quinta-feira, agosto 23, 2012

Invalidade por precaução

A lógica é um ramo do saber que pretende definir as condições formais que asseguram a validade dos raciocínios (das inferências). Não interessa à lógica o conteúdo dessas inferências, mas a maneira como as suas premissas e respetivas conclusões se relacionam entre si. Grosso modo, é uma tentativa de matematizar a reflexão verbal, com o propósito de lhe garantir um rigor que ultrapasse as impressões enganosas da lógica espontânea.

A chamada validade dedutiva verifica-se quando não há nenhuma situação na qual, sendo as premissas verdadeiras, a conclusão não tenha também de o ser. Um exemplo (de Graham Priest, como todos os exemplos que se seguirão): "Se o ladrão tivesse entrado pela janela da cozinha, haveria pegadas no exterior; não há pegadas no exterior; logo, o ladrão não entrou pela cozinha."

Já a validade indutiva surge quando as premissas dão boas razões para a conclusão, mas não são completamente conclusivas. É, na verdade, o território do Sherlock Holmes (mas também o do médico ou o do mecânico de automóveis: já temos o Dr. House...). Exemplo: "Jones tem os dedos manchados de nicotina; logo, Jones é fumador" (na verdade, Jones podia ter os dedos manchados de nicotina por uma outra razão).

Até aqui, tudo pacífico. Mas Graham Priest dá um outro exemplo de validade indutiva que me incomodou profundamente. É o seguinte: "José é espanhol; a maioria dos espanhóis são católicos; logo, José é católico." Na verdade, as premissas dão boas razões para a conclusão, ainda que não a possam assegurar de modo irrefutável.

Estou a começar a minha relação com a lógica (para compreender melhor a filosofia da linguagem), mas vejo que há neste exemplo uma arrogância que se me afigura obscena. Chamar válido (ainda que essa seja uma validade mitigada) a um raciocínio deste género, que de certo modo estabelece um preconceito, parece ser uma daquelas modalidades de absurdo que faz com que algumas pessoas relacionem racionalidade com fascismo.

Não só me parece que não se pode averiguar a validade das inferências sem auscultar o contributo específico trazido pela dimensão verbal, como talvez valha a pena, em certos casos, substituir a validade por indução por uma espécie de invalidade por precaução. É uma questão de cidadania.

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