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domingo, março 20, 2011

O Jornal do Cabo 5

Li uma vez numa crónica que, na altura em que caiu o Muro de Berlim, havia um conjunto de intelectuais alemães a defenderem que chegara o momento de construir o verdadeiro socialismo, mas que os destinatários de tão delirante empreitada nem sequer conseguiam ouvir falar de tais esquerdismos após décadas de subjugação à tirania vermelha. Não deixa de ser curioso que, tendo sido a presente crise económica internacional causada pelo funcionamento do capitalismo, quase ninguém esteja disposto sequer a fazer algumas perguntas à economia de mercado.

Perguntar, por exemplo, se dado o desmesurado crescimento demográfico mundial acompanhado pela transformação quase universal dos hábitos de consumo, a libertinagem económica ainda conseguirá ser a resposta correcta à incapacidade que os recursos do planeta mostram em se regenerarem. Ou perguntar se é possível uma globalização económica independente de uma verdadeira globalização política sem que isso leve a sucessivas falências de estados (o que está a acontecer à má empresa Portugal senão isso)?

Os ideólogos de direita dizem sempre que a democracia não é possível a não ser em regime de liberalismo económico. Mas a China responde-lhes com o seu próprio paradoxo: eis uma nação com uma das economias mais competitivas da Terra sem que isso implique as liberdades normais de um Estado de direito. Não será possível tratar a economia com muito mais calculismo de cidadania, sem que isso tenha qualquer interefência nas várias emancipações (a todos os níveis) que a história do Ocidente nos trouxe? Se é verdade que não podemos fugir às leis divinas (da física, da química, da biologia, etc.), a realidade económica é apenas aquela que os humanos querem construir. Pode ser muito difícil de construir, claro, mas, como diria um bom empreendedor, o que é preciso é pensar outside the box. Até para salvaguardar a sobrevivência ética da iniciativa e da criatividade económicas, talvez seja necessário calcular com mais rigor quais são as verdadeiras necessidades dos habitantes do planeta (como diz Godard em "Prénom Carmen", quem é que precisa de copos de plástico ou de bombas atómicas?).

É preciso ouvir toda a gente, claro. Têm razão aqueles que dizem que o Estado precisa de emagrecer (e um dos motivos por que o Partido Socialista deve ser imediatamente afastado do poder em Portugal até reencontrar alguma dignidade é a sua total irresponsabilidade na gestão do Estado, tornando-o tão kafkiano quanto financeiramente monstruoso), mas já não a terão quando o concebem como um biggest loser. O Estado deve emagrecer precisamente para que sectores de indiscutível interesse público como a educação, a saúde ou os transportes não precisem de ser privatizados nem tratados como empresas.

Mas acima de tudo é preciso tomar em consideração uma certeza contemporânea (que no passado apenas poderá ter sido timidamente intuída): a noção de que todo o progresso traz tantos benefícios quanto prejuízos imprevisíveis. Por exemplo, quem poderá negar a vantagem do aumento da esperança de vida no mundo ocidental? Mas quem anteviu que isso iria colidir com a maneira como a sociedade gere o funcionamento dos direitos sociais? Ora, se a esquerda exige e exige direitos como que se já cá estivessem os amanhãs que cantam (lamento não me solidarizar com manifestações enrascadas, mas não me parece que as pessoas pretendam pensar a fundo a civilização a que pertencem, apenas estrebucham por terem sido saneadas de uma determinada genealogia de privilégios), a direita quer deitar fora a água do banho, a criança e os seus progenitores (o ataque aos direitos sociais é uma das maiores cobardias do nosso tempo). Os think tanks deveriam estar a pensar como podemos manter os benefícios do progresso contornando os prejuízos que lhes são paralelos.

Sou um pessimista convicto (acho mesmo que as grandes épocas revolucionárias são fenómenos de moda como muitos outros). Sei que a vida arranja sempre maneira de nos surpreender (veja-se o que aconteceu no Egipto) e que sempre haverá homens de grande pragmatismo que ajudarão a humanidade a dar mais este ou aquele passo para se safar. Não contem comigo: não sirvo para tapar buracos.


(Imagem retirada daqui)

domingo, fevereiro 20, 2011

Qualidades-&-defeitos

Não sei se as predisposições de personalidade nos aproximam de uma certa postura política, ou se é esta que acaba por influenciar a maneira de ser, ou até se nada disto é relevante. O que eu sei é que, por ser um produto do Ocidente hegemónico, eu seria incapaz de o vender como o único modelo defensável de Civilização.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Questiúncula

Numa das últimas edições da revista "PÚBLICA", um delicado sacerdote indispunha-se contra a Igreja Católica pelo facto de esta sempre ter demonizado o sexo na sua doutrina. Fico contente por os cristãos, ao fim de não sei quantos séculos de sotaina, estarem finalmente a perceber que o sexo, como o gelado de straciatella e os banhos no Oceano Índico, sabe bem. No entanto, Monsenhor Cujo Nome Se Me Escapa achava ainda que a Igreja devia assumir a posição moral de que "no sexo não vale tudo".

Alguém disse (e eu gostaria muito de saber quem foi, para lhe enviar um cartão de agradecimento) que a única regra ética a aplicar à vida sexual das pessoas é aquela que exige o verdadeiro e livre consentimento de toda a gente que nela se envolva. Não me consigo lembrar de mais nada para dizer sobre o assunto.

Ou melhor, consigo. Consigo dizer que, se é verdade que a solidão sexual é uma das tristezas mais agudas que se pode experimentar neste e noutros mundos, a solidão afectiva talvez consiga provocar um verdadeiro Inferno sobre a Terra. E que aqueles que não conseguem passar do sexo para o amor correm sempre o risco de embrutecer tanto a sua vida erótica (que se pode tornar mecânica) como a dimensão mais íntima e profunda da sua personalidade. Mas isto é um assunto para a psicologia, a psiquiatria, a psicanálise e outras ciências do bem-estar interior. A conversa não chega à retrete da religião: Cristo disse coisas tão bonitas, têm tanto que trabalhar...

