quarta-feira, agosto 29, 2012

O INATUAL 74

"L'albero degli zoccoli" - Ermanno Olmi (1978)


Uma das apostas mais rigorosas deste filme é a crença do realizador na capacidade que os camponeses da época da sua rodagem teriam para representar, sem os artifícios associados à representação, os camponeses do século XIX. Hoje, isso só poderia ser feito com as gerações mais velhas. Mas, nos anos setenta, talvez ainda não se tivesse quebrado de forma absoluta a linha antiquíssima de uma determinada cultura rural, e esse reduto conservado nos gestos, nos olhares, nas vozes, nos comportamentos, talvez tenha permitido que a câmara do século XX tivesse conseguido filmar corpos oitocentistas com um realismo, digamos, antropológico.

Outra aposta ganha, usual em Olmi, é a celebração discreta das possibilidades de prazer. O documento sobre a dureza da vida campesina do passado está pejado de crianças, e não nega às suas personagens adultas a evidência das paixões lúdicas (canções, narrativas, divertimentos de feira, etc.). Já em "Lunga vita alla signora!", por exemplo, o esforço do protagonista se concentrava na possibilidade de fazer brincar uma rapariga associada à imagem de um anjo. O Deus de Olmi não é sisudo, nem sequer moralista: se o filme é uma celebração dos prazeres possíveis na vida de aldeia, não é menor defesa da necessidade da pequena desonestidade como instrumento de sobrevivência. O que evoca o belíssimo "La leggenda del santo bevitori", no qual o protagonista tinha de cumprir uma terrível penitência de bebedeira e de sexo.

Sim, o humor é uma arma de resistência e de fé, no caso deste autor. "A árvore dos tamancos" parece aludir a uma espécie de fantasia infantil (como a árvore do pão de que falava André Breton). No entanto, o milagre literal que acontece à viúva desesperada prestes a ficar sem a vaca essencial à sobrevivência dos seus filhos, e os milagres metafóricos que resultam do engenho humano (a esperteza de cultivar tomates segundo um processo que permita a sua colheita antes de todos os outros camponeses) ou dos acasos irónicos da vida (o bebé que surge no dia que imediatamente se segue à noite de núpcias do jovem casal), essa graça não funciona quando se trata de evitar a punição de um pobre diabo que cortou uma árvore que era propriedade privada do senhor da terra, só para poder fazer um tamanco que permitisse ao seu filho caminhar seis quilómetros até à escola. Aparentemente, Deus é capaz de vencer tudo menos as regras do capitalismo.

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