sábado, fevereiro 23, 2013

O INATUAL 77

"Sunrise" - Friedrich Murnau (1927)


O conto deste filme lúcido inicia-se muitos anos após a feérica sentença "e viveram felizes para sempre". Acontece que tanto a nossa irradiação interior (algo que, desajeitadamente, podemos traduzir por vontade) como a vida exterior funcionam por ciclos de luz e trevas que, como o dia e a noite, têm uma duração muito mais breve do que o projeto de uma vida-a-dois. A vontade tem a espessura volátil de um acontecimento luzente e a realidade nunca descansa no pólo positivo ou no pólo negativo: dois balançares que nem sequer são solidários nem correspondentes.

Um casamento destinado a soçobrar pode assim acordar para uma segunda lua-de-mel (nada é definitivo, nem o não-definitivo). Mas o casal do filme de Murnau, que descobriu no seu seio que o pior de si era o pior do humano, poderá confiar que a aurora, ainda que violentamente regeneradora, seja perene? Quem descobre o horror naquele que ama, dificilmente pode acalentar, para a vida, o entendimento de que esta é uma brincadeira (como o episódio na cidade parece sugerir). Ainda para mais, no momento em que essa aurora já estava presente nos corações do homem e da mulher, a cíclica realidade respondera com uma negra borrasca que poderia ter desfeito o par em tragédia... A realidade não se acomoda às nossas almas.

O casal terá então de aprender a confiar o seu futuro enquanto casal, a sua solidez, ao ciclo ora libertador ora opressivo das luzes e das trevas. Nem happy end, nem o seu contrário. Tal sabedoria contrasta de tal modo com a diversão em que o mundo se perde que o amor transforma os seus sinistrados em rudes campónios existenciais. "Sunrise", como todo o cinema, é um filme destinado a um público urbano, e a oposição que nele se estabelece entre campo e cidade não é ideológica mas sim alegórica -  é o amor que faz o humano regredir até ao essencial, até ao imemorial, até mesmo à inadaptação às regras com que a civilização se sofistica em trivialidade.

A aurora tem boa fama, mesmo entre os mais infelizes de nós. Talvez porque nenhuma aurora é a primeira e nenhuma aurora é a última.

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