a um momento de prazer genuíno, a uma gargalhada, a um beijo terno, a um jogo de futebol, a uma dança despretensiosa, a qualquer coisa que nos faça lembrar a dimensão humana em toda a sua ausência de esplendor positivo ou negativo. A vida sem merdas, como se contemplava no cinema de Charles Chaplin, de Jean Renoir, de John Ford, ou (sim, sim!) na Nouvelle Vague francesa. Nunca me esquecerei da cena hilariante em que, num dos seus filmes, Nanni Moretti inferniza um crítico de cinema no seu leito de morte por este ter tecido elogios insensatos a "Henry: portrait of a serial killer".

Moretti não quer, portanto, ser o melhor cineasta (il più bravo), mas a sua menoridade indiscutível permite-lhe, em "Habemus papam", resolver o dilema metafísico que o escritor Herman Melville deixara em aberto (em ferida aberta) nas suas duas obras fundamentais: "Moby Dick" e "Bartleby, the scrivener". Apesar de, com toda a evidência, o realizador não ser um homem de fé, ele respeita o facto de que, para certos homens, Deus possa tomar a forma de uma intervenção transcendente neste nosso mundo Aquém. O presente à Igreja Católica que esta obra constitui (presente imerecido, como diz o autor, e eu concordo com ele) reside precisamente nisto: se um homem sente que foi na verdade escolhido por Deus, o seu primeiro passo de profunda fé é a imediata abdicação de todo o poder. A maior ambição confunde-se assim com a maior recusa de qualquer gesto de sobranceria épica. O cristão é aquele que simplesmente quer andar no meio dos outros homens.

O filme afigurou-se-me algo mágico, na medida em que o cineasta propõe uma hipótese histórica de uma grandeza burlesca (se bem que nunca faça o argumento entrar num absurdo buñueliano - como disse, Moretti é um autor menor) e, ao mesmo tempo, evita toda a atitude, que aqui seria espúria, de anti-clericalismo. É claro que ele sabe que os cardeais não têm a candura com que são representados em "Habemus papam" (uma coisa é Rossellini figurar a lenda franciscana com uma tonalidade infantil, outra será construir uma imagem edulcorada dos filhos da puta do Vaticano), mas a bonomia do tom do filme é essencial para que o ateu mostre que baixou as armas, pelo menos durante um momento, e está a revelar ao seu opositor qual é a verdadeira dimensão de uma ética política. Sem cinismo nem ironia de nenhuma espécie.

Claro que a obra não é tão pouco negra quanto parece. Note-se como a frustração parece ser a tónica da sociedade presente: não é só o papa eleito que gostaria de ter sido ator, também o psicanalista é um frustrado do voleibol. O próprio facto de o teatro se apresentar como a forma da verdadeira vida (o que é uma herança bergmaniana) tem o seu corolário sinistro na figura do ator enlouquecido, que pode valer quase como sinédoque do estado do mundo. De qualquer modo, "A gaivota" de Tchékhov (citada no filme) não dá uma imagem tranquila nem do teatro nem da vida.

A fita é ainda uma homenagem profunda a Michel Piccoli, que poderia ser quase um papa do cinema. Ao representar o papel de um homem que deixou de ser ator para se tornar padre, ele transmite aqui uma espécie de ética do intérprete, aquele que deve abandonar as características superficiais do seu métier (carreira, aprendizagem) para se fundir por completo no destino de um personagem. Ora, não está esta forma de abdicação em sintonia profunda com a espiritualidade de "Habemus papam"?

domingo, dezembro 11, 2011

Checkpoint Sunset


Estou a desenvolver um projeto cinematográfico cujo título (provisório) é "Checkpoint Sunset".

Dada a total insegurança que preside às circunstâncias (da vida em geral, do cinema em particular, de Portugal desde sempre e para todo o sempre, da minha modesta vidinha), não sei se a coisa passa de obra virtual a obra pessoal (e isto é bem mais do que um problema de tags). Mas não sou favorável ao segredo como estratégia de legítima defesa.

Por vezes, este blogue acolherá posts que, de forma muito oblíqua, se podem relacionar com o espírito de tal empresa.

segunda-feira, novembro 28, 2011

Nota "Sur la plage de Belfast"

Há dois tipos de pessoas: pessoas do tempo de guerra e pessoas do tempo de paz.

As primeiras são muito mais numerosas, e nelas se incluem os resistentes, os revolucionários, os lutadores, os agitadores, os descarados, os disparatados. As outras, nas quais envergonhadamente me incluo, têm pouco sentido de urgência, acalentam uma infinita preguiça quando confrontadas com problemas facilmente evitáveis, e nunca se sentiriam aborrecidas se vivessem num efetivo Paraíso.