Estupidez em série

Gasto algum do meu precioso tempo a ouvir música foleira, no meu caso duplamente foleira porque se trata de mero combustível para a minha predisposição delico-melanco-doce (se bem que este neologismo desfoleiriza um bocado a coisa). Ora, pelo menos ao nível dos prazeres fúteis e pouco nobres, gosto que os agentes desses prazeres sejam inequívocos na sua acção. Imagine-se que, de dentro de uma lâmpada mágica, apareciam às pessoas o Angélico ou a Pamela Anderson, e que afinal eles eram impotente e frígida (respectivamente?)... What's the point?

Já não me divirto no cinema desde o "Ocean's Eleven", que era puro champanhe e mais nada (eu gosto de champanhe, e o James Bond, mais bonito que está, é certo, já só tem explosões). Mas isto de séries televisivas, na sua idade de ouro ainda por cima, consegue ser bastante mais aborrecido. Em "Lie to me", onde espero que o Tim Roth esteja a ganhar balúrdios porque não está a fazer mais nada, decide-se da verdade dos discursos dos personagens a partir dos comprometedoríssimos esgares que estas libertam como quem não quer a coisa, uma verdadeira astro-psico-logia de grande requinte que deve ter sido inspirada nos comentários populares à culpa dos pais da pequena Maddie.

Um dia destes, vi um episódio do badalado "House" (eu gosto do Sherlock Holmes) e decidi que devo voltar às músicas foleiras. Uma criança, portadora do detalhe genético de ter células masculinas e femininas, sentia-se confusa ao nível do género porque tanto gostava de basquetebol como de dança. A ideia subjacente era que o gosto do básquete vinha directamente das células com piça e a dançofilia resultava das células com clitóris. Aparentemente, não há raparigas que preferem basquetebol a dança, nem rapazes na situação inversa. Aliás, se as raparigas preferirem o desporto de Magic Johnson, o mais provável é que estejam a revelar o rapaz que existe dentro delas, enquanto os viris amantes de pas de chat estarão provavelmente a um metro sexual de serem homossexuais. Mais, talvez até seja pouco provável que uma menina bailarina seja fufa, e toda a gente sabe que na NBA não há gays. Ou seja, a uma série do século XXI que reencena a figura do detective enquanto campeão da verdade (e desde Tales de Mileto que a verdade é o triunfo sobre as aparências e os clichés), não chegou ainda a ideia de que o sexo é um conceito biológico e o género uma construção cultural. Brilhante!

domingo, fevereiro 06, 2011

Uma inquietação (ovo e galinha)

Talvez o maior erro de Marx tenha sido a maneira desajeitada como previu a dimensão pragmática da filosofia. Os assombrosos erros provocados pelo marxismo, mas também pelo cristianismo, vieram trazer-nos uma evidência que, essa sim, deveria ter sido o cerne da pós-modernidade: a de que a realização vital do pensamento deve ser um diálogo com a contemporaneidade filosófica dessa realização, um vaivém de mútuo ajuste, e não uma imitação de (grandes) visões passadas e individuais. Longe de mim querer desconsiderar o pensamento antigo. Simplesmente, esse pensamento só poderá gerar pensamento (e aí a sua fertilidade é inesgotável), porque a filosofia com impacto político tem de pertencer à mesma época desse impacto, não lhe pode ser anterior nem posterior, nem causa nem efeito, mas par.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Contra o glamour do realisminho

É costume ouvir-se dizer que, se o homicídio existe de facto dentro da vontade de alguns homens, o mais provável é que ele exista, em potência, dentro de cada um de nós, por muito que isso nos cause um espanto e uma repulsa quase insustentáveis.

Ora o pensamento permite que passemos deste realisminho para um verdadeiro realismo: pois se é verdade que uma grande generosidade existe dentro de alguns homens, o mais provável é que uma grande generosidade exista, em potência, dentro de cada um de nós, por muito que isso choque a nossa velhice e a nossa sofisticação ocidental.

domingo, dezembro 26, 2010

Ainda dentro do espírito natalício...

... um post de grande singeleza:

Há uns tempos atrás, uma pessoa disse-me que conhecia um casal em que um dos cônjuges se tinha filiado no PS e o outro no PSD para terem sempre garantida a aprovação de todos os seus projectos. Dizia-o com admiração babada. Ao mesmo tempo, essa médica criticava, com indignação, o Estado português, por aqueles gastos irreflectidos e inúteis no Sistema Nacional de Saúde que comprometiam a essência benéfica desse serviço público cuja bondade se lhe afigurava inquestionável. Ora, eu não sei se esta pessoa não merece o Estado que tem, e vice-versa. Apesar de me encontrar próximo das ideologias de esquerda, nunca me senti vocacionado para uma consciência de classe, porque não tenho bem a certeza da validade daquilo que pretendem os indivíduos que compõem as classes (todas as classes, sem excepção).

Disse-o o intelectual que conhecemos como Cristo (eu avisei que isto era singelo), mas disseram-no muitos outros homens e mulheres. Algo muito simples, que toda a gente proclama (políticos, pais natais, a Cristina Caras Lindas) mas ninguém, mesmo ninguém, pensa levar a sério: não haverá ultrapassagem da crise-em-sentido-amplo (esse estádio perene do capitalismo, como disse recentemente António Guerreiro no EXPRESSO), se a honestidade, em todas as suas manifestações e consequências, não for um valor pragmático universal. Isto parece discurso de púlpito, ingenuidade de criança, inanidade de Praça da Alegria, mas a porra toda é que é mesmo verdade.

Claro que nunca ninguém aderirá a esta mínima. Até porque é tão simples que não tem glamour (os cristãos, aliás, preferiram ocupar os últimos dois mil anos com o puritanismo sexual). De resto, a maior parte dos homens nem sequer tem a percepção da sua própria desonestidade entranhada. Mas também garanto que não haverá Prémio Nobel de Tudo e Mais Alguma Coisa (de esquerda ou de direita) que consiga um dia resolver a sempiterna crise, porque a solução teria de começar no intelecto moral de cada um de nós, ou não seria uma solução.

Claro que há políticos de grande talento, sobretudo prático, e que sabem agir com alguma eficácia em momentos difíceis (falam-me de Sá Carneiro e Mário Soares, mas o Cavaco já não me conseguem impingir). Claro que de vez em quando chovem pennies from heaven (ouro do Brasil, petróleo, a CEE). Mas, da próxima vez que lhe vier a tentação de desejar um homem providencial ou um maná ex machina, olhe para dentro da sua própria responsabilidade.

