quarta-feira, novembro 14, 2012

"Píramo e Tisbe"

"Píramo e Tisbe eram vizinhos em tudo menos na permissão de o serem em figurado. Para contornarem, fraco consolo!, a sensação de apartamento, falavam por um glory hole que havia numa parede comum às suas casas (naquele tempo, ainda não se tinha descoberto a função do buraco, sabia-se apenas que tinha as dimensões do prazer - como o prazer de falar em namorado).
Desejosos de fugirem juntos para longe dali poderem estar perto um do outro, combinaram uma amoreira como ponto de encontro e de partida: naquele tempo, essas árvores davam frutos brancos e a candura, quando silvestre, é sempre adequada a fugas de frugal motivação.
Como não havia montras em seu caminho exigente, Tisbe conseguiu chegar em primeiro lugar ao lugar de reunião. Uma leoa de telenovela que por ali andava, focinho manchado de sangue comme il faut, assustou a jovem que de imediato se afastou dali, não sem antes ter deixado o seu xalinho a jeito do bicho o manchar de comme il faut.
O resto é previsível: Píramo viu a prova irrefutável do que nunca aconteceu e suicidou-se com um canivete suiço (que, ao contrário do punhal, também dá para matar quando não há razão para tal); chegou Tisbe e, perante o cadáver irrefutável do amante, inferiu que a única maneira de tornar os frutos pretos seria matar-se a si mesma também. Desde então, o fruto da amoreira chama-se amora. Quanto aos autores do luto, foram enterrados no mesmo apartado."



Notas:

1. Com este buraquinho não se brinca em serviço. Num mito que descreve, mais do que uma paixão contrariada, a essência incomunicável de cada humano, o orifício vale pela brecha que a paixão parece abrir nessa condição, mas também pelo facto de que, mesmo na penetração sexual (o buraco é uma cona), o que passa de amante para amante são as palavras e não os corpos.

2. De resto, a estabilidade do conteúdo que une Píramo a Tisbe (a sua inequívoca paixão), ao não poder ser acompanhada por uma forma que a revele e a faça existir em exatidão (o matrimónio), só pode degenerar numa metamorfose monstruosa. Que cada um de nós imagine, para cada injustiça que o destino lhe amplificou, um morango azul, uma lua quadrada, um mar de fogo.

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