Um gajo deste último género é muito pouco útil neste momento em que se desenha, nas estrelas da bandeira europeia, uma tempestade perfeita. O Kiarostami é por vezes criticado porque, nos seus filmes, não aborda diretamente questões políticas relacionadas com o seu infeliz Irão. Mas algo de semelhante se pode dizer do Paradjanov ou do Erice de "El sol del membrillo" (ou seja, das minhas maiores referências). O homem do tempo de paz apenas consegue mostrar aos outros como viver num contexto precioso em que os assuntos de sobrevivência urgente foram superados. Não porque seja um moralista, ou um exemplo, mas precisamente porque gosta de viver assim e porque o faz com toda a naturalidade.

O pequeno filme "Sur la plage de Belfast", de Henri-François Imbert, conta uma espécie de história de ressurreição: o realizador pega nas imagens que encontrou por acaso numa câmara de um homem que morreu sem as mostrar àqueles que foram filmados (a sua família) e leva-as até a este grupo de pessoas, que habita na Irlanda do Norte. O visionamento desses rushes da vida quotidiana de algum modo devolve o morto à sua família (o que é ainda mais intensificado quando Imbert filma os protagonistas das imagens no mesmo décor em que haviam sido filmados há cerca de uma década).

O realizador menciona a estranheza que deriva do facto de alguém ir filmar a Irlanda do Norte sem ser para documentar a sua instabilidade bélico-política. Mas o seu gesto coincide com uma espécie de cessar de ofensas entre católicos e protestantes (presumo que temporário) e, no seu voluntarismo desinteressado (alguém que viaja até outro país apenas para devolver umas imagens aos seus destinatários), mostra aos neófitos da paz como se pode viver num clima social sem turbação. A ressurreição é também a da própria Irlanda do Norte: como o cinema é uma arma generosa, pode captar esse momento de plenitude desejada.

Pela minha parte, sei que me tornarei pouco relevante nos tempos que se adivinham.

domingo, novembro 27, 2011

Nota "Offside"

As razões pelas quais um cineasta como Sergei Paradjanov foi aprisionado várias vezes na União Soviética não terão sido políticas em sentido estrito. A sua imensa liberdade, como pessoa e como artista, é que terá incomodado o estado de necrose da ditadura supostamente revolucionária.

No caso de Jafar Panahi, perseguido pela atual teocracia iraniana, a questão coloca-se de modo diverso, na medida em que este realizador quer fazer cinema como quem põe dedos nas feridas. Ainda não pude ver "Isto não é um filme", infelizmente, mas uma obra como "Fora de jogo" reúne todos os condimentos para arreliar as bestas do regime. Parece um prolongamento natural da revolta verde dos jovens persas que, há algum tempo atrás, encheu os ecrãs televisivos de uma esperança para este país tão cheio de imprevisibilidades (como a de ser o contexto de uma das melhores cinematografias do presente...).

Panahi ataca em várias frentes: através de um questionamento filosófico que parece não querer distinguir-se da idade pueril dos porquês (não faz isto tão bem como Kiarostami, de quem foi assistente, de resto, mas a menor sofisticação torna-se secundária perante a relevância dos argumentos que reduzem uma cultura ao absurdo), oferecendo imagens de mulheres travestidas aos seus espetadores amordaçados por uma moral criminosa (e esta afronta de género será muito mais ameaçadora do que o problema de quem pode ou não assistir a jogos do desporto rei) e construindo o sonho de um país de plena celebração, um país de multidão convivendo nas ruas sem qualquer burca de triste sisudez.

Qual das três afrontas (pedra no sapato, punho fechado, cabeça na lua) é a decisiva, isso não posso saber. Mas para alguém que, como eu, detesta futebol, esta maneira de confundir revolução com festa da bola consegue de facto produzir todo o impacto político de uma evidência poética.

domingo, novembro 20, 2011

O INATUAL 70

"L'éternel départ" - Saguenail (2010)



Uma imagem funciona tanto enquanto projeção daquele que a provoca como enquanto estratégia de mumificação do presente. Apesar de quase todo o cinema tender a esconder esta sua propensão para a necrose, é natural que alguns realizadores a queiram assumir. Foi o que Saguenail fez, quando decidiu filmar o cemitério como imagem de si mesmo e o mundo como mera dilação do cemitério.

As metáforas devem a sua beleza não à analogia que as parece justificar mas à diferença que essa mesma analogia torna mais patente. Assim, ao contrário do que acontece com as árvores (submetidas ao ciclo das estações, a uma partida eterna), cada ser humano tem direito a apenas um inverno. Esta tensão entre a consciência pessoal e a indiferença do mundo às imagens provocadas por e nessa consciência pode levar a uma tentação algo espinosana. Ou seja, pode a alegria moral do indivíduo encontrar a sua força e o seu alimento na conjugação com a alteridade: na desvalorização da morte de si mesmo por solidariedade com a sobrevivência da espécie, nas temporalidades alternativas que o mundo consegue oferecer.

