segunda-feira, setembro 09, 2013

Discordância

1. Na sequência de uma investigação requerida por um projeto criativo pessoal, estou neste momento a ler o excelente "The Cambridge Companion to the Sonnet". Aconselho vivamente a quem se interessar por tal assunto que não interessa nem ao menino Jesus (o único senão é que, a partir do capítulo dedicado ao Shakespeare, o enfoque dos ensaios se reduz à literatura anglo-saxónica). São textos claros, com a extensão justa, sem demasiadas remissões, partilhando teses que em simultâneo resumem o conhecimento mais relevante sobre cada assunto e propõe novas perspetivas. 

Até agora, o artigo que mais apreciei foi o da professora Catherine Bates, mas é também aquele que mais me apetece rebater.

A ideia defendida pela académica de que aquilo que o escritor de sonetos medievais/renascentistas vê na mulher amada não é tanto a integridade desse objeto mas a própria ideia de Amor (ideia essa que reflete muito mais o poeta-Narciso do que a destinatária desse seu afeto espetacular), precisa de ser contrabalançada com o reconhecimento de que, numa obra de arte (ou seja, de pensamento), todo o ser real é vampirizado pelo intelecto até se tornar um lugar mental. 
Quando Godard filma Anna Karina em "Vivre sa vie", é verdade que nos dá belas imagens da sua beleza e que quase nos consegue convencer de que, em alguns momentos, podemos olhar para a alma da atriz sua mulher. Mas, apesar de toda essa comoção (mais do que mimética), Anna Karina não deixa de ser um lugar mental, um lugar de cinema, e é só nessa condição que ela pode existir e comover no contexto de um filme. Mesmo que o filme abra brechas psíquicas na sua encenação que o façam por vezes ultrapassar o mero fingimento.
Agora, se as sequências de sonetos da Renascença britânica não conseguem construir uma imagem relevante da amada por estarem demasiado dependentes das convenções retóricas iniciadas por Petrarca, isso já é outra história...


2. Outra tese de Catherine Bates: toda a paródia (pelo menos no contexto da lírica renascentista) não deixa de ser uma forma de bajulação do modelo parodiado, modelo esse de que o poeta que se julga inovador não se consegue afinal libertar.
É uma ideia muito perigosa. Todos nós temos uma infância na nossa relação com a cultura, e essa infância a todos coloca mitos no imaginário. É muito difícil abandoná-los por completo (impossível?), especialmente porque os mitos têm o condão prático de permitirem uma comunicação célere e eficaz, na medida em que tendem a ser universais. Todo o poeta que escreve sobre amor, escreve de facto com a lírica de Petrarca algures em suspenso no seu pensamento. Mas isso não significa que o diálogo com o modelo seja sempre sorvido por este.
Poderemos afirmar que o "Ulysses" de Joyce não é um objeto formal e materialmente distinto da "Odisseia" de Homero? Ou que "Une femme est une femme" (Godard de novo) é um filme com a mesma índole conceptual dos musicais de Hollywood?

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