segunda-feira, março 25, 2013

O INATUAL 79

"La jetée" - Chris Marker (1962)





Se pudermos provar que existe um futuro, torna-se logicamente evidente que o presente foi salvo (que pode seguir em frente). O mesmo não se pode dizer do passado. É nesta firmeza metafísica que Chris Marker situa uma visão política que descredibiliza o mito da Arca de Noé: não conseguiremos combater a ameaça da humanidade sobre a humanidade tentando conservar aquilo que tem passar de ontem para amanhã (mesmo que, à semelhança do "Solaris" de Tarkovsky, haja aqui uma nostalgia ansiosa por um mundo que de facto ainda não desapareceu, a verdade é que o bestiário está congelado). Se "La jetée" se assume como um filme de ficção científica, isso é porque ele é um puro canto de vanguarda.

A conceção da temporalidade segundo um modelo espacial (que permite a suposição da viagem em ambas as dimensões) incorre no perigo que sempre acompanha a mistura do raciocínio com o exercício metafórico (veja-se os séculos que os biólogos esperaram até Darwin ter encontrado a sua árvore). Há espaço e espaço, há ir e voltar. O mesmo não se pode dizer do tempo. Se fosse possível fazer um flashback até ao pontão narrativo em que se deu um flashforward, só se poderia assistir à concretização fatal do destino. Mas, para Marker, isso não parece ser tragédia, antes esperança.

A opção por imagens sem movimento, que ficou célebre, deriva deste caráter filosoficamente exemplar: o movimento é causador de ilusão, é portador de mera aparência. Por outro lado, e de modo muito simples, Marker cria assim um poderosíssimo efeito de "ficção científica" ao atacar a própria essência do cinema. As imagens paradas caem na história do cinema como uma catástrofe ontológica. E, por fim, enquanto fantasia pós-apocalíptica, estes frames são o único indício possível de um mundo provisoriamente morto e de uma personagem que não pode deixar de morrer. Mas só num mundo com morte é que se pode falar de devir.

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