terça-feira, agosto 27, 2013

Discurso do método

1. Há poemas que se impõem de repente e quase inteiros (no meu caso isso funciona porque só faço poemas curtos). Mas há outros, bem mais numerosos, que ficam a pairar em projeto, a alimentar-se do quotidiano e da imaginação, a usar criteriosamente o seu rigorosíssimo poder magnético, e que só se deixam escrever quando uma estranha gravidade da vida e da mente cria as condições de entrega adequadas para tal execução.


2. Por vezes, um determinado pensamento formulado revela-se medíocre, mas, logo que eu substituo essa forma por uma verbalização muito mais exigente, o próprio pensamento parece ganhar pontos na escala da racionalidade (sem que eu o tenha conscientemente reformulado no mero conforto da mente). Nada disto me incomoda. O pensamento é algo que só conseguimos fazer por via da linguagem, e a perfeição que o fundo pode atingir não se distingue da perfeição da forma. Pensar bem é usar bem a linguagem. Não há mais matemática filosófica do que esta.

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