quinta-feira, junho 27, 2013

quarta-feira, junho 19, 2013

O meu contributo para a história da bissexualidade

Gosto do purismo linguístico, daquelas pessoas que nunca conjugarão o verbo "haver" quando ele não estiver a ser usado como auxiliar, e que nunca se esquecerão de unir a preposição "de" ao verbo "gostar".

Gosto também dos erros quotidianos da linguagem, da impureza das gírias e dos calões, dos colóquios juvenis, dos disparates de palmatória, de toda essa força vital que pega nos latins estafados e deles retira variações vulgares e sublimes.

Tanto o nobre como o rebelde podem ser sensuais. Depende de quem habita o hábito.


Homero

Há uns posts atrás, falei sobre o filme "Johnny Guitar" de Nicholas Ray. Considero-o um objeto notável, ainda que em seu torno não acalente a obsessão típica do cinéfilo. Os seus primeiros dois terços são do melhor que se fez no cinema americano clássico. No entanto, a última parte da obra sempre me pareceu maçuda, desajeitada (no mau sentido da palavra), como se Ray estivesse apenas a cumprir os encargos típicos do género a que se decidiu submeter, e neles não conseguisse fazer ecoar o seu poderoso talento lírico e dramático.

Ora, é precisamente o contrário disso que sinto no cinema de John Ford. Uma simples cavalgada filmada em travelling, e parece que o mundo mítico do western se nos oferece em toda a sua inteireza e quilate de sugestão. Podemos discordar da ideologia do realizador (afinal, ele acreditava na bondade de instituições como o exército), podemos ficar de pé atrás perante o género que o celebrizou (o western é pura propaganda americana, e a imagem que nele se costuma dar do povo índio é no mínimo insultuosa), mas a verdade é que o velho cineasta parece absolutamente fundido com esse género, nenhuma das suas regras lhe é extrínseca, nenhum dos seus recantos lhe é desconhecido, nenhuma das suas tonalidades consegue deixar de soar a verdadeiro. Como Schubert e o lied ou Duchamp e o ready made, John Ford não era um cineasta ou um autor, mas o único "fazedor de westerns" (era assim, de resto, que ele gostava de se apresentar).

Não é quando vejo Barack Obama a fazer stand up comedy (e que jeito para isso ele tem) que consigo acreditar um pouco nos E.U.A. A dignidade yankee existe sobretudo nas imagens deste contador antigo e frontal, para quem toda a cultura e produção humana só faziam sentido quando ao serviço do humano.

terça-feira, junho 18, 2013

Uma lágrima no canto do olho

As pessoas têm qualidades fantásticas: o sentido de humor, a combatividade, a alegria improvável contra todas as circunstâncias... Contudo, também as qualidades têm uma hierarquia, um fluxo de mobilidade social e um código de etiqueta. Assim sendo, não há quase quem queira prescindir da sensibilidade.

A sensibilidade é uma qualidade de alta categoria. Não pode portanto ser evocada durante o jogo de futebol exclusivamente masculino (sob pena de marginalização imediata do sensível). Não pode ser chamada na noite de copos, na despedida de solteiro, no círculo em que se masturba charutos. Exatamente como uma sociedade, a despeito das suas elites, não pode viver sem lixeiros, trolhas ou pescadores, nenhum humano pode prescindir das suas qualidades rasteiras (que não são as que enumerei no princípio deste post), e ai de quem delas prescinda, que acaba no psicólogo ou na prisão. Talvez elas até sejam mais importantes?

Há um lugar para tudo, diria a Paula Bobone. Há um tempo para ser sensível e um tempo para ser grosseiro, é preciso conhecer esses tempos e agir em conformidade. Penso que, patologias à parte, não haverá humanos desprovidos de qualquer sensibilidade (até os déspotas costumam gostar das suas amantes, dos seus filhos e dos seus gatinhos). Mas cada qualidade, seja fina-flor ou ralé, tem o seu próprio espaço de exibição, o seu ecossistema de vanglória.

Um dos sítios onde os portugueses podem cumprir a instituição da sensibilidade é o programa televisivo "Alta definição" onde até Pedro Santana Lopes (após ter repetido um inseguríssimo número de vezes a palavra "serenidade") verteu os seus quinze segundos de lágrima. Homem da noite, dos meandros do poder, do futebol e da intriga, mas com a inevitável costela sensível...

Eu presumo que tenho um síndroma qualquer que me impede de fazer aquilo que toda a gente faz (não estou a ser irónico). Em todo o caso, penso que se chama lucidez ao síndroma que me faz desconfiar que, se toda a gente chora num determinado programa televisivo, isso se deve: a) a um cenário todo descascadinho em cebolas, ou b) ao cumprimento de um ritual social. E mais lúcido penso ser quando suponho que a real sensibilidade dos entrevistados de Daniel Oliveira (e que pode ser imensa e muito maior do que a minha, e que obviamente não existe apenas no íntimo mas em interação com o mundo) não tem nada a ver com o controlado espetáculo que eles oferecem aos seus fieis espetadores. E que pena não insistirem mais no sentido de humor, na combatividade, na alegria...

