sábado, outubro 27, 2012

fragmentos de auto-retracto (outubro)

... a circunstância de eu ter modos de gajo certinho não significa que o meu pensamento não seja livre, incerto.

... toda a gente sabe que o músculo é feminino e a graciosidade masculina.

... desde sempre, aquilo que sempre me interessou foi o trabalho da imaginação; tal não foi entendido por ninguém (pais, professores, amigos), o que levou a equívocos tremendos na minha orientação vocacional; os destinos de jurista, político ou virtuoso do piano, que sempre alguém desejou em meu nome, são destinos sem destinatário.

... sou um gajo algo tristonho; o mundo disse-me que, fosse qual fosse o meu argumento, o mundo não se (de)moveria; depois dessa tragédia filosófica, será difícil alguma vez deixar de ser tal gajo.

... tenho recentemente notado uma característica sinistra no meu caráter: quando uma pessoa comete uma injustiça brutal contra mim, o fascínio que ela continua a me provocar (ou porque gostaria de dormir com ela, ou de a filmar, ou de passar horas a ouvi-la, ou porque o seu espírito me deixa romanescamente deliciado), esse fascínio impede que eu mantenha uma distância orgulhosa e inflexível; posso por isso vir a tornar-me um verdadeiro bombo da festa, ser um velho e apalhaçado professor perante anjos azuis...

... dizem-me que se pode sofrer imenso quando ninguém se interessa pelo nosso filme pouco-comerciável; mas nem consigo conceber o sofrimento que resultaria de ter todo o mundo interessado por um filme em que nós não nos pudéssemos reconhecer.

... gostar, gostar, era de ir ao Salar de Uyuni.

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quarta-feira, outubro 17, 2012

"Ma's sin" - imagem


O INATUAL 76

"Ma's sin" - Saguenail (1996)


Entre os corpos dos atores a partir dos quais uma câmara faz personagens e as mentes daqueles espetadores que no corpo recebem um filme acabado há um diferimento fatal que de certo modo distingue a sétima arte das suas congéneres performativas. Se, no teatro, o problema da sucessão se encontra assim mitigado, o cinema pressupõe sempre que a identificação entre a sua matéria humana e o recetor dos seus produtos seja um fenómeno de diacronia.

Ora, como Hitchcock tão bem percebeu no seu “Rebecca”, nada é menos pacífico do que ocupar o espaço mental que uma determinada encenação tornou mítico. Se até as mais conceituadas publicações de imprensa avaliam o efeito de um filme sobre os seus destinatários segundo o indicador higiénico do box office, “Ma’s sin” tenta chegar muito mais perto na sua análise, ao figurar essa relação sucessória em torno da inquietação semântica do crime passional. O espelho que o seu ecrã metaforiza fica por isso mais próximo daquele que Branca de Neve consultava, ou das deformações que as feiras populares oferecem ao riso dos seus visitantes, do que daquelas superfícies especulares que nos mentem quando debitam a verdade de que já estávamos à espera.

Saguenail opera uma cisão nas duas dimensões do cinema, dando ao som o que é de Cesar e à imagem o que é de Deus, ou seja, tornando-nos cegos para a convenção e visionários do como-ver. Porque o som é, historicamente, um sucessor perante a imagem? A hipótese inversa seria, em todo o caso, algo inverosímil no que toca à experiência do espetador numa sala de projeção.

A espetadora (a verdadeira star de “Ma’s sin”) vive o filme que só a ela se apresenta. E viver é toda esta paixão que aqui se projeta: desejo, frustração, medo, memória, cansaço, rebaixamento, revolta, culpabilidade, mortes efémeras. Mais do que fazer sonhar, o cinema é uma ameaça à estabilidade psicológica do espetador. Quando as luzes se acendem, este parece, contudo, ter ganho mais mundo e estar mais apetrechado para uma experiência de sociabilidade: o que interessa não é a sentença sempre errada dos tribunais do poder, mas a relação sempre experimental que se pode estabelecer entre o gato e rato.

domingo, outubro 14, 2012

"Atalanta e Hipómenes"

