sábado, outubro 12, 2013

O INATUAL 81

"The quiet man" - John Ford (1952)


O velho fazedor de westerns tenta nesta obra filmar a Irlanda como filmava os Estados Unidos, não só em termos da mestria visual na encenação de grandes espaços de exterior (a que o verde da ilha esmeraldina traz uma ressonância rara em termos das virtudes do technicolor), mas sobretudo ao nível de uma opção pela lenda em detrimento do realismo. Para um irlandês, o esforço de Ford pode parecer eventualmente folclórico (os portugueses, que passam trezentos e sessenta e quatro dias por ano sem ouvir fado ou pensar na saudade, sabem o que isso é), mas, independentemente deste ou daquele detalhe mais constrangedor, a verdade é que o Homero do ecrã consegue aqui inventar um país ao mesmo tempo mítico e só seu, um lugar-cinema que se acorda ao seu discurso e dispensa veleidades documentais.

Ford tinha ascendência irlandesa (ele próprio se chamava Sean, como o personagem protagonista deste filme). "The quiet man" funciona, portanto, como uma evocação do passado, mostrando John Wayne e Maureen O'Hara a percorrerem aquelas paisagens intocadas como se fossem crianças em brincadeira. É uma estratégia cara ao conservador, claro, mas essa evocação equivale em rigor a uma oportunidade de geografia política: no imaginário do cineasta, e ao contrário do que a América do seu tempo talvez lhe pudesse oferecer, a Irlanda rural teria conseguido conservar até ao presente algumas evidências primitivas da possibilidade de vida em grupo.

O assunto está presente na maior parte desta filmografia, mas em "The quiet man" parece ter chegado ao nível da conscencialização por parte do seu autor, permitindo-lhe assumir toda a sua originalidade. Se a Irlanda-mito é equiparada a um paraíso, isso é porque nela as relações humanas seriam sobretudo governadas pelo humor. O dramalhão a que a backstory do boxeur levaria na cultura contemporânea americana é magicamente desfeito na magistral cena final que faz o filme passar da profecia trágica para uma celebração do gosto de viver (como "Le pas suspendu de la cigogne", "The quiet man" adquire toda o seu sentido e toda a sua comoção numa sequência de bravura conclusiva que ao mesmo tempo desvia o filme e o faz transcender-se a si mesmo). É o humor que permite viver em comunidade, que permite que as diferentes visões do mundo nunca entrem em colisão irremediável.

A presença de dois grupos religiosos não deixa dúvidas: Ford faz uma apologia exemplar do pequeno pecado, pois só a sua prática assumida e alimentada pode impedir o grande horror. É o gosto pela pancadaria viril, e não a sua abolição civilizada, que pode constituir uma válvula de escape contra o crime. O mesmo se pode dizer a propósito da pequena mentira, da bebedeira ou da curiosidade sensual dos namorados. Esta visão pragmática e tolerante da vida é o sinal mais evidente da moderação ideológica do cineasta, mas é também um sinal que o distingue e enobrece perante todos os políticos no ativo que militam pela moderação. Em todo o caso, ela tem de ser entendida em contexto: hoje, talvez Ford fosse um defensor dos perseguidos fumadores, mas talvez já não pudesse lançar mão do erotismo enquanto indutor de pequenos pecados...

A consumação do amor (mais até do que a sua fatura sexual) precisa sempre de passar por um conjunto de rituais prévios. Ainda que a chuva e o vento inundem o par com a poesia da sensualidade, esses rituais têm de ser cumpridos para que o amor seja sentido como ponto de chegada e ponto de partida. Nisso, Ford é nostálgico. Mas a coerência mantém-se: é preciso que os namorados fujam das regras de namoro que lhes pretendem impor, mas também é preciso que o façam com baby steps (passos de criança), que o façam governados pelo sentido de humor. Pergunto aos meus leitores quantos filmes já viram que tornem, como este o faz, o amor indissociável do humor? A cultura é que nos faz, é um facto, mas nós só a podemos refazer - o que é outro facto.

Um dos meus filmes favoritos.

Sem comentários: