domingo, dezembro 08, 2013

Duas maquinarias

Por via da figuração, um determinado lugar mental passa a ser semanticamente articulado através da engenharia de outro lugar mental. É como se este fosse uma máquina e o primeiro uma matéria que a máquina transforma em termos hermenêuticos (tentei exprimir isso num poema infantil: aqui).

A alegoria tenta, por via deste processo, tudo revelar sobre a mecânica do sentido. A metáfora, figura de palavra e não de texto inteiro, tenta tudo sugerir. Qual a maior ambição?

Nota "O rio do ouro"

Revi este lindíssimo filme de Paulo Rocha, e reparei que:


1. A paixão de Carolina pelo Zé dos Ouros resulta sobretudo do chamamento da tragédia que este traz consigo. Não interessam as razões nem as formas como estas se vão processar, não interessa o teor específico do afeto ou da fatalidade, o que Carolina ama é o crime que traz dentro de si, crime que aquele homem acorda no rutilar do seu ouro.

2. Ao arrepio de todo o bucolismo, a ruralidade é assim apresentada como uma panela de pressão, em que as sensualidades e violências latentes estão apenas à espera da oportunidade certa para eclodirem em loucura. Ora, não foi a loucura (uma loucura diversa, claro) que António Reis também associou ao campo no seu portentoso "Jaime"?

Posto de outro modo

Ser poeta é ser mais alto, ou não paga sequer o que ocupa na página em branco? Messianismo romântico ou nada querer da poesia? Uma chama na alma ou uma impostura na pena? Aura ou neura?

Após ter revelado o teor da minha relação com a poesia (aqui), esta discussão é-me completamente alheia. Nem sequer a consigo compreender.

domingo, dezembro 01, 2013


Nota "Sleuth"

No seu último filme, Joseph L. Mankiewicz pretendeu mostrar como o jogo das classes sociais não se joga a feijões. O personagem opressor até pode genuinamente pensar que tudo não passa de cenários de teatro, mas o oprimido não tem medo de ir até ao fim, nem que isso implique oferecer a sua morte literal para que o jogo revele a realidade de toda a sua violência.

Mankiewicz invade o filme com inserts dos objetos do personagem de Lawrence Olivier, como se eles fossem as pistas de que Michael Caine fala no fim, aquelas que não se vêem apesar de estarem à vista. Quando a moral é didaticamente estabelecida, podemos todos sair do filme para a realidade acreditando que as pistas do esmagamento social podem ser detetadas por um olho que "Sleuth" tornou politicamente elementar, meu caro Watson. A public eye.

sábado, novembro 30, 2013

Partilha 159

(céu carregado)  


Certas flores pendem das suas copas como vinhos de tal modo ébrios de si mesmos que contrariam a lei da gravidade ficam anos a fio nas pipas, essas flores de uma só estação. E também velas que se acumulam acesas, ninguém morreu, deus não precisa de existir, velas a nada ancoradas a não ser ao seu fazer sopro. E também distantes banhos de espuma, onde há de um dia o Fortuna fazer propaganda a um sabonete quase metafísico. Um mundo infinitamente suspenso, infinitamente maduro. Puta que pariu, é preciso dizê-lo: são monções de beleza como as que se diz que existem nas Índias mal localizadas.

sábado, novembro 23, 2013

"La passion de Jeanne d'Arc" - imagens





O INATUAL 82

"La passion de Jeanne d'Arc" - Carl Theodor Dreyer (1928)



Quando Cristo desceu à Terra, trouxe com ele uma inquietação política muito concreta, aquela que desconfia da possibilidade de algum humano poder ocupar o posto de juiz na causa de outro humano. Mas como a História se escreve por linhas irónicas, a Igreja que em seu nome foi fundada acabou por instituir o seu próprio tipo de tribunal e de, através dele, conjugar Julgamento e Paixão na ofensiva concertada a múltiplas reencarnarções do mártir inicial. "Cristo" continua a ser julgado e é, de novo, um inside job.

É isso que Dreyer, religioso muito ciente da intolerância que espreita a cada canto da religião, aborda neste seu celebérrimo filme, por via da encenação dos registos históricos do processo com que a Igreja queimou a esperança e o corpo da jovem Joana d'Arc. A suposta santa é sobretudo uma imensa teimosa, como o Johannes de "Ordet", como "Gertrud", e como eles a sua aristocracia resulta de uma adesão a um Bem tão pouco banal que provoca uma reação de aflita falta de fé naqueles que têm a tarefa de os verem viver. Acima de tudo, o que Joana não aceita é o compromisso de que a entendam como emissária do Mal, e assim em nome da candura se reclama apenas mal-dita, mal-pronunciada.

O filme tem um conceito estruturador tão precisamente legislado quanto preciosamente executado pela imaginação ad hoc de um grande governante das formas. Enquanto encenação de um processo, de um esquema simples de pergunta-resposta, a montagem da obra reparte-se essencialmente entre os planos que nos dão a ver Joana, a interrogada (planos fixos, longos, lentos, solitários, em todos os cenários escolhendo um branco despojado como fundo) e aqueles que registam a azáfama dos acusadores (variedade inesgotável de rostos, movimentação de câmara, opções de mise en scène renovadas a cada instante). É, como já uma vez escrevi, a estrutura de mil contracampos a girarem em torno de um poderoso campo de atração. E a cada momento se renova a maneira de regressar a essa estrutura, a esse parti pris obsessivo e quase único.

Praticamente não há planos que Joana partilhe com outras personagens. Se, em "Gertrud", vamos assistir a diálogos em que os conversadores nunca olham uns para os outros, em "La passion...", muito antes da consciencialização do poder semântico do plano-sequência, são os cortes de montagem (as linhas do enquadramento) que separam os dialogantes, que lhes impedem uma relação de saudável imanência. A solidão de Joana (a sua proximidade das lágrimas, a graça enlouquecida que a parece iluminar a partir de dentro) é por isso constitutiva da radicalidade do seu legado.

Não podemos hoje ouvir as palavras históricas que foram pronunciadas no processo de Joana d'Arc (apesar de conhecermos os seus registos escritos). Mas podemos sofrer os fantasmas dos rostos humanos que as terão pronunciado. Talvez a ontologia do cinema sonoro tenha permitido a Dreyer encenar o mais justo milagre da história do cinema por ação da mais simples Palavra. Mas "La passion..." não é menor desafio ao momento mudo da história do cinema, na medida em que inventa a intensidade e a utopia da palavra mental, daquela que passa de coração para coração sem ter qualquer necessidade de possuir um corpo acústico. Será este filme os antípodas de "Der letzte Mann" de Murnau? Eventualmente, mas a verdade é que parece haver algo que une o ser o último dos homens ou das mulheres à necessidade que a  palavra tem de se aproximar da sua fronteira espectral, do silêncio.

segunda-feira, novembro 18, 2013

Partilha 158

(lógica da porcelana) 


Composto de champanhe, ele inclina-se até à noite para não fazer espuma dos dias. Falo do sol. Sim, a terra é uma imensa casa solarenga que foi ocupada por intratáveis. Eu continuo a cuidar do meu precioso vaso da dinastia Orquídea, no qual a semente primeira deu à luz toda uma heráldica de estações, cores e oferendas inúteis. Não, não sou um tard-venu, sou um ejaculador Precoce.

sábado, novembro 16, 2013

Adenda ao post anterior

No caso do cinema, as conclusões são relativamente evidentes.

A ideia de banda sonora já está prevista nos espetáculos performativos como a ópera ou o teatro. Mesmo a música do século XX tentou explorar a linguagem falada ou semifalada, assim como o ruído e os efeitos sonoros, o que leva a que, pelo menos enquanto hipótese teórica, o compositor possa ser sempre considerado um criador de bandas sonoras que valem por si mesmas.

Pelo contrário, a imagem fotográfica em movimento é uma característica técnica que o cinema explorou de modo convincente pela primeira vez na história humana (o audiovisual é um seu derivado, e degenerado...) e que não tem paralelo em nenhum outro modo de poiesis.

Não quer isto dizer que um cineasta não possa pretender ser um criador sobretudo sonoro. Mas convém que aquela especificidade essencial não saia da cabeça de nenhum aspirante à sétima arte.

segunda-feira, novembro 11, 2013

Se a essência é a história,...

... deverá haver conclusões a tirar dos factos de a poesia ter nascido oral e só depois se ter feito escrita e de o cinema ter nascido visual e só depois se ter feito sonoro.

sábado, novembro 09, 2013

Tê-los no sítio

No estado pré-humano da vida natural, não há espaço para a ética (uso o verbo haver no presente porque subsistem no planeta alguns redutos que podem ser qualificados de pré-humanos). Do fenómeno infinitamente elegante da polinização até às mais exuberantes estratégias predadoras, a vida (que surgiu toda da mesma sopa) tem de continuamente promover a comunhão entre os seres que a detêm para que neles possa permanecer. O animal que rasga a carne de outro animal e mancha a sua dentição com o sangue da vítima não faz mais do que cumprir essa benigna comunhão, esse regresso transitório e localizado ao espírito da sopa primordial que constitui a norma da sobrevivência. Uma norma tão isenta de piedade como de crueldade.

