quarta-feira, julho 31, 2013

Tradução 31

Perplexo (de Carolyn Wells)


Em Vila Plumitiva havia um velho escrevedor,
Chamado Homero Cícero Demóstenes Doutor.
“P’ra variar,” disse ele, “dos tratados ou ensaios,
Durante este serão escrevo um livro de catraios.”

Buscou seus calhamaços com bolor latino e grego;
Sondou enciclopédias, manuscritos de outro tempo,
Pesquisas sociológicas, estudos de equilíbrio –
“Para este público-alvo tal saber vem em auxílio.”

Obrou até bem tarde, escrevinhou certo e sabido,
Sentiu-se realizado ao dar o afã por concluído;
“O mérito do livro,” pensou ele, “é todo meu.”
E agora está perplexo pois nenhuma criança o leu.

domingo, julho 28, 2013

sábado, julho 27, 2013

Traduções 29 + 30

INTRODUÇÃO À POESIA (de Billy Collins)


Peço-lhes para tomarem um poema
E o segurarem contra a luz
Como um diapositivo

Ou então para encostarem o ouvido à sua colmeia.

Digo-lhes deitem um rato dentro do poema
E vejam como ele descobre a maneira de sair,

Ou caminhem dentro da sala do poema
E procurem às cegas um interruptor.

Quero que façam esqui aquático
À tona ondulante de um poema
E acenem ao nome do autor na margem.

Mas eles só sabem e querem
Amarrar o poema a uma cadeira
E torturá-lo até ele se confessar.

Começam a bater-lhe com uma mangueira
Para descobrirem o que ele quer dizer.



CANIS MAJOR (de Robert Frost)

Esse Acima de cão
Grande besta celeste
Com uma estrela num olho
Dá um salto no leste.

Ele dança de pé
No caminho do ocidente
E nem uma vez cai
Sobre as patas desistente.

Já eu sou abaixo de cão
Mas esta noite vou ladrar
Com o grande lá de Cima
Que corre o escuro a brincar.

quarta-feira, julho 24, 2013

segunda-feira, julho 08, 2013

Partilha 150

(estrela de mel)


Muda de amor, sim. Mas não como quem muda de camisa, nem como esses restaurantes chineses que, todos, de repente, se tornaram japoneses. Muda de amor como a agulha de uma bússola raramente se inicia no seu ponto final. Muda de amor como a nave sucumbindo ante a camisa-de-forças marcianas, ou como a aurora, que após ter sido crismada pelo príncipe, se passou a chamar boreal. Muda de amor, sim. Mas como quem faz, de um direito de esquerda, um gancho de boxeur. Muda de amor como aquele condutor que o GPS converte em, do mundo, um Teseu, ou como muda o sangue feminino à passagem dos meses, à passagem da uberdade e das traições da idade.

10%, 90%

Numa entrevista televisiva, o grande humorista Ricardo Araújo Pereira disse não acreditar no mito do talento, defendendo assim que o seu sucesso profissional se deveria essencialmente à famosa trilogia: trabalho, trabalho, trabalho. RAP é um homem extremamente culto, e conhece a humildade polida dos literatos. Para além disso, tem ar de ser um gajo porreiro. Mas, na verdade, a justificação da criatividade pelo trabalho não é menos mítica, o que no presente caso quer dizer desonesta, que a justificação pelo talento.

Saltando imediatamente por cima da ideia de dom divino (este é um blogue agnóstico), começo por confessar a minha ignorância em assuntos genéticos. Nasce-se poeta, humorista, cientista? Acho difícil que, estando tanta característica prevista no património genético de um indivíduo, as suas inclinações (ou talvez devêssemos dizer facilidades) talentosas não encontrem aí igual provimento. Mas isso não quer dizer que se nasça seja o que for... Pode é uma criança ter mais ou menos jeito para chutar à bola, para se exprimir verbalmente, para distinguir alturas de sons, etc.