Voltarei, em breve, aos posts de bom gosto.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Cadernos tchekhovianos 1

Nas grandes peças de Anton P. Tchékhov (mas também na sua contística), as personagens mais comoventes são aquelas cujas expectativas sobre a vida foram irremediavelmente empoladas por uma educação tão requintada que a vida provinciana não lhes consegue dar plena satisfação. A educação frustra, dá ao real a fealdade que ele talvez até nem tenha.

Ora, Tchékhov foi, à semelhança do seu ídolo Tolstoi, um construtor de escolas para camponeses. Esta aparente contradição pode ser lida de duas maneiras razoavelmente antagónicas. Ou o autor de "As três irmãs" era de facto um pessimista profundo, mas incapaz de deixar de lutar (um Prometeu sem fé). Ou, pelo contrário, achava que a mediocridade da vida russa era uma questão conjuntural, e que era preciso trabalhar concretamente para que, no futuro, todos os seres pudessem conviver em igual estádio de exigência espiritual.

Seja como for, o escritor morreu antes do falhanço do comunismo.

quarta-feira, novembro 17, 2010

O ACTUAL 29

"Lola" - Brillante Mendoza



A Justiça é uma avó imemorial, uma preocupação quase tão antiga como a consciência do humano. No entanto, a expectativa da sua eficaz organização social, que coroa a última parte da "Oresteia" de Ésquilo, já se encontra ironizada no "Don Quijote de la Mancha". Em continuidade com a lucidez cervantina, o belo filme "Lola" alicia o seu espectador para a ideia de que a verdadeira justiça talvez seja independente das formas instituídas (polícia, tribunal) de a praticar.

Mas fá-lo sem incorrer numa tónica maldita. Veja-se o tratamento afectivo dado à figura do dinheiro, bem mais próximo da magia redentora de "La leggenda del santo bevitore" de Ermanno Olmi do que do (provavelmente) diabólico "L'argent" de Bresson. Ele é o modo real como se dão as trocas entre as pessoas: se neste filme houvesse uma acção de suborno, ela confundir-se-ia provavelmente com um acto de amor.

A antiguidade da justiça ganha corpo na velhice corpórea das duas avós que protagonizam a obra. E a forma que Mendoza decidiu trabalhar cola-se a esse impositivo peso físico, a esse exemplar escrúpulo de locomoção. Seja a nível da narrativa (que se reduz ao conjunto de procedimentos necessários para resolver os problemas levantados por uma morte por homicídio), seja ao nível da coreografia da câmara, ou da lentidão rítmica. Só que essa lentidão é o oposto exacto dos nossos problemas actuais com a Justiça: nós é que já não sabemos que actos devem ser praticados em allegro, e que actos em adagio.

Vento, chuva, água omnipresente, detritos, alimentos... "Lola" parece desenvolver uma poética do húmus, num sentido muito semelhante ao que Raul Brandão trabalhou. É claro que as imagens documentam a miséria da sociedade filipina (e com certeza muitas das nuances do contexto nos passarão despercebidas), mas, mais do que isso, elas configuram um estádio existencial de mistura entre morte e vida cuja fermentação (lenta, secreta) só pode descambar numa esperança de fertilidade. Em pleno funeral, as crianças apanham peixes que servirão de futuro almoço. Lá para o oriente, parece que eles continuam a saber caminhar em frente...

quarta-feira, novembro 10, 2010

Creep

Se bem percebo esta narrativa de gestação do facebook defendida (com pouco talento) no filme "The social network" de David Fincher, ela ecoa aquilo que argumentei no meu ensaio sobre a presença do filósofo Sócrates no livro "O banquete" de Platão: muito do que hoje constitui a nossa cultura social deriva da influência decisiva que sobre ela tiveram um conjunto de homens sem grandes talentos sociais. O mais curioso, e assumo isto confessando que a minha personalidade se aproxima daquilo a que vulgarmente se chama um nerd, é que as pessoas com uma capacidade de sociabilização equilibrada talvez não precisassem propriamente do legado desses visionários...

O facebook (do qual participo) parece-me, contudo, bastante inócuo (ao contrário da blogosfera, por exemplo). A verdade é que continuo a ver a geração da internet (os adolescentes contemporâneos) a constituir relações sociais de facto e em presença. No máximo, a rede social pode servir para enganar um pouco alguma solidão real, mas não está a transformar a humanidade numa distopia geek. E tem vantagens: já encontrei amigos do passado por essa via... Aliás, pelas suas próprias características, o facebook acabará por passar rapidamente de moda, pois é disso que se trata, e não nos nos assombrará durante milénios como o platonismo. Até porque, seja qual for a nossa adesão a este filão filosófico (eu não adiro), ele foi fundado a partir de uma preocupação ética profunda, e o achado de Zuckerberg não passou de uma ambição de um jovem emocionalmente imaturo (quero lá saber do seu Q.I.).

Continuemos a brincar um pouco no facebook, nada mais.



Imagem retirada daqui

domingo, novembro 07, 2010

Telegrama

O professor Diogo Freitas do Amaral, uma espécie de Zita Seabra mas em bumerangue, disse que não apoiava a candidatura de Manuel Alegre à presidência da república porque, apesar deste ser um excelente poeta, os poetas costumam andar na lua.

Discordo.

Por várias razões.

Manuel Alegre, com todas as qualidade que possa ter, não me interessa nada como escritor.

Quem foi à lua, foram os americanos, não foram os poetas.

A poesia ou tem relevância política, ou não tem relevância nenhuma.

Ser presidente da república deve ser um dos postos menos políticos de uma nação.

Perante esta expulsão da república, poupem então os poetas às homenagens, comendas, grãs-cruzes e demais alfinetes de trazer na lapela.


P.S. - Manuel Alegre também não me interessa nada como político.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Soigne ta gauche

Quando, durante o debate nacional em torno da questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, Agustina Bessa-Luís defendeu uma previsível posição conservadora, houve quem lhe tivesse respondido com insultos ao seu trabalho literário. Do estilo: essa senhora, que nem sequer é boa escritora, não tem autoridade para dizer tal enormidade.

Não incorrerei em igual baixeza neste post. Por isso, começo por confessar que nunca li a obra do poeta Ferreira Gullar, e que a minha vontade de objectar a uma ideia pela qual ele pugnou numa entrevista conduzida pela jornalista Alexandra Lucas Coelho, resulta de um exercício de cidadania e não se confunde com qualquer crítica literária. A sua eventual excelência como escritor não está aqui em causa.

