quinta-feira, maio 09, 2013

Um texto sobre o "Checkpoint Sunset"

OS SAPATOS REPESCADOS
 

"Primeiro há um muro. Depois um título, ou seja um programa, a postulação de um sentido: Checkpoint sunset... Logo o muro é uma fronteira, há qualquer coisa por detrás (provérbio foldulógico: «a liberdade está sempre do outro lado do muro»). Há indícios: palavras grafitadas, que aludem a uma população marinha, um marulhar. Ora o mar aparece, visivelmente pintado, frente ao muro, também ele pintado: as referências do «real» caem por terra, o atrás e o à frente são invertidos, tal como o antes e o depois não vão tardar a diluir-se. Estamos num universo retiniano: pura superfície, imagem. O cinema é convocado quase a título de acessório, de caução, com um carril e um chariot inúteis, um reflector incómodo, medidas e claquete supérfluas. Trata-se mais propriamente de um rito: a passagem da imagem à projecção (a perda da materialidade), isto é ao cliché (o beijo convencional, a felicidade terminal). As sereias anunciadas só pelo canto estão presentes, solúveis como o peixe de Breton, substituídas por candidatas – ao papel, à glória, ao mito, ao príncipe encantado – providas de pés. Porque, no cerne do filme, há o drama da eleição, cujos dados também estão invertidos já que a eleita é precisamente aquela que não encontra «sapato que convenha a seu pé» (com todas as conotações psicanalíticas do motivo). O falso muro também é um falso obstáculo (pode ser galgado), o falso mar sobe mais depressa do que o verdadeiro, apenas o falso filme se revela finalmente autêntico, uma vez livre de seus figurantes, de sua fanfarra, de sua projecção, quando a aurora regressa e a eleita dá consigo sozinha, encostada à parede (porventura tudo não terá passado de um sonho). A ironia de Pedro Ludgero, que torna ambivalentes todos os sinais, é demasiado forte para não camuflar uma falta, precisamente a falta da ilusão, do sonho materializado no ecrã. Durante a primeira parte do filme, as candidatas tricotaram um sol, fizeram-no passar do estado de novelo ao de disco, concretizando em lã aquilo que é, por natureza, imaterial (a luz). Esse sol sem brilho é portanto um ersatz simbólico do cinema, grande transformador de luz. Mas esse falso sol eclipsa o verdadeiro e as estrelas têm de cair no chão para que a projecção comece. O aparato e o aparelho cinematográficos estão condenados à destruição (pela água ou pelo fogo). A imagem é, por essência, vã, mas constitui, para os aprendizes-demiurgos que os realizadores são, a única possível redenção (eppur si muove: e contudo é preciso continuar a «rodar»)."

Saguenail, 7 de Maio de 2013.

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