terça-feira, junho 18, 2013

Uma lágrima no canto do olho

As pessoas têm qualidades fantásticas: o sentido de humor, a combatividade, a alegria improvável contra todas as circunstâncias... Contudo, também as qualidades têm uma hierarquia, um fluxo de mobilidade social e um código de etiqueta. Assim sendo, não há quase quem queira prescindir da sensibilidade.

A sensibilidade é uma qualidade de alta categoria. Não pode portanto ser evocada durante o jogo de futebol exclusivamente masculino (sob pena de marginalização imediata do sensível). Não pode ser chamada na noite de copos, na despedida de solteiro, no círculo em que se masturba charutos. Exatamente como uma sociedade, a despeito das suas elites, não pode viver sem lixeiros, trolhas ou pescadores, nenhum humano pode prescindir das suas qualidades rasteiras (que não são as que enumerei no princípio deste post), e ai de quem delas prescinda, que acaba no psicólogo ou na prisão. Talvez elas até sejam mais importantes?

Há um lugar para tudo, diria a Paula Bobone. Há um tempo para ser sensível e um tempo para ser grosseiro, é preciso conhecer esses tempos e agir em conformidade. Penso que, patologias à parte, não haverá humanos desprovidos de qualquer sensibilidade (até os déspotas costumam gostar das suas amantes, dos seus filhos e dos seus gatinhos). Mas cada qualidade, seja fina-flor ou ralé, tem o seu próprio espaço de exibição, o seu ecossistema de vanglória.

Um dos sítios onde os portugueses podem cumprir a instituição da sensibilidade é o programa televisivo "Alta definição" onde até Pedro Santana Lopes (após ter repetido um inseguríssimo número de vezes a palavra "serenidade") verteu os seus quinze segundos de lágrima. Homem da noite, dos meandros do poder, do futebol e da intriga, mas com a inevitável costela sensível...

Eu presumo que tenho um síndroma qualquer que me impede de fazer aquilo que toda a gente faz (não estou a ser irónico). Em todo o caso, penso que se chama lucidez ao síndroma que me faz desconfiar que, se toda a gente chora num determinado programa televisivo, isso se deve: a) a um cenário todo descascadinho em cebolas, ou b) ao cumprimento de um ritual social. E mais lúcido penso ser quando suponho que a real sensibilidade dos entrevistados de Daniel Oliveira (e que pode ser imensa e muito maior do que a minha, e que obviamente não existe apenas no íntimo mas em interação com o mundo) não tem nada a ver com o controlado espetáculo que eles oferecem aos seus fieis espetadores. E que pena não insistirem mais no sentido de humor, na combatividade, na alegria...

Escrevo este post porque já pude presenciar pessoas mais ou menos próximas a comoverem-se com a comoção pouco definida do programa em causa. E se eu tenho necessidade de escrever semelhante evidência, não haverá muita gente com quem possa, neste mundo, manter entrevista.

Sem comentários: