sábado, abril 06, 2013

O efeito de real

Por vezes, fica no ar a impressão de que, para os artistas (e em especial para os artistas responsáveis), a realidade é o Bairro da Cova da Moura. Na verdade, a realidade tanto é esse Bairro como a Lili Caneças, a Biblioteca Joanina como a Prisão de Guantánamo, o tédio do domingo à tarde como a demissão de Miguel Relvas. O próprio cinema faz parte da realidade. A eleição de uma fração circunscrita do mundo como conteúdo da obra de arte apenas indica o grau de empenhamento político (em sentido lato) do artista. Mas não confundamos a eventual urgência de um tema com o rigor do conceito de realidade.

Pela minha parte, não estou minimamente interessado na estética realista (ainda que esteja comprometido com o pulsar sensual ou patológico do mundo através da especificidade técnica do cinema, dessa mimese que providencia imagens do real com uma semelhança da ordem do alucinatório). Não me impeço, contudo, de entrar no debate sobre o "efeito de real".

Certos cineastas defendem que, para poderem produzir um efeito de real, têm de obedecer às convenções historicamente estabelecidas que permitem obter tal efeito. Essa tomada de posição parece-me insultuosa perante obras como as de Pedro Costa (que pretende partilhar connosco imagens íntegras de presenças humanas originárias de uma esfera sócio-cultural inferior à sua - e quão difícil e tão cheio de escolhos é esse caminho...) ou de António Reis / Margarida Cordeiro (à procura de outra integridade imagética, a do espaço rural). Se, para ir de encontro ao real, um autor se submete às convenções do seu efeito, ele só poderá fornecer imagens convencionais do real, e não imagens justas. E uma imagem convencional tem, como missão única, a defesa da ideia publicitária de que o mundo está bem como está. Ora, nem os conservadores pensam assim, de tal o modo o futuro lhes escorre por entre os dedos impotentes...

Por outro lado, se a paixão que move o autor é o realismo, então é melhor que ele o pratique com uma ciência e uma responsabilidade de rigor inatacável, estudando a fundo os processos de coerência narrativa, as características históricas de cada ficção que pretende abordar e os meandros da psicologia humana em todas as suas declinações. Curiosamente, nem Elia Kazan (dada a sua imoralidade política) nem James Ivory (desconsiderado como um académico de prestígio) são senhores de um consenso histórico exemplar.

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