A partir de agora, os meus espermatozóides serão carinhosamente tratados por "Pintos em Banho Marinho".
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sexta-feira, maio 31, 2013
Batismo
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terça-feira, maio 21, 2013
Humanidades forever
As mamas da Angelina Jolie não me aquecem nem me arrefecem. Mas algo me diz que esta cedência à probabilidade genética tem uma índole semelhante à da economia de casino com que nos querem mutilar. Em todo o caso, a próstata ninguém ma tira.
sábado, maio 04, 2013
Dois souvenirs
1. Quando era criança, chamava-me Pedro. Hoje, ainda dou por esse nome, mas já não por passos-coelho. Reconheço imensa ambição na minha criatividade, mas ela é inversamente proporcional ao asco dirigido contra o desejo de ser "bom aluno" que assumira na tenra idade.
Por volta dos dez, onze anos, tive uma professora de Moral chamada Eulália (a proliferação de lá lá lás tornava a senhora bastante risível) que, quando se enfurecia com os seus educandos, ameaçava que os havia de "estalar" (porventura essa forma de dizer "dar um estalo" até está linguisticamente correta, mas é tão rara que só podia fazer aumentar o coeficiente de risibilidade anteriormente mencionado).
A professora Eulália estava uma vez a falar de pobrezinhos, e o Pedro resolveu dizer que também os conhecia e que até sabia de alguém que, em vez de dar comida às criancinhas socialmente sentenciadas, lhes tinha dado brinquedos (o horror...). Ao que a senhora lá-lá-lá-risível respondeu ao grave infante que todas as crianças precisavam de brincar.
Nunca me esqueci. Nunca me esquecerei (todos os adultos também).
2. Detesto o Bernardo Bertolucci. É claro que isso tem a ver com o seu estatuto de cineasta-de-luxo (à sua beira, os cineastas-de-prestígio são uns sem-abrigo). Mas, tentando ser sincero, penso que o ódio se deve essencialmente ao facto de, na mesma infância do ponto anterior, eu ter visto sem querer uma cena do filme "Novecento" em que o Donald Sutherland colocava as pernas de uma criança em torno da sua cintura e, começando a rodopiar como um louco, fazia a cabeça do menino embater contra tudo o que estava à sua volta até o matar.
Essa imagem é um trauma que transporto comigo de uma forma tão profunda como se o tivesse vivido. Penso que o meu horror à violência se gerou, em parte, nessa falsa recordação.
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quinta-feira, abril 25, 2013
Bitaite pop
Normalmente, as pessoas que apreciam música popular fazem uma ligação direta entre esse gosto e o cinema dito popular.
Acontece que não há uma correspondência justa entre a produção fílmica industrial (sobretudo hollywoodiana, mas também a que se inspira no modelo americano) e fenómenos musicais como os cantos klapa, o flamenco, o jazz ou o hip hop. A música popular, que surge no contexto do trabalho agrícola, da festa de aldeia, do encontro para celebração de culto, das ruas urbanas cheias de perigo, etc., nada tem a ver com os estudos de mercado, os exercícios de propaganda, os cálculos de manipulação psíquica que acompanham a feitura do produto cinematográfico industrial. Vítor Gaspar, com o seu excel, seria um excelso produtor de putativas aventuras exóticas e outros sonhos que o pariu.
Claro que também há Justins Biebers. Claro que os bardos da Jamaica ou do Mali acabam por ser absorvidos por estratégias de mercado. Mas, no cinema, dada a complexidade, a especificidade técnica e os elevados custos de todo o processo criativo, a possibilidade de expressão "popular" é diminuta e sobretudo nunca genuína. Mais do que qualquer outra arte, a sétima pressupõe a energia resistente de um autor para poder falar, verdadeiramente, de alguma coisa verdadeira.
Acontece que não há uma correspondência justa entre a produção fílmica industrial (sobretudo hollywoodiana, mas também a que se inspira no modelo americano) e fenómenos musicais como os cantos klapa, o flamenco, o jazz ou o hip hop. A música popular, que surge no contexto do trabalho agrícola, da festa de aldeia, do encontro para celebração de culto, das ruas urbanas cheias de perigo, etc., nada tem a ver com os estudos de mercado, os exercícios de propaganda, os cálculos de manipulação psíquica que acompanham a feitura do produto cinematográfico industrial. Vítor Gaspar, com o seu excel, seria um excelso produtor de putativas aventuras exóticas e outros sonhos que o pariu.