Sejam quais forem as teorias que a tentem explicar e regulamentar, a ética é um fenómeno de progresso especificamente humano que deriva da tomada de consciência que esse humano vai ganhando do sofrimento do outro. Nesse aspeto, a História universal é de facto um crescendo de vanguarda (com muitos retrocessos, claro). Lembremo-nos de como a personalidade jurídica devolvida ao escravo, a autonomia da mulher perante o género masculino ou as repercussões legais das uniões entre pessoas do mesmo sexo foram-são-e-serão conquistas tornadas possíveis quando um preconceito cede perante a tomada de consciência do sofrimento dos seres marginalizados. Mas durante muito tempo, a situação do homem de raça negra, por exemplo, era incapaz de comover as donzelas mais sensíveis e mais incapazes de apertar o pescoço de uma galinha.

A tourada (muito amada por intelectuais que muito amo) traz na sua identidade a pujança de um mundo de relações homem-animal que é anterior à consciência que hoje se encontra cada vez mais presente de que, mesmo para acudir às necessidades alimentares de um ser omnívoro como o humano, não é necessário infligir sofrimentos desnecessários ao animal. Nesse sentido, a tourada está a deixar de ser uma tradição respeitável para se tornar um anacronismo sem sentido. Ao primitivo, devemos ir buscar tudo, mas apenas isso, que possa iluminar o caminho para o futuro. Ainda haverá muita luta na arena do civismo, mas os aficionados que se preparem para o fim próximo do seu desporto pueril e cruel.

Dir-me-ão que o mundo está a ficar feminino. E eu pergunto: e depois?

domingo, outubro 27, 2013

Sobre poesia II

A poesia é também uma forma de nomear a riqueza (espiritual, sensual, existencial) em tempos de desespero. Ao contrário do que pensam alguns poetas, há de facto algum calor na palavra "sol". Mas não é o calor todo, claro.

Como não se pode viver apenas e sempre na imaginação, a poesia acaba por ser o campo de batalha que ao mesmo tempo a exalta e lhe denuncia a dolorosa incompletude. Algo que Mário de Sá-Carneiro assumiu com mais frontalidade do que Fernando Pessoa.


(Imagem de Kate Forrester)

sábado, outubro 26, 2013

Sobre poesia

Nunca me incomodou a tensão que deriva da teoria que defende (e bem) que a voz que fala num poema lírico não se confunde com a pessoa concreta (biográfica) do autor que a forjou. Pelo contrário, até acolho com alegria essa condição ficcional: ao longo dos quinze anos em que tenho praticado continuamente a escrita poética, sinto que me reinventei como pessoa, e que essa reinvenção espiritual é inseparável da imaginação lírica que com ela estabeleceu um diálogo criador.

Ao mesmo tempo, não encontro uma separação artificial entre a condição de fingidor do poeta e a possibilidade de formular uma verdade idiossincrática que as contingências da sua biografia lhe abriram como marca pessoal. A personagem fluida e mutante que escreve os poemas que eu escrevo aprendeu a dizer aquilo que a personagem escravizada que eu suporto na chamada vida real não tem conseguido exprimir. Por cobardia, tenho sabido viver, ainda assim, demasiado bem. Quando for destruído, será pela poesia que o serei, pela liberdade que nela ergui como se erguem Venezas em Las Vegas ou Louvres em Abu Dhabis. Sou eu que decido aquilo que me pode condenar.

Sobre cinema

1. Ao contrário do que parece ser a evidência para quase todas as pessoas que fazem ou sonham fazer cinema, as imagens tornadas possíveis pela sétima arte parecem-me ainda demasiado ricas em realidade. Quanto mais não seja, os corpos dos atores, se bem que dissolvidos na condição de fantasmas, impõem um regime de mimese demasiado perfeito, demasiado concreto. Eu, que continuo bem mais próximo de ser um sonhador do que um fazedor de cinema, sinto então que a única missão que conheço é a de tentar acrescentar o postiço, o ficcional, o virtual, a toda a matéria que o cinema acolhe com naturalidade.


2. Uma das razões pelas quais gosto de cinema enquanto espetador confunde-se com a gratidão. Sempre que procuramos um quarto com vista no espaço da vida, é muito difícil que essa vista contenha apenas-e-precisamente aqueles itens necessários para ela nos ser significativa. Há sempre um caixote de lixo a entupir a beleza pastoral da paisagem, há sempre uma flor silvestre a tentar sabotar a crueza pura da lixeira a céu aberto. Ora, os cineastas, através de um processo moroso, paciente, caro, por vezes mesmo arriscado, praticam a subtilíssima (e moral) arte do enquadramento. Por muito menos dinheiro do que aquele que teríamos de pagar por um quarto num Splendia Hotel, e por muito menos perigo do que aquele passaríamos numa pensão da Palestina, no cinema temos o direito transitório a uma janela já definida, pulsante de sentido e de coerência. Incapazes de vivermos todas as vidas, incapazes de vivermos todos os momentos que a vida nos pede, agradecemos.

(Imagem de Sean McCormick)

quarta-feira, outubro 23, 2013

Partilha 157

(speak easy)


Se me fizeres um botão de rosa, fá-lo de Santa Teresinha, que é mais apertadinha. Isto o que é: uma frase cómica, um dito porco, a surdina de um exercício de desafio? Não, é a prova decisiva para o Vaticano iniciar um processo de canonização. Nada como o desejo é menos cínico ou obsceno, nada tão digno do nosso empenho e da nossa fantasia. Claro, por vezes, um dos vários luthiers do instrumento se assume Stradivarius. É o timbre da excelência. Mas, assim como há fases da lua e da doença bipolar, como há flores e frutos, eufemismos, disfemismos e períodos do Picasso, deveria igualmente haver estações para foder e estações para amar. Tudo sem drama.

domingo, outubro 20, 2013

Partilha 156

(estilo, featuring Pharrell Williams) 


Nem a beleza doce do algodoal alivia a ferida do escravo que dela cuida, nem o arrozal liberta um pó capaz de maquilhar o céu e a terra com a dança da verdade. Ainda assim, as coisas brancas têm a generosidade daqueles universos que podem ser caligrafados com galáxias negras.

sábado, outubro 19, 2013

Pelo menos tantos planos quantas as letras do alfabeto

1. A comunidade não paga aos seus governantes, não lhes assaca o privilégio inexcedível do poder e não fecha os olhos perante a teia de interesses predadores que a partir desse poder eles constroem, para que esses governantes venham candidamente dizer que não têm alternativas.

2. O capitalismo é suportável, de facto, para aqueles que usufruem do seu conforto enquanto triunfadores relativos. Os portugueses estarão agora a sentir na pele o que é ser o oprimido no seio de um sistema capitalista.

3. Se não há alternativa dentro do capitalismo, talvez seja necessário propor uma alternativa ao capitalismo.

4. É doloroso assistir à invasão da linguagem no seu todo pelo linguajar de uma ideologia. O pensamento fica inquinado desde o seu nascer. Por exemplo, ainda não ouvi ninguém dizer que um incompetente, a despeito de ser incompetente, também precisa de sobreviver e de sobreviver bem.

terça-feira, outubro 15, 2013

Songlike

"It is reasonable to suppose that the first "lyrical" poems came into existence when human beings discovered the pleasure that arises from combining words in a coherent, meaningful sequence with the almost physical process of uttering rhythmical and tonal sounds to convey feelings."


The New Princeton Encyclopedia of Poetry and Poetics (edição de 1993)

segunda-feira, outubro 14, 2013

Vozes

Bach? Aquele senhor que compôs fugas de informação sobre a transcendência?

sábado, outubro 12, 2013

"The quiet man" - imagens





O INATUAL 81

"The quiet man" - John Ford (1952)


O velho fazedor de westerns tenta nesta obra filmar a Irlanda como filmava os Estados Unidos, não só em termos da mestria visual na encenação de grandes espaços de exterior (a que o verde da ilha esmeraldina traz uma ressonância rara em termos das virtudes do technicolor), mas sobretudo ao nível de uma opção pela lenda em detrimento do realismo. Para um irlandês, o esforço de Ford pode parecer eventualmente folclórico (os portugueses, que passam trezentos e sessenta e quatro dias por ano sem ouvir fado ou pensar na saudade, sabem o que isso é), mas, independentemente deste ou daquele detalhe mais constrangedor, a verdade é que o Homero do ecrã consegue aqui inventar um país ao mesmo tempo mítico e só seu, um lugar-cinema que se acorda ao seu discurso e dispensa veleidades documentais.

