segunda-feira, julho 08, 2013

Praxis (de toque)

Aprendi na escola (faço esta ressalva para deixar aqui a desconfiança que eu tenho de que muita gente brava já deve ter outra visão sobre o assunto), dizia eu então que aprendi na escola que a filosofia marxista se tinha declarado como um sistema de pensamento sobretudo prático, ou seja, o exercício de uma inteligência destinada a mudar a vida, a redimir o curso da História. Isto, em contraste com a putativa indigência meditativa dos pensadores que haviam feito, da filosofia, uma torre de marfim.

Talvez o pragmatismo deva ser sobretudo iluminado por um pensamento, não diria ad hoc, mas pelo menos um pensamento menor, diário, corrigível em tempo útil, localizado. Conheço tanta gente, boa gente, a tentar cumprir os preceitos de x ou y senhor que se dedicou à grande reflexão, gente a tentar devastar, sovieticamente, tudo o que germine de outra respiração ideológica, mesmo que esse outro produto se ofereça ao mundo com máximas generosidade e eficácia, gente que continua a receber ordens, a cumprir o papel de bom aluno tornando-se mau aluno porque o professor assim o preceituou... É claro que eu também escolhi o meu pensador: mas o Espinosa construiu um sistema de pensamento que precisamente abre os braços a outras formas de sistematizar o respirar. Em todo o caso, não juro por ninguém que não ame aqui, à beira-coração...

Volto ao cinema do John Ford, homem conservador, mas que na sua visão política descreve sociedades que tomam decisões coletivas eminentemente vitais: quem quiser participar da felicidade terá um lugar no mundo, quem já não o puder fazer tem o nobre direito de ficar para trás. Uma praxis do respeito absoluto pela vida, a despeito teimosias, irritações, nojos.

Penso que já disse neste blogue que me parece que a função do pensamento é provocar, no outro, o desejo de continuar a pensar. Mas, em boa verdade, devo fazer a defesa dos velhos meditadores. Se a filosofia sempre se quis confundir com a racionalidade, se sempre se quis apoiar na matemática, é porque pretendeu criar pedras duríssimas, preciosas, diamantes de radical intensidade humana que, uma vez alojados na alma do resistente, lhe permitem cruzar o mundo enlouquecido sem se perder nessa loucura e nas várias agressões que ela engendra. Não são valores, são raciocínios, gritos cristalizados, vértebras de sinceridade, são as coisas todas no seu sítio mesmo quando, no exterior, essa mise en scène só possa existir como utopia. É sabermos que, a despeito de toda a estupidez, de toda a violência, de toda a intolerância, a verdade que sabíamos na infância não é negociável.

Parece-me que é esta a função prática da filosofia. Pouco mais.

2 comentários:

josé ribeiro disse...

a função da filosofia pode também ser a descoberta da desnecessidade de ter função prática. A filosofia também não pode ter uma função relativa sobretudo predicando-lhe o «sapere aude» sob pena de por hipótese poder esse entendimento levar ao fim da filosofia. o perigo dessa função relativa é que se o instigado a pensar considerar que a função da filosofia é não provocar outro a pensar o partidário da ideia contrária tem de aceitar a ideia do que acha não ser função provocar no outro o desejo de continuar a pensar porque o instigou a pensar nessa ideia pelo que fica condenado a admitir que a função da filosofia pode não ser provocar no outro o desejo de continuar a pensar( no fundo trata-se da atribuição de um mandato ao outro de erradicar correctamente a nossa ideia segundo a sua própria estrutura) e logo isto não se poderia arvorar em definição aceitável se hipotéticamente admite tanta excepção quanto o número de seres humanos.
Parabéns!Este é um blog 5 estrelas.

Pedro Ludgero disse...

Obrigado pelas palavras!