sábado, outubro 26, 2013

Sobre poesia

Nunca me incomodou a tensão que deriva da teoria que defende (e bem) que a voz que fala num poema lírico não se confunde com a pessoa concreta (biográfica) do autor que a forjou. Pelo contrário, até acolho com alegria essa condição ficcional: ao longo dos quinze anos em que tenho praticado continuamente a escrita poética, sinto que me reinventei como pessoa, e que essa reinvenção espiritual é inseparável da imaginação lírica que com ela estabeleceu um diálogo criador.

Ao mesmo tempo, não encontro uma separação artificial entre a condição de fingidor do poeta e a possibilidade de formular uma verdade idiossincrática que as contingências da sua biografia lhe abriram como marca pessoal. A personagem fluida e mutante que escreve os poemas que eu escrevo aprendeu a dizer aquilo que a personagem escravizada que eu suporto na chamada vida real não tem conseguido exprimir. Por cobardia, tenho sabido viver, ainda assim, demasiado bem. Quando for destruído, será pela poesia que o serei, pela liberdade que nela ergui como se erguem Venezas em Las Vegas ou Louvres em Abu Dhabis. Sou eu que decido aquilo que me pode condenar.

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