sábado, outubro 26, 2013

Sobre cinema

1. Ao contrário do que parece ser a evidência para quase todas as pessoas que fazem ou sonham fazer cinema, as imagens tornadas possíveis pela sétima arte parecem-me ainda demasiado ricas em realidade. Quanto mais não seja, os corpos dos atores, se bem que dissolvidos na condição de fantasmas, impõem um regime de mimese demasiado perfeito, demasiado concreto. Eu, que continuo bem mais próximo de ser um sonhador do que um fazedor de cinema, sinto então que a única missão que conheço é a de tentar acrescentar o postiço, o ficcional, o virtual, a toda a matéria que o cinema acolhe com naturalidade.


2. Uma das razões pelas quais gosto de cinema enquanto espetador confunde-se com a gratidão. Sempre que procuramos um quarto com vista no espaço da vida, é muito difícil que essa vista contenha apenas-e-precisamente aqueles itens necessários para ela nos ser significativa. Há sempre um caixote de lixo a entupir a beleza pastoral da paisagem, há sempre uma flor silvestre a tentar sabotar a crueza pura da lixeira a céu aberto. Ora, os cineastas, através de um processo moroso, paciente, caro, por vezes mesmo arriscado, praticam a subtilíssima (e moral) arte do enquadramento. Por muito menos dinheiro do que aquele que teríamos de pagar por um quarto num Splendia Hotel, e por muito menos perigo do que aquele passaríamos numa pensão da Palestina, no cinema temos o direito transitório a uma janela já definida, pulsante de sentido e de coerência. Incapazes de vivermos todas as vidas, incapazes de vivermos todos os momentos que a vida nos pede, agradecemos.

(Imagem de Sean McCormick)

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