sábado, maio 11, 2013

O mestre-escola de aldeia OU A toupeira gigante

O título deste post refere os dois nomes por que é conhecido um conto que Franz Kafka deixou inacabado, e que relata o falhanço sofrido pelo seu personagem-narrador quando tenta recuperar a honra de um mestre-escola de aldeia cuja descoberta de uma toupeira anormalmente grande fora desacreditada e acabara por cair no esquecimento.

A narrativa revela o antagonismo entre a missão assumida pelo funcionário rural (o gigantismo ridículo do achado revela tanto as ambições do mestre-escola quanto a sua indisfarçável tacanhez) e a insignificância a que afinal esse personagem está sentenciado dentro da hierarquia do mundo (ninguém acredita que a toupeira tenha existido, e essa falta de fé ecoa a própria inexistência social do descobridor).

A monstruosidade latente no relato faz também lembrar "A metamorfose" que o autor publicaria pouco tempo após a escrita deste texto: o mestre-escola acabou por de certo modo se tornar a toupeira em que ninguém acredita, e a dificuldade que o narrador sente em fazer-lhe justiça é o indício (humorístico) da dificuldade que um escritor sempre experimenta ao tentar defender a sua personagem (especialmente quando o dispositivo utilizado nesse processo, como sempre acontece em Kafka, é uma alegoria de tal modo clara que parece inverosímil).

Na postura do mestre-escola, ofendido com os esforços inconsequentes do narrador, também se poderá vislumbrar as personagens de artistas que se sentem permanentemente incompreendidos (Josefina, a cantora ou o artista da fome) que hão de aparecer nas últimas realizações do escritor. Fica-se com a sensação de que Kafka teria alguma ansiedade quanto à forma como a novela "A metamorfose" iria ser recebida, mas a resposta que aqui é dada é clara e profundamente moral: a única glória a que um artista pode aspirar é a de conseguir não ser expulso do espírito do seu destinatário. Uma ética da inquietação, portanto.

Há até um momento na história em que o narrador pede às pessoas a quem enviou o artigo em defesa do mestre-escola que lhe devolvam o texto impresso (para o fazer desaparecer), uma premonição por linhas tortas do mítico pedido que Kafka fez aos seus próximos para que estes destruíssem todos os seus escritos não publicados (como este que aqui abordamos). Tal detalhe biográfico tem feito correr inflamados rios de tinta, a meu ver sem grande razão: os papéis com o famigerado pedido não pertencem ao período final da vida de Kafka e por isso não se configuram como "última vontade" (o último testamento conhecido é de 1922 e o seu autor só faleceu em meados de 1924, após ter escrito e publicado mais material).

O conto em causa não tem título mas Kafka sempre se refere a ele como "O mestre-escola de aldeia". Curiosamente, quando o seu amigo Max Brod o publicou (após a sua morte), intitulou-o como "A toupeira gigante". O título do autor patenteia o seu classicismo de grande exatidão. Já a opção peregrina de Brod revela, mais do que um possível talento comercial, a sua própria devoção funcionária e embasbacada ao fenómeno artístico. É como se entre Brod e Kafka existisse uma relação algo semelhante àquela que o conto encena e potencia.

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