Ford tinha ascendência irlandesa (ele próprio se chamava Sean, como o personagem protagonista deste filme). "The quiet man" funciona, portanto, como uma evocação do passado, mostrando John Wayne e Maureen O'Hara a percorrerem aquelas paisagens intocadas como se fossem crianças em brincadeira. É uma estratégia cara ao conservador, claro, mas essa evocação equivale em rigor a uma oportunidade de geografia política: no imaginário do cineasta, e ao contrário do que a América do seu tempo talvez lhe pudesse oferecer, a Irlanda rural teria conseguido conservar até ao presente algumas evidências primitivas da possibilidade de vida em grupo.

O assunto está presente na maior parte desta filmografia, mas em "The quiet man" parece ter chegado ao nível da conscencialização por parte do seu autor, permitindo-lhe assumir toda a sua originalidade. Se a Irlanda-mito é equiparada a um paraíso, isso é porque nela as relações humanas seriam sobretudo governadas pelo humor. O dramalhão a que a backstory do boxeur levaria na cultura contemporânea americana é magicamente desfeito na magistral cena final que faz o filme passar da profecia trágica para uma celebração do gosto de viver (como "Le pas suspendu de la cigogne", "The quiet man" adquire toda o seu sentido e toda a sua comoção numa sequência de bravura conclusiva que ao mesmo tempo desvia o filme e o faz transcender-se a si mesmo). É o humor que permite viver em comunidade, que permite que as diferentes visões do mundo nunca entrem em colisão irremediável.

A presença de dois grupos religiosos não deixa dúvidas: Ford faz uma apologia exemplar do pequeno pecado, pois só a sua prática assumida e alimentada pode impedir o grande horror. É o gosto pela pancadaria viril, e não a sua abolição civilizada, que pode constituir uma válvula de escape contra o crime. O mesmo se pode dizer a propósito da pequena mentira, da bebedeira ou da curiosidade sensual dos namorados. Esta visão pragmática e tolerante da vida é o sinal mais evidente da moderação ideológica do cineasta, mas é também um sinal que o distingue e enobrece perante todos os políticos no ativo que militam pela moderação. Em todo o caso, ela tem de ser entendida em contexto: hoje, talvez Ford fosse um defensor dos perseguidos fumadores, mas talvez já não pudesse lançar mão do erotismo enquanto indutor de pequenos pecados...

A consumação do amor (mais até do que a sua fatura sexual) precisa sempre de passar por um conjunto de rituais prévios. Ainda que a chuva e o vento inundem o par com a poesia da sensualidade, esses rituais têm de ser cumpridos para que o amor seja sentido como ponto de chegada e ponto de partida. Nisso, Ford é nostálgico. Mas a coerência mantém-se: é preciso que os namorados fujam das regras de namoro que lhes pretendem impor, mas também é preciso que o façam com baby steps (passos de criança), que o façam governados pelo sentido de humor. Pergunto aos meus leitores quantos filmes já viram que tornem, como este o faz, o amor indissociável do humor? A cultura é que nos faz, é um facto, mas nós só a podemos refazer - o que é outro facto.

Um dos meus filmes favoritos.

quarta-feira, outubro 09, 2013

Três questões para Pedro Passos Coelho

Não tendo sido convidado para o programa que decorre neste momento na RTP, deixo aqui as perguntas, sintéticas e abrangentes, que gostaria de fazer ao senhor Primeiro Ministro de Portugal:


1. Acha que a elite nacional pode impor à restante população um conjunto de medidas indutoras de grande sofrimento sem que essas medidas a prejudiquem a ela própria? Se há uma justificação para a política que o governo está a praticar (até porque boa parte dessa política é definida por agentes estrangeiros), está o Senhor Primeiro Ministro disposto a assumir, para si e para os seus, as consequências destrutivas a que ela leva? Se vamos rever a Constituição, poderemos nela incluir, como elemento fundamental, a necessidade de todo e qualquer governante se ter de comportar mediante a obediência ao imperativo categórico tal como Kant o definiu na sua teoria moral?


2. Este é um tempo excecional que exige governantes excecionais que, mais do que serem meros gestores das adversidades que ameaçam o país, as tentem combater com uma coragem muito superior àquela que seria aceitável em tempo normal. O senhor considera-se um desses governantes, ou não passa de um funcionário do sistema e da contingência?


3. O senhor Primeiro Ministro tem consciência de que, após a sua governação, a sociedade portuguesa estará completamente transformada? Nomeadamente em termos do trabalho, tem noção de que a suposta mera gestão de uma crise está a levar a um aviltamento profundo do seu valor?

sexta-feira, outubro 04, 2013

Escolha sempre o humor

Quem desafia a monstruosidade do mercado das artes plásticas não é o autor conceptual, mas sim o falsário.

quarta-feira, outubro 02, 2013

Pus moderno

Hoje, porventura com razão, nenhum autor se deve sentir obrigado a assumir uma postura de vanguarda. A ingenuidade, contudo, talvez já não seja perdoável.

sábado, setembro 28, 2013

Partilha 155

Diapasão


Pode o lá estar às vezes tão longe
que nos parece um injusto ralhete.
O mundo afina-se então nesse dia
por alguma coisa que esteja mesmo aqui.
Como o gafanhoto.

Nos seres que não se mexem, portanto,
já só interessa o que neles pode saltar:
as cores nas casas,
os frutos nas árvores,
as histórias na cabeça do avô.

Chove só para as nuvens não estarem quietas,
e faz logo sol
ou logo neva
só para a água não ser sempre o mesmo líquido.

Os meninos deixam de jogar à macaca
e vão para o estrangeiro,
para o macaquinho chinês.

Entretanto,
já ninguém sabe onde para o gafanhoto.
Teremos de encontrar outra coisa,
amanhã,
mesmo aqui.

domingo, setembro 22, 2013

Parar com a cagança

Certas publicações culturais referem-se ao Senhor X como sendo: poeta, prosador, romancista, novelista, contista, dramaturgo, guionista, letrista, tradutor, ensaísta, crítico, diarista, cronista, polemista, jornalista... Apesar de esta frase ter o aspeto exato de uma piada, ela é contudo representante de uma monstruosidade de estilo facilmente verificável na realidade da nossa imprensa.

Quando um determinado autor adquiriu o seu relevo dentro dos pressupostos de um género específico, é natural que esse género seja mencionado. Camões foi um poeta (apesar de também ter escrito teatro) e George Steiner cumpre os requisitos de um ensaísta (apesar de por vezes tentar a ficção).

Quando um autor partilhou a sua atividade em duas frentes muito distintas e muito específicas, também não incomoda ouvir dizer que Tchékhov foi um dramaturgo e um contista.

Mas no caso das serigaitas que vão a todas (eu próprio sou bastante promíscuo...), pedia o especial favor de, quando mencionarem o Senhor X, nos dizerem simplesmente que ele é... escritor.

quarta-feira, setembro 18, 2013

Partilha 154

(impressão)   


O limoeiro do meu quintal é semipresidencial: no inverno ele é Belém, no verão, São Bento. No inverno ele acolhe a embaixada dos três reimosos magos: a chuva, o frio e o vento. No verão é porta aberta para o assunto que se segue: as estações suportáveis são muros entre cor de Píramo e cor de Tisbe – qual graffiti de amora qual quê? Os frutos fazem de gémeos melhor do que atrizes de telenovela, mas deixam-se abrir como se fossem cadernos de inédito artista, in-quarto, in-octavo (a esmo, nunca a ismo)… Mandarei para o Tribunal Constitucional esta proposta de lei de talião que diz que o limoeiro apenas dá possibilidades de limão.


sábado, setembro 14, 2013

Lucas 11, 33-36

Leitura: o que decide a higiene moral do corpo é a maneira como este olha para o mundo.

sexta-feira, setembro 13, 2013

Fail again...

Quando, interrogado pelos fariseus sobre a validade do divórcio, Jesus Cristo deu a célebre resposta: "o que Deus uniu não o separe o homem", ele poderia na verdade estar a defender a legitimidade do divórcio, alegando que, quando este se revela necessário, é porque nada de divino foi unido num determinado casamento (a união é ilegal). Ora, é preciso tentar de novo...

quarta-feira, setembro 11, 2013

Uma impossibilidade, uma possibilidade

Observo o esforço épico dos operadores de câmara (e seus associados) que registam as imagens dos programas de divulgação da vida natural. Lado a lado com perigosos leões a caçarem elefantes, passando semanas em convívio com milhões de baratas que fazem a sua vida sobre fezes de morcegos, partilhando o impossível inverno da Antártida com pinguins (os únicos animais que suportam tais rigores), eles são a demonstração mais expressiva e hiperbólica que existe do sofrimento vital que é sempre necessário para se produzir imagens de fotografia ou de cinema.

Tímido, preguiçoso e não nadando propriamente em coragem física (para além de algo inepto para assuntos técnicos), nunca poderia eu ser fotógrafo. A paixão por criar imagens de cinema é imensa, mas ela só se torna possível porque o compromisso coletivo que se produz em torno da responsabilidade de uma rodagem me impede de fugir.