"L'éternel départ" pratica uma montagem de temporalidades, um pouco como Deleuze sugeriu, mas de forma bem carnal, ancorando as evidências da passagem dos dias em corpos de luz e de música. As imagens de flores nas gavetas tumulares, intercaladas com as citações de pintura, conseguem mesmo criar a impressão de que o cemitério está a ser transformado por uma primavera. Muito bela também a sequência do nascer do sol, que quase consegue inventar uma leveza para este filme.

Quase. Porque Saguenail parece preferir assumir uma moral de outra estirpe, mais negra, mais dura, um abraçar épico de toda a mortalidade (o outro é também um morto) para de algum modo assim defender a inexpugnável fragilidade do acidente-vida.

domingo, novembro 06, 2011

Danos colaterais

1. Não conheço o essencial da obra do documentarista norte-americano Frederick Wiseman, mas diria que, no seu excelente último filme "Crazy Horse", ele tenta mostrar como a encenação erótica que preside ao espetáculo de um cabaré de sucesso parisiense é uma forma de institucionalizar o corpo (note-se como os protagonistas da fita são, precisamente, o metteur en scène e o seu candidato a sucessor). Talvez o passo seguinte para Wiseman devesse ser o making of de um filme de ficção hollywoodiano - para acabar de vez com os making ofs que pretendem adulterar a imagem do que é, na verdade, a produção do cinema industrial.

De qualquer modo, este post pretende sobretudo chamar a atenção para uma parte do documentário na qual as bailarinas do "Crazy Horse" assistem a uma montagem hilariante de cenas onde se registam erros, quedas, passos em falso de profissionais do ballet supostamente sério. Por um lado, a sequência mostra a relativa frustração de quem sente que tem de cumprir um papel a meio caminho entre a artista e a puta. Mas, muito mais importante do que isso (e mais irreverente), é a sensação que fica de que o ballet clássico (outra maneira de institucionalizar o corpo) guarda em si mesmo uma falha, um erro colossal, que é a ocultação da nudez e do erotismo.



2. Perto do final do segundo livro de "Guerra e Paz", Lev Tolstói descreve uma cena na ópera moscovita vista através dos olhos da puríssima Natacha. Qualquer saga oitocentista tem de ter uma cena na ópera, claro, mas o romancista russo pica o ponto de maneira brilhante: ao mesmo tempo que regista os rituais codificados e cínicos da vida da alta sociedade (em tudo opostos ao caráter da personagem em foco), relata os acontecimentos no palco como se estes fossem um disparate mecânico, sem sentido (narrativo) nem grandeza. Se Natacha tivesse percebido a mensagem do espelho teatral, talvez tivesse ficado alerta para a cilada que lhe pretendem montar. Acontece que esse teatro descrito por Tolstói não corresponde à estética factual do que se passa sobre o palco, mas é apenas o resultado da desatenção eloquente de Natacha. E assim, de modo indireto e com toda a certeza sem o pretender, o escritor realista descreve uma possibilidade de vanguarda dramática, a meio caminho entre o dadaísmo e o absurdo.

domingo, outubro 23, 2011

O ATUAL 31

"Sangue do meu sangue" - João Canijo 



Não há um mas sim dois filmes na versão curta de "Sangue do meu sangue" (o motivo que leva João Canijo a estrear em simultâneo duas versões da mesma obra ultrapassa-me), porque dentro de cada família se formam pares de amantes aos quais o interdito sexual traz uma intensificação histérica do afeto.

Há o filme de Rita Blanco, da mãe levemente desinteressada do seu filho e obcecada pela filha. Como muitas vezes acontece quando se aborda o tema quente do incesto ("Oldboy", "Le souffle au coeur"), é possível fazer o discurso atingir um certo grau de malevolência. Por um lado, assinala-se a consanguinidade figurada que assombra toda a mobilidade social: o personagem de Marcello Urgeghe soa completamente a falso porque ele, no fundo, não sabe representar o papel que o livrou das origens humildes. Mais importante ainda, o que preocupa Márcia (a composição de Blanco) não é tanto a efetiva concretização de um incesto por parte da filha, mas apenas a consciência traumática que esta pudesse ter da sua afronta ao tabu. O pragmatismo anti-anagnórise da mãe galinha é perverso, como quase sempre acontece nos grandes amores de teor feminino.

Não conheço muito bem a obra de Canijo porque sempre ma apresentaram sob a égide do preconceito. Do pouco que pude acompanhar, noto, contudo, que houve uma evolução no saber-fazer que tornou o cineasta rigoroso no desenho da câmara, eloquente na construção da banda sonora e acima de tudo francamente responsável na direção de atores. Não me interesso muito por realismo, mas reconheço a absoluta mestria do trabalho de Rita Blanco, da sua mãe popular que não deve nada à Magnani de "Mamma Roma" mas que é diretamente colhida na evidência da cultura portuguesa.

