sábado, outubro 27, 2012

fragmentos de auto-retracto (outubro)

... a circunstância de eu ter modos de gajo certinho não significa que o meu pensamento não seja livre, incerto.

... toda a gente sabe que o músculo é feminino e a graciosidade masculina.

... desde sempre, aquilo que sempre me interessou foi o trabalho da imaginação; tal não foi entendido por ninguém (pais, professores, amigos), o que levou a equívocos tremendos na minha orientação vocacional; os destinos de jurista, político ou virtuoso do piano, que sempre alguém desejou em meu nome, são destinos sem destinatário.

... sou um gajo algo tristonho; o mundo disse-me que, fosse qual fosse o meu argumento, o mundo não se (de)moveria; depois dessa tragédia filosófica, será difícil alguma vez deixar de ser tal gajo.

... tenho recentemente notado uma característica sinistra no meu caráter: quando uma pessoa comete uma injustiça brutal contra mim, o fascínio que ela continua a me provocar (ou porque gostaria de dormir com ela, ou de a filmar, ou de passar horas a ouvi-la, ou porque o seu espírito me deixa romanescamente deliciado), esse fascínio impede que eu mantenha uma distância orgulhosa e inflexível; posso por isso vir a tornar-me um verdadeiro bombo da festa, ser um velho e apalhaçado professor perante anjos azuis...

... dizem-me que se pode sofrer imenso quando ninguém se interessa pelo nosso filme pouco-comerciável; mas nem consigo conceber o sofrimento que resultaria de ter todo o mundo interessado por um filme em que nós não nos pudéssemos reconhecer.

... gostar, gostar, era de ir ao Salar de Uyuni.

...

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