Claro que também há Justins Biebers. Claro que os bardos da Jamaica ou do Mali acabam por ser absorvidos por estratégias de mercado. Mas, no cinema, dada a complexidade, a especificidade técnica e os elevados custos de todo o processo criativo, a possibilidade de expressão "popular" é diminuta e sobretudo nunca genuína. Mais do que qualquer outra arte, a sétima pressupõe a energia resistente de um autor para poder falar, verdadeiramente, de alguma coisa verdadeira.
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sábado, março 09, 2013
Estudos fisionómicos
1. As pequenas coisas dão indícios. A maneira como as extremidades da boca de Pedro Passos Coelho caem num sinal de gravidade que não existia na sua juventude, bastaria para impedir um qualquer cidadão alerta de votar em semelhante personagem. Não adiro aqui às teses de Lombroso, apenas me visto de alguma intuição romanesca.
2. Ainda a propósito de intuição, tenho a teoria não provada de que, sempre que um corpo/rosto se torna acontecimento numa imagem parada, essa fotogenia prossegue para a imagem em movimento. O movimento contrário é que não acontece necessariamente. Ao cuidado dos teóricos de tais coisas.
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Estudos canhotos
1. É porque acredito profundamente numa atitude filosófica de esquerda que só posso abominar um cretino narcísico e demagógico como o recém-falecido Chávez. Anna Karénina à sua alma.
2. Talvez o maior erro dos militantes de esquerda tenha sido a vontade de seguirem religiosamente a cartilha dos autores de esquerda. Ora, seguir religiosamente uma cartilha é uma atitude de direita.
terça-feira, fevereiro 26, 2013
Nostradamus de trazer de casa
É óbvio que a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo vai trazer consequências para a civilização.
Acontece que tais consequências, mesmo (ou sobretudo) as nefastas, não são aquelas que os conservadores julgam poder prever (o fim da família, a cultura da morte, e outras bombas do género). Exatamente como ninguém previu que o aumento da esperança de vida (uma vantagem insofismável) iria pôr em causa o "estado social" ou que o inocente e regular desenvolvimento tecnológico desaguaria em Hiroxima e Nagasáqui, ninguém tem imaginação suficiente para conseguir deslindar o futuro, positivo e negativo, que este passo de progresso trará. O devir é indómito e a realidade supera sempre a ficção.
Em todo o caso, os imensos benefícios a curto ou longo prazo perfilam-se com clareza e a política não se faz com medos.
sábado, fevereiro 23, 2013
Fim, contudo, de...
... a rubrica "O ATUAL" pois, na medida em que realizei eu próprio um filme, não quero que se possa pensar que utilizo a arma da crítica como estratégia de demarcação de posição perante outros fazedores de filmes. O poder só interessa aos profundamente inseguros.
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quarta-feira, novembro 14, 2012
Ninguém falou em laboratório
Num episódio recente do programa "Câmara clara", abordava-se o tema da Utopia sob a égide do experimental, estando a entrevistadora incomodada com a engenharia desse tipo de risco e a entrevistada inconscientemente perdida na suposta doçura das palavras caras à sua área de estudo.
Ao longo da vida deste meu blogue, foram por vezes tomadas posições de cidadania com cariz para-utópico. No entanto, e lamentando desagradar a gregos e a troianos, nunca me passou pela cabeça submeter os meus congéneres a qualquer tipo de deriva laboratorial. Preocupou-me sempre, isso sim, perceber exatamente aquilo que fomos perdendo ao longo da nossa história (todas as espécies animais e vegetais, quando o homem as não ameaça com as suas loucuras ora violentas ora caridosas, vivem em deslumbrantes equilíbrios instáveis) e a forma como podemos negociar, a partir da constatação dos vários níveis de superfluidade da Cultura, o (re)encontro com as questões efetivamente relevantes.
