domingo, março 03, 2013

Nota "A cor da romã"

No prólogo do filme "A cor da romã" (Sergei Paradjanov, 1970), ouvimos uma voz que repete uma frase atribuída ao poeta arménio Sayat Nova, na qual este reclama que a sua vida e a sua alma são feitas de sofrimento. A frase é repetida várias vezes, o que nos leva a crer que as imagens que a marginam, a despeito da sua individualidade, são todas elas concretizações plásticas da mesma ideia fixa (a montagem sonora repetitiva ecoa na montagem visual).

Que imagens são essas? Por exemplo, um grupo de romãs numa toalha branca que parecem verter o seu suco interior sobre o tecido (um punhal, na imagem seguinte, esclarece que o líquido vermelho é claramente o sangue). Por exemplo, um pé que esmaga um cacho de uvas (dando origem a um derrame equivalente).

Imagens de sofrimento. Mas, desde logo, surge uma ligação aos labores populares imemoriais (o tingimento de tecidos, a vindima, a pesca, a produção de pão). Mesmo que, na língua arménia, a palavra "poesia" não tenha a ideia de fazer como respeitável antepassado etimológico, não deixa de ser notável a intuição que o cineasta teve de ligar o fazer poético a um artesanato mais lato e até decisivo em termos da sobrevivência.

Se Kafka talvez se considerasse um artista da fome (o que, eticamente, o incitava a renegar o trabalho artístico e a contemplar a morte como único corolário desse desespero), Paradjanov parece oferecer o seu poeta biografado (e oferecer-se a si mesmo) como um artista do alimento. Fruta, vinho, peixe, pão: símbolos religiosos, populares, é certo, mas alimentos num primeiro grau de leitura. Note-se como, na imagem que reúne os dois últimos exemplos (mostrada em cima), os pães parecem ser uma espécie de solidificação do estado do peixe que se debate pela vida fora da água. Se atentarmos aos movimentos do animal, pressentimos que, quando ele cristalizar, terá a mesma forma arrebitada da dádiva cereal (o que, em termos realistas, não acontecerá).

A poesia, ilusão de eternidade que perpassa pela nossa cultura, confunde-se com o emparedamento narrado em "A lenda da fortaleza de Suram" (filme do mesmo autor), sacrifício esse que liberta as forças políticas de uma determinada comunidade. A obra do poeta (flor e música) assume-se assim como um alimento espiritual infindável: na verdade, a liberdade de "A cor de romã" é de tal ordem (especialmente quando o filme é comparado com os dogmas que conformam a história do cinema), que, após o seu visionamento, ficamos convictos de que o mundo pode realmente ser outro.

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