O que me incomodou, na já mencionada entrevista, foi o facto de o autor brasileiro ter defendido que, após o falhanço das ditaduras comunistas, ninguém se podia considerar "de esquerda". Não me deterei nas suas ideias sobre Lula da Silva, pois ele terá muito mais autoridade do que eu para as defender, já que vive numa proximidade com a política do seu país com a qual eu não posso competir. Por outro lado, o tema "esquerda" é suficientemente lato para exigir a generosidade de um denso livro que o tente abarcar. Pretendo apenas formular uma razão pela qual vale a pena, hoje, manter aquela filiação ideológica, uma razão que tem tudo a ver com o Brasil.

Quando eu continuo a dizer que sou "de esquerda", pretendo, entre muitas outras coisas, fazer finca-pé na ideia de que as sociedades africanas e americanas que foram colonizadas pelos europeus após a brecha aberta pela expansão ultramarina portuguesa não só não eram sociedades inferiores aos seus visitantes opressores, como foram irremediavelmente prejudicadas pela colonização.

Parece-me evidente que o mundo europeu tinha algumas superioridades: a nível bélico (o apogeu disso foi atingido em Hiroxima, um grande orgulho, sim senhor), a nível científico (e contudo, é constrangedor que a sofisticação da ciência não tenha conseguido anular o fundamentalismo religioso no mundo ocidental, tendo nós hoje de assistir à miséria intelectual do criacionismo), a nível do pensamento abstracto. No entanto, a antropologia, a sociologia e a história já provaram que muitas dessas sociedades de "primitivos" viviam uma espécie de equilíbrio cívico notável que os europeus não foram capazes de compreender.

As vidas dos índios da Amazónia seriam vidas duras, já que a natureza com a qual tinham de se confrontar não era passível de uma dominação fácil, mas decorriam em ambientes de ética sofisticadíssima. Na tribo dos Bororo, por exemplo, a ausência de sistemas institucionalizados de punição criminal era paralela a uma quase ausência de crime na comunidade. No ocidente, após páginas e páginas e milénios e milénios de religião, moral e direito, o que podemos constatar é uma espécie de imparável esplendor da corrupção, aberta a todas as mutações e a todos os requintes. Basta dizer que, nos Estados Unidos da América, ainda existe a pena de morte...

Não quer dizer que essas sociedades fossem perfeitas (os aztecas, por exemplo, faziam sacrifícios humanos), nem que tivéssemos de nos rever nas suas culturas. Agora, o facto de nelas existir um equilíbrio comunitário notável é um facto insofismável. Não eram mundos que precisassem de ser corrigidos.

A minha sobrinha de catorze anos disse-me que, se o Brasil era uma potência em ascensão, isso se devia aos portugueses, que o descobriram e o livraram do seu primitivismo. É claro que ela terá tempo para adquirir uma outra consciência cívica, mas, para as Helenas Matos deste mundo, que se preocupam com a terrível lavagem ao cérebro ideológica que a escola pública faz às criancinhas, este falhanço na doutrinação deve ser um alívio. E de facto, os negros africanos, depois de séculos de sujeição à escravatura, até nem se estão a dar mal. As merdas de nações nas quais o colonialismo os fez desembocar poderiam cheirar muito pior. Teriam direito a isso. De resto, os milagres económicos que aí se anunciam (Brasil, Índia, China, Angola) são o passo decisivo e último da colonização. Temo o pior: para os paralíticos que começam a andar (basta ver a total falta de inteligência económica da exploração da Amazónia; mas o capitalismo, que baseia o seu dinamismo nas estratégias do lucro, não contempla, por definição, a preocupação com o longo prazo), e para os caminhantes a quem vão partir as pernas (parece que é preciso que os europeus voltem a ser pobres para se tornarem competitivos).

Acima de tudo, ser de esquerda é ter a certeza, ao contrário do que dizem os militantes de direita, de que outras sociedades são possíveis. Dizem-nos que não, que só há o capitalismo, e que só o capitalismo funciona, mas essas outras sociedades existiram, e funcionaram, e bem. Geralmente, a devoção assanhada ao capitalismo deve-se ao medo do comunismo. Meus caros, eu não enfio tal carapuça: os comunistas são copinhos de leite perante a intuição de liberdade que eu trago no meu pensamento.

domingo, outubro 10, 2010

Irritações

1. Um dos argumentos evocados por aqueles que pretendiam evitar a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo era o facto de a maioria dos portugueses não estar de acordo com esse passo jurídico. Curiosamente, embora esta mudança tenha, de facto, repercussões culturais de alguma dimensão (por minha parte, considero-as benéficas), a verdade é que ninguém fica obrigado a um casamento homossexual, nem a ser homossexual, nem sequer a simpatizar com homossexuais: basta uma atitude de respeito dentro dos limites da legalidade. Ora, no caso das recentes medidas de austeridade económica anunciadas pelo Primeiro Ministro, os conservadores dizem agora que elas têm de ser impostas a despeito de todas as greves gerais, por mais expressivas que elas sejam. Para além da incoerência ética desta maneira de relativizar o respeito pela suposta vontade dessa entidade de costas largas que é o povo, parece que é quando uma disposição governativa tem de facto, e de modo inequívoco, repercussões na vida das pessoas, que a vontade destas deixa de ser relevante.


2. Temos ainda hoje a impressão de que haveria alguma forma de harmonia política na Atenas mítica do passado. Nunca saberemos se tal harmonia não terá sido bem mais mítica do que real, mas temos textos (verbais e não só) suficientes para podermos reconhecer nessa civilização uma inteligência de vida em comum assaz surpreendente. Há, contudo, um dado que nunca costuma ser salientado quando se fala da Grécia antiga: é que a unidade colectiva era a cidade, e não o país. A dimensão é um problema ao qual os pensamentos não têm concedido grande relevo e, no entanto, ele parece ser mais decisivo na vida efectiva do que muitos outros factores. Numa cidade (de dimensão moderada, claro, Atenas não era as actuais São Paulo ou cidade do México), o homem é capaz de cobrir fisicamente todo o espaço público e de contactar, pelo menos a um nível visual, com todos os indivíduos que compõem a comunidade. O número reduzido de pessoas tentando viver juntas, a especificidade dos problemas que lhes são colocados, a flexibilidade ágil com que as soluções podem ser experimentadas, são factores nada despiciendos do sucesso potencial de qualquer projecto. Tente-se resolver os problemas de dez pessoas e tente-se resolver os problemas de mil... Na época da Aldeia Global, eu vou fundar um partido bizarro: o Partido das Cidades-Estado. Se ele há maluquinhos a pugnar pela monarquia, por que não hei-de eu defender um colectivo ao alcance do indivíduo?


