quarta-feira, junho 19, 2013

Homero

Há uns posts atrás, falei sobre o filme "Johnny Guitar" de Nicholas Ray. Considero-o um objeto notável, ainda que em seu torno não acalente a obsessão típica do cinéfilo. Os seus primeiros dois terços são do melhor que se fez no cinema americano clássico. No entanto, a última parte da obra sempre me pareceu maçuda, desajeitada (no mau sentido da palavra), como se Ray estivesse apenas a cumprir os encargos típicos do género a que se decidiu submeter, e neles não conseguisse fazer ecoar o seu poderoso talento lírico e dramático.

Ora, é precisamente o contrário disso que sinto no cinema de John Ford. Uma simples cavalgada filmada em travelling, e parece que o mundo mítico do western se nos oferece em toda a sua inteireza e quilate de sugestão. Podemos discordar da ideologia do realizador (afinal, ele acreditava na bondade de instituições como o exército), podemos ficar de pé atrás perante o género que o celebrizou (o western é pura propaganda americana, e a imagem que nele se costuma dar do povo índio é no mínimo insultuosa), mas a verdade é que o velho cineasta parece absolutamente fundido com esse género, nenhuma das suas regras lhe é extrínseca, nenhum dos seus recantos lhe é desconhecido, nenhuma das suas tonalidades consegue deixar de soar a verdadeiro. Como Schubert e o lied ou Duchamp e o ready made, John Ford não era um cineasta ou um autor, mas o único "fazedor de westerns" (era assim, de resto, que ele gostava de se apresentar).

Não é quando vejo Barack Obama a fazer stand up comedy (e que jeito para isso ele tem) que consigo acreditar um pouco nos E.U.A. A dignidade yankee existe sobretudo nas imagens deste contador antigo e frontal, para quem toda a cultura e produção humana só faziam sentido quando ao serviço do humano.

Sem comentários: