segunda-feira, agosto 27, 2012

Vistos, revistos - anotações

"Breakfast at Tiffany's" - Célebre comédia de Blake Edwards, o filme é todo uma derivação do encanto de Audrey Hepburn (por quem se poderia hoje fazer um filme destes? A ausência de resposta deve ser atribuída mais ao olhar dos realizadores do que ao material humano que sempre existe e resiste). Há um aspeto muito curioso no argumento: esta é a história de amor entre um homem e uma mulher (ambos) da vida, sem que essa condição amoral pareça ter qualquer conotação de pecado ou de tragédia. Talvez isso venha do romance de Truman Capote (nunca li o livro, mas já li acusações de que o filme é uma versão demasiado cor-de-rosa do seu enredo). Há ainda o namorar pelas ruas de Nova Iorque (e com que elegância o cinema sabe registar o namoro), as festas fellinianas, a cena na Tiffany's, quase a fazer, do capitalismo, um poema, e o "beijo à chuva com gato ao centro" (ver imagem do lado). Diria apenas que o derrotar da resistência sentimental de Miss Hepburn, feito por via de um vulgar discurso de programa de tarde televisiva, impede que o clímax da obra o seja deveras.


"Everyone says I love you" -Há quem acuse Woody Allen de ser algo misógino, ou de, pelo menos, não ter grande respeito pelo intelecto feminino. No entanto, sempre me pareceu que alguns dos filmes mais conseguidos do novaiorquino (e nem sempre ele os consegue) são aqueles em que ele dá tempo de antena ao delicado bovarysmo que pode ser encontrado em algumas mulheres. "Everyone says I love you" é um musical com intenções de renovação do género (cantores recrutados entre personagens que não costumam passar nos castings desse tipo de comédias, atores sem dotes vocais a arriscarem cantar, uma coreografia de fantasmas), no qual se analisa a fragilidade da fantasia romântica. A lindíssima cena que encerra o filme, a partir do absurdo físico que ousa encenar, pretende precisamente defender que a verdadeira fantasia do nosso imaginário sentimental é a possibilidade de constituir, manter e defender uma relação amorosa única e estável ao longo de toda a vida. Nesse sentido, a cena é uma espécie de lamento de Woody Allen pela sua própria (e mais do que conhecida) inconstância afetiva.


"L'enfant sauvage" - Não conhecia este filme de Truffaut e devo dizer que fiquei bastante desiludido. Pegar neste material histórico (uma criança de onze anos encontrada na floresta sem ter tido qualquer contacto com a civilização) e não o usar para pelo menos discutir a bondade dessa civilização (independentemente das conclusões a que se pretendesse chegar) é uma oportunidade francamente esbanjada. Mesmo que o filme seja uma alegoria da relação Truffaut-Léaud (realizador e ator algo marginal que ele apadrinhou e conduziu), a sua neutralidade perante o gesto de instrução garante-me menos espírito impassível do que cobardia filosófica. Dentro do género "grande reacionário", parece-me que esta seria uma matéria mais adequada ao genial Elia Kazan. E, já que estamos a falar de comédias, dentro do género "educação para promover ascensão no universo humano", prefiro de longe o "My fair lady".

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