3. As tecnologias exercem um poder de sedução rápido, brutal, tirânico mesmo. A sua utilidade é inquestionável: como pudemos alguma vez viver sem electricidade? Eu, que adoro cinema e escrevo num blogue, sou o último a poder denegrir a importância da tecnologia. Mas, francamente, parece-me hoje que o futurismo foi um movimento intelectual bem mais ingénuo do que o surrealismo. Precisamente por que a máquina é viciante, sufocante no seu apelo, como as drogas duras ou o tabaco, aderimos a cada novo passo em frente na tecnologia sem pensarmos duas vezes. Ou seja, como tudo na vida, a tecnologia só é verdadeiramente benéfica se utilizada com a devida moderação. Que o automóvel tenha feito as distâncias mais pequenas, isso é belo como a Vitória de Samotrácia! Mas que nos tenha facilitado a propensão para uma preguiça totalmente desadequada à nossa verdade biológica, que tenha poluído o mundo em níveis absolutamente escandalosos, que tenha destruído toda a noção de comunidade física (podemos hoje trabalhar, dormir e descontrair em locais que distam quilómetros uns dos outros), que nos obrigue a uma infinidade de (mais) créditos bancários, nada disso será defensável para a maioria das pessoas, se por acaso tomarem algum tempo para reflectir. Só que as distopias de ficção científica não falam do futuro: as máquinas já mandam, agora, em todos nós. Gostaria de ouvir o que o Marinetti teria hoje para dizer...

quarta-feira, setembro 15, 2010

I had not thought song had undone so many

Espero conseguir escrever este post sem cair na misantropia do Vasco Pulido Valente ou no puritanismo do Diácono Remédios. Não o garanto.

Quando a cabeça me pede um descanso radical numas termas de vazio, vejo televisão. E como nada do que é televisivo é estranho ao humano, também já passei os olhos pelo fenómeno "Ídolos".

A primeira impressão que me sobressalta é a de haver tanta, mas tanta gente, cujo sonho é o estrelato pop. Se eu já acho que há demasiadas baratas a andarem de volta da tontice da poesia, actividade com tão fraco prestígio, estas inesgotáveis multidões de arrivistas da voz criam em mim a convicção de que o tão celebrado acto de sonhar está sujeito às mesmas enfermidades que as suas muito menos consensuais realizações.

Depois há toda aquela aura de autoridade que nimba as mediáticas cabeças dos quatro cavaleiros da selecção. Não faço a menor ideia se eles têm autoridade ou não (até porque nada sei sobre música pop, e por isso não me posso arrogar o papel de crítico da crítica). Dizem-me que Laurent Philippe é um excelente músico, e eu acredito. Agora o que eu sei é que, mais do que representarem uma autoridade à qual as pessoas parecem sentir prazer em se submeter, o que eles representam é o mito da autoridade, em versão televisiva (e como eu gostava de ter o talento de Roland Barthes para dizer isto de maneira mais sisuda).

Não me incomoda em demasia que a maioria das pessoas não conviva com poesia-de-tesão, já passei a fase do proselitismo. Mas tenho algumas inquietações a morderem-me a cabeça. Será que aquelas hordas de adolescentes cheios de vida e encanto pactuam conscientemente com o engano instituído? Ou é mesmo gente enganada? Não saberão eles que, independentemente da voz, do palmo de rosto, dos ensinamentos de qualidade que lhes sejam doados, que independentemente até da inteligência e cultura que julguem possuir, se a vida não fizer deles cantores (e é meter bastante corno, cotovelo e demais severidades na palavra vida), eles não o serão?

domingo, setembro 05, 2010

E agora, um pouco de vida real

Nos últimos anos, o Ministério da Educação pautou a sua gestão do ensino artístico, no ramo da música, por uma filosofia de democratização progressiva. O que, teoricamente, tem toda a lógica. Neste sentido, o ensino dos alunos que frequentam o chamado regime articulado, ou seja, que substituem algumas disciplinas do currículo regular (como Educação Visual e Tecnológica) por disciplinas técnicas de música ministradas em escolas especializadas, tem vindo a ser financiado quase na íntegra pelo Estado.

Esse financiamento (e a expectativa da sua continuidade) foi fundamental para que as escolas de ensino particular e cooperativo do ramo musical pudessem crescer enquanto instituições. Ainda nos últimos meses do ano lectivo que findou em Julho, o Ministério estava a fornecer instruções sobre a admissão de novos alunos em regime articulado nessas escolas. Centenas de alunos foram admitidos, dezenas de professores contratados, tudo para preparar atempadamente o ano escolar 2010/2011.

No entanto, a 3 de Agosto, quando os estabelecimentos de ensino estavam encerrados e os docentes se encontravam de férias, o Ministério voltou atrás na sua palavra, e decidiu deixar de apoiar o crescimento das escolas de ensino especializado de música. Provavelmente porque, dada a enorme incompetência de quem tem responsabilidades governativas, não foi feita uma estimativa realista dos custos que esse crescimento, num contexto nacional, teria para os cofres de Estado. O que, numa situação de crise económica em que esse Estado se vê obrigado a controlar o seu défice, é, de facto, problemático.

Ainda não falei com nenhum colega que não concordasse com a necessidade de abrandar o financiamento deste tipo de escolas. Ninguém é mercenário. No entanto, nada disto justifica que esta legislação recente tenha saído depois das escolas terem organizado o seu ano lectivo seguinte.

Neste momento, a maior parte dos estabelecimentos de ensino estão na iminência de ter de rejeitar os alunos novos que aceitaram no fim do mês de Julho! O que criará um problema de credibilidade a essas escolas. Ao mesmo tempo, muitos professores que tinham deixado os seus postos de trabalho (alguns no sector público) para virem dar aulas no ensino particular e cooperativo, foram abruptamente forçados ao desemprego. Por sorte, a situação não me afectou.

