segunda-feira, julho 08, 2013

Excel Latte (homenagem a Vítor Gaspar)

Recentemente, na minha atividade como pianista acompanhador, trabalhei com uma aluna de teatro musical uma canção cuja letra evocava a paixoneta de uma jovem por um rapaz empregado num café Starbucks.

Eu também fui um pouco mais adolescente do que hoje sou, e compreendo a força da paixão que tudo oblitera com o seu espaço obsessivo. Não há cinismo que afete esse estado imperioso, e talvez fosse sempre assim que as coisas deveriam decorrer (who cares about boring stuff?).

Sou também devoto das manifestações de arte popular, não apenas pela função social que esta consegue cumprir, mas sobretudo porque muitas vezes ela fornece o contacto mais fundo e sincero com o inconsciente coletivo. Perdido em tradições eruditas, o grande autor pode por vezes não ser mais que o funcionário de uma vaidade estéril, algo que nunca acontece no conto de fadas, no canto greco-salentino ou na dança sufi.

No entanto, e a despeito de continuar a adorar adolescentes (confesso que mais à maneira do João César Monteiro), os meus quarenta anos de idade impedem-me de ver nessa canção outra coisa que não seja uma rapariga apaixonada por um rapaz que trabalha num franchise. Não mais encontro numa romaria, num café gorduroso, numa praia de suspensão, numa festa de garagem, não mais rapazes musculados pela cerveja e pelo disparate: o capitalismo até o pop juvenil destrói.


Nota: o Starbucks, em rigor, não é um franchise. Em todo o caso, seja qual for a sua definição económica, a merda é a mesma.

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