sábado, agosto 11, 2012

Partilha 141

(afrodizer)


Sempre que o pássaro, rigoroso, levanta voo, as criaturinhas que nele levantam não têm vista menos privilegiada do que as monjas de um mosteiro antigo e perdido nos Himalaias. Pode ser que o vento cate as criaturas e as suspenda em pequenas eternidades. Em todo o caso, quando o pássaro regressa ao estar plano, não há mais nada em que se possa acreditar.
Cada pássaro, uma religião. Basta pensar na alvéloa-citrina: limão transubstanciado, os dogmas do lodaçal e do salgueiro, uma oração chamada tsriip. Basta pensar na felosinha-triste, no milagre de ela ser um acidente no ocidente da velha Europa. Diz-se que não se deve falar de pássaros e de flores, mas eu nunca digo não às coisas que me enchem da vontade de foder.

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