(Fotografia de Elliott Erwitt)

segunda-feira, setembro 09, 2013

Obs

1. Julgo poder afirmar com segurança que reconheço, em cada pessoa com quem já me cruzei, uma certa quantidade de grandes qualidades. Ainda que o conceito de "qualidade" seja dúbio, aceitemos a simplificação provisória e intuitiva de que ele se refere a traços de personalidade caracterizados por uma espécie de positividade vital. É óbvio que em toda a gente reconheço também grandeza no outro lado do espectro ético...

O curioso, todavia, é que esse set de grandes qualidades, dependendo do tipo específico que as define e da forma como elas se conjugam entre si e com os grandes defeitos, não garante nem a felicidade das pessoas que se relacionam com o possuidor do set (às vezes muito pelo contrário) nem sequer a felicidade desse mesmo possuidor (às vezes muito muito pelo contrário).

Para ingerir tudo isto, é preciso ter um certo gosto pelo romanesco.


2. Os anfitriões de um encontro recente, pródigos em simpatia, amizade e talento para receber, revelaram-se, no fim dessa tarde bem passada, inveterados fascistas (estou a escolher a palavra com rigor). Projetado para uma fantasia de guerra civil, vi-me de imediato a trocar morte com pessoas que para comigo só tiveram ternuras.

A paixão sentimental pode levar ao crime, mas o saldo da faca e do alguidar raramente excede uma ou duas vítimas. A paixão político-ideológica, igualmente irracional e igualmente difícil de prever nas mais modestas personalidades, é capaz de engendrar assassinos em série e genocidas (tanto naqueles que se aproximam da nossa razão como nos que dela se afastam).

Retribuo o conselho com que toda a gente me persegue: estabeleçam relações de cidadania que sejam sobretudo estáveis e racionais, e deixem a paixão para as coisas que não interessam.

Discordância

1. Na sequência de uma investigação requerida por um projeto criativo pessoal, estou neste momento a ler o excelente "The Cambridge Companion to the Sonnet". Aconselho vivamente a quem se interessar por tal assunto que não interessa nem ao menino Jesus (o único senão é que, a partir do capítulo dedicado ao Shakespeare, o enfoque dos ensaios se reduz à literatura anglo-saxónica). São textos claros, com a extensão justa, sem demasiadas remissões, partilhando teses que em simultâneo resumem o conhecimento mais relevante sobre cada assunto e propõe novas perspetivas. 

Até agora, o artigo que mais apreciei foi o da professora Catherine Bates, mas é também aquele que mais me apetece rebater.

A ideia defendida pela académica de que aquilo que o escritor de sonetos medievais/renascentistas vê na mulher amada não é tanto a integridade desse objeto mas a própria ideia de Amor (ideia essa que reflete muito mais o poeta-Narciso do que a destinatária desse seu afeto espetacular), precisa de ser contrabalançada com o reconhecimento de que, numa obra de arte (ou seja, de pensamento), todo o ser real é vampirizado pelo intelecto até se tornar um lugar mental. 
Quando Godard filma Anna Karina em "Vivre sa vie", é verdade que nos dá belas imagens da sua beleza e que quase nos consegue convencer de que, em alguns momentos, podemos olhar para a alma da atriz sua mulher. Mas, apesar de toda essa comoção (mais do que mimética), Anna Karina não deixa de ser um lugar mental, um lugar de cinema, e é só nessa condição que ela pode existir e comover no contexto de um filme. Mesmo que o filme abra brechas psíquicas na sua encenação que o façam por vezes ultrapassar o mero fingimento.
Agora, se as sequências de sonetos da Renascença britânica não conseguem construir uma imagem relevante da amada por estarem demasiado dependentes das convenções retóricas iniciadas por Petrarca, isso já é outra história...


2. Outra tese de Catherine Bates: toda a paródia (pelo menos no contexto da lírica renascentista) não deixa de ser uma forma de bajulação do modelo parodiado, modelo esse de que o poeta que se julga inovador não se consegue afinal libertar.
É uma ideia muito perigosa. Todos nós temos uma infância na nossa relação com a cultura, e essa infância a todos coloca mitos no imaginário. É muito difícil abandoná-los por completo (impossível?), especialmente porque os mitos têm o condão prático de permitirem uma comunicação célere e eficaz, na medida em que tendem a ser universais. Todo o poeta que escreve sobre amor, escreve de facto com a lírica de Petrarca algures em suspenso no seu pensamento. Mas isso não significa que o diálogo com o modelo seja sempre sorvido por este.
Poderemos afirmar que o "Ulysses" de Joyce não é um objeto formal e materialmente distinto da "Odisseia" de Homero? Ou que "Une femme est une femme" (Godard de novo) é um filme com a mesma índole conceptual dos musicais de Hollywood?

Ouro invertido

Gosto mais de cinema português que de cinema anglo-saxónico.
Gosto mais de poesia anglo-saxónica que de poesia portuguesa.

sábado, setembro 07, 2013

Partilha 153

(places to visit before you die)


Cai nevoeiro sobre a cidade do porto: é um tira-olhos que põe olhos a quem quer continuar a ver. Os caçadores de imagens saem para a rua. Torres cortadas ao meio, o rio em paisagem onomatopaica, e diz-se que vão fechar o mercado do bolhão, é uma pena, era o único sítio naquele sítio onde se podia comprar maçãs de Adão. Sentado em cima de um cato, eu aguardo com linha e anzol. Parece-vos demasiado recato? Vereis os meus poemas-tordos, os meus poemas-lebres, os meus poemas-javalis.




Urbi et orbi















Certas pessoas, indecisas entre uma futilidade cruel e a intelectualidade da culpa, fazem a defesa daqueles filmes que, apesar de oferecerem uma mensagem importante, são divertidos, ou daqueles filmes que, apesar de serem divertidos, oferecem uma mensagem importante.

Isto de gostos na cama e no cinema tem muito que se lhe diga. Mas um filme divertido que se preze tem de fazer da diversão a sua própria mensagem.

Tradição, tradução

Nunca compreenderemos uma experiência se a abordarmos com as mesmas palavras com que ela se costuma apresentar.

terça-feira, setembro 03, 2013

Relatório astronómico


1. Um divulgador de ciência informava na televisão que, perante a suposição muito forte da existência de grandes quantidades de água na Lua, já havia empresas privadas interessadas na exploração do recurso.

Se o capitalismo também conseguir foder o céu, Deus não existe.


2. Há escritores que escrevem muito rápido, e outros que o fazem com vagar ponderado. Há textos que surgem de improviso e outros que estão há décadas a ser pensados. Há quem reveja muito, há quem pratique escrita automática. 

Mas nada disso releva. Cada texto demora mais tempo a escrever do que demora a um rio escavar um Canyon. Cada texto começou a ser escrito no início da vida no planeta, talvez na própria explosão do Big Bang, e foi um processo de escultura por erosão que, passo ante passo, o fez chegar à mão do escritor enquanto memória viva, e na forma que ao escritor parece (e de algum modo também é) sua.

domingo, setembro 01, 2013

Primeiro pensamento

Não é só o texto que é declamado no teatro. Os corpos dos atores, as luzes, os cenários, o guarda-roupa... é tudo declamado.

sábado, agosto 31, 2013

Ich bin eine Frau

Acho bem que se discuta o piropo. E, embora ainda seja cedo para falar de legislação, defendo que, por exemplo, no meu caso, que sou elemento do sexo masculino, obeso, feio e a caminhar para o envelhecimento, o piropo à minha pessoa passe a ser obrigatório. É um crime não o fazer. 

Agora a sério, não haverá legislação suficiente que controle a eventual passagem de um comentário ao insulto? E o intuito de lutar contra a permanência de uma cultura machista na sociedade (que, em todo o caso, já nem é o que era...), será bem servido com a implicação com uma questão tão localizada e menor (quando todos os esforços são poucos para se lutar contra a violência doméstica ou a impunidade dos violadores)? Se vamos começar a considerar que um ato de linguagem é assédio sexual, não estaremos em breve a tentar criminalizar os maus pensamentos?

Havendo uma real desigualdade entre géneros no que concerne a esta prática, sugiro então que as mulheres comecem a dizer piropos. Aposto que, dentro de alguns anos, elas já levam a palma aos homens!

sexta-feira, agosto 30, 2013

Efeito imediato

Vi na televisão um psicólogo chamado Ludgero Panhinho.
Já não me sinto tão sozinho.

O pus dado

Num artigo que saiu hoje no jornal PÚBLICO, Gonçalo Portocarrero de Almada assume a sua defesa, absolutamente legítima, do casamento civil e religioso, com base numa argumentação tão desonesta e tão deselegante que me conseguiu predispor ao comentário da espuma dos dias (o que, convenhamos, não é tão fácil quanto isso):

O senhor em causa assumiu um contrato de trabalho com um Patrão que se fartou de falar, sobretudo, de amor (e não de vínculos contratuais). E como o senhor saberá, todo o tema pode ter tratamento tanto de telenovela como de filosofia, pelo que o enlamear contingente pela ficção televisiva do tema amor não o condena necessariamente à futilidade e à inoperância. Mas a comparação de que o senhor se socorre na sua trapalhada sofista traça-lhe de imediato o retrato: há de o senhor arder no Inferno da solidão por ter equiparado o casamento a um contrato de trabalho.