O momento é dramático. Mas volto a dizer: ninguém queria receber um financiamento para o qual o Estado não tivesse capacidade. Queríamos apenas uma gestão que tivesse competência, capacidade de antevisão, boa-fé (sobretudo isto), e uma linha de rumo compreensível e estável. Assim não é porreiro, pá.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Are you talking to me?

Tendo em conta que ninguém procura o Serviço Nacional de Saúde se tiver os meios financeiros para ser tratado com mais salamaleques, pergunto-me o que pretendem Pedro Passos Coelho e José Sócrates nas suas demagogias que se entre-espelham? Não deveriam antes estar a discutir se é suportável que a Constituição de um Estado seja, afinal, um reduto de hipocrisia?

E se o problema é a exequibilidade económica do Sistema Nacional de Saúde (preocupação pragmática da mais altíssima importância e em relação à qual nenhuma discussão será em demasia), deverá a dificuldade do como-fazer comprometer a exemplaridade do dever-ser de uma Lei Fundamental?

quinta-feira, agosto 19, 2010

E agora, algo que presumo ser de esquerda

Certas pessoas manifestam desagrado perante a possibilidade da existência de educação sexual nas escolas, argumentando que a esfera de valores referentes a esse domínio da actividade humana deve ser construída por intermédio exclusivo da acção familiar, sem intervenção do Estado. É claro que a educação para a foda não se faz de forma teórica (mas isso é uma coisa diferente), e ainda mais claro é que a aquisição de uma ética pessoal supera em muito o ensino formal de índole escolar, superando igualmente o próprio legado parental. No entanto, quem me dera a mim ter entrado na adolescência mais justamente informado sobre esse assunto... A educação sexual pode funcionar como combate ao obscurantismo (nenhum pai tem direito a desinformar o filho) e como instrumento de promoção da saúde e da responsabilidade individuais. O que podemos, isso sim, é exigir o currículo mais amplo, actualizado e honesto, o que aliás deveríamos também fazer para o português, para a matemática ou para a história.

Fui ver, há alguns dias, o filme "Toy story 3". A ideia que lhe está na origem é fascinante (regressei por breves instantes à minha infância), e o apuro técnico é absolutamente a não criticar. Contudo, a partir de certa altura, o enredo degenera num filme de fuga à prisão, uma modalidade bem definida do cinema de acção, a que os animadores dão um provimento profissional bastante capaz.

Voltando bruscamente à vida adulta, não pude impedir-me de pensar que "Toy story 3", entre muitas outras funções, serve para educar o gosto do futuro consumidor de cinema comercial. Sei que esta minha desconfiança é antipática, por parecer que estou a misturar infância e política. Mas é precisamente em defesa das possibilidades da infância que me parece que se podem fazer filmes (e escrever livros) que mantenham a criança divertida, fascinada, sem a condicionar demasiado a uma predisposição cultural e ideológica. Nada me faz mais impressão do que ver um miúdo, no Natal, perante os anúncios televisivos de brinquedos, a exigir aos pais um conjunto de sonhos que têm um preço muito pouco infantil. Especialmente porque deve ser quase impossível negar um brinquedo a um filho, o que dá à publicidade a hipótese de funcionar como uma forma irónica de ditadura.

Quero com tudo isto dizer que, caso tivesse uma criança a meu cargo, preferiria que ela fosse mais puritana em termos de consumo do que em termos sexuais.

quinta-feira, junho 24, 2010

Cultura e modernidade

Dos legados imediatamente fundadores da modernidade, o pensamento de Darwin é aquele que, no presente, talvez detenha o maior vigor.

A maior parte das pessoas cuja principal actividade é a política e/ou a economia exibe uma desconfiança ruidosa perante as ideias político-económicas de Karl Marx (apesar de só com grande má-fé se poder hoje desvalorizar o papel da classe social na formatação decisiva de cada indivíduo; mas a má-fé existe: basta ler os jornais para o comprovar). A esse estado de coisas não será alheia a futurologia ingénua que estava implícita no marxismo. Note-se que não estou a tomar uma posição pessoal perante este legado, mas apenas a registar o seu grau de aceitação no mundo contemporâneo.

Os médicos do espírito respeitam, obviamente, Sigmund Freud. O seu sistema conceptual terá sido actualizado, corrigido, parcialmente contradito, mas a tomada de consciência de uma dimensão menos consciente da psicologia humana é uma pólvora de tal modo bem descoberta que não temos qualquer hipótese de a ignorarmos. Claro que as éticas fundamentalistas das religiões instituídas parecem não ter ainda assimilado esta evidência tão simples. Para além de que nenhum de nós tem dinheiro suficiente para poder ir ver, in loco divan, se a psicanálise é ou não esse disparate ocioso que dizem as más-línguas.

Quanto a Charles Darwin, a verdade é que não são os homens da ciência que contradizem a teoria da evolução. Aliás, há mesmo muitos homens profundamente religiosos que não a põem em causa. O criacionismo é apenas a histérica recrudescência de uma crendice mal-intencionada que vai ser alvo da chacota dos futuros observadores do nosso tempo. Ainda por cima, segundo tenho lido, as hipóteses de Darwin vêm sendo espectacularmente comprovadas pelos novos avanços da ciência, revelando-se mínima a margem de erro dos escritos que nos deixou.

No seu livro "a mecânica da ficção", o crítico James Wood pergunta-se qual a razão que nos leva a perder tanto tempo a ler romances quando isso em nada contribui para a sobrevivência ou reprodução da nossa espécie. Não me interessa a resposta, desinspirada, de resto, que ele dá, mas a pertinência da natureza da interrogação. Quero com isto dizer que hoje compreendemos que a cultura é um produto super-estrutural (dependente da realidade sócio-económica que lhe está na base) e o resultado de uma sublimação psíquica (capaz de, no entanto, revelar o inconsciente colectivo), mas ainda a tomamos como sendo uma dimensão que de certo modo se opõe à biologia (em sentido amplo).

Ora, porque havemos de pensar assim? Não será também a cultura uma derivação, pelo menos parcial, do ímpeto evolucionista que anima os seres vivos? Uma derivação espectacular, que atingiu um grau de sofisticação que os primeiros homens nunca poderiam ter imaginado, mas ainda assim uma derivação.

