quinta-feira, agosto 15, 2013

Técnica Marinho-Pinto

1. Gilles Deleuze dizia que a filosofia não se faz em debate, mas em solidão.

Na verdade, a gente só se entenderia a conversar (e agora falo por mim e não pelo autor francês) se os conversadores fossem mais amigos da verdade do que performers. Ora, não é isso que acontece (basta ver uma sessão dos "Prós e Contras", caso se tenha fígado para tal). Ganha o debate quem for mais rico em competências sociais, e o seu sucesso público não deixa de ser um acordo semelhante àquele que, por via do panes et circenses, mantinha o mundo sempre igual à sua própria mediocridade.


2. Um dos momentos em que um debate sempre me exaspera é quando um argumento, cujo teor de verdade se encontra já decidido por prova, regressa à praça pública por causa do seu vigor demagógico. Por exemplo, está documentado que, numa espécie de símios, as fêmeas apenas praticam a genitalidade heterossexual para poderem procriar e que, posteriormente, assumem relações lésbicas duradouras para tomarem conta das suas crias. Contudo, a frase forte "a coadoção homossexual nunca existiria na natureza" continuará a ser invocada nas discussões sobre o assunto porque ela é pródiga em populismo imediato e eficaz. 

Percebo que o problema mencionado não seja pacífico e que muitas das resistências que se lhe opõem sejam de facto conversáveis. Mas, a partir do momento em que um determinado argumento deixa de ser utilizável pela reflexão, por favor deixem o lixo onde ele merece estar.

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