Se eu fosse tão desonesto quanto o senhor, escreveria algo do género: "Apliquemos as regras do direito laboral ao casamento. Quando o patrão do casal chega a casa e a sua operária não cumpre o débito conjugal, ele pode de imediato descontar-lhe o tamanho da mesada. Esta aplicação da Lei a todos os aspetos da vida humana, mesmo os mais íntimos, será fantástica, pois finalmente, na família e na sociedade, se observará, escrupulosamente, o espírito do fascismo..." 

Mas eu não vou escrever isto. Depois de lhe lembrar que, na selva, tudo corria bem até os colonizadores e seus alucinados missionários terem ido perturbar o seu equilíbrio divino (em todo o caso o senhor sabe que uma união de facto não é uma selva), vou dizer-lhe uma só frase: não sois digno de entrar em minha morada.

Political Geographic

1. A dificuldade arriscada e a infinita paciência que é exigida aos operadores de câmara dos documentários sobre a vida natural nunca transparece na montagem (no sentido de conceção geral) do produto audiovisual acabado. O pacote final é tão lustroso, tão limado, tão ilusoriamente inconsútil, que não faz justiça nem ao cinema nem à natureza. Ao técnico virtuoso (que recolhe imagens notáveis) corresponde um realizador/montador desonesto. Mesmo os making of são decalcados da estrutura narrativa mais grosseira do entretenimento.


2. No primeiro episódio da série da BBC "Planet Earth", a atividade natural mais exibida é o ritual predatório de várias espécies. Pergunto-me se nos documentários do mesmo género produzidos pelos países comunistas se insiste na mesma leitura da natureza...

Percurso do método

Não tenho grande imaginação para produzir conceitos. Se escrevo ensaios, é para combater o delírio cultural. Nesse aspeto sinto-me próximo da sensibilidade de um autor como Luis Buñuel, que filmava contra o obscurantismo (mas com muito mais piada, claro).

Mesmo assim os poemas parecem-me sempre mais verdadeiros do que os ensaios.


(Na verdade, o corpo essencial do meu ensaísmo é o exercício independente da leitura)

quinta-feira, agosto 29, 2013

Europa 2013

O mais provável é que as corporações de bombeiros voluntários sejam uma das raras manifestações de generosidade organizada, genuína e consensual que existem no mundo contemporâneo.

quarta-feira, agosto 28, 2013

I have a dream

Eu tenho o sonho prático (já que o dinheiro está a desaparecer) de que tudo o que seja necessário para providenciar a saúde das populações seja colocado fora da esfera da economia de mercado. 

Os lobbies? O tempo dos lobbies para sempre acabou. E podem sempre criar o seu próprio (e novo) lobby.

terça-feira, agosto 27, 2013

Discurso do método

1. Há poemas que se impõem de repente e quase inteiros (no meu caso isso funciona porque só faço poemas curtos). Mas há outros, bem mais numerosos, que ficam a pairar em projeto, a alimentar-se do quotidiano e da imaginação, a usar criteriosamente o seu rigorosíssimo poder magnético, e que só se deixam escrever quando uma estranha gravidade da vida e da mente cria as condições de entrega adequadas para tal execução.


2. Por vezes, um determinado pensamento formulado revela-se medíocre, mas, logo que eu substituo essa forma por uma verbalização muito mais exigente, o próprio pensamento parece ganhar pontos na escala da racionalidade (sem que eu o tenha conscientemente reformulado no mero conforto da mente). Nada disto me incomoda. O pensamento é algo que só conseguimos fazer por via da linguagem, e a perfeição que o fundo pode atingir não se distingue da perfeição da forma. Pensar bem é usar bem a linguagem. Não há mais matemática filosófica do que esta.

Duas pequenas

1. A minha sobrinha Joana, que tem neste momento três anos e meio, já domina por completo a base do mecanismo da linguagem. Discursos patetas, algumas pronúncias cómicas, mas o essencial está lá (sintaxe, tempos verbais, consciência de pronomes, uso de preposições, etc.). Curiosamente, comete os mesmos erros daqueles falantes do português que todos acusamos de ignorância linguística (ex.: "eu puse-a" em vez de "eu pu-la"). Talvez isso confirme que regras como a que este exemplo subverte são preciosismos algo estranhos à lógica intrínseca da maquinaria da nossa língua.


2. A minha gata Clara que, segundo o seu veterinário, terá no máximo quatro meses de idade, era uma criança destravada e tresloucada que passava o dia a brincar. Muito rapidamente (oh! splendor in the grass...), adquiriu a disciplina apática da sua congénere muito mais velha (a gata Kika), ou seja: dormir, dormir e dormir. Pensámos que a maturidade tinha enfim chegado. Acontece que a bicha estava doente, aparentemente intoxicada por uma planta. Após a devida medicação, o destravão e a tresloucura regressaram. Quod erat demonstrandum.

segunda-feira, agosto 26, 2013

domingo, agosto 25, 2013

Livre

Às tantas, os evangelhos são textos escritos por pais amargurados com a possibilidade de largarem os seus filhos pelo mundo...

Ato de contrição

Fiz um filme em torno do conto da Gata Borralheira, e escrevi recentemente (para acabar de vez com a obsessão) um texto dramático a partir do mesmo material feérico. No entanto, em nenhum dos momentos me passou pela cabeça a evidência de que, no presente, as verdadeiras Cinderelas (ascensões principescas a partir de eleições podais) são os jogadores de futebol.

quinta-feira, agosto 22, 2013

Confissão seguinte

Não considero que a linguagem seja um meio limitado para exprimir seja o que for. É um instrumento: pode ser usado para barrar manteiga ou para matar. Em todo o caso, a poesia é uma ferida aberta na impossibilidade de viver apenas na imaginação.

segunda-feira, agosto 19, 2013

Perceber

Os dois últimos filmes que vi, comme il faut, numa sala de projeção pública ("Dans la maison" de François Ozon e "The Bling Ring" de Sofia Coppola) abordam praticamente o mesmo tema: a vontade do adolescente invadir o espaço doméstico das pessoas que ele sente estarem num plano socialmente superior ao seu.

A premissa do filme francês era muito mais original e fascinante (na medida em que pressupunha que uma classe social é um trabalho de ficção), mas Ozon parece não ter percebido as implicações do seu material. A variação de Coppola é bastante melhor pois a realizadora, talvez por ter ligações biográficas ao mundo do luxo e da celebridade de Los Angeles, percebeu com muito mais perspicácia que tipo de filme poderia fazer a partir da história verídica que o informou.

É tão simples quanto isso: perceber (algo que Hitchcock, cineasta do consenso contemporâneo, fazia com uma perna às costas).


PS - Em abono da verdade, diga-se que "Dans la maison" consegue fazer o espetador perceber melhor o fascínio em causa na casa a invadir. Coppola parece presumir que todos estamos sintonizados com os encantos das marcas e do lifestyle dos famosos, o que faz com que, nesse aspeto, o seu filme seja menos eficaz.

domingo, agosto 18, 2013

Confissão de meados de agosto

A minha tentação é sempre fazer um comentário inesgotável a um poema de três versos e reduzir um livro de mil páginas a um mero parágrafo.

sábado, agosto 17, 2013

E agora, uma máxima a sério

Um determinado saber só se encontra adquirido quando pode ser reinventado por aquele que o adquiriu.

Pianista?

Quem pode querer tocar Chopin, Liszt e Rachmaninoff, quando há Dowland e Bach, John Cage e Messiaen, o flamenco e Billie Holiday, música para serrote e para harmónica de vidros, Chico Buarque e Leonard Cohen, a poesia declamada e a voz de António Zambujo?

quinta-feira, agosto 15, 2013

Técnica Marinho-Pinto

1. Gilles Deleuze dizia que a filosofia não se faz em debate, mas em solidão.

Na verdade, a gente só se entenderia a conversar (e agora falo por mim e não pelo autor francês) se os conversadores fossem mais amigos da verdade do que performers. Ora, não é isso que acontece (basta ver uma sessão dos "Prós e Contras", caso se tenha fígado para tal). Ganha o debate quem for mais rico em competências sociais, e o seu sucesso público não deixa de ser um acordo semelhante àquele que, por via do panes et circenses, mantinha o mundo sempre igual à sua própria mediocridade.


2. Um dos momentos em que um debate sempre me exaspera é quando um argumento, cujo teor de verdade se encontra já decidido por prova, regressa à praça pública por causa do seu vigor demagógico. Por exemplo, está documentado que, numa espécie de símios, as fêmeas apenas praticam a genitalidade heterossexual para poderem procriar e que, posteriormente, assumem relações lésbicas duradouras para tomarem conta das suas crias. Contudo, a frase forte "a coadoção homossexual nunca existiria na natureza" continuará a ser invocada nas discussões sobre o assunto porque ela é pródiga em populismo imediato e eficaz. 

