sábado, novembro 03, 2012

"Eco e Narciso"

Primeiro, foi a solidariedade feminina que tramou Eco. Quando Juno, mulher que ainda nada tinha lido sobre o poliamor, descobriu que ela a entretinha com conversas de gaja enquanto Júpiter, seu marido, dava largas à mania das ninfas, Eco foi condenada a só saber repetir o fim das frases dos outros.
Depois veio o amor por Narciso ("siso, siso, siso - toda a palavra muitas vezes repetida perde o seu sentido!"). Rapaz na flor da idade, tinha o mau hábito de dar tampa a fosse quem fosse que o quisesse polinizar. Despeitada até ao desespero, Eco recolheu-se a uma gruta acusticamente bem construída (o que é raro) e ficou reduzida à sua voz.
Mas para Narciso, a vida não seria muito melhor. Amaldiçoado por alguém que também tinha ficado a chuchar no dedo (diria a Agatha Christie, num livro sobre o oriente, que foi toda a gente), foi ao ver-se refletido pela primeira vez numa poça de água cristalina que Narciso finalmente desencalhou. Convenhamos que é complicado fazer amor com a imagem de si mesmo: o espelho é um preservativo que só sabe preservar a distância. E foi assim que Narciso se transformou na flor que hoje se compra e vende em dias de finados ou de outra coisa qualquer.


Notas:

1. Eis o que os antigos pensavam sobre a mulher: ela era apenas o final do homem. Entre costela e eco, venham as Pussy Riot e escolham...

2. Talvez o Sócrates, esse que estudou filosofia, não ficasse contente com a ideia de que um efetivo conhecimento de si próprio (e da merda que cada um é capaz de fazer) só poderia levar à loucura e a um definhamento fatal.

3. Em todo o caso, o feminismo está aqui previsto: o reflexo é uma espécie de vingança do eco, uma sua variação degenerada, mais próxima do onanismo que do desejo de durar. Narciso, exportador de solidões, aprende que ninguém se basta a si mesmo: ensinamento que as mulheres costumam trazer no cabelo e os homens na lapela.

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