Atalanta tinha duas qualidades notórias: uma beleza estonteante e uma velocidade jamaicana na prática da corrida. Não pretendia casar, mas não lhe faltavam moços com a pretensão contrária a si dirigida. Tinha por isso instituído um exercício muito típico das raparigas dos mitos: quem a vencesse numa corrida teria direito à sua mão, quem fosse por ela vencido estava condenado à pena capital. Ninguém, claro está, lhe levava a melhor. Hipómenes, bisneto do mar, apesar de consciente dos perigos em que se estava a meter (falamos da corrida, claro), pediu ajuda a Vénus para vencer, por doping feérico, a resistência olímpica de Atalanta. Os deuses ajudam a quem se ajuda, e a verdade é que a moça já estava algo hesitante quando deu de caras com o diferente pretendente. Mas Vénus lá deu três maçãs de ouro a Hipómenes que, durante a célebre corrida nupcial, as foi atirando, uma de cada vez, para o chão, o que forçou Atalanta a uma curiosidade que a fez atrasar-se, perder a corrida e ganhar uma aliança comprada na Tiffany's.


Notas:
1. A beleza é uma forma de velocidade que, se não for limitada/atrasada, pode ser letal (Marlene). O letal é figurado, claro, mas entende-se.

2. Só se consegue mergulhar a fundo na herança matrimonial, se a questão se colocar sem papas na lei: o casamento ou a vida?

3. Uma mulher pouco disponível para o sentimental pode acabar por ser vencida pela perspetiva dos frutos, ou seja, dos filhos. Aliás, o atraso nos ciclos femininos é geralmente sinónimo de gravidez.


Notinha:
a. É possível que esta décalage de velocidades seja um espelho invertido das dificuldades de timing do coito heterossexual.

Uma nota sobre antropologia

Estando perfeitamente consciente da patologia cancerígena que invadiu a cultura dos povos ditos primitivos após a sua invasão pelos colonizadores ocidentais (nem peixe nem carne, exílio na lota e no matadouro) e das múltiplas formas de violência a que eles foram submetidos até serem vias rápidas para uma provável extinção, o encontro com as narrativas antropológicas e com uma obra como a de Jean Rouch (na imagem, um fotograma do filme "La chasse au lion à l'arc"), tem me feito entender essa História outra, perdida no tempo (ainda que recente) e no mar das possibilidades, como um planeta feérico que me parece estranhamente equivalente daquele que me chega por via de fábulas, lendas e mitos. Embora factuais e documentados, esses outros modos de viver, quando ainda tinham a integridade de modos de viver, oferecem-me um maravilhoso político e moral que se pode traduzir pela fórmula iniciática: "era e poderá ser uma vez"...

quinta-feira, outubro 11, 2012

Partilha 143

(scarface)


Dado o teor da minha relação com a camélia, decidi colher as outras flores em despedida de solteiro. Poderia ter pousado cinco euros no soutien de cada estigma )(, mas preferi dar nomes de nós a essas espécies de efemeridade. À garança chamar cadeirinha de bombeiro, não pelo recamo sedentário mas por aflição do vermelho. O talictro, doravante volta de fiador, ficar seguro por um fio de mero cálice. Nó de trança ser sinónimo de capuchinha.
Quanto ao rasto, se as cordas elétricas com que a camélia se moldou poderiam fazer soar um alarme ininterrupto, a verdade é que a natureza está submetida a uma lei de "don't ask! don't tell!". Mas eu não. Nesse teu rosto doravante postulado pela memória de esplendores na relva, eu canto a liberdade de gravata, a liberdade cega, orográfica, árvore que agora sou para atrasar a tua queda.

Variação menor do "Paradoxo do mentiroso"

"O que estou a dizer não é aquilo que pretendo dizer."

sábado, outubro 06, 2012

Uma nota sobre o presente

Ouvimos os dirigentes de Portugal defenderem que as decisões que vão tomando nas costas largas da crise não poderiam ser outras decisões. Convém contudo sublinhar que essa fatalidade não resulta de nenhuma virtude das estruturas que organizam a civilização presente, mas da chantagem que um determinado estado das coisas provoca. E se esta verdade é la palisse, ela parece não estar presente nem nas mentes dos carrascos económicos (Passos Coelho e Vítor Gaspar terão com toda a certeza fantasias de submissão masoquista, mas eu, enquanto cidadão de um estado moderno, não tenho de aturar as taras eróticas dos meus governantes) nem nas daqueles que exigem um outro rumo político para o país (já que aparentemente pressupõem que, com os mesmos ingredientes civilizacionais, se pode fazer uma receita de sabor totalmente diverso).