Não há que ter medo desta hipótese. Por exemplo, eu concebo a poesia como sendo aquele tipo de vibração emocional que cria em cada indivíduo a ilusão de que o mundo exterior a si é tangível, e por isso o obriga a desvalorizar a transcendência (falei sobre isso neste post). Se expandirmos esta ideia, podemos entender que o jovem que se torna cientista porque os filmes de ficção científica o fascinaram, que o bebé seduzido pelo seio da mãe ou pelas cores garridas, ou que a fêmea do pavão que acede à exuberância erótica do seu macho, tudo isso coloca a Poesia ao serviço das urgências que a vida impõe para se manter plena (o facto de a escrita poética, em sentido estrito, ser geralmente o registo do isolamento parcial com que o homem adulto é expulso das suas ilusões infanto-juvenis, só confirma esta ideia). 1

Marcel Proust definia as paixões sentimentais através das suas motivações patológicas, mas não as pintava de forma menos intensa ou... poética. O facto de termos consciência de que talvez tudo resulte das imposições da actividade celular (e da selvajaria do psiquismo e da infra-estrutura económica...), não significa que o prazer e a dor com que temos de habitar o quotidiano percam o seu poder de evidência além-racional. Aliás, o quotidiano é demasiadamente dramático e sensual para que o possamos viver num registo de distância filosófica.

Nem isto tem implicações metafísicas simplistas: mantenho-me rigorosamente agnóstico. Para onde a hipótese me empurra é a manter-me cada vez mais firme contra a ideia de revelação, contra a defesa de que há textos, pensamentos ou sentimentos que são despejados nos humanos através de uma canalização exclusivamente espiritual. Não: da mesma forma como os cientistas religiosos sabem que a teoria da evolução é o modelo explicativo deste mundo mas não dá resposta a todas as perplexidades que o pensamento neste mundo encontra, o facto de eu achar que também a cultura está ao serviço de um evolucionismo vital não me dá nenhuma certeza sobre o que não pertence ao domínio da vida, sobre essa outra Transcendência, anterior ao nascimento e posterior à morte, a que nenhuma poesia pode dar palpabilidade.

As implicações serão outras duas, e as duas têm sentido inverso entre si. Por um lado, somos reconduzidos a uma humildade saudável, que talvez pudesse ter evitado o actual estado de tensão com a Natureza. De certo modo, a lógica da evolução é a mais profunda, é anterior às lógicas da psicologia (esta é um refinamento da consciência de um animal) e da economia (que é um refinamento da psicologia em contexto social). O que temos de defender, neste mundo, é a vida. Com fúria, com inteligência (com cultura), com todas as armas que possuímos.

Por outro lado, temos de concluir que a cultura que os humanos construíram tem uma certa tendência a autonomiza-se daquilo que a originou. Se essa autonomia não pode ser radical, sob pena da vida ficar ameaçada, a verdade é que ela permite que o homem seja, parcialmente, o inventor de si mesmo. Riqueza a que nenhum outro ser vivo tem acesso.

O homem é, portanto, o único ser que pode ser moderno. Com isto quero dizer que o homem tem de facto alguma margem de libertação face aos imperativos da sobrevivência e da reprodução. De redenção do passado. Note-se que a modernidade de Marx não foi um capricho sonhador, mas a tentativa de fundamentar intelectualmente a necessidade de findar a opressão pelo trabalho e pela desigualdade social que a maior parte da humanidade sofrera desde tempos imemoriais. Ao contrário do que se pensa, não são os defensores do capitalismo que tentam aplicar o darwinismo à economia. O pensamento de Marx tem exactamente o mesmo ímpeto libertador daquele que norteou Freud ou Darwin: o ímpeto de achar um equilíbrio entre invenção e inevitabilidade que proteja a vida até ao máximo que os homens sejam capazes.

Por muito conciliatório que eu seja, tenho alguma dificuldade em respeitar um conservador. O conservador que hoje diz que os homossexuais não podem aceder ao direito legal do casamento é o mesmo que, há trinta anos atrás, talvez defendesse que essa orientação sexual seria incompatível com a profissão de professor, e que há cem anos atrás talvez tentasse impedir a mulher de votar. Ou seja, o conservador não tem consciência de que a cultura humana, precisamente porque se apresenta como uma evidência a-material, inúmeras vezes se afasta, alienada, da bondade eficaz que impulsionou.

Mas também diria ao revolucionário para respirar fundo e pensar outra vez. Afinal, terá havido algo melhor do que a revolução industrial, a generalização da electricidade, do conforto material, da velocidade nas locomoções? E não estamos agora perante o esgotamento dos recursos, a poluição generalizada, a ameaça de um crescimento demográfico desproporcionado e desequilibrado? Tudo o que fazemos, tudo o que criamos, contém tanto de utopia como de ameaça (sendo que os termos dessa ameaça são, em grande parte, sempre imprevisíveis). A cultura é tão sofisticada que nos beneficia tanto quanto nos prejudica.

Invenção e crítica (a criança e a água suja): eis o trabalho de todo homem.


1. O tipo de lirismo que está na base da minha própria escrita poética não é, de modo algum, o que a define como poética. Flores, pássaros, estrelas e corpos sensuais apenas dão conta de um universo mental relativamente anacrónico e convencional, ao qual tenho todo o direito (o que não quer dizer que a encenação poética que eu faço desse universo seja anacrónica e convencional, e esse é que é o factor determinante). Cada indivíduo tem o seu próprio lirismo, entre o golo de futebol e o tratado de física quântica. Mas nem todo o indivíduo sabe escrever poemas a partir dele.

quarta-feira, junho 02, 2010

Nota "Líbano"

"Líbano" é um filme muito relevante para o seu autor, Samuel Maoz, que através dele faz uma catarse rigorosa e honesta, e tem a actualidade e a pertinência necessárias para me fazer prescindir de veleidades críticas. Ainda por cima, a obra exibe uma franca inteligência: o seu dispositivo, semelhante ao de "Rear window" de Hitchcock, faz equivaler o interior de um tanque de guerra ao interior de uma sala de projecção, e ao fundir a mira da arma desse tanque com o lugar (e o papel) de um ecrã, dá ao cinema a virtualidade da agressão determinante. Apenas diria que o brilhantismo deste dispositivo rigoroso, perfeitamente dominado, e até capaz de alguma comoção, provoca algum prazer (não pretendido, note-se) no espectador. Talvez eu seja um insuportável puritano, mas gostaria que todos os filmes de guerra abolissem por completo o prazer das suas estratégias.

domingo, maio 09, 2010

Confissão política

"Imagine, tenho lido coisas duma aridez simpática sobre economia. Visto que o homem económico tem de substituir o homem bélico eu quero estar ao corrente dessa nova bélica dos povos. E tenho pensado que a economia é a intriga estruturada no infanticídio das grandes ideias. O homem económico não tem ideias, tem só actividades operantes no campo do medo, do descrédito, da vertigem."