Ao longo da vida deste meu blogue, foram por vezes tomadas posições de cidadania com cariz para-utópico. No entanto, e lamentando desagradar a gregos e a troianos, nunca me passou pela cabeça submeter os meus congéneres a qualquer tipo de deriva laboratorial. Preocupou-me sempre, isso sim, perceber exatamente aquilo que fomos perdendo ao longo da nossa história (todas as espécies animais e vegetais, quando o homem as não ameaça com as suas loucuras ora violentas ora caridosas, vivem em deslumbrantes equilíbrios instáveis) e a forma como podemos negociar, a partir da constatação dos vários níveis de superfluidade da Cultura, o (re)encontro com as questões efetivamente relevantes.
domingo, outubro 14, 2012
Uma nota sobre antropologia
Estando perfeitamente consciente da patologia cancerígena que invadiu a cultura dos povos ditos primitivos após a sua invasão pelos colonizadores ocidentais (nem peixe nem carne, exílio na lota e no matadouro) e das múltiplas formas de violência a que eles foram submetidos até serem vias rápidas para uma provável extinção, o encontro com as narrativas antropológicas e com uma obra como a de Jean Rouch (na imagem, um fotograma do filme "La chasse au lion à l'arc"), tem me feito entender essa História outra, perdida no tempo (ainda que recente) e no mar das possibilidades, como um planeta feérico que me parece estranhamente equivalente daquele que me chega por via de fábulas, lendas e mitos. Embora factuais e documentados, esses outros modos de viver, quando ainda tinham a integridade de modos de viver, oferecem-me um maravilhoso político e moral que se pode traduzir pela fórmula iniciática: "era e poderá ser uma vez"...
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sábado, outubro 06, 2012
Uma nota sobre o presente
Ouvimos os dirigentes de Portugal defenderem que as decisões que vão tomando nas costas largas da crise não poderiam ser outras decisões. Convém contudo sublinhar que essa fatalidade não resulta de nenhuma virtude das estruturas que organizam a civilização presente, mas da chantagem que um determinado estado das coisas provoca. E se esta verdade é la palisse, ela parece não estar presente nem nas mentes dos carrascos económicos (Passos Coelho e Vítor Gaspar terão com toda a certeza fantasias de submissão masoquista, mas eu, enquanto cidadão de um estado moderno, não tenho de aturar as taras eróticas dos meus governantes) nem nas daqueles que exigem um outro rumo político para o país (já que aparentemente pressupõem que, com os mesmos ingredientes civilizacionais, se pode fazer uma receita de sabor totalmente diverso).
É, de facto, uma questão de chantagem histórica. Um pouco como no estranho caso do Estado Social: dizem-nos que não há dinheiro para o sustentar, mas o que nos estão na verdade a dizer é que, entre a invenção chamada “dinheiro” e a invenção chamada “Estado Social”, querem optar pela primeira. Ora, eu por acaso discordo. Dizem-nos também que o capitalismo é o único sistema eficaz, e eu respondo que sim, é como o cancro, é sempre mais fácil fazer merda. É fácil fazer funcionar uma sociedade na qual um conforto de uns é assegurado pelo sofrimento de outros (por vezes extremos, os dois opostos).
Ao contrário do que pensam certos próximos e distantes, eu não tenho qualquer sedução pelo comunismo. Acho tudo isto demasiado complicado, dever-se-ia regressar a uma introdução à Economia e verificar, sem dogmas nem vícios, para que é que ela serve: para gerir a escassez em defesa do bem-estar humano? Então pensemos a forma mais simples e elegante de o fazer.
Em todo o caso, não vale a pena pensar em utopias, nem que sejam utopias da simplicidade e da evidência. Os milhares de manifestantes de 15 de setembro, com cujo desespero sou absolutamente solidário, são na sua maioria praticantes de uma filha-da-putice relacional e profissional no seu quotidiano que impediria fosse qual fosse o sistema de organização político-económica de funcionar em plenitude. E o Tólstoi, que era um escritor francamente chatinho, tinha razão ao minorar o papel dos grandes homens e das revoluções no fazer da História: tudo acontece por um sem-fim de circunstâncias que mais ou menos por acaso se conjugam numa determinada época, sendo o destino uma lenta diplomacia de Parcas de bastidores que movem os homens um centímetro mais para aqui ou mais para acoli.