Escrevo este post porque já pude presenciar pessoas mais ou menos próximas a comoverem-se com a comoção pouco definida do programa em causa. E se eu tenho necessidade de escrever semelhante evidência, não haverá muita gente com quem possa, neste mundo, manter entrevista.

segunda-feira, junho 10, 2013

Sinédoque

Mas o que é que, exatamente, se está a celebrar hoje em Portugal: Badajoz à vista?

domingo, junho 09, 2013

Légende dorée

Não existem pessoas de exceção, mas existem pessoas consideradas enquanto tal e que, por causa disso, estão sujeitas aos mais inimagináveis horrores.

sábado, junho 08, 2013

Quatro sequências do filme "Bande à part"

  



1. Há uma aula em que uma professora de inglês dita excertos de "Romeu e Julieta" para estes serem traduzidos pelos seus alunos (nos quais se inclui o trio protagonista). Nunca um disparate, em Godard, passa sem sentido (ainda que permaneça disparate): o amor é uma tradução amadora do mito do amor; o amor não passa da repetição dos "fins de frases" do seu discurso mítico; discurso que, contudo, é absorvido de forma aparentemente distraída: os alunos estão a viver a emoção que o mundo julga que lhes está a ensinar. Se o "clássico é igual ao moderno", como o realizador reivindica neste filme, é porque já o par shakespeariano sofria do mesmo nível de iliteracia universal.

2. A famigerada corrida pelos corredores do Louvre faz eco dessa aula. Vivemos, na verdade, sob os mitos da cultura que julgamos per-correr sem lhes darmos atenção. No entanto, o dadaísmo aparente da sequência revela a relação específica que o erudito Godard mantém com essa Cultura: ele não erige um Museu Imaginário (as citações não estão lá para isso), mas sobrevoa a hipótese de museu. Os fins de frases que ele aproveita de tudo (quadros, poemas, músicas, filmes, ensaios, etc.) são transformados pela vertigem veloz com que o citador os confunde, funde, revigora e metamorfoseia.

3. Talvez a mais brava (e a mais simples) das cenas de "Bande à part" seja a dança do trio de jovens. A sua coreografia prossegue mesmo quando a música é substituída por comentários psicológicos de "narrador de romance": a música torna-se narração, a narração torna-se música. Na verdade, aquelas personagens parecem ter uma "psicologia de jazz", ou pelo menos não podem ser descritas de outro modo. Basta aplicar uma pequena perversão ao divertimento, e a coreografia já é de vanguarda (dançar palavras) e a composição já é de vanguarda (música só falada).

4. Quando se faz um minuto de silêncio, na vida moderna, faz-se por absolutamente nada, apenas porque sim. Se nada relevante há para celebrar, celebre-se o nada. Todavia, a experiência da eternidade implica sempre uma quebra na essência do que se está a viver. Não basta, por isso, que os personagens se calem, é preciso que o cinema se torne mudo, que sofra um ataque às características definidoras do seu ser. Um minuto de silêncio no cinema é um minuto sem banda sonora.

No escrínio 57

H


"Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos

e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no infinito

e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra

lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos."

António Maria Lisboa



Mais importante do que a remissão que o texto faz para a poética de Rimbaud (um dos poemas das "Illuminations" tem exatamente este estranho título) ou do entendimento do "H" como hipotética abreviatura dum nome concreto de mulher, é o facto de a oitava letra do alfabeto português não ter qualquer consequência sonora (pelo menos quando grafada em solidão).

O poema de António Maria Lisboa parece falar de uma recordação sentimental. Ora, os dez anos que separam a escrita do texto da verdade amorosa evocada (essa verdade está "lá longe") impedem que, nos ouvidos, existam sinais sensuais de presença e de definitividade (as pedras, as raízes). O que neles existe é um mudo H que, do ponto de vista visual, de certo modo corresponde à dimensão fantasmática dos fogos-fátuos.

Apaixonado por egiptologia, Lisboa talvez soubesse que o passado provável da letra em questão é um hieróglifo representativo do objeto "peneira". Peneirar é precisamente o que a memória faz, e o que é belíssimo neste texto é a ficção que ele engendra do que poderiam ser os destroços de uma paixão passada que não abandonaram a mente: uma cor intensa, dois humaníssimos traços de caráter (a ternura e a bondade, que não são propriamente evidências para os convulsivos surrealistas), um paradoxo hiperbólico (a Borboleta no infinito cujo voo é afinal a queda de uma estrela apocalíptica). Falará o primeiro verso de dez emocionais anos-luz? Em todo o caso, é a condição fátua do amor que permite a eclosão das imagens (o texto é um fulgurante "filme mudo"). Talvez tudo no amor seja recordação da imaginação.

sábado, junho 01, 2013

Filosofia

A morte é a lei da vida, mas o que o importa é que os vivos a tomam às vezes por lei civil, outras vezes por lei criminal.

Pragmática das cores

1. Dizia, um dia destes, um sexólogo que a única diferença entre amizade e amor é que, neste último caso, há sexo entre os contraentes do laço. Como se define, então, a "amizade colorida"?

2. O trapalhão do legislador ortográfico diz que cor de laranja se escreve sem hífen e cor-de-rosa com o dito cujo. Esta incoerência tem, contudo, a virtude poética de respeitar a individualidade íntegra de cada um dos seres em causa: uma rosa não se confunde com uma laranja, uma laranja não se confunde com uma rosa. Têm direito a diferentes tratamentos ortográficos.

Teoria do insulto

1. Eu pensei que o que era preciso em cada esquina era uma puta, e não o seu filho.

2. Por que carga de água o assim-acima-vilipendiado sacode o insulto para a mamã? É ele mesmo que está causa!

O respeito conquista-se

EU SERIA INCAPAZ DE DIZER QUE O CAVACO É UM PALHAÇO!!!!

(Talvez dissesse, contudo, que é a senhora que vende pipocas e batatas fritas na entrada do circo.)