Carta de Agustina Bessa-Luís a Eduardo Lourenço.



Não queria que, a propósito deste post, ficasse o meu esporádico leitor com a ideia de que acalento uma espécie de menosprezo por aquilo que se convencionou chamar progresso. O que radicalmente me desagrada em José Sócrates é a segurança falsa que ele próprio encena em torno do suposto sucesso da sua governação. Algo que, de resto, já vi e revi em inúmeros portugueses em lugares de patronato: um desinteresse intenso pela eficácia real de uma medida de administração inversamente proporcional à celebração hipersensível desse mesmo gesto.

As escolas não ficaram mais modernas por terem sido invadidas por computadores Magalhães. A economia não ficou mais ágil com o ruidoso Simplex (e quão amadores e pouco modernos são os empreendedores lusos!). A cultura não ganhou dinamismo com a passagem (de TGV, presumo) do Hermitage pela museologia nacional. Não duvido que pelo menos algumas decisões governativas tenham sido tomadas de boa fé, mas nada disso releva perante os resultados concretos a que elas (não) tenham levado. E se eu, francamente, não espero que os meus governantes sejam visionários de génio, exijo que tenham, pelo menos, inteligência emocional suficiente para irem ajustando o seu percurso de acordo com a verdade com que, a passo e passo, o real os vai contrariando.

Talvez o leitor não acredite, mas desconheço o que é a motivação do poder. Penso, aliás, que isso será uma espécie de patologia pessoal. No entanto, sei o que é sonhar com ser lido fora do âmbito do espaço-tempo que a minha vida me concederá (a despeito de todas as monstruosidades panteónicas), e por isso consigo perceber a vontade de deixar um rasto. Já percebo menos que isso tenha de ser feito através da construção civil que vai do Centro Cultural de Belém até ao Aeroporto de Alcochete. Pois se um político conseguir, de facto, beneficiar a realidade em um grama que seja, ele será tratado pela História com panos bem aquecidos, não haja disso dúvida. Caso contrário, não haverá Pirâmide que o salve de uma chacota que passará de geração em geração.

Ou seja, neste momento já não acredito que o desígnio de obras públicas pelo qual batalha o nosso Primeiro Ministro contenha em si um grau mínimo de visão que seja capaz de frutificar em eficácia e verdade a longo prazo. Por favor, dedique-se ao inglês técnico.

Infelizmente, também não conheço alternativas (o que é todo um retrato do meu estado psicológico). Os partidos de (extremada) esquerda constituem uma muito concreta traição ao marxismo: não fornecem um repensar radical, completo e contemporâneo de toda a situação do homem, que foi precisamente o que Marx fez. Esperneiam mais do que pensam. Por outro lado, a direita é geneticamente marialva. Basta ver o seu desprezo pela exploração de algo tão evidente como as energias renováveis (exploração essa que terá de ser devidamente calculada e faseada, claro, mas cujas promessas de benefício são colossais): homem que é homem defende o petróleo, pois não tem ilusões quanto à natureza humana. Não falo do partido de Paulo Portas, pois não tenho jeito para contar anedotas.

Por vezes, penso que, se temos de sobreviver num contexto de capitalismo, então seria melhor que ele fosse dirigido por quem o sabe fazer funcionar de facto (e não por frágeis e indecisos donzéis socialistas). Acontece que, mesmo sem perceber nada de economia, eu não acredito na bondade de um tal sistema económico. E presumo que assim continuarei até que a morte de mim faça uma Zita Seabra.

O capitalismo tem duas vantagens, tem, sim senhor. Por um lado, a liberdade de expressão e de movimento. É uma conquista notável, e de que eu não estou disposto a abdicar. Mas há algo mais importante. Uma vez ouvi, numa muito antiga reportagem televisiva, alguém dizer que a Europa estava podre (de crise, já na altura...), mas cheirava bem. Ora, o capitalismo é isso mesmo: uma podridão que cheira bem. As gentes estão mergulhadas em dificuldades, mas usam roupas sexy, guiam carros sexy, fazem viagens sexy, vêem filmes sexy. Nada do cinzentismo que existia para lá do muro de Berlim.

A liberdade profunda do indivíduo é, porém, praticamente nula. O que significa eu aceitar um crédito bancário durante quarenta anos para poder ser proprietário de uma habitação? Significa apenas que aceito abdicar da liberdade durante toda a minha vida saudável. É claro que, para muita gente, o bom cheiro dos acabamentos de luxo e dos chãozinhos em parquet compensarão essa transacção da alma, mas, como se dizia noutras alturas, não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo.

Ainda por cima, o mercado é uma forma de perversão do sentido daquilo que sempre julguei ser a economia. Os recurso são explorados até à exaustão, os produtos têm menor valor intrínseco do que valor comercial, o crescimento é tão fatal que se torna descontrolado. Não podemos voltar às origens (como fazem as monjas que, nas suas clausuras, depuram a economia), mas não devemos perder de vista o seu sentido. Quantas pessoas poderão hoje afirmar que sabem, no mais fundo de si mesmas e sem qualquer sombra de dúvida, a razão pela qual trabalham? A gestão da escassez dos recursos e a superação das contingências da sobrevivência: não era isso a economia? Mas quem tem noção disso quando esbanja os últimos trocos que tem no milésimo pastel que contribuirá para o absurdo da sua obesidade, ou quando vê aqueles personagens de filme italiano em rituais de histeria nos mercados bolsistas?

Podem sempre dizer-me: se estás a mandar esses bitaites, por que não metes as mãos à obra e fazes alguma coisa por Ti mesmo? Ao contrário da paciente e lúcida Agustina, eu seria aniquilado se me predispusesse a levar estas coisas a sério. Não sou esse tipo de homem. Definitivamente. Talvez quando a tusa me abandonar, eu me dedique à aridez simpática da economia.