sábado, junho 08, 2013

Quatro sequências do filme "Bande à part"

  



1. Há uma aula em que uma professora de inglês dita excertos de "Romeu e Julieta" para estes serem traduzidos pelos seus alunos (nos quais se inclui o trio protagonista). Nunca um disparate, em Godard, passa sem sentido (ainda que permaneça disparate): o amor é uma tradução amadora do mito do amor; o amor não passa da repetição dos "fins de frases" do seu discurso mítico; discurso que, contudo, é absorvido de forma aparentemente distraída: os alunos estão a viver a emoção que o mundo julga que lhes está a ensinar. Se o "clássico é igual ao moderno", como o realizador reivindica neste filme, é porque já o par shakespeariano sofria do mesmo nível de iliteracia universal.

2. A famigerada corrida pelos corredores do Louvre faz eco dessa aula. Vivemos, na verdade, sob os mitos da cultura que julgamos per-correr sem lhes darmos atenção. No entanto, o dadaísmo aparente da sequência revela a relação específica que o erudito Godard mantém com essa Cultura: ele não erige um Museu Imaginário (as citações não estão lá para isso), mas sobrevoa a hipótese de museu. Os fins de frases que ele aproveita de tudo (quadros, poemas, músicas, filmes, ensaios, etc.) são transformados pela vertigem veloz com que o citador os confunde, funde, revigora e metamorfoseia.

3. Talvez a mais brava (e a mais simples) das cenas de "Bande à part" seja a dança do trio de jovens. A sua coreografia prossegue mesmo quando a música é substituída por comentários psicológicos de "narrador de romance": a música torna-se narração, a narração torna-se música. Na verdade, aquelas personagens parecem ter uma "psicologia de jazz", ou pelo menos não podem ser descritas de outro modo. Basta aplicar uma pequena perversão ao divertimento, e a coreografia já é de vanguarda (dançar palavras) e a composição já é de vanguarda (música só falada).

4. Quando se faz um minuto de silêncio, na vida moderna, faz-se por absolutamente nada, apenas porque sim. Se nada relevante há para celebrar, celebre-se o nada. Todavia, a experiência da eternidade implica sempre uma quebra na essência do que se está a viver. Não basta, por isso, que os personagens se calem, é preciso que o cinema se torne mudo, que sofra um ataque às características definidoras do seu ser. Um minuto de silêncio no cinema é um minuto sem banda sonora.

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