sábado, abril 06, 2013

Começo agora,

que o meu filme "Checkpoint Sunset" está concluído, a ter uma perspetiva mais lata e consciente do que tentei fazer. Partilho aqui algumas das brechas que o filme pretendeu abrir:

1. Há uma tangente política numa obra que é essencialmente lírica. Essa tangente está toda concentrada na ideia de muro e no paradoxo de, ao longo do filme, o muro que se destaca no seu cenário se ir tornando o lugar de representação do oceano. Tanto a política (citação do Muro de Berlim) como a religião (alusão ao Muro das Lamentações) se apresentam idealmente como formas de abrir horizontes. A recente leitura atenta dos Evangelhos permite-me concluir que a figura histórica de Jesus Cristo adquiriu relevo precisamente porque esse Filho do Homem (como a si mesmo ele se chamava) tinha a vontade genuína e prática de expandir a mundividência humana. Cristo cometeu, contudo, o erro de palmatória de ter instituído uma Igreja (não era filho de um Deus, portanto). A Religião e a Política acabam sempre por funcionar como formas de murar o horizonte. Nada é mais triste do que um muro. Quando o sol do meu filme se põe, põe-se sobre a linha do horizonte do mar ou sobre a linha que encima o obstáculo?

2. Uma das características imprescindíveis da virilidade é a sua propensão para a fanfarronice. Quase todo o macho, para ir de encontro às expectativas sociais que condicionam o seu género, tem de constantemente reivindicar o caráter imaculado do seu ser masculino (claro que, como bastantes homens são bissexuais, essa fanfarronice não passa de uma forma de controlo da sua integração social). Eventualmente a brutalidade que se exige à ereção do pénis (a lubrificação feminina é um gesto biológico mais sofisticado) exige que a cultura viril tenha essa característica de exorcismo contínuo de uma potencial insegurança... Erguer pirâmides, abrir mares, suspender jardins... O "Checkpoint Sunset" tem uma única linha de diálogo, uma brincadeira com o famoso discurso de John Kennedy quando visitou o Muro de Berlim. A frase é: "Ich bin eine Frau" (Eu sou uma mulher) e funciona como paródia da mencionada fanfarronice. O sentido é político, claro (as características associadas à feminilidade parecem-me mais consentâneas com uma gestão pragmática e tranquila do viver sedentário), mas sobretudo desafia a equivalência entre género e biologia (todos conhecemos a senhora Thatcher e a senhora Merkel). O próprio facto de a frase ser gritada por varias vozes pretende refletir a libertadora polifonia de impulsos que existe ou pode existir dentro de cada um.

3. A arte é um momento de suspensão no tempo útil da realidade em que se reflete sobre essa mesma realidade. Nunca a arte se confunde plenamente com o real (essa fermata de pura consciência não lho permite) nem pode fugir à ubiquidade temática que o real lhe impõe (não se pode falar de outra coisa). Um filme (um poema, um quadro) propõe uma representação do mundo. E não há artista que não balance entre a revelação inspirada da verdade desse mundo e a ocultação de tal verdade por via da produção de possibilidade. Quando tapamos o sol com a peneira (como acontece num dos planos de "Checkpoint Sunset"), não há desonestidade se a peneira é, no fundo, um sol-representado. O que é preciso é não parar, nem na aceitação nem na reivindicação. Os estudiosos da lógica já concluíram que, muitas vezes, não é possível destrinçar o que é verdade e o que é mentira numa ideia.

4. "Checkpoint Sunset" é também o relato alegórico da aprendizagem da solidão. O filme evolui desde o tagarelar que está no cerne das amizades femininas até à imagem conclusiva de uma mulher isolada e que talvez só esteja isolada porque assim se sente. Ninguém nasce sozinho, é a flutuação das expectativas perante o afeto que nos pode ensinar tal condição. O solitário é aquele que tanto deseja o Messias sentimental como se impede, a si mesmo, de nisso acreditar.

5. E também a beleza. Atacada por gregos e troianos. Capas das Edições Paulistas e excelentes poetas que contudo pretendem impor a sua poética sem qualidades. O reino do kitsch e a república dos cínicos. O cansaço das imagens e o snobismo dos intelectuais. Vi apenas dois ou três pores-do-sol em toda a minha vida. Pergunto-me, contudo, se esse espetáculo singular não poderia ver restaurada a sua pura maravilha. No meu filme, tudo funciona por gestão semântica, e o sentido do beijo entre o sol e o mar (a eternidade, segundo Rimbaud) é decetivamente ocultado ao espetador, diferido para um tímido momento de projeção. Parece-me que isso é reflexo do meu pudor, não moral, antes uma forma de, no contrarrelógio do meu próprio envelhecimento, ir reclamando que as coisas podem regressar todas aos seus lugares se pudermos reencontrar a quantidade e a qualidade justas de desejo. Por isso o género do filme é o desenho infantil.

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