Já ouvi alguém dizer que o restabelecer da idoneidade das contas públicas era uma maratona e não um sprint, e acho que quem o disse até tinha três iniciais apenas. E talvez seja isso que é preciso fazer. Aproveito contudo para dizer que, sendo eu filho da dúvida cartesiana e tendo experimentado o fim das certezas como um copo cheio de possibilidades, não estou disponível para mudar as moscas. Sobreviverei, como os outros.
É, de facto, uma questão de chantagem histórica. Um pouco como no estranho caso do Estado Social: dizem-nos que não há dinheiro para o sustentar, mas o que nos estão na verdade a dizer é que, entre a invenção chamada “dinheiro” e a invenção chamada “Estado Social”, querem optar pela primeira. Ora, eu por acaso discordo. Dizem-nos também que o capitalismo é o único sistema eficaz, e eu respondo que sim, é como o cancro, é sempre mais fácil fazer merda. É fácil fazer funcionar uma sociedade na qual um conforto de uns é assegurado pelo sofrimento de outros (por vezes extremos, os dois opostos).
Ao contrário do que pensam certos próximos e distantes, eu não tenho qualquer sedução pelo comunismo. Acho tudo isto demasiado complicado, dever-se-ia regressar a uma introdução à Economia e verificar, sem dogmas nem vícios, para que é que ela serve: para gerir a escassez em defesa do bem-estar humano? Então pensemos a forma mais simples e elegante de o fazer.
Em todo o caso, não vale a pena pensar em utopias, nem que sejam utopias da simplicidade e da evidência. Os milhares de manifestantes de 15 de setembro, com cujo desespero sou absolutamente solidário, são na sua maioria praticantes de uma filha-da-putice relacional e profissional no seu quotidiano que impediria fosse qual fosse o sistema de organização político-económica de funcionar em plenitude. E o Tólstoi, que era um escritor francamente chatinho, tinha razão ao minorar o papel dos grandes homens e das revoluções no fazer da História: tudo acontece por um sem-fim de circunstâncias que mais ou menos por acaso se conjugam numa determinada época, sendo o destino uma lenta diplomacia de Parcas de bastidores que movem os homens um centímetro mais para aqui ou mais para acoli.
Já ouvi alguém dizer que o restabelecer da idoneidade das contas públicas era uma maratona e não um sprint, e acho que quem o disse até tinha três iniciais apenas. E talvez seja isso que é preciso fazer. Aproveito contudo para dizer que, sendo eu filho da dúvida cartesiana e tendo experimentado o fim das certezas como um copo cheio de possibilidades, não estou disponível para mudar as moscas. Sobreviverei, como os outros.
O INATUAL 75
Há cada vez menos marcianos na Terra. O que é uma pena, pois o encontro com um radicalmente-outro pode ser uma nascente de descoberta tão prenhe que chega a dar origem a todo um curso de pensamento novo. A antropologia, ciência de vocação ética, resultou da mudança de ponto de vista do colonizador, ao ter percebido que os marcianos com quem se defrontara eram afinal tão humanos quanto ele próprio, e que era então preciso averiguar se havia ainda sinais de verdadeira vida na cultura do planeta.
Num momento relativamente precoce da sua obra, Jean Rouch filmou um estranho ritual de possessão levado a cabo por uma seita religiosa da cidade de Accra (na República do Gana), no qual os negros expiavam as suas putativas faltas morais através da encarnação temporária de divindades identificadas com as figuras dos brancos munidos de poder. O filme é célebre pelo mal-estar que costuma provocar quando é projetado, condição que se repetiu quando o revi recentemente no Teatro do Campo Alegre.
Toda a prática religiosa pressupõe a obediência a uma divindade. A mestria da seita dos Hauka reside na sua compreensão intuitiva da decadência contemporânea do sagrado e da agressividade inaudita do colonialismo e na fusão consequente que estabeleceram entre a figura da divindade e a figura do colonizador. Ao filmar o chocante ritual, Rouch consegue produzir, ao mesmo tempo, uma explicação da política (para que a obediência a um poder seja aceite, é preciso primeiro aceitar uma diferença de estatuto de transcendência entre quem manda e quem é mandado) e uma imagem da religião (por mais que césar e deus fiquem com aquilo que tautologicamente lhes pertence, sempre o culto organizado funciona como um exercício de gestão do poder).