Percebo que o problema mencionado não seja pacífico e que muitas das resistências que se lhe opõem sejam de facto conversáveis. Mas, a partir do momento em que um determinado argumento deixa de ser utilizável pela reflexão, por favor deixem o lixo onde ele merece estar.

domingo, agosto 11, 2013

Vida oral, vida escrita

Todo o autor lírico (e é difícil encontrar um que, como Artavazd Pelechian, pareça estar completamente isento dessa energia) é o Platão do seu próprio Sócrates, o evangelista do seu próprio Cristo.

Luz, insetos, espuma dos dias, morte, camélias...

Uma poética é o conjunto de lugares mentais a que um homem sempre regressa.

sábado, agosto 10, 2013

Em equipa vencedora não se mexe

Pretendo não escrever demasiados textos (nem textos demasiado longos) para não interferir em excesso no tempo verdadeiramente livre da vida do meu leitor. A preguiça tem sido, nesse aspeto, um aliado inestimável.

quinta-feira, agosto 08, 2013

Tradução 32

O comboio (de Emily Dickinson)


Gosto de o ver papar as léguas,
E devorar os vales,
Parando p’ra comer só nas cisternas;
E andar, depois, tão colossal,

Em torno de uma pilha de montanhas,
E sondar, com toda a sua soberba,
As choças que ladeiam as estradas;
E depois desbastar uma pedreira

Para o seu corpo caber nela,
Ainda que rasteje versejando
A mais ruidosa e horrenda queixa;
E a si mesmo seguir p’lo monte abaixo

E relinchar como Boanerges;
E enfim, pontual como uma estrela,
Parar – dócil e todo-poderoso –
À porta da cocheira.

quarta-feira, agosto 07, 2013

"La strada" - imagens





O INATUAL 80

"La strada" - Federico Fellini (1954)


Irmão da perra tecnologia ferroviária, assumido não tanto por intelectuais como por aventureiros, ainda para mais mudo e distanciado pelo preto-e-branco, o cinema começou de facto como um início de História. As metáforas pouco rigorosas que lhe atribuem um classicismo e uma modernidade são sintomas dessa vontade cinéfila de concentrar todo um modelo de historiografia universal no breve espaço de um século. Por causa disso, e como sempre acontece quando um longínquo tio milionário deixa a sua fortuna a uma caterva de descendentes, tudo quanto esse início legou como lenda só pode ir sendo recuperado pelo devir-cinema sob o prisma, se não da degeneração, pelo menos do afastamento crítico. A figura do palhaço que Charles Chaplin e Buster Keaton trabalharam de maneira paradigmática é assim minada pela austeridade com que Jacques Tati sofistica o burlesco, ao mesmo tempo que Federico Fellini a utiliza como lamentação pelo definitivo fim da pureza (em todo o caso, alguma vez esta existiu?).

A personagem de Gelsomina, responsável em grande parte pelo sucesso de "La strada", só é pura (e comoventemente pura) porque apresenta sintomas de atraso mental. Fellini parece saber extrair o teor das suas personagens de tonalidades poéticas bem determinadas: Gelsomina é um prolongamento serôdio da infância (as crianças rodeiam-na nos momentos mais descontraídos da sua vida), o Doido é um avatar do seu pequeno e melodioso violino, e Zampanò, claro, não se distingue muito da corrente de ferro com que executa o seu principal número circense. Isso não impede que o realizador faça, na figura deste último, um retrato verosímil da rudeza viril que prepondera nas classes mais pobres, mas todo o filme é uma emanação da beleza problemática (e desafiadora do programa neorrealista que então estava em voga no cinema italiano) do espírito de Gelsomina.

Ora, Gelsomina é interpretada por Giulietta Massina, atriz com quem Fellini se casou sob o argumento de que, ao contrário do que acontecia com as mulheres mamalhudas que faziam a sua preferência erótica, ela o fazia rir. A maneira como o realizador a filma ultrapassa largamente o mero exercício profissional, ou mesmo artístico, pois é o amor entre ambos que aqui se está jogar. O casal é alegoricamente transposto para um par de artistas de entretenimento vagabundo, e Fellini dá, de si mesmo (na personagem Zampanò) um retrato hipercrítico. Na verdade, ele parece não compreender por que razão aquela mulher tão anormalmente generosa (e que é difícil de acreditar que assim o seja) permanece a seu lado e assume que, incapaz de lhe garantir as principais expectativas de um casamento cristão-burguês, o que lhe pode, contudo, oferecer é uma estrada onde ela pode conhecer um mundo singular, bem mais imaginário do que real. O nomadismo, enquanto relação livre com a constante surpresa dos estímulos do mundo, parece ser um traço de desejo comum a ambos.

No road movie dos sentimentos, haverá essa coisa habitualmente fixa na palavra amor? O que pode um ser humano gerar noutro ser humano? "La strada" termina com a imagem de Zampanò, um bruto, a chorar. E é tão-somente esse o objetivo de Fellini: compor o poema disfórico da sua amada (a sua elegia à pureza) para lutar contra o embrutecimento do espetador.

"La strada" - excerto da banda sonora de Nino Rota

O irónico Shrek

A dimensão mais simpática da série de filmes que narram as desventuras do ogre Shrek é a grosseria com que ele afronta as taras de higiene e de etiqueta da maturidade humana. Parece-me que as crianças se relacionarão bem com essa pequena ousadia.

No entanto, ela deriva de um espírito irónico que parece ter invadido quase toda a produção cinematográfica para crianças e que, suspeito, tem como público-alvo os adultos que as acompanham à sessão de cinema. Nada tenho contra a ironia. Pelo contrário, tenho grande dificuldade em não ser irónico nas minhas criações. Mas sinto genuinamente o receio de que essa estratégia não sirva o propósito de um conto de fadas, pois para que a mensagem deste atue ao nível inconsciente é preciso que a criança não se sinta distanciada da narração que lhe é proposta. Os filmes da Disney são traições dos Irmãos Grimm, e os contos destes são por sua vez desvios à riqueza da tradição oral que os informou, mas pelo menos aquelas animações propunham um conjunto de estímulos menos invariáveis (do kitsch ao medo).

Tudo bem, podem os autores dos filmes não querer fazer contos de fadas. Mas se assim é, por que razão citam de forma insistente os tesouros da cultura feérica? Até que ponto a pós-modernidade não tende a reduzir-se a um inútil divertimento erudito?

Uma nota a "Tradução 31"

Algumas das vezes que estive a dar assistência aos exercícios da minha sobrinha de três anos no baloiço de minha casa, ousei adornar a sua doce oscilação com improvisações rimadas (algo para o que não tenho o menor talento, confesso). Enquanto este brinquedo surtiu efeito (ou seja, uma ou duas das primeiras ocasiões), a Joaninha achou que a arte de rimar era sobretudo uma coisa cómica. Penso que é esse o objetivo de Carolyn Wells ao combinar, em "Puzzled", um ritmo demasiado repetitivo com a rima emparelhada. Tentei manter esse pressuposto formal na minha tradução.

sábado, agosto 03, 2013

Até que a morte nos pare

A cultura antiga era a resposta coletiva e não-consciente do órgão cérebro aos desafios que faziam a espécie humana e com que essa espécie se ia fazendo. 

Sendo o humano altamente dotado para a solidão e tendo de dar provimento ao complexo e delicado problema da formação de outros humanos (as crianças da tribo), o casamento acabou por surgir como resposta eficaz a tais dilemas teórico-práticos. Conjugado com a exigência de castidade feminina até à noite de núpcias, a instituição não tinha falhas: dada a inacreditável dificuldade cultural e jurídica aposta à dissolução do casamento, o macho via-se impossibilitado de abandonar a fêmea após o desinteresse que naturalmente decorresse após o primeiro orgasmo a que ela o conduzia (lamento, mas o romance sempre foi um personagem secundário nesta história).

A modernidade em grande parte falhou. Não só a cultura se perpetua em modo inconsciente (como explicar o flash mob que um papa engendra onde quer que vá dizer a sua meia-dúzia de lugares comuns?), como essa mesma modernidade engendrou mitos demasiado complexos para que os humanos deles pudessem fazer uso razoável (a União Soviética foi, a esse título, o grande SWAP antropológico...). Mas a liberdade, essa, foi sendo, se não conquistada, pelo menos consciencializada.

A não ser que o acalentemos por motivos nostálgicos (que valem o que valem), o casamento já não parece ser um instituto relevante na contemporaneidade. A facilidade de foder e a legitimação do divórcio retiraram-lhe todo o seu impacto dissuasor. A relação assumida, acalentada e lutada entre dois seres humanos livres e disponíveis para o valor sem tempo do amor é, na verdade, um cabo de bons trabalhos. Há relações que resultam, há outras que não, outras mais ou menos, para tudo é preciso sorte, talento, trabalho e escola. Diz o Chico Buarque que "para sempre, é sempre por um triz". Faz por isso mais sentido que os direitos e deveres jurídicos resultantes da coabitação resultem do tempo conquistado em união de facto (designação, de resto, execrável), em vez de serem automatismos gerados por um contrato também ele especulativo e muitas, muitas vezes, sumamente tóxico.

