sábado, setembro 29, 2012

Ainda no mesmo sítio...

... publiquei sete traduções de poemas de Rimbaud, entre os quais o célebre "Ce qu'on dit au Poète à propos de fleurs", de que não conheço nenhuma versão disponível em português de Portugal: aqui.

sábado, setembro 15, 2012

Bio-manifestação

Após o já famoso passo do coelho em direção à tsu, ouvi alguém dizer que, por entre as reações a quente às declarações primeiro-ministeriais, se estavam a escutar enormidades em termos de ciência económica.

Não tenho conhecimentos técnicos de economia (aliás, é provavelmente o único assunto humano que me dá vómitos mal o começo a abordar), mas sei que, nas chamadas ciências exatas, a eventual correção das suas teorias e dos seus procedimentos não está divorciada da ética (os conservadores costumam aliás ficar histéricos com estas questões). Não me parece que a economia possa ter diferente ambição, e por isso, a virtude técnica da sua prática não pode ser separada de uma hipotética configuração desta enquanto crime.

quarta-feira, setembro 12, 2012

Dicionário 19

Uma "democracia" é um sistema de organização política através do qual é atribuído poder às maiorias de modo a que estas possam proteger as minorias.

domingo, setembro 09, 2012

Cadernos rimbaldianos 10

Embora Rimbaud e a sua poética algo vulcânica não sejam modelos do típico criador de poesia contemporâneo, a verdade é que a sua obra foi no passado objeto de uma receção apaixonada e apaixonante, que a colocaram a jeito do mito. Os seus textos costumam provocar fascínios sinceros, mas não deixa de ser irónico o facto de que muitos dos incensadores da lírica rimbaldiana não tinham meios de conhecimento suficientes para poderem decifrar esse corpo textual. Ninguém nega a imaginação incomensurável do prodígio, e muito menos se supõe que poemas com tão grande carga de ambiguidade sejam decifráveis à maneira das palavras cruzadas. No entanto, a lenta investigação académica tem vindo a encontrar dados contextuais que revelam que muitas das aparentes bizarrias fantasiosas de Rimbaud eram na verdade referências inequívocas a entidades e acontecimentos concretos da sua (e não só da sua) época. Tal investigação tem se mostrado muito mais ágil na primeira parte da obra, mas ninguém nos diz que um dia não cheguemos à conclusão de que a madame *** era, afinal, uma prostituta de Charleville... Em todo o caso, se o disparate hermenêutico pode atingir o píncaro de Paul Claudel, que via em Rimbaud um místico, ainda que selvagem (se bem que, neste caso, ninguém pode estar seguro da boa fé do intérprete preconceituoso), o texto produzido pelo adolescente aparece sempre como uma armadilha que seduz aqueles que defendem que o poema deve ser lido como uma música é ouvida (ou seja, em plena anarquia semântica).

Vejamos o seguinte passo do poema "O que a gente diz ao Poeta a propósito de flores":

"Ó branco Caçador sem meias,
Correndo na Pastagem pânica,
Não te passa pelas ideias
Saber melhor a tua botânica?

A Cantárida ao Grilo ruivo
Temo que suceder farias,
O Rio de ouro ao Reno azul,
Ou às Noruegas as Floridas:"
(tradução pessoal)

Jacques Gengoux informou o leitor deste texto que os dois insetos referidos na segunda estrofe citada eram matéria-prima de afrodisíacos, sendo que o grilo produziria um efeito suave, enquanto que o célebre pó de cantárida tinha repercussões violentas (esse pó era usado há séculos, resultando o seu efeito de aparente excitação erótica do facto de ele provocar uma inflamação urinária).

Ora, sendo este um texto que parodia a célebre associação da mulher à flor, torna-se evidente que o jovem autor está a criticar a inexperiência sexual dos poetas que falam do Amor como se este não fosse uma atividade com implicações escatológicas. Não se trata de saber se Rimbaud estava na posse da razão erótica (se as mulheres preferem que primeiro se foda à bruta e só depois com mansidão), mas de perceber que a menção do nome das duas espécies de insetos não é um delírio de alucinado verbal, mas uma estratégia de sentido perfeitamente controlada.

Ainda por cima, ao expandir a citação por via metafórica, ou seja, ao mostrar que o (mau) Poeta manifestará sempre preferência pela amenidade europeia (o Reno, a Noruega) em detrimento da excitação torrencial do Novo Mundo (um Rio qualquer da América do Sul, a Florida), ele acumula, ao subtexto sexual, diversos outros níveis de leitura: estético (a defesa de um determinado tipo de poética, radicalmente diferente da impassibilidade parnasiana), político (a crítica ao colonialismo, ainda que esse não fosse um tópico tão sofisticado como hoje o podemos conceber) e filosófico (a oposição ao conservadorismo epistemológico). Esta junção dos vários níveis da atividade humana no mesmo nó górdio de uma formulação é o garante da sinceridade visceral de Rimbaud e da ausência de limites do seu projeto de espírito.

sábado, setembro 08, 2012

Notas

No sítio "Orfeu de corpo inteiro", estão transcritas algumas das notas que acompanharam o argumento do meu projeto de curta-metragem cinematográfica "Checkpoint Sunset", que está neste momento em fase de pós-produção: aqui.

quarta-feira, setembro 05, 2012

Poesia e religião

1. A oração é um departamento desesperado da Poesia, aquele que, reconhecendo na Palavra um princípio de ação, quer agir na parte do real onde nenhum humano pode agir.

2. A poética é uma religião laica e privada, através da qual cada autor se entrega à devoção dos seus templos, lugares e objetos sagrados (tabernas, rapazes, o mar, a máquina, whatever). Sagrado no sentido, contudo, oposto ao que a religião lhe atribui: não é sagrado o que não se pode tocar, mas aquilo de cujo toque se espera alguma forma de plenitude. Talvez por isso eu não consiga apreciar Walt Whitman: ele espera tudo de todos os seres.