Quem é mestre é sempre louco? Ou só tem mestria quem aprende a dominar a loucura, quem se torna mestre de si mesmo até poder obedecer a um mestre exterior a si? À normalidade dos Hauka (que não têm ilusões quanto à natureza selvagem do poder, desse poder que exige sempre o sacrifício do súbdito, como acontece ao cão durante o ritual) corresponde a loucura do espetador europeu, incapaz de olhar o primitivo olhos nos olhos porque não sabe fazer uma leitura antropológica da sua própria cultura. E se aprendêssemos a ver a ascensão social como uma forma de possessão?
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sábado, setembro 15, 2012
Bio-manifestação
Após o já famoso passo do coelho em direção à tsu, ouvi alguém dizer que, por entre as reações a quente às declarações primeiro-ministeriais, se estavam a escutar enormidades em termos de ciência económica.
Não tenho conhecimentos técnicos de economia (aliás, é provavelmente o único assunto humano que me dá vómitos mal o começo a abordar), mas sei que, nas chamadas ciências exatas, a eventual correção das suas teorias e dos seus procedimentos não está divorciada da ética (os conservadores costumam aliás ficar histéricos com estas questões). Não me parece que a economia possa ter diferente ambição, e por isso, a virtude técnica da sua prática não pode ser separada de uma hipotética configuração desta enquanto crime.
quarta-feira, setembro 12, 2012
Dicionário 19
Uma "democracia" é um sistema de organização política através do qual é atribuído poder às maiorias de modo a que estas possam proteger as minorias.
quinta-feira, agosto 23, 2012
Invalidade por precaução
A lógica é um ramo do saber que pretende definir as condições formais que asseguram a validade dos raciocínios (das inferências). Não interessa à lógica o conteúdo dessas inferências, mas a maneira como as suas premissas e respetivas conclusões se relacionam entre si. Grosso modo, é uma tentativa de matematizar a reflexão verbal, com o propósito de lhe garantir um rigor que ultrapasse as impressões enganosas da lógica espontânea.
A chamada validade dedutiva verifica-se quando não há nenhuma situação na qual, sendo as premissas verdadeiras, a conclusão não tenha também de o ser. Um exemplo (de Graham Priest, como todos os exemplos que se seguirão): "Se o ladrão tivesse entrado pela janela da cozinha, haveria pegadas no exterior; não há pegadas no exterior; logo, o ladrão não entrou pela cozinha."
Já a validade indutiva surge quando as premissas dão boas razões para a conclusão, mas não são completamente conclusivas. É, na verdade, o território do Sherlock Holmes (mas também o do médico ou o do mecânico de automóveis: já temos o Dr. House...). Exemplo: "Jones tem os dedos manchados de nicotina; logo, Jones é fumador" (na verdade, Jones podia ter os dedos manchados de nicotina por uma outra razão).
Até aqui, tudo pacífico. Mas Graham Priest dá um outro exemplo de validade indutiva que me incomodou profundamente. É o seguinte: "José é espanhol; a maioria dos espanhóis são católicos; logo, José é católico." Na verdade, as premissas dão boas razões para a conclusão, ainda que não a possam assegurar de modo irrefutável.
Estou a começar a minha relação com a lógica (para compreender melhor a filosofia da linguagem), mas vejo que há neste exemplo uma arrogância que se me afigura obscena. Chamar válido (ainda que essa seja uma validade mitigada) a um raciocínio deste género, que de certo modo estabelece um preconceito, parece ser uma daquelas modalidades de absurdo que faz com que algumas pessoas relacionem racionalidade com fascismo.
Não só me parece que não se pode averiguar a validade das inferências sem auscultar o contributo específico trazido pela dimensão verbal, como talvez valha a pena, em certos casos, substituir a validade por indução por uma espécie de invalidade por precaução. É uma questão de cidadania.
A chamada validade dedutiva verifica-se quando não há nenhuma situação na qual, sendo as premissas verdadeiras, a conclusão não tenha também de o ser. Um exemplo (de Graham Priest, como todos os exemplos que se seguirão): "Se o ladrão tivesse entrado pela janela da cozinha, haveria pegadas no exterior; não há pegadas no exterior; logo, o ladrão não entrou pela cozinha."