Escrevo e fiz um filme (gostaria de fazer muitos mais). Para ser o mais sincero possível, defendo que o que determinou a capacidade para fazer alguma dessas atividades foi a evolução (quase mutante) da minha atenção. O que possa existir de predisposição genética é muito menos relevante do que a narrativa que o meu prazer foi biograficamente estabelecendo em torno de um conjunto determinado de poiesis, de práticas criativas. Só comecei a escrever de forma razoável aos vinte e seis anos, mas sempre fui seduzido por aulas de português, por livros (que sempre gostei de sujar escrevendo imbecilidades nas margens), por línguas, até por fatores embaraçantes como a fama dos escritores, sempre gostei de escrever, sempre perdi tempo a escrever, sempre ganhei tempo a escrever, mal ou bem.

O que aconteceu, com o passar do tempo, é que desenvolvi uma espécie de músculo de atenção poética, que me predispôs a estar constantemente alerta para tudo o que possa fazer parte dessa minha aventura. E, como sempre acontece nestas coisas de comportamento humano, é muito difícil encontrar um indivíduo que seja absolutamente equilibrado nas suas aptidões, pois aquilo que nos chama (a vocação), fá-lo com poder obsessivo e egoísta: o músculo de atenção poética é tão feio, tão exagerado, tão ambicioso como aqueles músculos que fazem, do halterofilista, uma aberração. Só que todos somos aberrantes.

Especialmente porque essa chamada que um determinado tipo de fazer exerce sobre nós se vai lentamente configurando como um destino. Não quer isto dizer que quem queira ser poeta acabe poeta. Mas para que isso não suceda, tem de haver uma tragédia que mude o curso da paixão. Sempre tive pessoas que quiseram fazer de mim político ou médico (juro!), com a desculpa de que, sendo eu uma pessoa sem grandes inibições intelectuais, me deveria dedicar a uma atividade útil para a sociedade... Acontece que, se a minha atenção não for direcionada para esses campos, eu funcionarei como um absoluto idiota nos reinos da política ou da medicina. Há quem se traia a si mesmo, mas eu sobre isso nada sei. Sei, isso sim, que tenho o direito de seguir o fio de Ariadne da minha vocação, e que todo o homem tem a hipótese de chegar ao fim da vida com uma perfeição inconsútil ao nível desse fio.

A qualquer momento da vida, o talento pode emergir. Não interessa falar de dom, prodígio ou génio. Interessa escutar, o mundo, escutar-se a si mesmo, abrir o seu espírito (como Rimbaud falava a propósito dos comprachicos), abrir o seu corpo, a sua sexualidade, o seu apetite, o seu sofrimento, interessa seguir o instinto, aprender a estar atento.

Quanto ao trabalho, a sua quantidade, qualidade e teor dependem da atividade, da pessoa e do projeto que ele pretende servir. Não me venham dizer que um poeta que escreve um livro de cinquenta páginas precisa de passar tanto tempo a especificamente escrevinhar como um romancista filado na grandeza-tolstói... Isso é hipocrisia. Não me venham dizer que todos os poetas têm de rescrever até à exaustão, como o Carlos de Oliveira. No caso deste, isso teve todo o significado. Mas o que iria Benjamin Péret rescrever quando, passado algum tempo da criação de um poema, se esquecia por completo da lógica que o havia gerado? No meu caso, posso dizer que, em termos de poesia, o meu trabalho é sobretudo a leitura. Preciso de ler como o pianista precisa de praticar oito horas diárias no teclado. Mas não vou fingir que passo uma manhã a pôr uma vírgula, e uma tarde a tirá-la... (como dizia o Oscar Wilde, com piada). Já o trabalho que preside à produção de um filme se configura mais ao modelo de sangue, suor e lágrimas com que as pessoas enfeitam a sua nostalgia operária. Mas não haja ilusões: todo o trabalho de vigília efetuado pelo artista, duro ou leve, longo ou curto, mental ou físico, só serve para acionar o trabalho das suas verdades subterrâneas.

Era bom que começássemos a dizer a verdade sobre estas coisas...

Praxis (de toque)

Aprendi na escola (faço esta ressalva para deixar aqui a desconfiança que eu tenho de que muita gente brava já deve ter outra visão sobre o assunto), dizia eu então que aprendi na escola que a filosofia marxista se tinha declarado como um sistema de pensamento sobretudo prático, ou seja, o exercício de uma inteligência destinada a mudar a vida, a redimir o curso da História. Isto, em contraste com a putativa indigência meditativa dos pensadores que haviam feito, da filosofia, uma torre de marfim.

