sábado, novembro 23, 2013

O INATUAL 82

"La passion de Jeanne d'Arc" - Carl Theodor Dreyer (1928)



Quando Cristo desceu à Terra, trouxe com ele uma inquietação política muito concreta, aquela que desconfia da possibilidade de algum humano poder ocupar o posto de juiz na causa de outro humano. Mas como a História se escreve por linhas irónicas, a Igreja que em seu nome foi fundada acabou por instituir o seu próprio tipo de tribunal e de, através dele, conjugar Julgamento e Paixão na ofensiva concertada a múltiplas reencarnarções do mártir inicial. "Cristo" continua a ser julgado e é, de novo, um inside job.

É isso que Dreyer, religioso muito ciente da intolerância que espreita a cada canto da religião, aborda neste seu celebérrimo filme, por via da encenação dos registos históricos do processo com que a Igreja queimou a esperança e o corpo da jovem Joana d'Arc. A suposta santa é sobretudo uma imensa teimosa, como o Johannes de "Ordet", como "Gertrud", e como eles a sua aristocracia resulta de uma adesão a um Bem tão pouco banal que provoca uma reação de aflita falta de fé naqueles que têm a tarefa de os verem viver. Acima de tudo, o que Joana não aceita é o compromisso de que a entendam como emissária do Mal, e assim em nome da candura se reclama apenas mal-dita, mal-pronunciada.

O filme tem um conceito estruturador tão precisamente legislado quanto preciosamente executado pela imaginação ad hoc de um grande governante das formas. Enquanto encenação de um processo, de um esquema simples de pergunta-resposta, a montagem da obra reparte-se essencialmente entre os planos que nos dão a ver Joana, a interrogada (planos fixos, longos, lentos, solitários, em todos os cenários escolhendo um branco despojado como fundo) e aqueles que registam a azáfama dos acusadores (variedade inesgotável de rostos, movimentação de câmara, opções de mise en scène renovadas a cada instante). É, como já uma vez escrevi, a estrutura de mil contracampos a girarem em torno de um poderoso campo de atração. E a cada momento se renova a maneira de regressar a essa estrutura, a esse parti pris obsessivo e quase único.

Praticamente não há planos que Joana partilhe com outras personagens. Se, em "Gertrud", vamos assistir a diálogos em que os conversadores nunca olham uns para os outros, em "La passion...", muito antes da consciencialização do poder semântico do plano-sequência, são os cortes de montagem (as linhas do enquadramento) que separam os dialogantes, que lhes impedem uma relação de saudável imanência. A solidão de Joana (a sua proximidade das lágrimas, a graça enlouquecida que a parece iluminar a partir de dentro) é por isso constitutiva da radicalidade do seu legado.

Não podemos hoje ouvir as palavras históricas que foram pronunciadas no processo de Joana d'Arc (apesar de conhecermos os seus registos escritos). Mas podemos sofrer os fantasmas dos rostos humanos que as terão pronunciado. Talvez a ontologia do cinema sonoro tenha permitido a Dreyer encenar o mais justo milagre da história do cinema por ação da mais simples Palavra. Mas "La passion..." não é menor desafio ao momento mudo da história do cinema, na medida em que inventa a intensidade e a utopia da palavra mental, daquela que passa de coração para coração sem ter qualquer necessidade de possuir um corpo acústico. Será este filme os antípodas de "Der letzte Mann" de Murnau? Eventualmente, mas a verdade é que parece haver algo que une o ser o último dos homens ou das mulheres à necessidade que a  palavra tem de se aproximar da sua fronteira espectral, do silêncio.

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