Já a validade indutiva surge quando as premissas dão boas razões para a conclusão, mas não são completamente conclusivas. É, na verdade, o território do Sherlock Holmes (mas também o do médico ou o do mecânico de automóveis: já temos o Dr. House...). Exemplo: "Jones tem os dedos manchados de nicotina; logo, Jones é fumador" (na verdade, Jones podia ter os dedos manchados de nicotina por uma outra razão).
Até aqui, tudo pacífico. Mas Graham Priest dá um outro exemplo de validade indutiva que me incomodou profundamente. É o seguinte: "José é espanhol; a maioria dos espanhóis são católicos; logo, José é católico." Na verdade, as premissas dão boas razões para a conclusão, ainda que não a possam assegurar de modo irrefutável.
Estou a começar a minha relação com a lógica (para compreender melhor a filosofia da linguagem), mas vejo que há neste exemplo uma arrogância que se me afigura obscena. Chamar válido (ainda que essa seja uma validade mitigada) a um raciocínio deste género, que de certo modo estabelece um preconceito, parece ser uma daquelas modalidades de absurdo que faz com que algumas pessoas relacionem racionalidade com fascismo.
Não só me parece que não se pode averiguar a validade das inferências sem auscultar o contributo específico trazido pela dimensão verbal, como talvez valha a pena, em certos casos, substituir a validade por indução por uma espécie de invalidade por precaução. É uma questão de cidadania.
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terça-feira, julho 24, 2012
Para a revista online da InComunidade...
... escrevi este pequeno texto: Público Alvor.
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domingo, junho 24, 2012
Três quadras de São João...
... para o movimento "Manifesto em defesa da Cultura":
"Já dizia o São João:
Um por cento de trabalho,
E eu cultivo a inspiração
Com martelo e com bugalho."
"Exceção o alho-francês?
Todo o martelo é porreta.
Cultive o meu fim do mês
Que eu não me vou pôr na alheta."
"Ó milagroso São João,
Vê lá se alteras este clima:
Como a orvalhada no verão,
Cultura põe na economia."
"Já dizia o São João:
Um por cento de trabalho,
E eu cultivo a inspiração
Com martelo e com bugalho."
"Exceção o alho-francês?
Todo o martelo é porreta.
Cultive o meu fim do mês
Que eu não me vou pôr na alheta."
"Ó milagroso São João,
Vê lá se alteras este clima:
Como a orvalhada no verão,
Cultura põe na economia."
sexta-feira, junho 08, 2012
Isto anda tudo ligado
Há uns dias atrás, o deputado Paulo Rangel (que em tempos conheci pessoalmente) elogiou a versão "para gente nova" que Vasco Graça Moura fez de "Os Lusíadas" porque, segundo ele, já ninguém vai à versão original.
Em primeiro lugar, cumpre-me deixar aqui registada a impressão sincera que eu tenho de que, ao Vasco Graça Moura, com quem de resto antipatizo profundamente, nunca lhe terá passado pela cabeça que a escrita camoniana se tivesse tornado não-visitável para o tempo presente. Os seus propósitos serão certamente outros, bem mais nobres.
Devo lembrar ao Paulo Rangel que a matéria mais relevante de um texto é o conjunto de soluções verbais (do ritmo à rima, das imagens à sintaxe, etc) com que esse texto foi composto. Não estou aqui a desvalorizar a narrativa ou a temática, mas a defender que a beleza do livro "Os Lusíadas" é inseparável do trabalho linguístico em sentido amplo que o poeta nele investiu. Que seja necessária alguma pedagogia para aproximar o leigo de uma obra distante dos códigos do português atual, isso é verdade. Mas ninguém percebe o sabor da carne de javali através do sabor da carne de avestruz.
No entanto, o que eu gostaria de realçar é que esta visão do recetor cultural como condenado à infantilidade (é tudo gente nova, para os mercadores da arte), associada ao desprezo da verdade do objeto a favor do sucesso da sua circulação (nem que seja em versão adulterada), não é dissociável da ideologia política e económica que o PSD de Passos Coelho trouxe para a nação que no dia 10 de Junho cometeu o erro de cruzar poesia com patriotismo.
Em primeiro lugar, cumpre-me deixar aqui registada a impressão sincera que eu tenho de que, ao Vasco Graça Moura, com quem de resto antipatizo profundamente, nunca lhe terá passado pela cabeça que a escrita camoniana se tivesse tornado não-visitável para o tempo presente. Os seus propósitos serão certamente outros, bem mais nobres.
