quarta-feira, outubro 17, 2012

O INATUAL 76

"Ma's sin" - Saguenail (1996)


Entre os corpos dos atores a partir dos quais uma câmara faz personagens e as mentes daqueles espetadores que no corpo recebem um filme acabado há um diferimento fatal que de certo modo distingue a sétima arte das suas congéneres performativas. Se, no teatro, o problema da sucessão se encontra assim mitigado, o cinema pressupõe sempre que a identificação entre a sua matéria humana e o recetor dos seus produtos seja um fenómeno de diacronia.

Ora, como Hitchcock tão bem percebeu no seu “Rebecca”, nada é menos pacífico do que ocupar o espaço mental que uma determinada encenação tornou mítico. Se até as mais conceituadas publicações de imprensa avaliam o efeito de um filme sobre os seus destinatários segundo o indicador higiénico do box office, “Ma’s sin” tenta chegar muito mais perto na sua análise, ao figurar essa relação sucessória em torno da inquietação semântica do crime passional. O espelho que o seu ecrã metaforiza fica por isso mais próximo daquele que Branca de Neve consultava, ou das deformações que as feiras populares oferecem ao riso dos seus visitantes, do que daquelas superfícies especulares que nos mentem quando debitam a verdade de que já estávamos à espera.

Saguenail opera uma cisão nas duas dimensões do cinema, dando ao som o que é de Cesar e à imagem o que é de Deus, ou seja, tornando-nos cegos para a convenção e visionários do como-ver. Porque o som é, historicamente, um sucessor perante a imagem? A hipótese inversa seria, em todo o caso, algo inverosímil no que toca à experiência do espetador numa sala de projeção.

A espetadora (a verdadeira star de “Ma’s sin”) vive o filme que só a ela se apresenta. E viver é toda esta paixão que aqui se projeta: desejo, frustração, medo, memória, cansaço, rebaixamento, revolta, culpabilidade, mortes efémeras. Mais do que fazer sonhar, o cinema é uma ameaça à estabilidade psicológica do espetador. Quando as luzes se acendem, este parece, contudo, ter ganho mais mundo e estar mais apetrechado para uma experiência de sociabilidade: o que interessa não é a sentença sempre errada dos tribunais do poder, mas a relação sempre experimental que se pode estabelecer entre o gato e rato.

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