sábado, junho 08, 2013

No escrínio 57

H


"Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos

e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no infinito

e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra

lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos."

António Maria Lisboa



Mais importante do que a remissão que o texto faz para a poética de Rimbaud (um dos poemas das "Illuminations" tem exatamente este estranho título) ou do entendimento do "H" como hipotética abreviatura dum nome concreto de mulher, é o facto de a oitava letra do alfabeto português não ter qualquer consequência sonora (pelo menos quando grafada em solidão).

O poema de António Maria Lisboa parece falar de uma recordação sentimental. Ora, os dez anos que separam a escrita do texto da verdade amorosa evocada (essa verdade está "lá longe") impedem que, nos ouvidos, existam sinais sensuais de presença e de definitividade (as pedras, as raízes). O que neles existe é um mudo H que, do ponto de vista visual, de certo modo corresponde à dimensão fantasmática dos fogos-fátuos.

Apaixonado por egiptologia, Lisboa talvez soubesse que o passado provável da letra em questão é um hieróglifo representativo do objeto "peneira". Peneirar é precisamente o que a memória faz, e o que é belíssimo neste texto é a ficção que ele engendra do que poderiam ser os destroços de uma paixão passada que não abandonaram a mente: uma cor intensa, dois humaníssimos traços de caráter (a ternura e a bondade, que não são propriamente evidências para os convulsivos surrealistas), um paradoxo hiperbólico (a Borboleta no infinito cujo voo é afinal a queda de uma estrela apocalíptica). Falará o primeiro verso de dez emocionais anos-luz? Em todo o caso, é a condição fátua do amor que permite a eclosão das imagens (o texto é um fulgurante "filme mudo"). Talvez tudo no amor seja recordação da imaginação.

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