Devo lembrar ao Paulo Rangel que a matéria mais relevante de um texto é o conjunto de soluções verbais (do ritmo à rima, das imagens à sintaxe, etc) com que esse texto foi composto. Não estou aqui a desvalorizar a narrativa ou a temática, mas a defender que a beleza do livro "Os Lusíadas" é inseparável do trabalho linguístico em sentido amplo que o poeta nele investiu. Que seja necessária alguma pedagogia para aproximar o leigo de uma obra distante dos códigos do português atual, isso é verdade. Mas ninguém percebe o sabor da carne de javali através do sabor da carne de avestruz.
No entanto, o que eu gostaria de realçar é que esta visão do recetor cultural como condenado à infantilidade (é tudo gente nova, para os mercadores da arte), associada ao desprezo da verdade do objeto a favor do sucesso da sua circulação (nem que seja em versão adulterada), não é dissociável da ideologia política e económica que o PSD de Passos Coelho trouxe para a nação que no dia 10 de Junho cometeu o erro de cruzar poesia com patriotismo.
quarta-feira, junho 06, 2012
NEXT!
Já houve tempo suficiente para se perceber que o governo Passos Coelho não está a tentar remediar a imensa cagada socrática, mas a aproveitar a confusão para realizar uma agenda ideológica demasiado perigosa.
domingo, abril 15, 2012
Um passo maior do que a perna
Nas comunidades dos Dou Donggo, um povo da ilha de Sumbawa (na Indonésia), todos os casais ficam a viver em casa dos pais da mulher até ao nascimento do seu primeiro filho, de modo a que a mãe da parturiente lhe possa dar apoio eficaz nessa nova e complexa etapa da sua vida (um hábito que, segundo o antropólogo Peter Just, está a mudar). As crianças não são exclusivamente educadas pelos pais, podendo alimentar-se e pernoitar em todas os lares da comunidade. Os casais envelhecidos são realojados em casas modestas, nas quais passam a viver na companhia dos seus netos, que os ajudam nas tarefas que eles já têm dificuldade em levar a cabo.
Não pretendo de modo algum forjar uma imagem paradisíaca do homem dito primitivo (se bem que podemos sempre defender que o El Dorado que os europeus pretendiam encontrar na América não era uma quimera de metal mas esta prova em carne viva da viabilidade de outros tipos de sociedade), mas mostrar que ele não era "primitivo". Toda a cultura sofisticada que conformava estes pequenos agrupamentos humanos estava destinada a responder às exigências económicas e ecológicas que eles precisavam de enfrentar para garantir a sua sobrevivência.
Ora, nós estamos hoje na posse desse fabuloso instituto jurídico que é a propriedade privada, defendido com unhas e dentes pelos mais destacados doutores das melhores universidades mundiais, mas a verdade é que um idoso que, quando era jovem, tenha comprado uma casa no quarto andar de um prédio sem elevador, vê a sua qualidade de vida diminuir de forma trágica se não conseguir fazer um negócio de venda da sua habitação. O exemplo mais gritante do nosso paradoxo de sofisticação é o desnível vergonhoso entre uma parte do planeta condenada à fome (quando já há suficientes meios tecnológicos para ir contornando as dificuldades da agricultura) e uma outra parte padecendo de obesidade. Dizia-me a minha nutricionista que são necessários muitos séculos para que o nosso corpo aprenda a viver saudavelmente com o tipo de alimentação e de sedentarismo a que a fartura ocidental o habituou.
Nada disto alguma vez aconteceria numa comunidade primitiva. Às vezes parece que o mundo desenvolvido deu um passo maior do que a perna. Como se o cérebro fosse um órgão hiperativo e produzisse objetos de inteligência a uma tal razão que, no jogo com o resto do organismo, ele ocupasse o lugar de um cancro civilizacional. Estaremos certos de que a nossa cultura ainda é uma forma de responder às nossas necessidades?
Dedico-me à poesia, em parte porque me parece que esta continua a ser uma espécie de fio de prumo em torno da integridade humana. Em todo o caso, quando um político me diz que resolverá os problemas de um país com o controlo do défice e com privatizações, sinto que a sua visão do mundo é de tal modo modesta que se torna perigosa.
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