O outro filme, o de Anabela Moreira (a tia que afina pelo diapasão do sobrinho), é muito menos agressivo do que aquilo que se apresenta na sua superfície. Não quero com isto dizer que a atriz seja menos virtuosa (consegue, na verdade, compor um magnífico retrato de sensualidade solitária). Parece-me é que tanto a intérprete como o realizador caíram na esparrela da exibição do martírio (Lars von Trier haveria de gostar...) e que foram sugados por essa pornografia melodramática. A cena da violação de Ivete, que já vimos um ror de vezes no cinema, só faria sentido se fosse mais aforística (como num filme de Bresson) ou se, pelo contrário, ultrapassasse os limites do suportável (como num filme oriental). Da forma como tudo se processa, a personagem não me parece suficientemente respeitada.

Na tragédia clássica, a ação trágica decorre toda fora do palco, e este serve sobretudo como lugar de palavra onde se partilha com os espetadores o comentário moral e emocional a essa ação. Num tempo em que se mostra tudo para que ninguém veja nada, esses textos arcaicos envergonham-nos pela sua sofisticação, integridade e modernidade. Não gosto tanto de "Sangue do meu sangue" como dos filmes de John Cassavetes, mas gosto mais dele do que dos filmes de Mike Leigh.

quinta-feira, outubro 06, 2011

O INATUAL 69

"La dolce vita" - Federico Fellini (1960)


"La dolce vita" é um número de corda bamba no qual se regista o progresso fatal de um ser semi-caído que ainda tinha a ousadia de olhar para cima. É, portanto, uma contra-ascensão que parte da imagem de Cristo percorrendo o céu de Roma a reboque de um helicóptero, até chegar ao imenso animal morto retirado das águas do mar, tendo, por estações intermédias, a sequência da atriz de Hollywood que um avião faz descer à terra italiana (a meu ver, continua a ser um dos momentos mais belos da história do cinema) e a cena da Virgem Maria invisível que umas crianças brincalhonas inventam para gáudio da comunicação social. De Deus ao Monstro, da Mulher tão superlativa que parece não existir à Mulher que nunca existiu enquanto realidade histórica.

Marcello ainda admira a putativa superioridade da fêmea, assim como ainda admira a vida intelectual e a estabilidade familiar do seu amigo Steiner (já que ele trocou a literatura pelo jornalismo cor-de-rosa). Mas o conjunto de experiências que a loucura romana lhe fornece (desde a velhice incapacitante do seu pai até à tragédia que o mencionado Steiner provoca) levam-no na direção da queda absoluta. Queda que se faz de festa em festa, cada novo momento de paroxismo convivial empurrando mais fundo a tonalidade do grotesco, até à transformação desesperada de uma party girl na imagem de uma galinha. Na sociedade moderna, a perda da referência religiosa não foi acompanhada de uma metamorfose de mentalidades que continuasse a fomentar a possibilidade de relações afetivas duradouras (é exatamente o mesmo problema de "L'avventura", filme do mesmíssimo ano).

No enorme circo de cornudos que é a Roma de meados do século passado, o capricho é que dita a evolução das narrativas (do filme e do mundo). Mas lembro-me perfeitamente de ler uma reivindicação do próprio realizador a respeito desta obra: a ideia de que o seu título não era uma ironia (algo que, em português, soaria como "A boa vida"), mas a constatação de que, apesar de tudo, a vida teria uma certa doçura. E, de facto, o prazer é omnipresente na estética felliniana. Veja-se quão sedutora é a cena da festa aristocrática... O circo, em Fellini, nunca perde a sua intensidade poética.

Mesmo morto por dentro (como morto está o monstro submarino), Marcello/Fellini continua a olhar. Mas para que o cinema do mundo caído não soe a falso, é preciso abandonar a ilusão de uma arte de harmonia e simplicidade clara (como a de Bach ou Giorgio Morandi) e encontrar uma estética também ela caída, ou, pelo menos, semi-caída. Se os paparazzis sinalizam a impossibilidade de alguém se conseguir esconder na amena selva romana como Marcello supunha ser possível, a verdade é que o cinema felliniano não finge distinguir-se da amoralidade do seu frenesi: enquadrar, iluminar, registar o que não é registável (o sofrimento infinito), confundir com uma atriz a mulher que ainda não se sabe viúva e órfã de filhos, iluminar as discussões dos amantes, dar um enquadramento para a morte.

Cineasta frequentemente vilipendiado pelos freaks do ascetismo, o criador de "La dolce vita" assumiu o seu barroco lírico-monstruoso como uma provocação ética a que ninguém consegue ser indiferente. Para a puta da vida, oito putas e meia de cinema.