Dito tudo isto, considero-me um sentimental.

quinta-feira, agosto 01, 2013

quarta-feira, julho 31, 2013

Tradução 31

Perplexo (de Carolyn Wells)


Em Vila Plumitiva havia um velho escrevedor,
Chamado Homero Cícero Demóstenes Doutor.
“P’ra variar,” disse ele, “dos tratados ou ensaios,
Durante este serão escrevo um livro de catraios.”

Buscou seus calhamaços com bolor latino e grego;
Sondou enciclopédias, manuscritos de outro tempo,
Pesquisas sociológicas, estudos de equilíbrio –
“Para este público-alvo tal saber vem em auxílio.”

Obrou até bem tarde, escrevinhou certo e sabido,
Sentiu-se realizado ao dar o afã por concluído;
“O mérito do livro,” pensou ele, “é todo meu.”
E agora está perplexo pois nenhuma criança o leu.

domingo, julho 28, 2013

sábado, julho 27, 2013

Traduções 29 + 30

INTRODUÇÃO À POESIA (de Billy Collins)


Peço-lhes para tomarem um poema
E o segurarem contra a luz
Como um diapositivo

Ou então para encostarem o ouvido à sua colmeia.

Digo-lhes deitem um rato dentro do poema
E vejam como ele descobre a maneira de sair,

Ou caminhem dentro da sala do poema
E procurem às cegas um interruptor.

Quero que façam esqui aquático
À tona ondulante de um poema
E acenem ao nome do autor na margem.

Mas eles só sabem e querem
Amarrar o poema a uma cadeira
E torturá-lo até ele se confessar.

Começam a bater-lhe com uma mangueira
Para descobrirem o que ele quer dizer.



CANIS MAJOR (de Robert Frost)

Esse Acima de cão
Grande besta celeste
Com uma estrela num olho
Dá um salto no leste.

Ele dança de pé
No caminho do ocidente
E nem uma vez cai
Sobre as patas desistente.

Já eu sou abaixo de cão
Mas esta noite vou ladrar
Com o grande lá de Cima
Que corre o escuro a brincar.

quarta-feira, julho 24, 2013

segunda-feira, julho 08, 2013

Partilha 150

(estrela de mel)


Muda de amor, sim. Mas não como quem muda de camisa, nem como esses restaurantes chineses que, todos, de repente, se tornaram japoneses. Muda de amor como a agulha de uma bússola raramente se inicia no seu ponto final. Muda de amor como a nave sucumbindo ante a camisa-de-forças marcianas, ou como a aurora, que após ter sido crismada pelo príncipe, se passou a chamar boreal. Muda de amor, sim. Mas como quem faz, de um direito de esquerda, um gancho de boxeur. Muda de amor como aquele condutor que o GPS converte em, do mundo, um Teseu, ou como muda o sangue feminino à passagem dos meses, à passagem da uberdade e das traições da idade.

10%, 90%

Numa entrevista televisiva, o grande humorista Ricardo Araújo Pereira disse não acreditar no mito do talento, defendendo assim que o seu sucesso profissional se deveria essencialmente à famosa trilogia: trabalho, trabalho, trabalho. RAP é um homem extremamente culto, e conhece a humildade polida dos literatos. Para além disso, tem ar de ser um gajo porreiro. Mas, na verdade, a justificação da criatividade pelo trabalho não é menos mítica, o que no presente caso quer dizer desonesta, que a justificação pelo talento.

Saltando imediatamente por cima da ideia de dom divino (este é um blogue agnóstico), começo por confessar a minha ignorância em assuntos genéticos. Nasce-se poeta, humorista, cientista? Acho difícil que, estando tanta característica prevista no património genético de um indivíduo, as suas inclinações (ou talvez devêssemos dizer facilidades) talentosas não encontrem aí igual provimento. Mas isso não quer dizer que se nasça seja o que for... Pode é uma criança ter mais ou menos jeito para chutar à bola, para se exprimir verbalmente, para distinguir alturas de sons, etc.

Escrevo e fiz um filme (gostaria de fazer muitos mais). Para ser o mais sincero possível, defendo que o que determinou a capacidade para fazer alguma dessas atividades foi a evolução (quase mutante) da minha atenção. O que possa existir de predisposição genética é muito menos relevante do que a narrativa que o meu prazer foi biograficamente estabelecendo em torno de um conjunto determinado de poiesis, de práticas criativas. Só comecei a escrever de forma razoável aos vinte e seis anos, mas sempre fui seduzido por aulas de português, por livros (que sempre gostei de sujar escrevendo imbecilidades nas margens), por línguas, até por fatores embaraçantes como a fama dos escritores, sempre gostei de escrever, sempre perdi tempo a escrever, sempre ganhei tempo a escrever, mal ou bem.

O que aconteceu, com o passar do tempo, é que desenvolvi uma espécie de músculo de atenção poética, que me predispôs a estar constantemente alerta para tudo o que possa fazer parte dessa minha aventura. E, como sempre acontece nestas coisas de comportamento humano, é muito difícil encontrar um indivíduo que seja absolutamente equilibrado nas suas aptidões, pois aquilo que nos chama (a vocação), fá-lo com poder obsessivo e egoísta: o músculo de atenção poética é tão feio, tão exagerado, tão ambicioso como aqueles músculos que fazem, do halterofilista, uma aberração. Só que todos somos aberrantes.

Especialmente porque essa chamada que um determinado tipo de fazer exerce sobre nós se vai lentamente configurando como um destino. Não quer isto dizer que quem queira ser poeta acabe poeta. Mas para que isso não suceda, tem de haver uma tragédia que mude o curso da paixão. Sempre tive pessoas que quiseram fazer de mim político ou médico (juro!), com a desculpa de que, sendo eu uma pessoa sem grandes inibições intelectuais, me deveria dedicar a uma atividade útil para a sociedade... Acontece que, se a minha atenção não for direcionada para esses campos, eu funcionarei como um absoluto idiota nos reinos da política ou da medicina. Há quem se traia a si mesmo, mas eu sobre isso nada sei. Sei, isso sim, que tenho o direito de seguir o fio de Ariadne da minha vocação, e que todo o homem tem a hipótese de chegar ao fim da vida com uma perfeição inconsútil ao nível desse fio.

A qualquer momento da vida, o talento pode emergir. Não interessa falar de dom, prodígio ou génio. Interessa escutar, o mundo, escutar-se a si mesmo, abrir o seu espírito (como Rimbaud falava a propósito dos comprachicos), abrir o seu corpo, a sua sexualidade, o seu apetite, o seu sofrimento, interessa seguir o instinto, aprender a estar atento.

Quanto ao trabalho, a sua quantidade, qualidade e teor dependem da atividade, da pessoa e do projeto que ele pretende servir. Não me venham dizer que um poeta que escreve um livro de cinquenta páginas precisa de passar tanto tempo a especificamente escrevinhar como um romancista filado na grandeza-tolstói... Isso é hipocrisia. Não me venham dizer que todos os poetas têm de rescrever até à exaustão, como o Carlos de Oliveira. No caso deste, isso teve todo o significado. Mas o que iria Benjamin Péret rescrever quando, passado algum tempo da criação de um poema, se esquecia por completo da lógica que o havia gerado? No meu caso, posso dizer que, em termos de poesia, o meu trabalho é sobretudo a leitura. Preciso de ler como o pianista precisa de praticar oito horas diárias no teclado. Mas não vou fingir que passo uma manhã a pôr uma vírgula, e uma tarde a tirá-la... (como dizia o Oscar Wilde, com piada). Já o trabalho que preside à produção de um filme se configura mais ao modelo de sangue, suor e lágrimas com que as pessoas enfeitam a sua nostalgia operária. Mas não haja ilusões: todo o trabalho de vigília efetuado pelo artista, duro ou leve, longo ou curto, mental ou físico, só serve para acionar o trabalho das suas verdades subterrâneas.

Era bom que começássemos a dizer a verdade sobre estas coisas...

Praxis (de toque)

Aprendi na escola (faço esta ressalva para deixar aqui a desconfiança que eu tenho de que muita gente brava já deve ter outra visão sobre o assunto), dizia eu então que aprendi na escola que a filosofia marxista se tinha declarado como um sistema de pensamento sobretudo prático, ou seja, o exercício de uma inteligência destinada a mudar a vida, a redimir o curso da História. Isto, em contraste com a putativa indigência meditativa dos pensadores que haviam feito, da filosofia, uma torre de marfim.

