sábado, novembro 09, 2013

Tê-los no sítio

No estado pré-humano da vida natural, não há espaço para a ética (uso o verbo haver no presente porque subsistem no planeta alguns redutos que podem ser qualificados de pré-humanos). Do fenómeno infinitamente elegante da polinização até às mais exuberantes estratégias predadoras, a vida (que surgiu toda da mesma sopa) tem de continuamente promover a comunhão entre os seres que a detêm para que neles possa permanecer. O animal que rasga a carne de outro animal e mancha a sua dentição com o sangue da vítima não faz mais do que cumprir essa benigna comunhão, esse regresso transitório e localizado ao espírito da sopa primordial que constitui a norma da sobrevivência. Uma norma tão isenta de piedade como de crueldade.

Sejam quais forem as teorias que a tentem explicar e regulamentar, a ética é um fenómeno de progresso especificamente humano que deriva da tomada de consciência que esse humano vai ganhando do sofrimento do outro. Nesse aspeto, a História universal é de facto um crescendo de vanguarda (com muitos retrocessos, claro). Lembremo-nos de como a personalidade jurídica devolvida ao escravo, a autonomia da mulher perante o género masculino ou as repercussões legais das uniões entre pessoas do mesmo sexo foram-são-e-serão conquistas tornadas possíveis quando um preconceito cede perante a tomada de consciência do sofrimento dos seres marginalizados. Mas durante muito tempo, a situação do homem de raça negra, por exemplo, era incapaz de comover as donzelas mais sensíveis e mais incapazes de apertar o pescoço de uma galinha.

A tourada (muito amada por intelectuais que muito amo) traz na sua identidade a pujança de um mundo de relações homem-animal que é anterior à consciência que hoje se encontra cada vez mais presente de que, mesmo para acudir às necessidades alimentares de um ser omnívoro como o humano, não é necessário infligir sofrimentos desnecessários ao animal. Nesse sentido, a tourada está a deixar de ser uma tradição respeitável para se tornar um anacronismo sem sentido. Ao primitivo, devemos ir buscar tudo, mas apenas isso, que possa iluminar o caminho para o futuro. Ainda haverá muita luta na arena do civismo, mas os aficionados que se preparem para o fim próximo do seu desporto pueril e cruel.

Dir-me-ão que o mundo está a ficar feminino. E eu pergunto: e depois?

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