É, de facto, uma questão de chantagem histórica. Um pouco como no estranho caso do Estado Social: dizem-nos que não há dinheiro para o sustentar, mas o que nos estão na verdade a dizer é que, entre a invenção chamada “dinheiro” e a invenção chamada “Estado Social”, querem optar pela primeira. Ora, eu por acaso discordo. Dizem-nos também que o capitalismo é o único sistema eficaz, e eu respondo que sim, é como o cancro, é sempre mais fácil fazer merda. É fácil fazer funcionar uma sociedade na qual um conforto de uns é assegurado pelo sofrimento de outros (por vezes extremos, os dois opostos).

Ao contrário do que pensam certos próximos e distantes, eu não tenho qualquer sedução pelo comunismo. Acho tudo isto demasiado complicado, dever-se-ia regressar a uma introdução à Economia e verificar, sem dogmas nem vícios, para que é que ela serve: para gerir a escassez em defesa do bem-estar humano? Então pensemos a forma mais simples e elegante de o fazer.

Em todo o caso, não vale a pena pensar em utopias, nem que sejam utopias da simplicidade e da evidência. Os milhares de manifestantes de 15 de setembro, com cujo desespero sou absolutamente solidário, são na sua maioria praticantes de uma filha-da-putice relacional e profissional no seu quotidiano que impediria fosse qual fosse o sistema de organização político-económica de funcionar em plenitude. E o Tólstoi, que era um escritor francamente chatinho, tinha razão ao minorar o papel dos grandes homens e das revoluções no fazer da História: tudo acontece por um sem-fim de circunstâncias que mais ou menos por acaso se conjugam numa determinada época, sendo o destino uma lenta diplomacia de Parcas de bastidores que movem os homens um centímetro mais para aqui ou mais para acoli.

Já ouvi alguém dizer que o restabelecer da idoneidade das contas públicas era uma maratona e não um sprint, e acho que quem o disse até tinha três iniciais apenas. E talvez seja isso que é preciso fazer. Aproveito contudo para dizer que, sendo eu filho da dúvida cartesiana e tendo experimentado o fim das certezas como um copo cheio de possibilidades, não estou disponível para mudar as moscas. Sobreviverei, como os outros.

"Les maîtres fous" - imagem


O INATUAL 75

“Les maîtres fous” – Jean Rouch (1955)

Há cada vez menos marcianos na Terra. O que é uma pena, pois o encontro com um radicalmente-outro pode ser uma nascente de descoberta tão prenhe que chega a dar origem a todo um curso de pensamento novo. A antropologia, ciência de vocação ética, resultou da mudança de ponto de vista do colonizador, ao ter percebido que os marcianos com quem se defrontara eram afinal tão humanos quanto ele próprio, e que era então preciso averiguar se havia ainda sinais de verdadeira vida na cultura do planeta.

Num momento relativamente precoce da sua obra, Jean Rouch filmou um estranho ritual de possessão levado a cabo por uma seita religiosa da cidade de Accra (na República do Gana), no qual os negros expiavam as suas putativas faltas morais através da encarnação temporária de divindades identificadas com as figuras dos brancos munidos de poder. O filme é célebre pelo mal-estar que costuma provocar quando é projetado, condição que se repetiu quando o revi recentemente no Teatro do Campo Alegre.

Toda a prática religiosa pressupõe a obediência a uma divindade. A mestria da seita dos Hauka reside na sua compreensão intuitiva da decadência contemporânea do sagrado e da agressividade inaudita do colonialismo e na fusão consequente que estabeleceram entre a figura da divindade e a figura do colonizador. Ao filmar o chocante ritual, Rouch consegue produzir, ao mesmo tempo, uma explicação da política (para que a obediência a um poder seja aceite, é preciso primeiro aceitar uma diferença de estatuto de transcendência entre quem manda e quem é mandado) e uma imagem da religião (por mais que césar e deus fiquem com aquilo que tautologicamente lhes pertence, sempre o culto organizado funciona como um exercício de gestão do poder).

Quem é mestre é sempre louco? Ou só tem mestria quem aprende a dominar a loucura, quem se torna mestre de si mesmo até poder obedecer a um mestre exterior a si? À normalidade dos Hauka (que não têm ilusões quanto à natureza selvagem do poder, desse poder que exige sempre o sacrifício do súbdito, como acontece ao cão durante o ritual) corresponde a loucura do espetador europeu, incapaz de olhar o primitivo olhos nos olhos porque não sabe fazer uma leitura antropológica da sua própria cultura. E se aprendêssemos a ver a ascensão social como uma forma de possessão?