Talvez o pragmatismo deva ser sobretudo iluminado por um pensamento, não diria ad hoc, mas pelo menos um pensamento menor, diário, corrigível em tempo útil, localizado. Conheço tanta gente, boa gente, a tentar cumprir os preceitos de x ou y senhor que se dedicou à grande reflexão, gente a tentar devastar, sovieticamente, tudo o que germine de outra respiração ideológica, mesmo que esse outro produto se ofereça ao mundo com máximas generosidade e eficácia, gente que continua a receber ordens, a cumprir o papel de bom aluno tornando-se mau aluno porque o professor assim o preceituou... É claro que eu também escolhi o meu pensador: mas o Espinosa construiu um sistema de pensamento que precisamente abre os braços a outras formas de sistematizar o respirar. Em todo o caso, não juro por ninguém que não ame aqui, à beira-coração...

Volto ao cinema do John Ford, homem conservador, mas que na sua visão política descreve sociedades que tomam decisões coletivas eminentemente vitais: quem quiser participar da felicidade terá um lugar no mundo, quem já não o puder fazer tem o nobre direito de ficar para trás. Uma praxis do respeito absoluto pela vida, a despeito teimosias, irritações, nojos.

Penso que já disse neste blogue que me parece que a função do pensamento é provocar, no outro, o desejo de continuar a pensar. Mas, em boa verdade, devo fazer a defesa dos velhos meditadores. Se a filosofia sempre se quis confundir com a racionalidade, se sempre se quis apoiar na matemática, é porque pretendeu criar pedras duríssimas, preciosas, diamantes de radical intensidade humana que, uma vez alojados na alma do resistente, lhe permitem cruzar o mundo enlouquecido sem se perder nessa loucura e nas várias agressões que ela engendra. Não são valores, são raciocínios, gritos cristalizados, vértebras de sinceridade, são as coisas todas no seu sítio mesmo quando, no exterior, essa mise en scène só possa existir como utopia. É sabermos que, a despeito de toda a estupidez, de toda a violência, de toda a intolerância, a verdade que sabíamos na infância não é negociável.

Parece-me que é esta a função prática da filosofia. Pouco mais.

Excel Latte (homenagem a Vítor Gaspar)

Recentemente, na minha atividade como pianista acompanhador, trabalhei com uma aluna de teatro musical uma canção cuja letra evocava a paixoneta de uma jovem por um rapaz empregado num café Starbucks.

Eu também fui um pouco mais adolescente do que hoje sou, e compreendo a força da paixão que tudo oblitera com o seu espaço obsessivo. Não há cinismo que afete esse estado imperioso, e talvez fosse sempre assim que as coisas deveriam decorrer (who cares about boring stuff?).

Sou também devoto das manifestações de arte popular, não apenas pela função social que esta consegue cumprir, mas sobretudo porque muitas vezes ela fornece o contacto mais fundo e sincero com o inconsciente coletivo. Perdido em tradições eruditas, o grande autor pode por vezes não ser mais que o funcionário de uma vaidade estéril, algo que nunca acontece no conto de fadas, no canto greco-salentino ou na dança sufi.

No entanto, e a despeito de continuar a adorar adolescentes (confesso que mais à maneira do João César Monteiro), os meus quarenta anos de idade impedem-me de ver nessa canção outra coisa que não seja uma rapariga apaixonada por um rapaz que trabalha num franchise. Não mais encontro numa romaria, num café gorduroso, numa praia de suspensão, numa festa de garagem, não mais rapazes musculados pela cerveja e pelo disparate: o capitalismo até o pop juvenil destrói.


Nota: o Starbucks, em rigor, não é um franchise. Em todo o caso, seja qual for a sua definição económica, a merda é a mesma.

domingo, julho 07, 2013

Livrem-se de se esquecerem do sal

Já sei: se eu puder escolher a minha última refeição, quero que seja uma Margarita.

In arms

Um dos aspetos mais sedutores da arte de Sergei Paradjanov é a desnecessidade (o quase desprezo) que o cineasta tem da figura do contracampo (a partir de "A cor da romã"). Identifico-me muito com essa postura.

quinta-feira, junho 27, 2013

quarta-feira, junho 19, 2013

O meu contributo para a história da bissexualidade

Gosto do purismo linguístico, daquelas pessoas que nunca conjugarão o verbo "haver" quando ele não estiver a ser usado como auxiliar, e que nunca se esquecerão de unir a preposição "de" ao verbo "gostar".

Gosto também dos erros quotidianos da linguagem, da impureza das gírias e dos calões, dos colóquios juvenis, dos disparates de palmatória, de toda essa força vital que pega nos latins estafados e deles retira variações vulgares e sublimes.

Tanto o nobre como o rebelde podem ser sensuais. Depende de quem habita o hábito.


Homero

Há uns posts atrás, falei sobre o filme "Johnny Guitar" de Nicholas Ray. Considero-o um objeto notável, ainda que em seu torno não acalente a obsessão típica do cinéfilo. Os seus primeiros dois terços são do melhor que se fez no cinema americano clássico. No entanto, a última parte da obra sempre me pareceu maçuda, desajeitada (no mau sentido da palavra), como se Ray estivesse apenas a cumprir os encargos típicos do género a que se decidiu submeter, e neles não conseguisse fazer ecoar o seu poderoso talento lírico e dramático.

Ora, é precisamente o contrário disso que sinto no cinema de John Ford. Uma simples cavalgada filmada em travelling, e parece que o mundo mítico do western se nos oferece em toda a sua inteireza e quilate de sugestão. Podemos discordar da ideologia do realizador (afinal, ele acreditava na bondade de instituições como o exército), podemos ficar de pé atrás perante o género que o celebrizou (o western é pura propaganda americana, e a imagem que nele se costuma dar do povo índio é no mínimo insultuosa), mas a verdade é que o velho cineasta parece absolutamente fundido com esse género, nenhuma das suas regras lhe é extrínseca, nenhum dos seus recantos lhe é desconhecido, nenhuma das suas tonalidades consegue deixar de soar a verdadeiro. Como Schubert e o lied ou Duchamp e o ready made, John Ford não era um cineasta ou um autor, mas o único "fazedor de westerns" (era assim, de resto, que ele gostava de se apresentar).

Não é quando vejo Barack Obama a fazer stand up comedy (e que jeito para isso ele tem) que consigo acreditar um pouco nos E.U.A. A dignidade yankee existe sobretudo nas imagens deste contador antigo e frontal, para quem toda a cultura e produção humana só faziam sentido quando ao serviço do humano.

terça-feira, junho 18, 2013

Uma lágrima no canto do olho

As pessoas têm qualidades fantásticas: o sentido de humor, a combatividade, a alegria improvável contra todas as circunstâncias... Contudo, também as qualidades têm uma hierarquia, um fluxo de mobilidade social e um código de etiqueta. Assim sendo, não há quase quem queira prescindir da sensibilidade.

A sensibilidade é uma qualidade de alta categoria. Não pode portanto ser evocada durante o jogo de futebol exclusivamente masculino (sob pena de marginalização imediata do sensível). Não pode ser chamada na noite de copos, na despedida de solteiro, no círculo em que se masturba charutos. Exatamente como uma sociedade, a despeito das suas elites, não pode viver sem lixeiros, trolhas ou pescadores, nenhum humano pode prescindir das suas qualidades rasteiras (que não são as que enumerei no princípio deste post), e ai de quem delas prescinda, que acaba no psicólogo ou na prisão. Talvez elas até sejam mais importantes?

Há um lugar para tudo, diria a Paula Bobone. Há um tempo para ser sensível e um tempo para ser grosseiro, é preciso conhecer esses tempos e agir em conformidade. Penso que, patologias à parte, não haverá humanos desprovidos de qualquer sensibilidade (até os déspotas costumam gostar das suas amantes, dos seus filhos e dos seus gatinhos). Mas cada qualidade, seja fina-flor ou ralé, tem o seu próprio espaço de exibição, o seu ecossistema de vanglória.

Um dos sítios onde os portugueses podem cumprir a instituição da sensibilidade é o programa televisivo "Alta definição" onde até Pedro Santana Lopes (após ter repetido um inseguríssimo número de vezes a palavra "serenidade") verteu os seus quinze segundos de lágrima. Homem da noite, dos meandros do poder, do futebol e da intriga, mas com a inevitável costela sensível...

Eu presumo que tenho um síndroma qualquer que me impede de fazer aquilo que toda a gente faz (não estou a ser irónico). Em todo o caso, penso que se chama lucidez ao síndroma que me faz desconfiar que, se toda a gente chora num determinado programa televisivo, isso se deve: a) a um cenário todo descascadinho em cebolas, ou b) ao cumprimento de um ritual social. E mais lúcido penso ser quando suponho que a real sensibilidade dos entrevistados de Daniel Oliveira (e que pode ser imensa e muito maior do que a minha, e que obviamente não existe apenas no íntimo mas em interação com o mundo) não tem nada a ver com o controlado espetáculo que eles oferecem aos seus fieis espetadores. E que pena não insistirem mais no sentido de humor, na combatividade, na alegria...

Escrevo este post porque já pude presenciar pessoas mais ou menos próximas a comoverem-se com a comoção pouco definida do programa em causa. E se eu tenho necessidade de escrever semelhante evidência, não haverá muita gente com quem possa, neste mundo, manter entrevista.