segunda-feira, setembro 09, 2013

Obs

1. Julgo poder afirmar com segurança que reconheço, em cada pessoa com quem já me cruzei, uma certa quantidade de grandes qualidades. Ainda que o conceito de "qualidade" seja dúbio, aceitemos a simplificação provisória e intuitiva de que ele se refere a traços de personalidade caracterizados por uma espécie de positividade vital. É óbvio que em toda a gente reconheço também grandeza no outro lado do espectro ético...

O curioso, todavia, é que esse set de grandes qualidades, dependendo do tipo específico que as define e da forma como elas se conjugam entre si e com os grandes defeitos, não garante nem a felicidade das pessoas que se relacionam com o possuidor do set (às vezes muito pelo contrário) nem sequer a felicidade desse mesmo possuidor (às vezes muito muito pelo contrário).

Para ingerir tudo isto, é preciso ter um certo gosto pelo romanesco.


2. Os anfitriões de um encontro recente, pródigos em simpatia, amizade e talento para receber, revelaram-se, no fim dessa tarde bem passada, inveterados fascistas (estou a escolher a palavra com rigor). Projetado para uma fantasia de guerra civil, vi-me de imediato a trocar morte com pessoas que para comigo só tiveram ternuras.

A paixão sentimental pode levar ao crime, mas o saldo da faca e do alguidar raramente excede uma ou duas vítimas. A paixão político-ideológica, igualmente irracional e igualmente difícil de prever nas mais modestas personalidades, é capaz de engendrar assassinos em série e genocidas (tanto naqueles que se aproximam da nossa razão como nos que dela se afastam).

Retribuo o conselho com que toda a gente me persegue: estabeleçam relações de cidadania que sejam sobretudo estáveis e racionais, e deixem a paixão para as coisas que não interessam.

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