Talvez o pragmatismo deva ser sobretudo iluminado por um pensamento, não diria ad hoc, mas pelo menos um pensamento menor, diário, corrigível em tempo útil, localizado. Conheço tanta gente, boa gente, a tentar cumprir os preceitos de x ou y senhor que se dedicou à grande reflexão, gente a tentar devastar, sovieticamente, tudo o que germine de outra respiração ideológica, mesmo que esse outro produto se ofereça ao mundo com máximas generosidade e eficácia, gente que continua a receber ordens, a cumprir o papel de bom aluno tornando-se mau aluno porque o professor assim o preceituou... É claro que eu também escolhi o meu pensador: mas o Espinosa construiu um sistema de pensamento que precisamente abre os braços a outras formas de sistematizar o respirar. Em todo o caso, não juro por ninguém que não ame aqui, à beira-coração...

Volto ao cinema do John Ford, homem conservador, mas que na sua visão política descreve sociedades que tomam decisões coletivas eminentemente vitais: quem quiser participar da felicidade terá um lugar no mundo, quem já não o puder fazer tem o nobre direito de ficar para trás. Uma praxis do respeito absoluto pela vida, a despeito teimosias, irritações, nojos.

Penso que já disse neste blogue que me parece que a função do pensamento é provocar, no outro, o desejo de continuar a pensar. Mas, em boa verdade, devo fazer a defesa dos velhos meditadores. Se a filosofia sempre se quis confundir com a racionalidade, se sempre se quis apoiar na matemática, é porque pretendeu criar pedras duríssimas, preciosas, diamantes de radical intensidade humana que, uma vez alojados na alma do resistente, lhe permitem cruzar o mundo enlouquecido sem se perder nessa loucura e nas várias agressões que ela engendra. Não são valores, são raciocínios, gritos cristalizados, vértebras de sinceridade, são as coisas todas no seu sítio mesmo quando, no exterior, essa mise en scène só possa existir como utopia. É sabermos que, a despeito de toda a estupidez, de toda a violência, de toda a intolerância, a verdade que sabíamos na infância não é negociável.

Parece-me que é esta a função prática da filosofia. Pouco mais.

Excel Latte (homenagem a Vítor Gaspar)

Recentemente, na minha atividade como pianista acompanhador, trabalhei com uma aluna de teatro musical uma canção cuja letra evocava a paixoneta de uma jovem por um rapaz empregado num café Starbucks.

Eu também fui um pouco mais adolescente do que hoje sou, e compreendo a força da paixão que tudo oblitera com o seu espaço obsessivo. Não há cinismo que afete esse estado imperioso, e talvez fosse sempre assim que as coisas deveriam decorrer (who cares about boring stuff?).

Sou também devoto das manifestações de arte popular, não apenas pela função social que esta consegue cumprir, mas sobretudo porque muitas vezes ela fornece o contacto mais fundo e sincero com o inconsciente coletivo. Perdido em tradições eruditas, o grande autor pode por vezes não ser mais que o funcionário de uma vaidade estéril, algo que nunca acontece no conto de fadas, no canto greco-salentino ou na dança sufi.

No entanto, e a despeito de continuar a adorar adolescentes (confesso que mais à maneira do João César Monteiro), os meus quarenta anos de idade impedem-me de ver nessa canção outra coisa que não seja uma rapariga apaixonada por um rapaz que trabalha num franchise. Não mais encontro numa romaria, num café gorduroso, numa praia de suspensão, numa festa de garagem, não mais rapazes musculados pela cerveja e pelo disparate: o capitalismo até o pop juvenil destrói.


Nota: o Starbucks, em rigor, não é um franchise. Em todo o caso, seja qual for a sua definição económica, a merda é a mesma.

domingo, julho 07, 2013

Livrem-se de se esquecerem do sal

Já sei: se eu puder escolher a minha última refeição, quero que seja uma Margarita.

In arms

Um dos aspetos mais sedutores da arte de Sergei Paradjanov é a desnecessidade (o quase desprezo) que o cineasta tem da figura do contracampo (a partir de "A cor da romã"). Identifico-me muito com essa postura.